Goblin Slayer - Volume 1 – Capítulo 10
Entorpecido pelo Sono
Mesmo agora, ele ainda se lembrava de uma vez em que sua irmã mais velha o havia repreendido duramente.
Foi quando ele fez aquela garota, sua amiga de infância, chorar.
Por quê?
Ah… Sim. Porque ela ia viajar para a cidade. Ia passar um tempo em uma fazenda.
Ela falava disso sem parar. Contava tudo, cheia de entusiasmo. E ele… ficou com inveja. Não conseguiu evitar.
Ele não sabia nada sobre o mundo além da aldeia. Não conhecia sequer o nome das montanhas ao longe, muito menos o que existia além delas.
Sabia que, seguindo a estrada por tempo suficiente, chegaria a uma cidade — mas o que isso realmente significava, que tipo de lugar era esse… ele não fazia ideia.
Quando era mais novo, acreditava que se tornaria um aventureiro.
Deixaria a aldeia, talvez derrotasse um ou dois dragões, e então retornaria como um herói — um aventureiro de rank Platina.
Claro… com o passar dos anos, percebeu que aquilo era impossível.
Não — não impossível.
Mas, para isso, teria que deixar sua irmã. A irmã que o criou depois que seus pais morreram.
Ele poderia ter se tornado um aventureiro.
Mas escolheu não seguir esse caminho.
E foi por isso que ficou irritado com sua amiga.
Enquanto sua irmã o puxava pela mão de volta para casa, ela o repreendia:
“Quando você fica bravo com alguém, vira um goblin!” e “Você deveria proteger as garotas!”
Sua irmã era sábia.
Não era exatamente alguém cheia de conhecimentos eruditos, mas tinha uma mente afiada — talvez a mais perspicaz de toda a aldeia.
Tanto que ganhava seu sustento ensinando as crianças a ler e escrever.
As crianças eram necessárias nas plantações das famílias, mas saber ler e escrever também era importante.
Em tudo, ela tentava ensinar ao irmão mais novo o valor de pensar por si mesmo.
“Se você continuar pensando,” ela dizia, “uma hora vai encontrar uma resposta.”
Talvez sua irmã tivesse sonhado em ir para a cidade estudar.
Mas ela permaneceu na aldeia… por causa dele.
E ele faria o mesmo. Por causa dela.
Para ele, isso era simplesmente o natural.
Quando chegaram em casa, sua irmã preparou um ensopado de leite com carne de frango.
Ele adorava aquele ensopado.
Pedia uma segunda tigela. Depois uma terceira…
Mas agora… já não conseguia mais se lembrar do gosto.
Provavelmente porque aquela foi a última vez que o provou, antes de tudo acontecer…
Ele abriu os olhos lentamente.
Ergueu-se do tatame de junco e olhou para o teto familiar acima de si.
Seu corpo ainda doía.
Esticou os membros com cuidado, aos poucos, e então, com calma, pegou suas roupas.
Uma camisa simples de cânhamo.
Desbotada de tantas lavagens, com um leve cheiro de sabão.
Protegia-o do sol.
E escondia as cicatrizes espalhadas por todo o seu corpo.
Vestiu a camisa comum, depois o gambeson de algodão.
Foi pegar o elmo de aço e a armadura… mas então lembrou que os havia deixado para reparo.
Também não tinha escudo.
O último havia sido praticamente destruído pelo golpe daquele ogro.
“…Tsc.”
Não havia o que fazer.
Prendeu a espada à cintura — o mínimo necessário para alguma segurança.
Seu campo de visão parecia estranhamente amplo e claro. Sua cabeça leve demais.
Aquilo o deixava inquieto.
“Bom dia! Você dormiu mesmo, hein!”
A voz o atingiu como um ataque surpresa.
Era ela — sua amiga de infância — inclinada na janela aberta, apoiando o peito no parapeito.
Uma brisa suave entrou no quarto.
Fazia tempo que ele não sentia o ar do começo do verão tocar sua pele assim.
Ela vestia roupas de trabalho.
Pequenas gotas de suor brilhavam em sua testa.
Pela luz que inundava o quarto, o sol já devia estar alto no céu.
“Desculpa,” disse ele, em poucas palavras — um pedido de desculpas simples por ter dormido demais.
Parecia que ela já havia começado a cuidar dos animais.
Ele perdera completamente a chance de ajudar.
Ela apenas acenou com a mão, sem qualquer traço de irritação.
“Ah, não, tá tudo bem. Você precisa descansar mais do que qualquer coisa. Eu sei — você nunca perderia a inspeção da manhã se não estivesse realmente cansado. Dormiu bem?”
“Sim.”
“Parece que hoje vai fazer calor. Tem certeza de que não vai passar calor com essa roupa?”
“…Talvez você tenha razão,” respondeu ele, assentindo devagar.
Ela estava certa.
Além disso, aquele algodão pesado só atrapalharia no trabalho.
Então arrancou a proteção que havia acabado de vestir e a jogou sobre a cama.
“Nossa, não precisa ser tão bruto assim. Vai acabar rasgando.”
“Não me importo.”
“Claro que não…”
Ela deu de ombros, estreitando os olhos como se estivesse lidando com uma criança teimosa.
“Enfim, tanto faz. Eu estou com fome. O tio já deve ter acordado. Vamos logo tomar café.”
“Tudo bem,” respondeu calmamente, saindo do quarto.
Caminhou pelo corredor.
O dono da casa, já sentado à mesa na sala de refeições, arregalou os olhos ao ver a figura na porta.
“Bom dia, senhor.”
“A-ah… bom dia.”
Ele não deu importância à reação do tio, apenas inclinou a cabeça educadamente e sentou-se à sua frente.
O homem se remexeu, desconfortável.
“Você… hã… acordou meio tarde hoje…”
“Sim.”
Ele assentiu firmemente.
“Dormi além da conta. Farei a inspeção mais tarde.”
“Entendo…”
A resposta saiu quase como um suspiro pesado.
O homem abriu a boca, fechou, e franziu as sobrancelhas.
“Talvez você devesse… descansar um pouco mais. Não dá pra trabalhar sem energia, certo?”
Ele ficou em silêncio por um instante, então concordou com um leve aceno.
“Verdade.”
Era assim que suas conversas aconteciam.
Ele sabia que o dono da fazenda era uma boa pessoa.
Tratava a sobrinha como se fosse sua própria filha.
Mas também sabia que o homem não gostava dele — ou, ao menos, se sentia desconfortável em sua presença.
Cada um escolhia por si mesmo de quem gostar — ou não.
Ele certamente não precisava convencer o tio de nada.
“Uf! Desculpa a demora! Já vou trazer a comida, então pode ir comendo!”
Sua amiga de infância entrou correndo logo depois, começando a arrumar os pratos na mesa.
Queijo, pão e uma sopa cremosa.
Tudo feito ali mesmo, na fazenda.
Como sempre, ele comeu com voracidade.
Quando terminou, empilhou os pratos vazios, empurrou a cadeira para trás com um rangido e se levantou.
“Estou indo.”
“O quê? Ah, não… já vai fazer as entregas?”
Ao ouvir isso, ela começou a recolher tudo às pressas.
Enfiou um pedaço de pão na boca de um jeito nada delicado.
Observando a cena, o dono da fazenda franziu os lábios, contrariado.
“O carrinho de novo?”
“Ah, tio, você se preocupa demais. Eu já disse que sou mais forte do que pareço…”
“Eu levo,” disse ele, curto e direto.
A garota e o tio trocaram um olhar.
Será que ele não tinha sido claro?
“Eu levo,” repetiu.
Ela pareceu confusa, evitando encará-lo por um instante, antes de balançar a cabeça.
“Não… você não precisa fazer isso. Você precisa descansar.”
“Meu corpo vai enfraquecer,” respondeu calmamente.
“Além disso, tenho assuntos na Guilda.”
Ele sabia que falava pouco.
Não lembrava se sempre tinha sido assim.
Mas sabia que, por mais breves que fossem suas palavras, ela sempre dava um jeito de cuidar dele.
Por isso mesmo, precisava ser claro.
“Está tudo bem,” disse ele, e saiu da sala.
Logo ouviu os passos rápidos dela correndo atrás.
A carroça já estava do lado de fora.
As entregas para a Guilda dos Aventureiros tinham sido carregadas na noite anterior.
Ele puxou as cordas para conferir se tudo estava firme, então segurou a barra e começou a empurrar.
As rodas rangeram, avançando pelo caminho de cascalho.
O peso se fez sentir nos braços.
“Tem certeza de que está bem?”
Assim que ele chegou ao portão, ela apareceu correndo, ofegante.
Observou seu rosto com atenção.
“Sim.”
Ele assentiu brevemente e empurrou mais uma vez.
A estrada ladeada por árvores seguia até a cidade.
Ele avançava devagar, passo após passo, sentindo a terra sob os pés.
Como ela havia dito, o dia prometia ser quente.
Ainda não era meio-dia, e o sol já castigava com força.
Logo começou a suar.
Devia ter trazido um pano.
Pensava que não haveria problema enquanto o suor não escorresse para os olhos… quando algo macio tocou sua testa.
“E o descanso, onde foi parar?”
Ela inflou as bochechas, irritada, enquanto enxugava seu suor com o próprio lenço.
“Você desabou assim que voltou e ficou dias dormindo. Tem ideia do quanto eu fiquei preocupada?”
Ele fingiu pensar por um instante, depois balançou a cabeça.
Não parecia algo tão importante assim.
“Isso foi há três dias.”
“Foi só há três dias! Por isso eu disse para não exagerar,” insistiu ela, limpando seu rosto.
“Você mal conseguia ficar de pé! Precisa descansar.”
Ainda puxando a carroça, ele soltou um suspiro.
“Você…”
“Hm?”
“…é bem parecida com o seu tio.”
Ela ficou sem saber se aquilo era um elogio ou uma crítica.
De qualquer forma, não parecia disposta a recuar.
“É só um pouco de excesso de trabalho. Não precisa se preocupar comigo,” explicou ele, com um leve traço de irritação.
Não — não era irritação.
Ele só não gostava de ser lembrado de que mal conseguia cuidar da própria saúde.
Mas preciso ser lembrado… para não cometer o mesmo erro outra vez.
“Foi isso que aquela sua amiga sacerdotisa disse?”
Havia um leve tom ácido na voz dela.
Ele olhou de relance, vendo que ela ainda estava com as bochechas levemente infladas.
“Não.”
Voltou a encarar a estrada e empurrou a carroça mais uma vez.
“Outro membro do grupo disse isso.”
“Hm…” ela murmurou, um pouco mais calma. “Você anda se aventurando com bastante gente nova ultimamente.”
“Só fizemos uma missão.”
“Então pretende fazer mais?”
Ele não respondeu.
Não sabia o que dizer.
Seria mentira dizer que não tinha essa intenção.
Existiam coisas piores.
Mas… ele sairia do caminho dele para convidá-los novamente?
Nesse momento, o vento soprou.
Ele fechou os olhos, ouvindo o farfalhar das folhas e sentindo a luz filtrada pelas árvores.
A conversa cessou.
A brisa. Os passos. A respiração. O ranger das rodas.
Um pássaro cantava ao longe.
Uma criança gritava, brincando.
O burburinho da cidade ainda estava distante.
“Isso é bom…”
O murmúrio escapou de seus lábios.
“O quê…?”
“É melhor do que caçar goblins.”
“Uau… você realmente sabe como encantar uma garota.”
“Entendo…”
Pelo visto, ele ainda não sabia se expressar direito.
Se não soubesse o que dizer, era melhor não dizer nada.
Pelo canto do olho, percebeu a expressão confusa dela.
Continuou empurrando a carroça em silêncio.
“Hehe!” ela riu de repente — como se nem ela mesma esperasse.
“O quê?”
“Nada!”
“Mesmo?”
“Mesmo.”
Ela seguiu ao lado dele, cantarolando uma melodia que ele não reconhecia.
Ainda assim… ele não precisava reconhecer isso.
Ela estava feliz.
E isso bastava.
Eles deixaram a carroça na entrada dos fundos e entraram no saguão da Guilda.
Tudo estava tranquilo.
Já era quase meio-dia, então era natural que a maioria dos aventureiros já tivesse saído.
Ou talvez todos estivessem na Capital, que vinha enfrentando muitos problemas ultimamente.
Ele não sabia.
No salão da Guilda, havia alguns solicitantes de missões preenchendo papéis e alguns aventureiros conhecidos apenas esperando, sem fazer nada de especial.
Pouquíssimas pessoas pareciam estar aguardando alguém, e a fila para falar com a recepcionista da Guilda era curta.
“Perfeito,” disse sua amiga de infância, batendo palmas, satisfeita.
“Não vou precisar esperar uma eternidade pela assinatura. Vou resolver isso rapidinho e já volto… mas você também disse que tinha algo pra fazer, não foi?”
“Sim.”
“Ótimo. Então, quando terminar, a gente se encontra aqui e volta pra casa juntos!”
“Tudo bem.”
Ele a observou sair correndo, sorridente, e então lançou um olhar ao redor do salão.
Não viu quem procurava.
Talvez tivesse chegado um pouco cedo.
Nesse caso, esperaria no seu lugar de sempre, encostado à parede.
Seguiu até lá com seu passo firme de sempre…
“Hm…?”
…e quase esbarrou em alguém sentado na cadeira.
A pessoa ergueu o olhar, desconfiada.
Era o aventureiro da lança.
O Lanceiro estava largado na cadeira, braços e pernas relaxados, encarando-o sem disfarçar.
“Raramente vejo alguém tão em forma e ainda assim tão pálido. Não reconheço seu rosto. É novo por aqui?”
“Não.”
Ele balançou a cabeça uma única vez.
Claro que o homem o reconhecia.
E claro que ele não era novo.
Mas parecia que o Lanceiro se recusava a acreditar que era realmente ele… sem sua armadura habitual.
O Lanceiro falou com ele como se estivesse diante de um colega desconhecido.
“É, imaginei. Aventureiro que quer ganhar dinheiro hoje em dia vai pra Capital, né?” disse ele.
“Deve estar aqui só descansando um pouco.”
O “novato” assentiu levemente ao ouvir “um pouco”, e o Lanceiro riu.
“A Capital tá um caos. Dá pra entender querer dar um tempo.”
Com um movimento ágil, ele se endireitou e ajustou a lança nas mãos.
“Ouvi dizer que lá o pessoal anda preocupado com espíritos malignos ou coisa assim. Uma batalha pra salvar o mundo? Parece uma ótima forma de fazer fama.”
“Você não vai pra lá?”
“Eu? Não fala besteira. Eu só luto por mim mesmo. Nem por dinheiro, nem pelo destino do mundo.”
“Bom…,” acrescentou o Lanceiro, “por mim e…”
Ele lançou um olhar significativo na direção do balcão.
Quando o outro seguiu o olhar, viu a recepcionista da Guilda correndo de um lado para o outro atrás do balcão, como um filhote animado.
Aparentemente, não era só a presença de aventureiros que mantinha a Guilda ocupada.
“…motivos pessoais,” concluiu o Lanceiro.
“Não preciso de lema, nem de discurso heroico.”
“Não precisa?”
“Não.”
Dizendo isso, ele se jogou novamente na cadeira.
Os dois viram a Bruxa se aproximando, movendo-se com graça envolvente.
“Bom, até mais,” disse o Lanceiro.
“Tenho um encontro — ou melhor, uma exploração — em umas ruínas. Me deseje sorte!”
“Desejo.”
Ele assentiu em silêncio.
“Você é mesmo um sujeito sociável,” disse o Lanceiro, rindo.
“E isso não é de todo ruim.”
Enquanto os dois deixavam o salão, a Bruxa olhou para esse “sujeito sociável”, piscou de forma sugestiva e deu uma risada leve.
“Se cuide,” disse ela.
“Pode deixar.”
E então ele se sentou na cadeira recém-desocupada.
Ficou olhando para o teto alto do salão da Guilda, com o olhar perdido.
Só então percebeu que o Lanceiro e a Bruxa formavam um grupo.
E ele achava que conhecia bem os dois.
“Com licença… Senhor Goblin Slayer! O senhor está aqui?!”
Desta vez, uma voz hesitante.
Ele moveu o olhar na direção do som, sem virar a cabeça — um hábito de tanto tempo usando o capacete.
Viu o aprendiz da oficina, usando um avental de couro visivelmente manchado de graxa.
“Sou eu.”
“Ah, ainda bem! Eu não tinha reconhecido o senhor. O mestre está chamando. Disse que o serviço está pronto.”
“Certo. Já vou.”
A Guilda dos Aventureiros não servia apenas para distribuir missões — era também um centro cheio de atividades comerciais.
Além dos escritórios, havia uma estalagem, uma taverna, uma loja de itens e uma de equipamentos.
Claro, não era estritamente necessário que tudo isso ficasse dentro do prédio da Guilda.
Mas, do ponto de vista do governo, era mais conveniente manter todos os encrenqueiros em um só lugar… do que deixá-los vagando pela cidade.
Quando ele se levantou e seguiu adiante, foi em direção a uma das oficinas da Guilda.
Atravessou o prédio, entrando em uma sala mais ao fundo.
Diante de uma forja incandescente, um velho martelava sem parar, moldando uma espada recém-saída do molde até transformá-la em uma arma devidamente temperada.
Era verdade que se tratava de uma peça produzida em massa, nada comparável às espadas lendárias.
Mas, ainda assim, forjar praticamente a mesma lâmina repetidas vezes, quase sem variação, era um talento notável.
“…Então você veio.”
O velho o encarou.
Com a barba densa que tinha, o ferreiro poderia facilmente passar por um anão.
Talvez fossem as longas horas diante da forja que faziam um de seus olhos ficar quase fechado, enquanto o outro permanecia arregalado de forma estranha.
Não era uma aparência muito agradável.
“Você faz pedido atrás de pedido, mas só pega o mais barato. Me diga, como é que eu vou encher meus cofres desse jeito?”
“Desculpe.”
“Não peça desculpa. Só cuide melhor das minhas peças.”
“Vou tentar.”
“Hmph…,” resmungou o velho. “Nem reconheceria uma piada se ela mordesse ele… Hmph. Vem aqui.”
Ele fez um gesto com a mão.
Quando o Goblin Slayer se aproximou, o ferreiro empurrou a armadura e o elmo em sua direção.
“Deve estar tudo certo, mas experimenta pra garantir. Se precisar ajustar, eu faço. Sem custo.”
“Obrigado.”
Sua armadura — antes suja, amassada, esmagada — havia sido restaurada.
Bem… não exatamente como nova.
Mas tão boa quanto antes do encontro com o ogro.
Pelo menos, ele podia confiar nela novamente com a própria vida.
“E o pergaminho? Conseguiu um?”
“Você me deu o ouro, então eu trago o que pediu. Mas pergaminhos são raros. E caros.”
O velho bufou irritado e voltou-se para a forja.
Retirou a espada simples que havia moldado, inspecionou-a e, estalando a língua, colocou-a de volta no fogo.
“Se algum aventureiro aparecer com um pra vender, eu consigo pra você. Mais que isso, não dá.”
“Eu sei. Já é suficiente.”
Ele entregou uma bolsa de moedas ao aprendiz e foi até um canto da oficina, onde não atrapalharia.
O ferreiro havia até preparado um novo gambeson acolchoado de algodão para usar sob a armadura.
Que gentileza.
Luvas, cota de malha, armadura, peitoral… e então o elmo.
Ele vestiu cada peça mecanicamente, na ordem de sempre.
Enquanto fazia isso, ouviu a voz curiosa do aprendiz:
“Chefe… aquele cara é um aventureiro de rank Prata, né?”
“É o que dizem.”
“Então por que ele usa esse tipo de armadura? Se quisesse se mover em silêncio, a gente tem malha de mithril ou…”
“Você não entende, garoto?”
“Não, senhor. E por que não usar uma boa espada mágica em vez de um pergaminho ou…”
“Porque só um idiota metido a esperto levaria uma lâmina encantada pra lidar com goblins!”
O ferreiro golpeou o ferro com toda a força, o som metálico ecoando pela oficina.
“Aquele é um homem que sabe o que está fazendo.”
…Hoje estou popular, pensou ele.
Ao voltar da oficina para o saguão, viu alguém correndo em sua direção.
Passos rápidos ecoavam — e junto deles, o balanço de um busto generoso e um rosto iluminado por um sorriso.
“Senhor Goblin Slayer!”
A Sacerdotisa acenou, correndo até ele.
“Sim. O que foi?”
“Aqui, olha isso!”
Ela enfiou a mão na manga, ofegante, e puxou sua placa de rank.
Já não era mais branca como porcelana — agora brilhava em um negro profundo, como obsidiana.
Ah… então é isso.
Ele assentiu levemente para a jovem radiante.
“Você subiu do décimo para o nono rank.”
“Sim, senhor! Fui promovida!”
O sistema de classificação dos aventureiros era baseado no quanto de bem faziam ao mundo—
alguns chamavam isso de “pontos de experiência”,
mas, no fundo, era uma medida das recompensas obtidas em suas caçadas.
Quem acumulava o suficiente podia subir de rank, após uma breve avaliação pessoal.
No caso da Sacerdotisa, dificilmente haveria qualquer problema com sua conduta.
A promoção era, essencialmente, um reconhecimento de sua evolução.
“Eu não tinha certeza se iam me promover… mas acho que aquela batalha contra o ogro contou bastante…”
Ela coçou a bochecha, corada.
“Entendo.”
O que era mesmo um ogro?
Ah… sim. Aquela criatura nas ruínas.
Ele assentiu.
No fim das contas, aquela pequena expedição tinha sido importante.
Após um instante de reflexão, acrescentou, de forma simples:
“Parabéns.”
“Eu devo tudo isso ao senhor!”
O olhar dela — aqueles olhos claros — o atravessou.
Ele prendeu a respiração.
O que deveria dizer?
O silêncio se alongou.
“Não… não foi nada,” murmurou por fim. “Eu não fiz nada.”
“Fez, sim!” respondeu ela, sorrindo.
“O senhor me salvou quando nos conhecemos.”
“Mas não consegui salvar seus companheiros.”
“É verdade, mas…”
O rosto dela endureceu por um instante.
Ela não conseguiu terminar a frase — compreensível.
Até ele ainda lembrava daquela cena horrível com clareza.
Guerreiro. Mago. Lutador.
Todos perderam tudo.
O grupo dela foi esmagado.
A Sacerdotisa engoliu em seco, mas continuou, firme:
“Mas o senhor me salvou. E eu quero, pelo menos, agradecer por isso.”
Então ela sorriu.
Era um sorriso que florescia, leve e sincero.
“Obrigada!” disse, fazendo uma reverência profunda.
Como esperado, o Goblin Slayer ficou sem palavras.
A Sacerdotisa disse que iria ao Templo contar à Madre Superior sobre sua promoção.
Ele permaneceu ali, observando enquanto ela se afastava com passos leves, segurando firmemente seu bastão sagrado.
Em silêncio.
Voltou o olhar para o balcão — sua amiga de infância ainda estava ocupada com papéis.
“Vou descarregar a carroça,” disse ele.
Ela apenas acenou em resposta.
Ele saiu do saguão e foi até a entrada da Guilda.
Retirou os vegetais e os produtos da carroça, um a um, deixando-os perto da cozinha.
Sob o sol forte, o suor logo começou a se acumular sob o elmo.
Mas proteger a cabeça era essencial.
Ele não podia baixar a guarda.
Era nisso que ele pensava quando—
“Ei… tem um momento?” uma voz calma chamou de repente atrás dele.
Ele largou o que carregava e se virou lentamente.
“Orcbolg? O que você está fazendo…?”
Era a Arqueira Élfica.
Suas longas orelhas estavam eretas.
“O quê, Cortador de Barbas está aqui? Então está mesmo! Já deveria estar andando por aí assim?”
“Ouvi dizer que você dormiu por três dias… mas parece estar perfeitamente bem agora.”
“Os passos dele entregam, não é?” respondeu a elfa ao anão e ao homem-lagarto, que estavam alinhados atrás dela.
Parecia que os três haviam se estabelecido na cidade depois da missão de caçar goblins.
Tradicionalmente, aventureiros eram andarilhos, mudando de base sempre que fosse conveniente ou necessário.
“Este lugar é bom,” disse a elfa, “bem confortável. Mas o que você está fazendo?”
Ela se inclinou, curiosa.
“Estou descarregando esta carroça.”
“Hmm… Espera… não me diga… Está sem dinheiro e pegou um trabalho de entregador.”
“Não,” respondeu ele, irritado. “Vocês queriam alguma coisa?”
“Ah, sim. Esse aqui, hã…”
A elfa deixou a frase no ar, apontando com o polegar para o Sacerdote Lagarto.
A língua dele passou rapidamente pelo próprio nariz, inquieta. Suas mãos não paravam de se mexer.
“Milorde Goblin Slayer, eu… hrm…”
“O quê?”
“Eu humildemente peço… haa…”
“O que foi?”, perguntou Goblin Slayer.
O Xamã Anão interveio com um sorriso de canto.
“O escamoso aqui quer queijo.”
“Ele devia só falar logo,” comentou a Arqueira Élfica, estreitando os olhos como um gato.
O homem-lagarto soltou um sibilar irritado, mas os dois simplesmente o ignoraram.
Talvez estivessem se divertindo ao ver esse lado do companheiro, normalmente tão controlado.
Em geral, era o homem-lagarto quem mantinha o grupo em equilíbrio.
Goblin Slayer percebeu que não escaparia daquilo.
Eles tinham feito apenas uma missão juntos até agora.
Havia muitas coisas que ele ainda não entendia.
“Isso serve?”
Ele abriu um dos pacotes da carroça, pegou uma roda de queijo e lançou para eles.
“Oh-ho!”
O homem-lagarto pegou no ar, os olhos arregalados.
“Você pode pagar à Guilda por isso.”
“Sim, sim, entendido, milorde Goblin Slayer! Ah, doce néctar! Vale seu peso em ouro!”
Ele praticamente começou a dançar.
Abriu a boca e deu uma grande mordida no queijo.
A elfa sorriu, meio sem jeito.
“Acho que até os mais sérios precisam se soltar de vez em quando,” comentou.
“Entendo.”
Goblin Slayer assentiu.
Ele não achava aquilo ruim.
Voltou-se para a carroça.
Agarrou outra caixa de madeira, levantou, colocou no chão.
Depois outra. E outra.
Era um trabalho simples — mas ele não se importava.
Quando ergueu o olhar após algumas caixas, porém, a elfa ainda estava ali.
Ela se mexia inquieta, observando-o repetir o mesmo movimento.
“O-o quê? Eu não deveria estar aqui?”
“Não.”
Ele balançou levemente a cabeça.
“Mas vai fazer calor hoje.”
“Es-escuta!”
A voz dela saiu alta demais.
Suas orelhas subiam e desciam, agitadas.
“O que foi agora?”, perguntou ele, soltando um suspiro.
“É que… nós vamos… vamos explorar umas ruínas agora…”
“Ruínas.”
“É, tipo aquelas da nossa última missão. Estamos tentando entender o que esses espíritos malignos estão planejando…”
“Entendo.”
“Mas o nosso grupo não tem uma boa linha de frente, certo? Quer dizer, eu sou arqueira; ele é sacerdote. O baixinho é conjurador.”
Ela brincava com o próprio cabelo enquanto falava, sem encará-lo diretamente.
“Certo,” ele concordou.
Tudo o que ela disse fazia sentido.
“Então… quer dizer…”
Ela hesitou, olhando para o chão.
Ele esperou.
“Eu pensei que… talvez… a gente pudesse falar com você…”
Ele ficou em silêncio.
Era isso?
Sem dizer nada, levantou mais uma caixa.
As orelhas da elfa caíram, desanimadas.
Ele então pousou a caixa de volta no chão.
“Vou pensar.”
Era quase possível ouvir as orelhas dela se erguerem de novo.
“Certo! Claro! Faz isso!”
Com um pequeno aceno, ela saiu em direção à frente do salão da Guilda.
O anão a seguiu, acariciando a barba com uma mão, enquanto puxava o homem-lagarto — ainda completamente fascinado com seu precioso queijo — com a outra.
“E então, Cortador de Barbas? A vida é dura pras orelhas longas. Ela devia simplesmente te chamar pra ir junto!”
“Fica quieto, anão. Ainda tenho flechas.”
“Estou tremendo de medo, moça.”
Pelo visto, a elfa ainda estava ao alcance da voz.
Goblin Slayer observou os dois se afastarem, discutindo em alto e bom som.
Quando percebeu, já estava quase terminando de descarregar a carroça.
Soltou o ar lentamente e sacudiu o elmo.
O sol já estava alto no céu.
O verão estava próximo.
Então—
“Yaaah!”
“Heeeeyah!”
De repente, gritos ecoaram, acompanhados pelo som claro de metal contra metal.
O som de um duelo de espadas.
E não era algo que tinha começado agora.
Ele é que não estava prestando atenção.
Ergueu o olhar, tentando localizar de onde vinha o barulho.
Era da praça atrás do prédio da Guilda — bem à sua frente.
“Ha-ha-ha! Você chama isso de golpe? Nem um goblin você mataria assim!”
“Droga! Ele é grande demais, tá entrando na minha guarda! Vira pela direita!”
“Certo, lá vai!”
Um guerreiro em armadura pesada manejava uma espada enorme com a facilidade de um graveto, bloqueando os ataques de dois jovens.
Um deles era o batedor do grupo daquele guerreiro.
O outro…
era o jovem novato que tinha ido para os esgotos.
Seus movimentos ainda carregavam a falta de refinamento de um aventureiro de rank Porcelana, mas ele se saía bem ao tentar entender o fluxo do combate.
“Não é um plano ruim,” comentou o guerreiro bem equipado, “mas não funciona se você grita pra avisar o inimigo!”
“Grrrah?!”
“Waaagh!”
A diferença de experiência e força era simplesmente grande demais.
O guerreiro lidava com os dois com facilidade.
Goblin Slayer percebeu que estava chamando atenção demais parado ali, apenas observando.
“Ora, se não é o Goblin Slayer,” disse uma voz baixa, carregada de suspeita.
Era a mulher com armadura de cavaleira.
Se bem se lembrava, ela também fazia parte do grupo do guerreiro.
“Não te vejo há alguns dias,” comentou ela.
“Já estava achando que aquele ogro tinha dado fim em você. Mas aqui está, vivo e inteiro.”
“Sim.”
“…Você fala assim com todo mundo que conhece?”
“Sim.”
“…Entendo…”
A Cavaleira franziu a testa, como se estivesse com dor de cabeça, e balançou levemente a cabeça.
Ele não achava isso tão estranho assim, mas preferiu não dizer nada.
Ainda assim, comentou:
“Não achei que aquele guerreiro fosse do seu grupo.”
“Ah, não é. A gente estava treinando com esse garoto aqui…”
Ao que parecia, eles haviam visto o jovem guerreiro treinando sozinho ali por perto e o convidaram para se juntar.
A maioria dos aspirantes a guerreiros que vinham do interior, com uma espada e um sonho, aprendia por conta própria.
Mesmo uma única chance de treinar com um aventureiro de verdade poderia salvar a vida daquele garoto um dia.
“Agora só falta ensinar aquelas duas a se comportarem como damas…”
Do outro lado, enquanto o batedor e o jovem espadachim enfrentavam o guerreiro de armadura pesada com determinação, uma clériga e uma garota druida se apoiavam em um muro baixo, assistindo à luta com empolgação evidente.
“E aquele brutamontes já deve estar cansando. Talvez eu entre na luta,” disse a Cavaleira, com um sorriso torto.
Ela ergueu o enorme escudo e a espada — seu orgulho — e saltou por cima do muro, entrando no combate.
“Certo, agora vocês estão encrencados! Ouvi dizer que havia guerreiros fortes aqui, mas só vejo uns fracotes!”
“O quê?! Como você consegue ser uma paladina falando assim?!”
“Aqui está a sua resposta!”
“Isso é treino!” resmungou o guerreiro, que sempre avançava pela frente — talvez por isso fosse tão popular.
Sua espada girava como um furacão, enquanto seu escudo bloqueava golpe após golpe.
Ele recuava com agilidade diante de cada contra-ataque, encontrando brechas em resposta.
A clériga e a druida estavam prestes a entrar para ajudar os jovens, quando—
“Essa cavaleira não sabe mesmo ficar na dela, né?”
Uma risada clara, leve como um sino, soou ao lado dele.
Quando foi que alguém havia se aproximado?
“Perdão pela interrupção, caro Goblin Slayer, mas que tal beber isto? Está muito quente hoje…”
Ela havia saído pela porta da cozinha.
Agora, estendia-lhe um copo.
“Obrigado,” disse ele, pegando.
Bebeu de uma vez só, despejando o líquido dentro do elmo.
Era frio. E doce.
“Tem um pouco de limão e mel,” explicou a recepcionista da Guilda.
“Dizem que ajuda contra o cansaço.”
Ele assentiu.
Talvez fosse uma boa adição aos seus suprimentos de campo.
Precisaria lembrar disso.
“Ultimamente, estão falando em construir um prédio novo dedicado a esse tipo de treinamento,” disse ela, olhando para o grupo que lutava.
“Oh?”
Ele limpou as gotas que escorriam dos lábios.
“Poderíamos contratar aventureiros aposentados para ensinar. Muitos iniciantes simplesmente não sabem nada.”
Se pudermos ensinar ao menos um pouco… talvez mais deles consigam voltar para casa.
Ela olhou para longe, sorrindo suavemente.
A recepcionista da Guilda já havia visto muitos aventureiros chegarem… e partirem.
Mesmo lidando apenas com papéis, isso não tornava tudo mais fácil.
Não era difícil entender por que ela queria ajudar os novatos.
“E…,” acrescentou ela,
“mesmo depois de se aposentar, a pessoa ainda precisa viver. Todo mundo precisa de algo para ocupar o tempo.”
“É mesmo?”
Ele devolveu o copo vazio.
“Sim, é,” insistiu ela, como sempre animada, assentindo com energia enquanto suas tranças balançavam.
“Então trate de se cuidar também, certo?”
Ele ficou em silêncio por um momento.
“Parece ser o conselho de todo mundo ultimamente.”
“Vou esperar você se recuperar completamente antes de te dar outra missão. Talvez um mês.”
“Erk…”
Ele deixou escapar um gemido.
“E da próxima vez que trabalhar até desmaiar, seis meses.”
“Isso… seria um problema.”
“Seria mesmo, não é? Então, por favor, aprenda a lição desta vez.”
Ela riu baixinho.
Depois disse que já havia terminado a papelada das entregas.
Ele se virou para voltar ao salão da Guilda, enquanto, atrás dele, os gritos e o som de metal dos jovens aventureiros treinando ainda ecoavam.
A garota — sua amiga de infância — estava ao lado da carroça, esperando com impaciência.
Quando viu Goblin Slayer, seu rosto se iluminou.
Ele falou em voz baixa:
“Vamos voltar?”
“Vamos!”
A carroça estava muito mais leve do que pela manhã.
Ao retornar à fazenda, ele encontrou algumas pedras aquecidas pelo sol e começou a erguer um muro.
A base já estava pronta, mas quando se tratava de goblins… nunca se podia ser cuidadoso demais.
Até o tio reconhecia, ainda que a contragosto, a utilidade do muro — ao menos para afastar animais selvagens.
Goblin Slayer trabalhou em silêncio até que, depois que o sol passou do ponto mais alto, sua amiga apareceu com uma cesta no braço.
Sentaram-se juntos na grama, comendo sanduíches e bebendo vinho de uva gelado.
O tempo passou devagar.
Com o muro quase pronto e as entregas do dia seguinte já carregadas, o sol começou a se pôr.
Sua amiga disse que iria preparar o jantar e o deixou vagando pelos pastos.
A grama sussurrava suavemente sob a brisa do começo do verão.
Acima, duas luas brilhavam, cercadas por um céu cheio de estrelas.
As estrelas provavelmente já haviam mudado de posição com a estação — mas ele não saberia dizer.
Para ele, serviam apenas como orientação.
Quando era mais jovem, ainda encantado pelas histórias dos antigos heróis, ele quis aprender as constelações.
Mas agora…
“O que foi?”
Ele ouviu os passos dela, suaves na grama, atrás de si.
Não se virou.
“Hm? O jantar está pronto. Mas não precisa correr. No que você está pensando?”
Enquanto ele olhava para o céu, ela se sentou ao seu lado com naturalidade.
Ele pensou por um momento, então também se sentou.
Sua cota de malha tilintou levemente.
“No futuro.”
“No futuro?”
“Sim.”
“Hm…”
A conversa se perdeu, e eles ficaram em silêncio, contemplando o céu.
Não era um silêncio desconfortável.
Era um silêncio bem-vindo. Tranquilo.
Só se ouvia o vento, o murmúrio distante da cidade, os insetos… e a respiração dos dois.
Cada um parecia entender o que o outro queria dizer.
Ele era humano, afinal.
Iria envelhecer. Se ferir.
Quando estivesse exausto, cairia.
Um dia, chegaria ao seu limite.
Se não morresse antes… chegaria o dia em que não poderia mais matar goblins.
E então?
O que faria?
Ele não sabia.
Ele é mais fraco do que eu imaginava, pensou ela, observando-o de canto.
“Desculpa.”
As palavras escaparam de seus lábios, de repente.
“Por quê?”
Ele inclinou a cabeça de forma incomum.
Talvez por causa do elmo, o gesto pareceu exagerado… quase infantil.
“Não… não é nada.”
“Você é estranha,” murmurou ele, enquanto ela soltava uma risadinha.
Ele está emburrado?
Era um detalhe pequeno… mas não havia mudado desde que eram crianças.
Pensando nisso, ela puxou o braço dele.
“Erk…”
De repente, seu campo de visão mudou — e a parte de trás de sua cabeça repousava sobre algo macio.
Ao erguer os olhos, viu as estrelas, as duas luas… e os olhos dela.
“Você vai se sujar de óleo.”
“Não me importo. Essas roupas podem ir pra lavagem… e eu posso tomar banho.”
“É mesmo?”
“É.”
Ela apoiou a cabeça dele em seu colo.
Acariciou o elmo, inclinando-se levemente enquanto sussurrava:
“Vamos pensar com calma. Sem pressa.”
“Sem pressa…?”
“Isso. Temos todo o tempo do mundo.”
Ele se sentiu estranhamente relaxado — como uma corda tensionada que finalmente afrouxava.
Ao fechar os olhos, ainda sabia como ela era, mesmo sem vê-la.
Assim como ela sabia como ele era — mesmo sem ver seu rosto.
O jantar daquela noite foi ensopado.
E assim, um dia tranquilo se seguiu ao outro por quase um mês.
Enquanto isso, em algum lugar, a batalha entre os aventureiros e os espíritos malignos se intensificava…
Até que, de repente, terminou.
Dizia-se que um único novato, guiado por uma espada lendária, havia derrotado o rei demônio ao fim de sua jornada.
Esse novato — uma jovem garota, por sinal — tornou-se a décima sexta aventureira de rank Platina da história.
Uma grande celebração foi declarada na Capital, e até mesmo a pequena cidade de Goblin Slayer teve suas festividades.
Mas nada disso tinha qualquer relação com ele.
Seu interesse estava apenas no clima, nos animais, nas colheitas… e nas pessoas ao seu redor.
O tempo seguia lentamente.
Os dias tinham a leveza de um cochilo à tarde.
Mas tudo chega ao fim — geralmente mais cedo do que se gostaria.
O fim de sua tranquilidade apareceu sob a forma de manchas negras repugnantes nos pastos cobertos de orvalho da manhã.
Rastros de lama e excremento atravessavam os campos.
Inconfundíveis.
Pegadas pequenas.