Search this site
Embedded Files
Mundo das Novels
  • Início
  • Novels
  • Doação
Mundo das Novels
  • Início
  • Novels
  • Doação
  • More
    • Início
    • Novels
    • Doação

<< Anterior

Índice

Próximo >>

Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 1 – Capítulo 6

Ressalto do Frango!

— Ganesha! Ganesha! Temos um grande problema! Emergência!!


Um alvoroço explodiu em um canto do estádio iluminado pelo sol.


O Monsterphilia ainda estava em andamento. No palco principal, um domador montava um pequeno dragão de pescoço longo como se estivesse em um rodeio, tentando se manter firme enquanto a criatura se debatia. A plateia estava tão envolvida com o espetáculo lá embaixo que nem percebeu o que estava acontecendo acima deles.


— —O que você está escondendo? Eu sou Ganesha!


— Eu sei disso, senhor! Por que está se apresentando agora?!?


Ganesha observava o festival de um ótimo ponto na borda do nível superior, de onde podia ver tudo de uma vez. Quando um membro de sua Familia correu até ele, o deus projetou sua máscara de elefante para frente e fez uma pose estranha.


Tentando ao máximo ignorar seu deus dolorosamente constrangedor, o homem explicou rapidamente o que havia acontecido sob o piso do estádio.


— Monstros escaparam! Existem jaulas abertas na sala de contenção!


— …Hã? Isso é um problema…


— Foi exatamente isso que eu tentei dizer!


Ganesha se endireitou tão rápido que o subordinado chegou a cuspir ao falar. O homem continuou o relatório. Desta vez, tinha toda a atenção do deus.


Ele explicou que todos os guardas — incluindo funcionários da Guilda — estavam incapacitados na sala de contenção. Todas as teorias apontavam para alguém de fora da Guilda como o responsável.


Ganesha ouviu a notícia com uma expressão extremamente calma e esperou o homem terminar antes de fazer suas próprias perguntas, em uma voz baixa e controlada.


— Quantos monstros escaparam… ou foram libertados?


— N-nove, senhor! Incluindo alguns particularmente perigosos…


Ganesha resmungou, assentindo lentamente com a cabeça. Sua máscara de elefante se moveu junto com ele.


Vozes agudas se ergueram do palco principal. O domador abriu a palma da mão diante dos olhos do dragão, sinalizando para que ele parasse. Um rugido profundo saiu do peito da criatura, mas ela obedeceu. Deitando-se no chão, o dragão lambeu a mão do domador.


A multidão prendeu a respiração.


Virando-se para o público, o domador acenou para eles. Instantes depois, recebeu uma explosão de aplausos e gritos animados.


— Certo, persigam os monstros que estão à solta!


— Também entrem em contato com outras Familias! Peçam cooperação a todos os deuses presentes no estádio!


— Espere um minuto, senhor! A culpa é nossa por os monstros terem escapado! Se pedirmos ajuda, nossa reputação será prejudicada! Outros grupos podem ver isso como uma oportunidade…


— Eu sou Ganesha, o Deus das Massas! Não posso permitir que nenhum cidadão seja ferido! Nosso tesouro são os sorrisos das crianças. Jogue fora sua ambição!


— S-sim, senhor! Minhas desculpas!


— Continuem o festival como planejado! Não contem a mais ninguém sobre isso e não deixem o público sair das arquibancadas! Haverá pânico se a notícia se espalhar!


— Entendido! E quanto ao responsável?


— Deixe-o ir. Ele não libertou todos os monstros, então provavelmente estava tentando causar confusão. Ele estava atrás de alguma coisa. Isso pode ser uma distração… ou talvez quisesse ver o festival mergulhar no caos…


Detesto admitir, mas terei que jogar conforme o jogo dele. Nossa prioridade é a segurança das pessoas. Prioridade número um, entendido? Agora vá!


O homem assentiu e saiu correndo para espalhar as ordens.


A Familia de Ganesha entrou em ação apenas cinco minutos depois que o incidente foi descoberto.


— Monstros escaparam?!


Mais ou menos no mesmo momento em que Ganesha era informado da situação, a notícia chegou até Eina e seu grupo do lado de fora do estádio.


— Sim… O gerente da equipe do oeste viu eles saindo pelo portão oeste do estádio. A Familia de Ganesha está correndo para todos os lados… Eina, o que vamos fazer…?


Eina superou o choque rapidamente e entrou em modo de ação.


— Entrem em contato com qualquer Familia na área! Não importa qual!


— Podemos fazer algo assim? Os chefes vão ficar furiosos se passarmos por cima deles…


Todos os funcionários da Guilda com poder de decisão haviam deixado seus postos para investigar o portão oeste assim que o problema foi relatado. Apenas secretários comuns, como Eina, e assistentes ainda estavam ali.


Eina olhou ao redor para o grupo. Todos demonstravam hesitação em ultrapassar seus limites. Era visível em seus olhos.


— Isso é melhor do que alguém se machucar! Além disso, Ganesha colocou a segurança como prioridade máxima. Ele não deve ficar bravo se outras Familias se envolverem. Precisamos agir agora, antes que os feridos comecem a aparecer!


— Você tem razão. Eu não conseguiria viver comigo mesmo sabendo que poderia ter feito mais…


Eina convenceu os colegas a agir lembrando-os do desejo de Ganesha de ver as pessoas felizes. Ele e sua Familia não haviam poupado esforços para ajudar a Guilda a organizar o Monsterphilia.


Os funcionários da Guilda se entreolharam. As palavras de Eina os tinham tocado.


Todos assentiram e começaram a discutir quem faria o quê para espalhar a notícia.


De repente, uma voz:


— …Com licença. Aconteceu alguma coisa?


Uma voz surgiu de repente.


Alguém estava se aproximando do grupo de funcionários da Guilda.


Todos ficaram sem palavras ao ver quem estava vindo.


— A-Aiz Wallenstein…


A própria Eina ficou surpresa. Seus olhos se arregalaram quando a garota se aproximou.


As coxas bem torneadas de Aiz estavam apenas parcialmente cobertas por uma minissaia. Seu abdômen ficava à mostra sob um top curto. Mesmo sem usar armadura, sua espada pendia da cintura, dentro da bainha.


Uma das aventureiras de elite de Orario estava diante dos atônitos funcionários da Guilda.


Era exatamente aquilo pelo que eles haviam rezado.


O homem mais próximo dela rapidamente explicou o que havia acontecido.


No momento em que entendeu a situação, ela se virou imediatamente para a pessoa atrás dela.


— Loki.


— É, eu ouvi. Não dá pra ficar de namorico numa hora dessas. Vou deixar o Ganesha te “emprestar” por um tempo.


Os membros da Guilda viram Loki sorrir. Suas preces haviam sido atendidas.


Eina e os outros soltaram um suspiro coletivo de alívio, mas ela ainda não podia relaxar.


— Alguma ideia de onde os monstros estão?


— S-sim! Um grupo deles foi visto indo em direção à Rua Principal do Leste!


O coração de Eina deu um salto.


Rua Principal do Leste. Era lá que Bell estava procurando aquela garota.


Ele podia acabar no pior lugar possível.


— Misha, que espécies de monstros escaparam?


— Eh? Hummm… Acho que um swordstag, um troll, um silverback… talvez alguns outros…


Silverbacks aparecem a partir do décimo primeiro andar inferior. Swordstags e trolls nascem no Vigésimo Andar ou ainda mais fundo.


Bell não teria a menor chance contra nenhum deles. Ele quase morreu no quinto andar inferior…


Por favor, Bell… saia dessa vivo, está bem?


Eina olhou na direção da Rua Principal do Leste.


Ela fez mais uma oração — pela segurança de Bell.


Meus ouvidos estão zumbindo com toda essa confusão.


— Ruguguu…!


O sol atravessa todas as bandeiras penduradas na Rua Principal do Leste. Elas parecem completamente fora de lugar em meio a esse caos.


Sinto como se fosse uma ilha no meio de uma correnteza de gritos desesperados.


Agora que consegui olhar melhor para o monstro que uiva diante de mim, percebo que ele não tem cauda. Aquilo nas costas é só uma faixa grossa de pelos prateados e longos.


Correntes ainda estão presas aos seus pulsos, mas parecem ter sido arrebentadas. O som de metal sendo arrastado pela pedra… eu odeio esse barulho.


Silverback…


Eina já me contou sobre muitos tipos de monstros. Esse é definitivamente um deles.


Ela também disse que ele nasce muito abaixo do quinto andar inferior — completamente fora do meu nível.


É mesmo como o Minotauro outra vez. Eu não vou conseguir nem encostar nesse troço!


Alarmes estão tocando dentro da minha cabeça.


É hora de fugir.


— Gyaa…!


Ele se mexeu de novo!


Dobra os joelhos, virando o corpo diretamente para mim e para a deusa!


— Ele vem aí!


Um punho gigantesco vem na nossa direção!


Eu tenho que me mover!


— !!


— Uwaaaa!!!


Mergulha para o lado! Agarra a deusa e salta!


Consegui pegá-la, mas não há tempo de garantir que ela está segura em meus braços. Sinto seus gritos contra meu peito.


Bam!


Meu ombro bate contra a estrada de pedra.


Role!


Duas… três cambalhotas e paro! Deve ser distância suficiente — o monstro já passou direto.


Levanta! Proteja a deusa!


Certo, ela está atrás de mim.


Se quiser chegar até ela, essa coisa vai ter que passar por mim.


— Urrrrnnnn…!


Ele já se levantou e está vindo de novo!


Seus olhos estão fixos em mim!


Lá vem outra investida!


Por quê?!


Ele nem hesitou! Simplesmente me encontrou de novo e avançou!


A deusa vai ser esmagada!


Puxo ela com força para a direita, tirando-a do caminho da criatura.


Hã?


Ele mudou de direção?!


No meio da investida?!


Então o silverback não estava focado em mim…


Merda…


Ele está atrás da deusa!


E agora saltou!


Minhas pernas se movem sozinhas. A deusa não consegue reagir, então eu tenho que me colocar no caminho.


Antes que eu perceba, estou entre os dois — mas o monstro nem sequer olha para mim.


Mas ele manda um braço.


— —Gwahhhh?!


— Gugooooooo!!!


Consigo tirar a deusa do caminho da bola de demolição.


Infelizmente…


eu recebo essa bola de demolição direto nas costelas.


Ela bate na minha armadura, mas não é forte o bastante para impedir o impacto esmagador de atravessar meu corpo.


Eu… eu não consigo respirar!


Ah…


O soco me lançou longe…


Por isso tudo está de cabeça para baixo e borrado…


…Ah!


Eu atravesso uma barraca de comida!


Pelo impacto, parece que abri um buraco nela; estilhaços de madeira voam por todo lado.


Nossa…


Agora a dor está chegando…


Vamos lá, corpo… eu preciso de você.


Certo… minhas pernas ainda estão para fora da barraca… apoia no cotovelo…


Dah!


Costelas…


Devagar… isso…


— Ekkkkkkkk!!!!


A Rua Principal do Leste virou um completo caos.


Ouço pessoas gritando.


Vejo borrões passando correndo.


Parece aquela vez em que todos aqueles ovos de aranha eclodiram de uma vez, todo mundo correndo para longe.


Os visitantes do festival estão desaparecendo dentro de prédios e vielas.


Por que ninguém está ajudando a deusa??


— …!


— Fhaa… haaa…!


Ali!


Ela está parada, congelada diante do monstro.


Ela está encurralada!!!


— Gh…! NÃOOOOOO!!!!


Ignoro a dor que pulsa por todo o meu corpo e corro direto para o silverback, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.


As correntes!


Se eu conseguir agarrar as correntes!


— Gahh!


O metal estica quando agarro a ponta, fazendo o monstro parar abruptamente.


A criatura olha para trás com seus olhos afiados e puxa o braço para frente.


Eu não consigo segurá-lo por muito tempo!


Meus braços estão dormentes… meus dedos estão queimando!


— Ugh…!


— Gigyaaa!!!


Isso nem chega a ser uma disputa.


É como se eu nem estivesse puxando.


Ele é forte demais.


Mas eu preciso tentar! Toda a força que eu tenho—! Perdi!


— Gyaaahhh!!!


O braço dele dispara para trás, e a corrente voa por cima de sua cabeça!


Agora!


As costas dele estão viradas para a deusa!


Corre!


Peguei a mão dela!


— Por aqui!


— Estamos completamente expostos na rua principal!


Puxo a deusa atrás de mim e disparo em direção às ruas dos fundos.


Ele está vindo atrás de nós! Posso ouvir seus urros!


Lá vem outra longa perseguição…


Quando isso vai acabar?!


— Por que ele está atrás de você?!


— Você acha que eu sei?! Nunca vi essa coisa antes! Não fiz nada!


Agarro firme a mão pequena e fina dela. Estamos correndo e gritando pelas ruas estreitas o mais rápido que conseguimos. Pelo tom da voz dela, parece que ela quer tanto a resposta quanto eu.


Ela também está segurando minha mão com força…


Ainda consigo sentir a presença daquela monstruosidade atrás de nós.


Ela não vai embora.


Fixou os olhos na deusa — e não vai desistir.


Nunca vi um monstro agir assim, perseguindo um único alvo sem parar. É como se estivesse sendo manipulado por algo mais inteligente…


Mas que diabos está acontecendo?!


Guio a deusa numa corrida desesperada pelas ruas secundárias, todos esses pensamentos girando na minha cabeça.


Essas vielas estreitas e escuras não ajudam em nada a acalmar meus nervos. Consigo ver o céu entre os prédios altos ao redor, mas quase não chega luz aqui embaixo.


Corremos para o sul a partir da Rua Principal do Leste quando o silverback atacou.


Agora estamos rodando pelas ruas laterais entre as avenidas Leste e Sudeste.


Eu não faço ideia de onde estamos.


Não tive tempo de memorizar o caminho.


Lanço um olhar rápido para trás para ver como a deusa está.


Ela não parece nada bem.


Está claramente com bastante dor.


Não consigo ver o monstro atrás dela nesse labirinto de ruas escuras.


Mas eu sei que ele está aqui.


Está nos seguindo — eu consigo sentir.


Mais rápido!


Essa é a única forma de despistá-lo!


Olhos para frente!


Esquerda! Direita! Direita de novo!


Precisamos fugir!


— …! Bell, não! Por aqui não…!


— Eh?!


A voz da deusa me traz de volta ao momento.


Acabamos de virar uma esquina grande.


Agora entendo o que ela quis dizer…


— …


As ruas estreitas terminaram, mas o que aparece diante de nós é um verdadeiro caos.


As estradas se torcem, se cruzam e se sobrepõem de formas impossíveis.


Partes de prédios avançam para dentro da rua. Escadarias serpenteiam por todo o quarteirão.


Parece que um monte de quartos foi embaralhado e jogado tudo nesse lugar.


É uma dungeon construída por mãos humanas acima da terra.


Uma cidade-labirinto.


— Rua Daidaros…!


É uma parte miseravelmente pobre da cidade, onde nada faz sentido.


Ouvi dizer que as ruas são tão complicadas que, se você se perder lá dentro, nunca mais encontra o caminho de saída.


A Rua Daidaros recebeu esse nome por causa do arquiteto que projetou essa selva de pedra.


No quesito se perder, ela realmente é uma dungeon.


O labirinto artificial se estende diante de nós até o muro da cidade.


Eu e a deusa paramos no topo da rua que desce até a entrada.


Isso é loucura!


Se entrarmos aí, vamos estar lutando contra uma dungeon e um monstro ao mesmo tempo!


A deusa está sem fôlego, com as mãos apoiadas nos joelhos, os ombros subindo e descendo rapidamente.


Trocamos um olhar por um instante.


Estamos em péssima situação.


Ela sabe.


Eu sei.


Os olhos dela tremem…


— GAAAAHHHHHH!!!!


— !!


O monstro está atrás de nós!


Não temos mais escolha.


Agarro a mão da deusa e corro ladeira abaixo, direto para dentro da Rua Daidaros.


A rua vira uma grande escadaria.


Uma selva escura de tijolos surge à nossa frente.


Entramos correndo.


O ar espesso e úmido pesa sobre nós quase imediatamente.


Várias casinhas de pedra miseráveis se espalham pela entrada principal da área residencial…


não, da cidade-labirinto.


Várias lâmpadas de pedra mágica estão presas nas paredes das casas, cuspindo uma luz fraca sobre as ruas.


Há pessoas andando por ali — acima e abaixo de nós.


Elas parecem saber muito bem como se mover por esses caminhos impossíveis.


Aquela mulher nos viu!


Talvez ela ajude—


…ou não.


Assim que vê o silverback, os olhos dela quase saltam do rosto antes de sair correndo.


Outros fazem o mesmo.


Por que ninguém está nos ajudando?!


— Guugaahhh!


— …!


Ele está nos alcançando.


Por quanto tempo a deusa vai aguentar isso?


Ela não tem Falna, como eu.


Na verdade, ela tem conseguido acompanhar bem.


Mas precisamos continuar correndo — e ela está ficando para trás.


Mesmo agora a fera já estica o braço na direção dela!


— Deusa, por aqui!


— O-okay…!


Viramos rapidamente para fora da rua principal, numa direção completamente diferente.


Essa sobe em um ângulo bem inclinado, mas também tem várias bifurcações.


Puxo a deusa para a curva mais próxima.


Mudamos de direção de novo!


E de novo!


Quantas vezes já fizemos isso?


Será que despistamos ele…?


Continuamos mudando de caminho.


Talvez tenha virado na direção errada e se perdido?


Dou uma olhada por cima do ombro, passando pela deusa.


Ele não está lá.


Talvez agora eu finalmente possa respirar—


— …


Algo não parece certo.


Pequenas vibrações estão se espalhando pelas paredes.


Ouço tijolos rachando…


Eles ainda estão longe…


uma sombra?


Filho da—!


Consigo ver uma mancha branca no topo de um prédio, contra uma fresta de céu azul.


Aquilo não é uma nuvem…


Ele subiu no telhado!


Deve ter ignorado as ruas completamente e saltado de telhado em telhado, como um animal selvagem se balançando entre árvores!


Está vindo atrás de nós por cima!


Ele mergulha direto para baixo como uma bala.


— Gyaaaaahhhhh!!!


— !


— Ah!


Um ataque surpresa vindo de cima!


Ele vai cair bem em cima da gente!


Tenho que soltar a deusa!


Senão vai esmagar nós dois!


Ele atinge o chão com um estrondo, espalhando destroços por todos os lados.


Eu e a deusa conseguimos sair do caminho…


mas a fera ficou entre nós dois!


Ele está de frente para mim, e a deusa está recuando!


Rápido, antes que ele se vire, eu preciso fazer alguma coisa!


— Uhhhaaaooooooorrrrrrrr!!!!


Recebo aquela explosão de ar quente e saliva de monstro direto na cara.


…Belos dentes.


— —Hyaiiii!!!


Ele não está atacando…


Aquilo foi um aviso?


Está tentando me assustar?!


Bom… funcionou.


Eu não consigo mover um músculo. Meu corpo inteiro travou. O rugido selvagem da fera fez exatamente o que deveria fazer:


me apavorou completamente.


— Ragyaaa!!!!


Essa coisa não está brincando.


Isso parece…


O quinto andar inferior. Um monstro acima de mim, rugindo na minha cara.


O Minotauro… parado sobre mim, babando.


Consigo ouvir o uivo daquela vaca maluca…


Só quero me encolher e fazer tudo desaparecer.


— —Uuhhmm… aaaahhh!


Estou parado em uma encruzilhada.


Um inimigo está na minha frente.


Um inimigo que eu não sou forte o bastante para derrotar.


Na sombra do desespero… o Minotauro.


Eu quero fugir.


Mas há alguém ali.


Uma pessoa muito especial — alguém que só eu posso proteger.


Ainda consigo sentir a mão macia dela na minha… mas ela não está mais aqui.


Eu tenho que salvá-la.


Estou com medo—


Medo e dever.


Covardia e propósito.


Instinto e emoção se enfrentando… e se unindo.


Estou com medo—


Um impulso inevitável responde ao meu senso de responsabilidade.


Estou com medo, mas—


Mesmo diante de tudo isso…


—eu sou um homem, não sou?!


…mesmo a menor centelha da determinação de um homem não permite que ele recue.


Vá!


VÁ!!


VÁ AGORA!!


VOCÊ TEM QUE IR!!!


NÃO DEIXE “ELA” PARA TRÁS!!!!!!!!!!!!


— YAAAAAAAAAHHHHHH!!!!!!!


Escuta aqui, seu monstro.


Eu não vou a lugar nenhum!


Não sinto mais medo.


Só coragem correndo nas minhas veias.


Avançar!


Lá vou eu, silverback!!!


— Gyaahhhhh!!!


Ele se move para contra-atacar.


Seu braço, grosso como o tronco de uma árvore, chicoteia para frente, a corrente presa ao pulso estalando como um chicote.


Meu corpo gira por instinto, desviando do golpe.


Abaixo a cabeça.


O punho direito varre o ar passando por cima do meu pescoço.


Eu saco minha lâmina.


Essa é minha chance.


Um ponto aberto nas costelas, logo abaixo do braço.


Ataque com tudo que tem!!!


— Uhaha?!


Mas…


Kishnnnn.


Minha lâmina metálica grita de dor.


O choque do impacto percorre todo meu braço.


Meu pulso direito trava.


Minha lâmina foi rejeitada.


Ela não conseguiu atravessar a pelagem branca da criatura.


Por algum motivo, pequenas faíscas prateadas brilham onde minha espada atingiu.


— A lâmina… quebrou?!


A percepção me atinge como um relâmpago.


Minha espada está em pedaços, fragmentos flutuando no ar.


Sinto o fundo da garganta tremer…


Eu não consigo feri-lo!


Meus ataques não são fortes o suficiente!


Aquele momento parece durar uma eternidade.


Só eu olhando os estilhaços da minha lâmina caindo.


Quando percebo…


estou no ar.


— Dahhh!


A fera me agarrou com suas duas mãos enormes e me esmagou contra a parede.


Todo o ar dos meus pulmões sai de uma vez com o impacto.


Meus olhos se arregalam.


— Guruuuu…!


O rosto malicioso do silverback está a poucos centímetros do meu.


Ele mostra as presas antes que eu consiga processar o que está acontecendo.


Sua boca é grande o suficiente para arrancar minha cabeça com uma única mordida.


Um terror absoluto toma conta de mim.


— Beeelllll!!!!


Vai acabar assim?


Eu me debatendo…


e a voz da deusa gritando no meu ouvido?


Torço o corpo repetidamente, debatendo os braços para escapar.


— Minha mão encosta em algo!


Há uma lâmpada de pedra mágica logo abaixo de mim!


Sem tempo para pensar.


Arranco a lâmpada da parede com uma mão.


Eu sei que o controle de brilho fica atrás.


Se eu conseguir alcançar o botão…


Ali!


Potência máxima!


De repente, a palma da minha mão brilha como o sol.


Nem eu consigo manter os olhos abertos.


Empurro a lâmpada incandescente direto no olho da fera.


— GYIIGAAAAAAA!!!!!!!!


O silverback ruge de dor e me solta para agarrar os próprios olhos.


O monstro recua alguns passos cambaleando.


Eu caio no chão da rua com um baque.


Finalmente livre daqueles dedos esmagando meus ombros.


Meu corpo inteiro dói…


mas isso não importa agora.


A deusa corre até mim com lágrimas nos olhos.


Antes que ela consiga dizer qualquer coisa, agarro sua mão e volto a correr.


— Bell…?


— …!


Uma dor que não consigo descrever atravessa meu peito.


Eu não consigo proteger a deusa…


não importa quanta coragem eu reúna.


Sou fraco demais para protegê-la…


Pequeno.


Fraco.


Patético.


Frágil.


Mole.


Lixo.


Pirralho inútil.


Repugnante.


Nojento.


Achei que tinha superado aquela noite…


mas aquelas palavras ainda me perseguem.


Ainda consigo ouvir a voz daquele cara fera me ridicularizando na frente da Srta. Wallenstein.


De novo.


E de novo.


E de novo.


É exatamente a mesma coisa.


Eu era fraco naquela época.


E sou fraco agora.


Isso dói demais.


— Uwwwwaaaarrrrrr!!!


— !


A fera uiva à distância.


Até as paredes da Rua Daidaros tremem.


A besta está furiosa.


Ela ainda está vindo.


Nesse ritmo…


vai nos encontrar pela terceira vez.


Não haverá fuga.


O que eu faço…?


O que diabos eu posso fazer?!?!


Como posso ajudar a deusa?


Como posso protegê-la?


Como…?


— …


Então a resposta surge na minha mente.


Tão simples.


Um pensamento simples me mostra o caminho.


Algo que até um fracote como eu pode fazer.


Desde que a deusa consiga escapar…


isso já basta.


— Ei, Bell… o que é essa cara…?


A deusa consegue perguntar entre respirações ofegantes.


Eu já tenho um plano.


Vou levá-lo até o fim.


Pelo jeito, a expressão no meu rosto a deixou nervosa.


Dá para ouvir na voz dela.


Mas eu não respondo.


Apenas viro à direita na próxima esquina.


Essa rua desce suavemente.


Ao lado dela se abre um novo caminho cercado por pedras negras:


um longo túnel que leva para o subterrâneo.


Deve ser um canal de drenagem.


Consigo ver uma luz no outro lado.


Isso significa que o túnel sai no fim do quarteirão.


Uma rota de fuga.


Eu puxo a deusa silenciosamente para frente e a empurro para dentro do túnel.


Ela olha por cima do ombro, surpresa por estar agora à minha frente.


Dou um último empurrão antes de recuar até a entrada e deslizar o portão de ferro, fechando-o.


— BELL?!?


— Deusa… me desculpe.


As barras criam um mundo frio entre nós.


Meu rosto está sério. Preciso reunir todas as minhas forças para conseguir dizer as próximas palavras.


— Deusa… por favor, siga em frente sem mim.


— Eu… Espera, o que você vai fazer?!


— …Vou atrair o monstro. Ganhar um pouco de tempo para você.


Só existe uma maneira de alguém tão fraco quanto eu protegê-la.


Vou servir de isca.


Vou levá-lo para longe daqui e dar tempo suficiente para a deusa escapar em segurança.


Pelo visto ela não entende o que estou planejando… apenas fica ali, parada, com uma expressão de choque.


— O que você está dizendo, seu idiota?


— Por favor, Deusa. Talvez esta seja a última vez que eu a veja, então me escute.


— Não! De jeito nenhum! Eu não permito! Abra esse portão agora, Bell!!


— Deusa…


Ela balança a cabeça furiosamente de um lado para o outro. Não vai embora de jeito nenhum…


Tenta enfiar o pequeno corpo entre as barras e chama meu nome desesperadamente.


Fico tão feliz por ela se importar tanto comigo… e, ao mesmo tempo, tão triste.


Não há tempo. Eu me ajoelho e olho direto nos olhos dela. Preciso fazê-la entender.


— Deusa… eu… não posso perder minha família de novo.


— …!


Abro meu coração para ela. Tudo.


Isso foi antes de eu vir para Orario, antes de conhecer a deusa.


Eu perdi meu avô… minha única família.


Ele foi morto por um monstro. Foi atacado quando saiu da vila para resolver um recado.


Eu não estava lá. Não pude fazer nada. Um dos meus vizinhos foi quem me contou o que aconteceu.


Ainda sinto o vazio que a morte dele deixou. Até hoje existe um buraco doloroso no meu coração, um espaço que antes era dele.


Talvez desde então meu coração esteja procurando por uma família.


— Eu tenho medo de perder minha família… de não conseguir proteger ninguém.


Eu vim para Orario para encontrar a garota dos meus sonhos, aquela com quem eu estava destinado a ficar. Isso não é mentira. Mas foi o laço que eu tinha com meu avô que realmente me trouxe até aqui. Vim para honrar esse sentimento, para preservá-lo.


Mas… no fundo, havia algo mais que eu queria.


Queria sentir o calor de uma família outra vez.


A deusa me deu um novo laço. Uma nova família.


Uma Familia.


Eu queria uma família.


— Então, por favor, Deusa… deixe que eu proteja você… minha família!


Eu não posso protegê-la… mas mesmo assim disse isso.


Não… eu disse justamente porque não posso.


A deusa fica ali, ouvindo tudo, com uma expressão de pura agonia no rosto.


— …Por favor, saia daqui rápido. Procure ajuda.


— B… Bell!!!


Já disse tudo o que precisava.


Eu me levanto.


Os olhos da deusa estão cheios de lágrimas, o rosto contorcido. Ela olha para mim como se estivesse prestes a desabar.


— …Vai ficar tudo bem. Você sabe como minha Agilidade é boa. Eu sou especialista em fugir.


Reúno todas as minhas forças para forçar um sorriso tranquilizador.


Dou um passo para trás, giro o corpo e disparo de volta pela rua.


Ela grita meu nome repetidas vezes, mas eu não olho para trás.


Apenas grito de volta:


— Me desculpe!


Desculpa por eu ser um fracassado tão fraco…


— …!


Esfrego as lágrimas dos olhos com o braço enquanto corro pela rua inclinada.


Volto ao cruzamento. O monstro não está aqui, então recuo para a sombra de uma parede.


De olho nos telhados, alcanço o coldre preso à perna, tiro um tubo de uma poção azul-marinho da Familia Miaha e viro tudo de uma vez.


A dor desaparece.


A força volta a preencher meu corpo.


Estou calmo. Concentrado. Pronto.


— Ruaaaa!


Ele está vindo — do outro lado do quarteirão.


Eu salto para o meio do cruzamento e me certifico de que ele me veja correndo para o outro lado.


— Uuhh…?


— Ei! Aqui!!


Ele olha em todas as direções. A deusa não está em lugar nenhum.


Eu grito ainda mais alto para chamar sua atenção.


O Silverback para no meio do cruzamento por um momento, olhando para as três ruas.


Ele hesita… olhando para o caminho que leva até a deusa.


Eu prendo a respiração.


— …Gyaaaaaaa!!!


Funcionou!


Ele está vindo atrás de mim.


Hora de cair fora daqui!


A Rua Daidalos realmente é um labirinto.


Tudo parece igual: ruas indo para todos os lados, escadarias surgindo do nada.


Chega a dar a impressão de que eu já passei por aqui antes.


Nem consigo dizer onde fica o norte.


Enquanto corria por aqui, notei algumas setas vermelhas pintadas nas paredes.


São ariadne — sinalizações das ruas, provavelmente pintadas pelos moradores.


Devem levar até a entrada do bloco do labirinto.


Se a deusa encontrar uma dessas, deve conseguir sair daqui com facilidade.


Por outro lado… também podem levar até o coração do labirinto.


Mas qualquer uma dessas opções é mais segura do que ficar perto de mim.


Decido seguir as ariadne por um tempo.


É melhor do que correr sem ter ideia de para onde estou indo.


— ……


Estão nos observando.


Há pessoas escondidas nas sombras, espiando pelas janelas de suas casas.


Todos acompanham com os olhos o monstro e eu rasgando as ruas.


Eles estão com medo.


Mas… quem diabos é aquele…?


Um olhar específico está cravado em mim.


Não consigo ignorá-lo.


É completamente diferente dos outros.


Essa pessoa não está com medo.


Ela vem me observando desde o começo da perseguição.


Isso faz minha pele se arrepiar.


Não consigo me livrar dessa sensação.


É quase como se estivessem me observando…


Não consigo explicar essa sensação fria que sobe pela minha garganta. Cubro a boca para tossir.


— Gyaruuu!!


— Gahh?!


O Silverback me alcançou antes que eu chegasse ao próximo cruzamento.


Não consegui desviar do ataque vindo de cima e acabei rolando pela rua.


Rolando… rolando… rolando.


Quando finalmente paro, deslizo para fora da rua e vou parar em um grande espaço aberto.


Parece algum tipo de praça.


Várias ruas e escadarias levam até esse lugar.


Há até uma fonte velha no centro, jorrando água para o alto.


— Gyaraaaaa!!


— ?!


O Silverback irrompe pela rua de onde eu rolei.


Ele está ainda mais furioso do que antes — perder a deusa deve ter deixado a fera ainda mais enfurecida.


E está vindo direto para mim!


De alguma forma, ele descobriu como girar as correntes presas aos pulsos como se fossem chicotes de metal.


Esquerda! Direita! Desvia, desvia, desvia!!!


A combinação daqueles braços monstruosamente fortes com as correntes metálicas é brutal.


— ?!


Depois de tudo isso… ele me acerta.


O golpe estava mirando minha cabeça, mas acerta em cheio meu peito.


Um grito de dor explode dos meus pulmões.


Consigo bloquear a corrente com o que restou da minha adaga, mas o impacto reverbera pelo meu corpo inteiro.


Faíscas vermelhas saltam da lâmina quando a fera puxa a corrente de volta.


No instante seguinte, sou arremessado ao chão como uma boneca de pano.


— AH— gyhhhh?!


Arranco meu tronco do chão com os braços tremendo.


Meu corpo não me obedece.


Não consigo avançar.


É inútil… não consigo nem tocar naquele monstro. Nem chegar perto.


Fico apenas olhando para as pedras da rua, sentindo dor — no corpo e na alma.


Com esforço, ergo o pescoço para procurar o Silverback.


Ele está ao lado da fonte, rosnando, segurando uma corrente com uma das mãos.


Está girando-a.


Consigo ouvir o assobio do metal cortando o ar.


Lá vem o golpe final…


Eu não quero morrer.


Ainda não estou pronto para morrer.


Mas… não tem saída.


Uma parte de mim já desistiu.


Minhas forças acabaram.


Minha vontade está quase quebrada.


Meu pescoço parece que vai se partir.


Será que a deusa conseguiu fugir…?


É a única coisa em que consigo pensar agora.


Naquela época também foi assim…


Exatamente assim.


Quando aquela pessoa apareceu.


Quando Aiz Wallenstein salvou minha vida.


Mas desta vez ela não vai me salvar.


Eu teria gostado de ver o rosto dela só mais uma vez.


Por outro lado… ainda bem que ela não está aqui.


Assim ela não vai me ver nessa situação miserável de novo.


Pensar naquele momento só me deixou ainda mais deprimido.


Deixo minha cabeça cair de volta no chão da rua, tomado pela vergonha.


— Bell!!


— …


O tempo congela.


Uma voz atravessa a névoa na minha mente e agarra meu coração.


Eu levanto a cabeça.


Consigo enxergar claramente de novo.


E o que vejo faz meu sangue gelar.


Alguém veio me ajudar.


Não foi ela… mas é alguém muito importante para mim.


Hestia olha para mim de cima, tentando recuperar o fôlego.


Por quê?


Por que você voltou?


Essa pergunta ecoa repetidamente dentro da minha cabeça.


Não consigo colocar em palavras o que está se agitando dentro do meu peito.


— Ugyaruuu…


— …


Então a situação piora.


O Silverback encontrou o que procurava.


Seus olhos se desviam de mim para um novo alvo.


Hestia.


E então aqueles olhos enormes se fixam nela.


A deusa está curvada, tentando recuperar o fôlego.


Um alvo perfeito para o Silverback.


Um segundo depois, ele se move.


— Deusa!!


Eu corro.


Quebrando todos os meus limites, eu corro.


Forço meu corpo espancado e destruído a se mover.


Em menos de um segundo fecho a distância até a deusa.


Arranco seu corpo pequeno das garras da fera e a abraço com força.


— …!


A mão enorme da criatura passa raspando pelo meu campo de visão enquanto meio carrego a deusa para a estrada mais próxima que sai da praça.


Ou pelo menos achei que fosse uma estrada.


Mergulhamos numa escadaria íngreme em alta velocidade e despencamos pelos degraus de pedra.


O mundo gira sem parar.


Os gritos ficam presos na minha garganta.


— D-Deusa?! Você está bem?!


— Sim… estou bem.


Caímos com um baque em um degrau particularmente largo.


Ignorando a dor do meu próprio corpo, verifico se ela está ferida.


Ela parece tonta, a cabeça balançando, mas sua voz está firme.


Sinto alívio por um instante.


E então a repreendo.


— Por que você está aqui?! Eu disse para fugir, para ir bem longe! Agora atrair o monstro foi inútil…!!


As roupas da deusa estão encharcadas de suor.


Ela deve ter corrido por toda a Rua Daidalos me procurando.


Talvez tenha imaginado que eu seguiria as ariadne.


Ou talvez tenha seguido os olhares das pessoas escondidas… e os uivos do Silverback.


Por que ela voltou?!


Todas as minhas emoções se misturam e embaralham minha voz enquanto falo.


— …Você realmente não percebe, né?


É isso que ela me diz.


Ela limpa o rosto sujo com o braço e me dá um sorriso gentil.


— Eu não posso simplesmente fugir e deixar você para trás, posso?


— …!


— Você quer me proteger? Pois eu também quero proteger você.


Ela não para por aí.


Em silêncio, move os lábios dizendo:


“Você fez uma promessa, lembra?”


— Ah…


Eu me lembro.


Uma promessa que eu nunca deveria ter esquecido.


Eu fiz uma promessa a ela naquele dia.


Eu jurei.


— “Por favor… não me deixe sozinha.” —


Eu quebrei minha promessa quando desisti.


Eu estava prestes a deixá-la sozinha.


— …Mas, desse jeito, nós dois vamos…


Meu rosto pode até ter relaxado, mas aquelas palavras quase me rasgam por dentro.


Percebendo que eu não consigo terminar a frase, a deusa faz uma expressão firme e diz, com a mesma determinação:


— Ainda é cedo demais para desistir, Bell.


— Hã?


— Eu tenho uma ideia.


Ela leva a mão para trás do manto e tira um pequeno estojo.


Quando olho para ele, ela abre um sorriso triunfante e começa a abri-lo.


— Ah!


— Huh?


Ela congela com a mão sobre a tampa.


Então olha para cima, atrás de mim, com a boca entreaberta.


Sigo seu olhar até o topo da escadaria.


Uma silhueta selvagem mergulha direto em nossa direção!


Trocamos um olhar por um instante — nossos rostos empalidecem imediatamente.


— GYAAAAHHHHHHHHH!!!!!!


— AHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!


Agarro a deusa como posso e salto.


O Silverback aterrissa com violência, transformando o lugar onde estávamos num pequeno buraco.


A deusa e eu disparamos escada abaixo o mais rápido que conseguimos.


Ela… me ultrapassou?


Desde quando a deusa corre tão rápido?


Ela não tinha acabado de dizer que queria me proteger?!


— Kyaaaa!!


— D-DEUSA!!!


A deusa grita ao tropeçar em uma pedra da rua.


O tempo desacelera.


As mãos dela se erguem enquanto o corpo cai para frente.


Eu avanço num impulso e a agarro antes que bata no chão.


O Silverback está logo atrás de nós.


— Desculpe pela falta de modos, Deusa!


— Wah?!


Sem tempo para reclamações.


Eu a seguro nos braços, ignorando completamente qualquer etiqueta.


Meus braços passam por baixo dos ombros e dos joelhos dela enquanto acelero.


Estou carregando-a como os heróis carregavam as princesas nas histórias.


O rosto dela fica vermelho contra meu peito.


— Desculpa, Bell. Eu sei que este não é o momento… mas eu estou tãooooo feliz agora!


— Do que você está falando, Deusa?!?!


Estamos a centímetros da morte e ela está feliz?!


Eu não entendo absolutamente nada.


Continuo correndo.


Tenho que ignorar minha confusão se quiser sobreviver a isso.


A deusa passa os braços em volta do meu pescoço, e eu a aperto com mais força.


Reúno cada gota de energia que ainda me resta para continuar correndo.


Também ajuda o fato de que o corpo da deusa é incrivelmente leve.


Corro pelo labirinto de ruas a toda velocidade e, de alguma forma, consigo me distanciar do monstro.


Mas…


A sorte nos abandona no último instante.


— Um… beco sem saída…


Três casas altas nos cercam.


A longa rua termina em um cul-de-sac.


Só existe um caminho para entrar aqui… e voltar não adianta de nada.


O monstro nos encurralou.


Coloco a deusa no chão e dou uma rápida olhada ao redor.


Alguns moradores estão nos observando das janelas.


Assim que percebem que eu os vi, se escondem rapidamente.


Monstros são assustadores.


Eu sei que eles não vão nos ajudar porque poderiam acabar envolvidos nisso… e talvez devorados.


Não posso culpá-los por se esconderem.


Depois de correr tanto… não conseguimos escapar.


A deusa coça o queixo, como se estivesse pensando em algo.


Eu abaixo a cabeça em desespero.


— …Não, isso é bom.


— EH?!


Ela falou quase num sussurro, mas mesmo assim eu me surpreendo ao ouvir.


Ela olha para mim com um sorriso confiante, apesar da sua pequena estatura.


— Bell, você vai derrotar aquele monstro.


— …Hã?!


— Vou atualizar seu status agora. E você vai usar esse poder para derrotá-lo.


Sim, ela poderia atualizar meu status, e eu teria mais chances do que antes.


Mas… ainda assim não seria suficiente.


O Silverback é um monstro do décimo primeiro andar inferior.


Eu mal consegui sair vivo do sexto.


São cinco andares de diferença.


A força de um aventureiro pode ser medida pelos andares que ele conquistou.


Da mesma forma, a força de um monstro pode ser medida pelo andar onde ele nasce.


A diferença de andares é a diferença de poder.


Mesmo que eu ficasse um pouco mais forte com uma atualização de status, ainda estaria muito longe do nível do Silverback.


Eu não teria chances numa luta.


E além disso…


— …Eu não posso, Deusa. Você viu também, não viu?


Eu não consigo nem arranhar aquele monstro.


Mesmo que eu ficasse um pouco mais forte, não conseguiria dar um golpe fatal no Silverback.


O problema está na força básica dos meus ataques.


Quando usei toda a Força do meu status atual no que deveria ter sido um golpe mortal, antes de entrar na Rua Daidalos, o ataque foi bloqueado pelo pelo do Silverback.


Mesmo que minha arma fosse reforçada por um status maior… eu não acho que conseguiria atravessar a defesa daquela criatura.


— Eu… não consigo derrotá-lo.


Minha cabeça cai enquanto murmuro essas palavras.


Eu sou tão patético.


Todas aquelas coisas cruéis que aquele cara meio animal falou.


Os outros clientes tentando não rir… e falhando.


Consigo ver tudo claramente na minha cabeça — e tudo isso só me lembra o quão fraco eu sou.


Eu não consigo ferir o Silverback, muito menos derrotá-lo.


Eu simplesmente não consigo.


E para piorar…


Não tenho confiança nenhuma.


— E se seus ataques ficassem mais fortes?


— —Hã?


— Você conseguiria derrotá-lo se pudesse causar dano?


Ela pergunta isso enquanto abre o estojo em suas mãos.


Então retira o que está dentro e estende para mim.


Uma faca negra, guardada em uma bainha igualmente negra, repousa em sua palma.


Eu lentamente estendo a mão…


e pego a arma.


Fico praticamente em choque enquanto tiro a lâmina de sua bainha protetora.


O cabo e a bainha são negros — e a lâmina não é diferente.


A faca negra não é curva como uma garra.


Ela é reta como uma flecha.


Além disso, uma série de marcas complexas percorre suas bordas.


Ela começa a brilhar com um roxo profundo em minha mão, quase como se a “faca divina” estivesse respondendo ao meu toque.


Fico ali, admirando a arma e sua beleza. Há algo sagrado nela, como se tivesse sido criada pelos próprios deuses.


Ergo o olhar novamente para a deusa.


Seus olhos cristalinos encontram os meus.


— Bell, o que aconteceu com o garoto que eu conheço? Não foi você que entrou nas profundezas da Dungeon há poucos dias dizendo que queria conquistar garotas? O que aconteceu com o Bell que jurou ficar mais forte e nunca desistir dos próprios sonhos? Para onde ele foi?


A deusa estufa o peito e continua falando, como se estivéssemos de volta em casa.


— Eu acredito em você. Sei que não faço parte dessa “aventura”. Eu sei disso. Mas se o aventureiro Bell Cranel está atrás de uma mulher monstruosamente forte — Wallensomething ou algo assim — então um monstro como esse não deveria ser problema.


O rosto dela está completamente sério.


— Eu vou te ajudar a vencer. Eu vou fazer você vencer.


— ……


— Talvez você não acredite em si mesmo agora. Que tal acreditar em mim? Porque eu acredito que você consegue.


Sinto como se fosse explodir em lágrimas.


A ponta do meu nariz fica dormente. Sinto como se cataratas estivessem prestes a jorrar dos meus olhos.


Ela sorri para mim.


Eu enxugo as lágrimas com a manga e faço que sim com a cabeça.


O sol brilhava intensamente no céu.


O grande anel de luz lá em cima projetava sombras profundas pelas ruas da Rua Daidalos e sobre as diversas raças que viviam ali.


Os raios do sol eram especialmente fortes em uma longa rua sem saída.


Mais rápido, mais rápido, mais rápido! Anda!


Os dedos de Hestia se moviam tão rápido que viravam um borrão enquanto ela murmurava baixinho.


Ela estava sentada atrás de Bell, que permanecia ajoelhado, trabalhando freneticamente para atualizar seu status.


Bell havia retirado sua armadura leve, já bastante danificada, ficando apenas com uma camisa preta por baixo.


Hestia colocou uma gota de seu sangue nas costas da camisa dele. Uma única camada de tecido não era suficiente para impedir que ela escrevesse os hieróglifos diretamente em sua pele.


Suas mãos não diminuíam o ritmo.


Ela nem precisava olhar para acompanhar o que estava fazendo.


Tudo que precisava era encontrar a excelia dentro dele e trazê-la à tona para alterar seu status.


Enquanto conseguisse localizar a excelia dele, uma camisa não iria atrapalhar.


Escute bem, Hestia. Isso é importante.


Os nervos de Hestia estavam à flor da pele.


O monstro poderia aparecer a qualquer momento.


A voz de Hephaistos ecoava em sua mente.


Esta faca carrega seus hieróglifos, sua bênção. Esta arma está viva.


A “Faca de Hestia” havia sido forjada com o mithril de Hephaistos e gravada com a bênção de Hestia.


Era uma lâmina com seu próprio status.


Havia tantos hieróglifos nela que toda a arma acabou ficando negra.


Ela é como uma criança que recebeu uma Falna. A arma vai crescer junto com quem a empunhar, usando a excelia dele.


A faca foi gravada com os hieróglifos de Hestia — apenas alguém com sua bênção poderia usá-la.


Isso a tornava impossível de vender e inútil como mercadoria.


Mas Hephaistos havia dito mais uma coisa:


Se quem a empunha ficar mais forte, ela também ficará.


À medida que um aventureiro se tornasse mais forte, ele liberaria cada vez mais o potencial dessa lâmina.


Era a “arma perfeita para aventureiros iniciantes.”


Uma parceira que cresceria junto com seu dono — nunca forte demais, nem fraca demais.


No momento, essa arma era quase tão poderosa quanto papel.


Mas daria seu primeiro suspiro ao chegar às mãos do garoto Bell Cranel, crescendo a partir daí.


Se o usuário permanecesse fraco, ela também permaneceria fraca.


Mas se ele se tornasse o “aventureiro mais poderoso”, então ela se tornaria a “arma mais poderosa.”


Uma arma que pode se tornar instantaneamente a melhor é péssima para os negócios. Vai nos deixar, ferreiros, sem trabalho.


Eu nunca mais farei outra dessas.


Mesmo reclamando durante todo o processo, Hephaistos havia tornado o desejo de Hestia realidade.


Hestia agradeceu a ela inúmeras vezes.


Agora, a Faca de Hestia estava crescendo junto com Bell.


Ela estava transformando aquela arma em algo capaz de derrotar o Silverback.


O único problema era…


A habilidade de Bell.


Realis Phrase.


Quanto ele iria crescer?


E o quanto a arma se tornaria mais forte?


— Deusa! Ele está aqui!


— !


O monstro virou a esquina da longa rua e os avistou imediatamente.


O coração de Hestia disparou.


Ao mesmo tempo, ela terminou o último traço.


A atualização de status de Bell estava completa.


Bell Cranel


Nível 1


…?!?


Força: G-221 → E-403


Defesa: H-101 → H-199


Destreza: G-232 → E-412


Agilidade: F-313 → D-521


Magia: I-0


O status de Bell havia aumentado mais de 600 pontos?!


Seu crescimento parecia não ter limites.


E ele ainda estava ficando mais forte.


Aquilo estava longe de ser uma velocidade de evolução normal.


As chamas de ciúme que Hestia sentia por Aiz Wallenstein ainda ardiam em seu coração… mas, ao mesmo tempo, ela se sentiu aliviada.


Com um aumento desses…


A arma também havia se tornado muito mais poderosa.


A lâmina negra pulsava com uma luz roxa escura na mão de Bell.


Ela estava viva.


Agora… tudo dependia de Bell.


Hestia colocou a mão nas costas dele e, reunindo toda a sua força, deu um forte empurrão para impulsioná-lo.


— Agora, vá!


Com essas palavras, a percepção de tempo e espaço de Bell se estreitou até virar uma linha extremamente fina.


Seu coração batia forte em seus ouvidos.


Seus pés estavam envoltos em calor.


Mas sua mente estava mais clara do que nunca.


Ele havia se abaixado enquanto Hestia atualizava seu status.


Seu corpo estava pronto para disparar em velocidade máxima.


A força se acumulava em suas pernas, o joelho direito erguido, pronto para explodir para frente.


— GYAAAAAAAA!!!!!!!


O monstro estava bem diante dele, no fim da rua.


Seu uivo furioso ecoava pela longa via.


O Silverback.


O monstro que, mesmo com o status atualizado, ainda era o pior pesadelo de Bell.


A vitória era uma aposta arriscada.


O próprio Bell se perguntava se realmente tinha alguma chance.


Mas mesmo que não acreditasse em si mesmo…


Ele podia acreditar nas palavras de Hestia.


Ele disparou para frente, as palavras de sua deusa enchendo seu corpo de determinação e coragem.


— …


O Silverback ficou em silêncio.


Bell nunca havia se movido tão rápido.


Seiscentos pontos de status haviam lhe dado uma velocidade como ele jamais tivera.


Mesmo com a distância entre eles, o Silverback percebeu naquele instante que não seria rápido o bastante para se defender de um golpe fatal.


Está ouvindo, Bell? Lembre-se do que vou dizer agora.


Mas não faça nada imprudente, entendeu?


A voz de Eina ecoou na mente de Bell enquanto ele cortava o ar em direção ao seu alvo.


Não importa quão fortes sejam, nem quão grossa seja sua defesa…


Todos os monstros têm um ponto fraco em comum.


Bell ainda se lembrava de Eina explicando aquilo com entusiasmo, apontando diretamente para ele.


Se você acertar esse ponto, até mesmo um dragão cairá.


É o único ponto realmente vulnerável deles.


Ele lembrava claramente da voz dela dizendo o que fazer.


Um único golpe.


Se você conseguir atravessar a pele com um único golpe…


Qualquer monstro pode ser abatido pela lâmina de um aventureiro.


O lugar que torna um monstro um monstro.


Seu único e verdadeiro núcleo.


Não preciso dizer mais nada, certo?


Sim.


A única coisa que todos os monstros escondem dentro do peito—


A pedra mágica.


Cortá-la era a forma mais eficaz de matar qualquer monstro.


Bell fixou os olhos em seu alvo.


Um ponto no peito da criatura.


A besta avançou, seus passos pesados martelando a rua.


Os braços do Silverback tremiam levemente no ar.


Bell usou o pouco tempo que restava para alinhar seu ataque.


Seus olhos estavam totalmente focados naquele único ponto.


A Faca de Hestia ardia em roxo em sua mão.


Sua força recém-desperta se concentrava na ponta da lâmina, projetando um feixe de luz em direção ao céu.


Todo o poder reunido na lâmina.


Toda a força em seu corpo.


Cada última gota de energia foi colocada naquele golpe.


Músculos se rasgaram.


Ossos estalaram.


A adaga de Bell atravessou o peito do monstro enquanto seu corpo avançava como uma lança.


— YAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Penetração.


— Gyaaa!!!


A lâmina negra atingiu o peito do monstro de frente.


Bell sentiu a adaga atingir algo mais duro que carne ou osso.


O impacto percorreu todo o seu braço.


Os olhos do Silverback se arregalaram enquanto ele começava a cair para trás.


— ?!


O impulso de Bell o levou por cima do monstro.


Ele soltou a faca e foi arremessado pelo ar.


Não conseguia diminuir a velocidade.


Bell não teve tempo de se preparar para a queda.


Ele havia colocado tudo o que tinha naquele único ataque.


Mas seu corpo reagiu sozinho.


Seu corpo descreveu um arco perfeito no ar, encolhendo-se como um projétil humano.


Ele atingiu o chão antes mesmo de conseguir respirar novamente.


— Guhheee?!


Ele rolou pelo chão, dando várias cambalhotas, até finalmente parar depois da sétima.


Ainda tonto, com estrelas girando na visão, Bell se levantou com dificuldade.


Respirou fundo algumas vezes…


E então se virou.


O Silverback estava caído de costas, braços e pernas espalhados no meio da rua.


Uma parte do corpo do monstro começou a desmoronar.


A lâmina negra permanecia cravada em seu peito.


O tempo parecia ter parado.


A pedra mágica no núcleo do monstro havia sido destruída.


Cada vez mais partes do corpo da criatura colapsavam antes de se transformarem em cinzas.


Por um instante, ele brilhou…


E então o vento levou tudo embora.


Sem deixar vestígios.


Clinc. Clinc.


A Faca de Hestia caiu sobre as pedras da rua quando os últimos restos da besta desapareceram.


A arma permaneceu ali, no meio da estrada, brilhando em roxo.


Então—


Aplausos e gritos de comemoração ecoaram de todos os lados.

A batalha de Bell contra o Silverback comoveu os moradores da Rua Daidalos que haviam assistido tudo à distância segura.


Pessoas que antes estavam escondidas nas sombras ou espiando pelas janelas começaram a sair de suas casas em massa, batendo palmas e gritando de entusiasmo.


Nem mesmo o estádio havia estado tão vivo quanto aquele pequeno canto da cidade labiríntica.


Um sorriso apareceu no rosto de Bell no meio de tantos aplausos.


Ele se virou para o fim da rua, pronto para sorrir para a deusa e dizer: “Eu consegui!”


Foi então que viu o corpo dela caído no chão.


— Deusa?!


Bell pegou rapidamente a Faca de Hestia e correu até ela, o rosto pálido e coberto de suor frio.


O corpo leve dela estava mole em seus braços, os olhos fechados.


O rosto de Bell ficou ainda mais branco.


Ele a pegou com cuidado e saiu correndo do beco, acompanhado por uma despedida gloriosa de aplausos e comemorações.


— Eu acabei machucando Hestia… mas o que está feito, está feito.


Uma voz veio do telhado de uma casa que dava vista para a rua sem saída.


Freya falava consigo mesma.


Ela havia assistido tudo do melhor “assento” da Rua Daidalos.


Seus olhos prateados estavam fixos em Bell, que segurava Hestia com força contra o peito.


No começo, ela ficou decepcionada por as coisas não terem acontecido como havia planejado.


Mas então sorriu para o céu azul.


— Parabéns. Você ainda tem um longo caminho pela frente, mas… hee-hee… sim. Você foi muito heroico.


Freya observou a cabeça branca de Bell enquanto o garoto corria pela rua, indo direto para a saída.


Ela estreitou os olhos.


Então se virou para ir embora, seus cabelos prateados brilhando sob a luz do sol.


— Vamos brincar de novo, Bell.


— Guoooooooooo!!!?


O troll foi abatido com um único golpe decisivo.


— Nn… acabou?


— Sim…


Aiz Wallenstein retirou sua espada prateada do corpo do troll, sacudiu o sangue da lâmina e a guardou na bainha com um movimento suave.


Ela observou o monstro cair no chão com um estrondo.


Os moradores da cidade imediatamente saíram de seus esconderijos e cercaram Aiz com aplausos e gritos.


Loki estava atrás dela, apoiando a cabeça na mão e parecendo completamente entediada.


Um pequeno “hmmm” escapou de seus lábios.


— Eu diria que eles não tinham um ritmo próprio. Parece que todo mundo está bem, sem grandes problemas… Mas dá a impressão de que estavam dançando conforme a música de outra pessoa.


Aiz assentiu levemente, concordando com a análise de Loki.


Elas haviam corrido por todo o Bloco Leste protegendo os cidadãos.


Mas os monstros não tinham fugido.


Eles apenas vagavam pela cidade, como se estivessem procurando alguma coisa.


Aiz não conseguia se livrar da sensação de que algo os estava guiando de cima.


— Já acabaram todos?


— Ainda não… Falta um.


Dos nove monstros que haviam escapado, apenas o Silverback ainda não tinha sido encontrado.


Era um monstro que Aiz poderia derrotar em um instante.


Loki parecia ainda menos interessada, mas mesmo assim começou a correr.


Ela queria acabar logo com aquela caçada.


Aiz a seguiu em silêncio.


Elas foram em direção à East Main, depois de conversar com alguns moradores que haviam visto o Silverback enquanto se escondiam.


— Ehhh? O que é isso? Já acabou?


Em vez de rostos assustados e um monstro à solta, as pessoas estavam comemorando nas ruas.


Loki se aproximou da multidão para conseguir alguma informação.


— Ei, senhora! Cadê o monstro? O que está acontecendo?


— Você não ouviu? Aquele garoto derrotou ele! Ouvi de algumas pessoas da Rua Daidalos. Eles correram lá para dentro do labirinto… e ele matou o monstro com um único golpe!


— Espera aí, senhora. “Aquele” garoto? Quem é “aquele” garoto?


— Você não viu ele passando por aqui? Um jovem aventureiro com olhos vermelhos e cabelo branco… parecia um coelhinho!


— Hã?


O rosto de Loki se contorceu de confusão.


Mas a garota loira atrás dela deu um pequeno salto.


Cabelo branco…?


Ela conhecia alguém assim.


Naquela manhã, quando olhou para fora do café.


O garoto de olhos vermelhos e cabelo branco que havia se machucado por causa dela.


— Com licença! Por favor, deixem-me passar!


Uma nova onda de barulho atravessou a multidão.


“Aquele” aventureiro havia voltado.


As pessoas começaram a gritar e se empurrar para conseguir vê-lo melhor.


Loki entrou no meio da multidão gritando:


— Eu também! Eu também!


Aiz ficou para trás.


Parada.


Sentindo-se um pouco sozinha.


Ela não queria ficar de fora, então caminhou até a borda da multidão e ficou na ponta dos pés para tentar enxergar.


— —Com licença!!


— !


Nesse instante, um garoto abaixado o máximo que podia saiu da multidão e passou correndo bem ao lado dela.


Os olhos dourados de Aiz o seguiram, tentando confirmar se era ele.


…É mesmo.


O garoto nem percebeu que ela estava ali enquanto corria.


Aiz observou suas costas se afastarem na distância.


Não havia dúvida.


Era o garoto que ela havia salvado do Minotauro.


Ele derrotou… um Silverback…?


Ele era fraco.


Talvez seu companheiro tivesse exagerado um pouco, mas aquele garoto era um aventureiro desajeitado e inexperiente.


O garoto de quem ela se lembrava nunca teria conseguido derrotar um Silverback.


— …Parabéns.


A palavra saiu de seus lábios antes mesmo que ela percebesse.


Mas ela queria parabenizar o garoto que havia saído do bar humilhado e chorando… pelo crescimento incrível que havia mostrado.


— ……


Ela não estava particularmente interessada no truque que ele havia usado para derrotar o monstro.


Mesmo assim…


Decidiu que, por enquanto, deveria procurá-lo pelo menos uma vez para pedir desculpas.


Click.


Uma porta se fechou.


Bell correu até a garota que havia acabado de sair do quarto.


Syr.


— S-Syr! Como ela está? Como está a deusa?


— Ela está bem. Só está exausta.


— Exausta… então isso quer dizer que…?


— Sim. Ela vai ficar bem.


Do lado de fora da janela…


o sol já estava se pondo.


Bell estava no segundo andar do The Benevolent Mistress.


Depois de atravessar correndo a multidão na East Main, ele acabou encontrando Syr Flova por acaso.


Ela sugeriu levar a Hestia, que estava inconsciente, para o bar.


As pessoas já começavam a se acalmar depois da turbulenta Monsterphilia.


Os danos haviam sido mínimos graças à rápida resposta da Ganesha Familia e da Guild.


Não houve feridos — muito menos mortos — entre os visitantes do festival.


Na verdade, Bell Cranel foi o único que saiu machucado naquela tarde.


O responsável pelo incidente ainda não havia sido encontrado, e também não existiam pistas.


Isso porque todos os membros da Ganesha Familia e da Guild que haviam sido atacados não lembravam de absolutamente nada — como se tivessem sido enfeitiçados por uma maldição de bruxa.


O caso acabou sendo encerrado sem que se soubesse o que o culpado queria.


O segundo andar do The Benevolent Mistress estava silencioso, bem longe do bar movimentado lá embaixo.


Hestia descansava em um quarto enquanto Syr e Bell conversavam no corredor.


O sol poente entrava pela janela voltada para o oeste, tingindo o corredor de madeira com uma luz avermelhada.


— Ainda bem… Ela só desmaiou. Eu não sabia o que fazer…


— Hmm… você foi muito bem hoje, Bell.


Ela sorriu para o garoto, que parecia completamente exausto, e começou a falar timidamente.


— Eu sinto muito pelo que aconteceu hoje. Se eu não tivesse esquecido minha carteira, você não teria se metido naquela confusão…


— Do que você está falando? Não foi culpa sua!


Syr parecia extremamente arrependida enquanto Bell tentava tranquilizá-la repetidas vezes.


Depois de alguns momentos, a expressão dela finalmente relaxou.


Bell também se sentiu aliviado.


— Mas hoje muitas pessoas estavam falando sobre você. Sobre como aquele aventureiro foi corajoso… sobre como você foi corajoso.


— Ehhh…


— Eu também acho. Na verdade, eu vi você lutando contra o Silverback na rua principal por um momento…


— Eu não fui tão corajoso assim… Eu só fiquei fugindo o tempo todo, e nem conseguia machucar ele…


Bell juntou as palavras de forma meio desajeitada.


Ele não sabia como reagir aos elogios gentis dela, então apenas sorriu sem graça e deu de ombros.


Syr deu uma risadinha ao ver a expressão dele, seus cabelos cinza-claro balançando.


— Mesmo assim… você parecia incrível.


— Hã?


— …Talvez eu não devesse dizer isso, mas… quando vi você enfrentando aquele monstro… eu me apaixonei por você naquele momento.


Ela sussurrou isso perto do ouvido dele, escondendo a boca com a mão.


Os olhos de Bell se arregalaram.


Syr deu um passo para trás, o rosto tingido de vermelho pela luz do entardecer.


Um sorriso lindo floresceu em seus lábios.


— Fui chamada para ajudar no bar, então vou me retirar agora.


— Eh… ah… certo…


— Não se preocupe com a cama, ela pode usar. Então, Bell… até a próxima.


Toc. Toc. Toc.


Bell ficou parado, sem palavras, enquanto observava Syr caminhar até o fim do corredor e descer as escadas.


Ele coçou a cabeça.


— Ela… estava brincando comigo?


Os olhos dela tinham parecido um pouco travessos, como se estivesse fazendo uma brincadeira cruel… ou talvez fosse só a luz do sol.


Ele não sabia no que acreditar.


Bell fez o possível para acalmar as próprias bochechas antes de caminhar até o quarto onde Hestia estava dormindo.


Talvez seja melhor deixá-la descansar…, pensou, olhando para a placa com o número na porta.


THUMP!


Um barulho de algo caindo no chão chegou aos seus ouvidos no instante seguinte.


— ?!


Bell abriu a porta de repente.


Encontrou Hestia caída no chão, como se tivesse rolado da cama e despencado direto no piso.


Ela estava de bruços em uma posição bastante cômica e nada elegante.


Bell gritou enquanto corria até ela.


Ajoelhou-se ao lado dela, segurou-a pelos ombros e a ergueu.


— D-Deusa! Deusa?! O que aconteceu?! Você está bem?!


— Ah… Bell… não foi nada… Eu tentei levantar, mas… não tive forças…


— Sem forças…? Ouvi dizer que você estava exausta. O que você fez nesses últimos três dias?


Os olhos da deusa desviaram.


— Dogeza.


— Do… ge… za??


— Eu fiz dogeza diante de uma deusa teimosa que se recusava a balançar a cabeça dizendo “sim” durante trinta horas em uma disputa de resistência…


— T-Trinta horas?! O que é dogeza?! Algum tipo de tortura?!


— Não. Uma técnica. A técnica suprema entre todas as técnicas.


Hestia continuava murmurando “técnica” repetidamente, sem fazer muito sentido.


Bell começou a suar frio.


— Mas por quê, Deusa…? Você não disse que ia a uma festa?!


— …Isso.


— Hã?


A mão trêmula de Hestia foi até as costas de Bell e puxou a faca negra presa em seu cinto.


Foi nesse momento que Bell percebeu que não fazia ideia do que era aquela arma ou de onde ela havia vindo.


Ele ia perguntar, mas ficou sem palavras antes de conseguir.


Seus olhos encontraram o hieróglifo Hφαιστος gravado no canto da bainha.


— Hephaistos.


Mesmo sem saber ler, aquele era um símbolo que ele reconhecia.


Era o mesmo emblema que ficava acima da loja de armas da Hephaistos Familia, um lugar com o qual ele achava que nunca teria qualquer ligação.


— Deusa… isso não é…?


— Desculpa por te preocupar… Mas eu não podia simplesmente ficar olhando de fora.


Ser sustentada… ser salva o tempo todo…


Eu simplesmente não aguentava mais.


Bell segurou o cabo da arma com mãos trêmulas enquanto Hestia retirava a bainha.


Ele olhou novamente para a lâmina negra.


O fio era perfeitamente reto.


Bastava olhar para perceber que aquela arma era muito mais poderosa do que a que ele costumava usar.


Será que todas aquelas marcas detalhadas gravadas nela eram hieróglifos?


A arma inteira tinha a mesma cor que o cabelo de Hestia.


A lâmina emitia um brilho roxo profundo na mão de Bell.


Era como um bebê respirando tranquilamente nos braços do pai.


— Eu sabia.


— Você vive indo até a loja da Hephaistos e ficando parado, olhando aquela vitrine.


— Talvez não seja exatamente a arma que você queria… mas essa é única no mundo.


— Legal, né?


— Bem… é, mas… as armas da Hephaistos são caríssimas! E o dinheiro?!


— Não se preocupe. Já está tudo resolvido.


A voz de Hestia saiu fraca, quase sem força.


Seus olhos estavam turvos.


Ela olhou para Bell com um rosto cansado, exausto… mas ainda assim abriu um sorriso suave.


— Você quer ficar mais forte, não quer?


— !


— Eu disse que iria te ajudar, não disse?


— Pelo menos… deixe-me fazer isso por você.


— Hhh… ehhh…


— Eu quero te ajudar mais do que qualquer coisa… mais do que qualquer pessoa…


— Porque eu amo você.


— …!


Lágrimas começaram a cair sem parar dos olhos de Bell.


As bochechas de Hestia ficaram levemente coradas enquanto ela sorria de orelha a orelha.


— Pode contar comigo sempre que quiser. Afinal… eu sou a sua deusa.


Bell já tinha chegado ao seu limite.


Ele puxou Hestia para junto do peito, o rosto encharcado de lágrimas.


— Deusa!!


Bell apertou aquele pequeno corpo contra si, do mesmo jeito que uma criança abraça um ursinho de pelúcia.


— Ei, ei… a faca ainda está desembainhada. Isso é perigoso, sabia?


O calor contra o peito dele era intenso.


Mesmo dizendo aquilo, ela passou os braços pelas costas de Bell.


Encostou a cabeça no pescoço dele e começou a deslizar os dedos pelos seus cabelos brancos como a neve.


O som de seus soluços e fungadas enchia seus ouvidos.


Ele não escondia nada.


Estava mostrando suas emoções por completo.


E Hestia sentiu que aquele garoto chorando a amava mais do que qualquer outra pessoa.


Ahhh… estou tão, tão feliz…


Na verdade, Hestia não era lá muito romântica.


Ela só estava tentando parecer forte diante do garoto.


Mas não havia problema em fingir um pouco… desde que fosse por ele.


Esses pensamentos passaram pela mente de Hestia enquanto ela permanecia feliz nos braços de Bell.


Isto é amor verdadeiro. Somos perfeitos um para o outro.


No último instante, porém…


Hestia entendeu tudo muito, muito errado.


FACA DE HESTIA


• Empréstimo de trinta anos — 420 parcelas.


• Uma promessa feita através de trabalho forçado na filial de Babel da Familia Hephaistos. O resultado das compras exageradas de Hestia.


• “Uma lâmina de alta qualidade para aventureiros iniciantes”, criada pela própria Hephaistos após muita consideração.


• Cabelo de Hestia, sangue divino — “Ichor” — e hieróglifos foram usados em sua criação. A faca possui um status próprio.


• Ela ganha experiência junto com seu usuário e evolui com ele. A arma está viva.


• Apenas alguém abençoado por Hestia pode usá-la. Nas mãos de qualquer outra pessoa, torna-se inútil.


• Quando seu usuário se tornar “o melhor”, a arma também se tornará. Hephaistos a classificou como “ruim para os negócios”.

<< Anterior

Índice

Próximo >>

Google Sites
Report abuse
Page details
Page updated
Google Sites
Report abuse