Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 1 – Capítulo 5
A Pegadinha da Deusa
— Byooua!
— !
Essas garras passaram longe. Eu só vi elas cortando o ar bem na frente do meu rosto.
Estou de volta aos corredores azulados da masmorra. Esse goblin é tão barulhento que o eco dos gritos dele me diz exatamente onde está, mesmo quando não olho.
Consigo ver nos olhos dele.
Está frustrado.
Vai tentar de novo.
Um ataque — errou.
Dois — errou.
Três — outro golpe… também errou.
Esquerda, direita… diagonal!
Agora vem um ataque lateral. Dou um passo para trás e ele acerta apenas o ar.
Enquanto eu mantiver os olhos abertos e o chão tiver corredores largos como esses, posso continuar desviando assim o dia inteiro.
Aqui dentro é surpreendentemente úmido, porém.
Já estou encharcado de suor.
Esse goblin é mesmo persistente. Continua vindo atrás de mim, balançando aqueles bracinhos curtos. Mantenho os meus levantados e fora do caminho, deixando o resto do corpo girar para escapar dos ataques.
Minha perna ainda não está cem por cento, mas ainda sou mais do que capaz de dançar com ele.
— Gigiiiin… Jya!!!!
— !
Acho que vi alguma coisa.
Não o goblin — ele está ali, sacudindo o punho de frustração.
Acima!
Tem uma sombra grudada na parede!
— Gega!
Ela salta diante dos pontinhos de luz, projetando uma grande sombra.
Ataque vindo!
— Naaaah!
Eu rolo para trás bem a tempo de evitar o ataque surpresa.
Minha visão ainda está um pouco turva — sangue demais subindo para a cabeça…
Parece ter quatro patas… algum tipo de lagarto, talvez?
Pele marrom escamosa, língua entrando e saindo da boca — sim, é um lagarto.
Incluindo a cauda, deve ser quase do meu tamanho.
Um Lagarto da Masmorra.
Ele aparece nos níveis mais baixos, do segundo ao quarto. É da mesma classe que goblins e kobolds.
— …Ha!
A oportunidade que eu estava esperando!
O goblin pode esperar.
Tenho que acabar com esse primeiro.
Ele tem discos de sucção nas patas. Se eu não acabar com ele agora, vai escalar a parede de novo e preparar outro ataque.
Se escapar…
Ah, que saco.
O goblin salta para atacar de novo.
Desvio para o lado.
Cuido de você daqui a pouco.
Primeiro preciso me vingar desse lagarto pelo ataque furtivo.
Hora de ir!
— YAAHHH!!!
— Guge—?!
O Lagarto da Masmorra deve ter sentido minha lâmina.
Ele correu direto para a parede.
Mas eu sou mais rápido.
Passo a adaga para a outra mão, salto para frente — agora!
Afundo a lâmina profundamente nas costas do lagarto.
Ele solta um uivo de dor, os membros se debatendo.
Será que acertei o fragmento de pedra mágica…?
Hehe… parece que acabei fazendo um espetinho de lagarto.
Em seu último suspiro, ele arqueia o corpo para trás, tentando morder meu rosto.
Nem chega perto.
Um segundo depois, cai mole no chão.
O corpo ainda está aqui.
A pedra mágica também!
— Gyaiiiii!!!!
Ah, é mesmo.
O goblin ainda está aqui.
Tiro minha adaga do corpo do Lagarto da Masmorra, assumo uma boa postura defensiva…
Já sei o que fazer.
Desprendo minha mochila do braço e a arremesso direto no goblin que vem correndo.
— ?!
Arremessar bagagem… nada mal.
O goblin arregala os olhos. Nunca viu isso chegando.
O tempo parece desacelerar enquanto vejo minha mochila cortar o ar e acertar bem no rosto dele.
— Hege!
O impacto ecoa pelo corredor.
O goblin voa para trás como um inseto sendo estalado para longe.
Minha Força já chegou a um ponto em que não só consigo carregar itens mais pesados da masmorra, como também usar a própria mochila como arma contra monstros de nível baixo.
Ele ainda está rolando pelo chão como uma bola de neve, agarrado à minha bolsa.
— …Guuuu.
Crack!
Ai… esse estalo parece ter doído.
Ele parou de rolar, mas o corpo ainda está tremendo…
E agora não está se mexendo mais.
Não baixe a guarda ainda, Bell…
Isso.
Está morto.
Respiro fundo e relaxo os ombros.
Por enquanto, a batalha acabou.
Sacudo o sangue de lagarto da adaga e a guardo na bainha.
— …Certo.
Estico um pouco os braços e as pernas.
O joelho não está tão ruim.
Finalmente recuperei toda a mobilidade — ainda arde um pouco, mas nada demais.
Não quero forçar mais do que o necessário.
Ainda bem.
Isso quer dizer que estou ficando mais forte, certo?
Quero dizer… estou na parte inferior do quarto nível. E limpei os monstros dessa área também.
Pensando agora, aquela última luta foi muito boa.
Não tive dificuldade em derrotar o Lagarto da Masmorra e o goblin, mesmo sendo dois contra um.
Até poupei minha perna boa e ainda assim desviei de todos os ataques com facilidade.
Só isso já prova.
Estou ficando mais forte.
Assim como a deusa disse, estou melhorando muito rápido.
…Mas será que estou alcançando a Srta. Wallenstein?
Do fundo da minha alma, eu realmente espero que sim.
Ela é Nível Cinco, mas além disso não tenho ideia do quão forte ela é.
Existe uma chama dentro de mim que me faz continuar.
Ela diz que eu consigo chegar lá.
Mas por hoje já chega.
Preciso pegar as pedras mágicas do Lagarto da Masmorra e do goblin.
Também posso ser atacado no caminho de volta.
Não posso esquecer disso.
Hoje já fiz três viagens para trocar fragmentos por dinheiro. Minha mochila ficou pesada demais para continuar.
Hora de começar a quarta.
O caminho da parte inferior do quarto nível até o primeiro nível já está gravado na minha memória.
Muitas curvas, desvios e três escadarias separam a entrada da masmorra de mim.
Encontro alguns kobolds e goblins no caminho, mas nada preocupante.
Já deve ser fim de tarde.
O céu lá fora provavelmente está ficando laranja.
Começo a ver outros aventureiros quando chego à metade do primeiro nível.
Como só existe uma entrada e saída, já me acostumei a ver alguns no caminho de volta.
Olha aquelas armaduras!
São incríveis!
Aquela elfa… a armadura dela é tão elegante.
E aquele anão… a armadura dele parece uma fortaleza ambulante.
E eu aqui…
Com esse meu “traje” ridículo…
Aaaah…
Melhor passar por aqui o mais rápido possível.
Por favor, não reparem em mim…
Será que a deusa volta hoje?
Ela saiu para uma festa de uma amiga há dois dias.
Disse que ficaria fora por alguns dias, então não estou tão preocupado… mas ainda assim.
Provavelmente eu sinto mais falta dela do que ela de mim.
O que será que ela está fazendo agora…?
Ah, quase lá.
Um longo e largo túnel conecta a parte superior da Masmorra com o mundo exterior. Muita gente chama esse lugar de Estrada do Começo.
No início do caminho há um grande buraco no teto.
Infelizmente, ainda preciso subir uns dez metros de uma escada em espiral para sair daqui. O buraco também tem mais ou menos dez metros de diâmetro — é basicamente um enorme tubo.
Eu me junto a inúmeros grupos de aventureiros que sobem a escada prateada em espiral.
Depois dos últimos degraus, tudo muda.
As paredes parecem feitas por mãos humanas… até o cheiro é diferente, mais fresco.
Este é o subsolo da torre branca Babel.
A sala é como uma roda gigante deitada de lado, só que sem os raios. Sério — milhares de aventureiros poderiam estar aqui e ainda haveria espaço de sobra.
É difícil acreditar que estou exatamente acima do lugar mais perigoso do mundo.
Os monstros estão logo abaixo de mim.
Talvez seja por isso que esse lugar parece um grande santuário. Se alguém me dissesse que isso aqui foi feito para servir de altar em cerimônias para honrar os deuses, eu acreditaria.
As paredes misturam tons de azul e branco. Espalhadas por elas há placas de pedra com nomes gravados.
Provavelmente aventureiros de tempos antigos.
Há também muitos pilares grossos e altos espalhados por todo lado. São tantos que nem consigo contar.
No teto do salão há um enorme mural que cobre tudo de ponta a ponta.
É a pintura mais delicada e tranquilizadora de um céu que já vi.
A partir daqui estou completamente seguro.
Consigo sentir a adrenalina deixando meu corpo.
Infelizmente… era ela que estava segurando a dor dos meus ferimentos.
Hoje à noite vai doer…
…Hã?
O que é aquilo?
Todos os aventureiros e apoiadores estão abrindo caminho…
O que está vindo?
Aquilo não é uma caixa de carga…?
É enorme — várias pessoas caberiam lá dentro.
Tem rodas e um longo puxador na frente.
Tem outra!
Na verdade, é uma fila inteira delas!
Não são usadas quando grupos fazem expedições para os andares mais profundos?
Imagino que sejam úteis para carregar comida e suprimentos. Demora muito para voltar à superfície.
…Aquilo acabou de se mexer?!?
Eu ouvi!
A adrenalina voltou com tudo…
Calma… calma.
Vamos observar primeiro.
Talvez eu esteja imaginando coisas…
Mexeu de novo!
Tem algo vivo lá dentro tentando sair.
Será que devo ir dar uma olhada?
Mas espere…
E se…
Essa caixa de carga parece mais uma jaula.
E por que alguém traria uma jaula que se mexe?
A menos que…
Tem um monstro dentro?!
Ouço um rosnado baixo vindo de dentro da caixa.
Tem que ser um monstro.
Mas… um monstro pode estar… aqui?!
A Guilda administra essa torre.
Eles controlam a “tampa” da Masmorra.
Nos tempos antigos, os monstros emergiam quase todos os dias — imagino o caos que isso devia causar.
Foi por isso que essa torre foi construída: para mantê-los lá embaixo.
Ela é como uma torre de vigilância.
Hoje em dia, os aventureiros têm Falna, então somos nós que descemos para caçá-los.
Mas ainda assim eles podem vir em ondas.
Já ouvi dizer que a Guilda é extremamente rigorosa quando se trata da torre, que é sua base.
Eles fazem de tudo para nos manter seguros.
Então jamais permitiriam que alguém trouxesse um monstro para fora da Masmorra.
Monstros não deveriam estar aqui. Nunca.
Outra caixa de carga está subindo pela escada em espiral!
Isso é loucura!
O que eu faço?
O que está acontecendo?
— Eles estão fazendo isso de novo este ano?
— Monsterphilia, claro.
— Qual é o sentido disso? Surpreende que as pessoas ainda não tenham se cansado.
— Um espetáculo anual… inútil.
— A Familia Ganesha investe pesado nisso. Até a Guilda coopera todos os anos.
— Parece bem a cara do Ganesha, não acha?
Essas vozes na multidão…
Eles não parecem assustados.
Parecem… entediados?
Monsterphilia…
Então os monstros que estão trazendo para cima, um após o outro, têm algo a ver com esse festival?
Todas as pessoas puxando as caixas de carga usam um emblema com uma cabeça de elefante.
Parece que não sou o único curioso — todo mundo está olhando para eles.
Espera um pouco…
Aquela não é a Eina?
Cabelo castanho na altura dos ombros… orelhas pontudas…
Sim.
É minha chefe ali.
Sem dúvida nenhuma.
Ela parece muito séria.
Ah, outro funcionário da Guilda.
Devem estar discutindo para onde esses monstros precisam ser levados.
Ela deve estar trabalhando.
Até tem papéis na mão.
Melhor não incomodá-la.
Se aquele cara estava certo, a Guilda está supervisionando essas caixas de carga.
O fato de funcionários da Guilda como a Eina estarem aqui prova que algo está acontecendo — mas está tudo sob controle.
Tenho tantas coisas que queria perguntar…
Mas vou esperar outra oportunidade.
Ela vai ficar brava comigo se eu atrapalhar.
Também não quero perguntar para outras pessoas por aqui.
Provavelmente só vão rir de mim por não saber.
Melhor ir embora.
Posso descobrir depois.
Além disso… devo estar fedendo horrivelmente.
Minhas roupas ainda estão encharcadas de suor.
Lanço um último olhar na direção da Eina e sigo pela escada em direção aos chuveiros.
— Obrigado pelo seu trabalho hoje.
Uma recepcionista da Guilda se despediu de mim quando saí.
Depois do banho, fui até a sede da Guilda trocar minhas pedras mágicas e itens coletados por dinheiro.
Sabia que a Eina não estava lá, então entrei e saí o mais rápido possível.
— O sol já está se pondo…
O céu da tarde está cheio de tons dourados e vermelhos.
Pensando bem, visto de frente, o prédio da Guilda parece muito com o subsolo da Torre Babel.
Assim que dou um passo para fora da porta, o barulho da Rua Principal já me envolve.
Passo pelo monumento no gramado da frente, atravesso o portão principal…
…e entro na multidão que já se reuniu do lado de fora.
Hoje à noite há uma grande mistura de raças caminhando pela Rua Principal.
Na verdade, existem oito Ruas Principais em Orario. Todas começam na Torre Babel e seguem até os muros da cidade.
Eu gosto de imaginar a cidade como um grande bolo dividido em oito fatias.
Cada Rua Principal recebe o nome da direção em que segue a partir da Torre Babel, como Rua Principal Norte ou Rua Principal Sudeste.
A deusa e eu moramos sob uma igreja entre a Rua Principal Noroeste e a Rua Principal Oeste.
O Benevolent Mistress, onde a Syr trabalha, também fica na Rua Principal Oeste.
A sede da Guilda também está aqui, então a maioria das pessoas nessa rua são aventureiros.
Aventureiros e seus apoiadores precisam da Guilda para muitas coisas — papelada, troca de itens, registros e tudo mais. Eu mesmo passo por lá algumas vezes por dia; tenho certeza de que a maioria das outras pessoas vai pelo menos uma vez.
De todas as Ruas Principais, a Rua Principal Oeste é, de longe, a que tem mais aventureiros.
Por isso, existe uma grande disputa entre lojas e bares para conseguir um espaço nessa rua. Aventureiros precisam de suprimentos e de um bom lugar para relaxar — e eles têm dinheiro.
A rua é cheia de lojas de armas, lojas de armaduras, lojas de itens e muitos bares.
Os lugares que ficam fora da Rua Principal são um pouco suspeitos, mas nunca se sabe o que se pode encontrar neles. Também existem alguns hotéis espalhados por ali.
Aventureiros entram e saem das lojas por todos os lados.
Tenho um tempo sobrando… vamos ver o que tem por aqui.
A deusa não está em casa mesmo, então não há pressa.
— Hm? Oh, se não é o Bell?
— Ah! Que bom vê-lo novamente!
Uma pessoa que vinha andando pela estrada de pedra me chamou.
Alto, com um queixo firme e nariz bem definido, o jovem tem uma aparência quase real.
Mesmo usando um simples manto cinza, sua presença é diferente da de um humano ou demi-humano.
Sua perfeição absoluta o destaca de todos na rua.
Qualquer um perceberia na hora que ele é um deus.
Ele é o único deus que conheço pessoalmente — além da Hestia, claro.
Seu nome é Miaha.
Melhor me curvar e cumprimentá-lo direito.
— Olá, Miaha. Saiu para fazer compras?
— Sim. Estou pegando algumas coisas para o jantar de hoje. E você, o que está fazendo?
— Só estou olhando as vitrines… não tenho dinheiro, então estou apenas dando uma olhada.
— Ha-hamm, eu entendo. Em uma Familia pequena, todos precisam trabalhar duro — até o próprio deus.
Ele sorri para mim por cima de duas grandes sacolas de papel, uma em cada mão.
O sorriso dele é muito tranquilo; ele é um deus bastante alegre.
Com aquele cabelo azul como o oceano, ele é um homem bem bonito.
Tenho que admitir isso.
Todos os deuses parecem diferentes — alguns muito jovens, outros quase de meia-idade — mas uma coisa que todos têm em comum é um rosto absolutamente perfeito.
Muitos de nós ficamos com inveja deles por causa disso.
Eu também… um pouquinho.
O sorriso largo dele é contagiante, assim como o da Hestia.
Espera!
Talvez ele saiba algo sobre ela.
— Posso fazer uma pergunta, Miaha? Você sabe onde a Hestia está agora? Ela foi para a festa de uma amiga há dois dias e ainda não voltou.
— Hestia… hmm… não, sinto muito. Também não a vi. Acho que não posso ajudar muito.
— Tudo bem. Por favor, não se preocupe com isso.
Um deus… pedindo desculpas… para mim?
E ainda abaixou a cabeça!
Não, não, não!
Cabeça baixa também!
— Dois dias atrás… provavelmente foi a Celebração de Ganesha. Infelizmente, eu mesmo não pude comparecer ao evento. Se tivesse ido, talvez pudesse dizer algo mais.
— Miaha, você não foi convidado?
— Ah, não. Eu recebi um convite. Mas minha Familia está com dificuldades financeiras no momento. Não posso deixá-los sozinhos em uma época tão difícil. Não seria certo. Estive trabalhando duro criando um novo composto. Além disso, não tenho tempo para ir a festas de bebida.
Para ser sincero, a Familia dele é muito parecida com a minha — lutando para sobreviver.
Metade da razão pela qual conheço o Miaha é justamente essa.
Nós dois fazemos parte de Familias do fundo do poço.
— Bell, gostaria que você ficasse com isso. É uma amostra do que eu estava preparando naquela noite.
— Sério?! Tem certeza?!
Transferindo as duas sacolas para um braço só, ele casualmente enfia a mão na dobra do manto e tira dois pequenos tubos de ensaio cheios de um líquido azul-escuro, entregando-os para mim como se não fosse nada. Eu os pego quase por reflexo.
A poção espessa balança lentamente dentro do frasco. Parece melaço de oceano profundo.
— Miaha, tem certeza de que isso está tudo bem?
— O que há de errado em dar um pouco de açúcar a um vizinho? Não é problema nenhum.
Ele ignora minha confusão e solta uma gargalhada animada.
Ele bate no meu ombro com a mão livre e dá um passo para o lado.
— Bem, espero vê-lo novamente muito em breve na loja da minha Familia, Bell.
Ele acena mais uma vez antes de se virar e continuar seu caminho.
Isso realmente acabou de acontecer? Estou tão feliz! Lá vai ele, entrando na multidão. Faço mais uma reverência como despedida.
Essas poções recuperam força física. Tenho certeza de que serão úteis. Agora, onde colocá-las…? Ah! Meu coldre de perna serve. Pronto.
A Familia de Miaha fabrica itens como esses. A loja deles é bem pequena, mas são um grupo muito especializado.
Não sei muito sobre o que acontece nos bastidores, mas sei que cada Familia nesse ramo tem sua própria receita. Elas estão sempre procurando novas maneiras de ganhar vantagem sobre a concorrência. Eu gosto das poções da Familia Miaha. Vou lá quando tenho dinheiro suficiente para comprar uma.
A Familia dele é um bom exemplo, mas há muitas outras fazendo a mesma coisa com itens e armas diferentes.
Algumas Familias produzem itens, enquanto outras são cheias de ferreiros que fabricam armaduras e armas. Já ouvi falar até de uma que traz peixe fresco do oceano. No começo, eu pensava que as Familias eram apenas grupos de aventureiros, mas nem sempre é assim.
Deuses precisam ganhar a vida. Como fazem isso depende completamente deles.
O deus escolhe exatamente o que sua Familia vai fazer. Essa decisão, por sua vez, afeta o mercado em que eles entram. “A comida de Gekai é deliciosa, então vou abrir um restaurante!” Algo assim. Eles poderiam até fundar seu próprio país. Podem fazer quase qualquer coisa.
Mas a competição entre membros dentro de uma Familia e entre diferentes Familias também é muito forte. Brigas costumam acontecer. Sem alguns aventureiros fortes para manter a ordem, uma Familia pode desmoronar. Pode até nem chegar a se estabelecer. Familias precisam de líderes fortes, e os aventureiros cumprem muito bem esse papel.
Tornar-me um aventureiro foi perfeito para mim, porque é uma boa forma de ganhar dinheiro. Certo, certo, eu também tinha algumas razões mais românticas para querer ser um. Mas não fui treinado para fazer mais nada.
Aqui estou eu, andando pela esquerda da Rua Principal, pensando em como seria trabalhar em uma dessas lojas… Ha-ha, acho que não.
“……”
Estou chegando perto das boas lojas de armas agora. Há alguns aventureiros com aparência realmente forte por aqui hoje. Ah! É ali!
A loja de armas à minha frente é duas vezes maior que as vizinhas.
E não só isso: ela é pintada para parecer um inferno em chamas. É impossível não notar esse lugar.
Há uma placa de aparência estranha acima de algumas portas extremamente grossas.
“Hφαιστος”
Não consigo ler aqueles caracteres, mas sei o que significam. É o logotipo usado por uma Familia de ferreiros famosa no mundo inteiro.
Acho que ninguém está me observando… Vamos dar uma espiada na vitrine.
Uma placa de vidro transparente me separa de todo tipo de objetos afiados e brilhantes. Ah, sim, eles fazem armas — e armas boas. Aquela tem uma lâmina verde-esmeralda! Aquelas espadas gêmeas são incríveis! O alcance daquela buster sword… é enorme! Tem até um florete incrustado com placas de ouro!
Ohhhhh, ali está!
Essa vitrine é genial. A ponta da lâmina branca da adaga está cravada no centro de uma caixa parecida com um baú do tesouro. Lâmpadas de pedra mágica a iluminam de cima para baixo. É como se a própria adaga fosse o tesouro… e eu tivesse acabado de encontrá-la.
Seu fio perfeitamente afiado parece tão potente quanto a garra da qual foi forjada. Não só a lâmina é uma coisa linda, como também parece tão poderosa quanto as espadas mais longas em exibição.
Tem muitos zeros nessa etiqueta de preço…
Eu ficaria tão incrível com isso…
É meio triste admitir, mas já faz um tempo que passo por essa vitrine no caminho para casa. Só para olhar essa obra de arte.
É uma arma de primeira classe usada por aventureiros comuns.
Eu sei, sou um aventureiro quebrado usando uma arma comprada com dinheiro emprestado da Guilda, mas eu queria tocar naquela. Só uma vez, só para ver como é.
… Eu quero muito.
Tenho certeza de que outros aventureiros ririam e diriam: “Sim, nos seus sonhos!” se eu contasse que quero essa adaga.
Se eu continuar tentando alcançar a Srta. Wallenstein, talvez chegue o dia em que poderei segurar essa arma incrível.
Com essa adaga na minha mão, eu seria imparável. Golpe aqui, corte ali, monstros caindo como moscas.
Já estou encarando o vidro há tanto tempo que é um milagre ele não ter começado a derreter…
— Até quando você pretende ficar fazendo isso?
“……”
Enquanto Bell babava por uma arma em exibição no primeiro andar da loja de armas, uma deusa ruiva extremamente irritada estava sentada atrás de uma mesa no terceiro andar, acima dele.
Hephaistos, vestida com o uniforme de sua Familia, já tinha tido o suficiente. Sua frustração transparecia em cada sílaba de suas palavras.
A fonte de sua irritação estava do outro lado da mesa: uma deusa de joelhos, com o rosto pressionado contra o chão. Não era outra senão Hestia.
Elas estavam no terceiro andar da loja principal da Familia Hephaistos, localizada na Rua Principal Noroeste.
A loja era a base de operações da marca mundialmente famosa da sua Familia. O terceiro andar era dedicado à administração e, naquele momento, estava carregado de tensão.
— Você percebe que eu estou muito ocupada?
“……”
— Você pode estar muito quieta, mas eu não consigo me concentrar na papelada com você aí. Não entende?
“……”
— Hestia?
“……”
— …haa…
Hephaistos só pôde suspirar ao olhar para o monte de deusa no chão, sua amiga que não havia se movido daquela posição.
Por um dia inteiro.
Esse foi o tempo que Hestia manteve a cabeça abaixada, colada às tábuas do piso.
Na noite da Celebração, Hestia havia pedido que ela mandasse sua Familia fazer uma arma para um de seus membros. Hephaistos recusou imediatamente.
Mesmo sem se gabar disso, os ferreiros da Familia Hephaistos eram conhecidos como os melhores do ramo. Ela tinha uma reputação a manter. Aventureiros e Familias comuns não tinham recursos para comprar suas armas.
Pedir que seus ferreiros fabricassem uma arma apenas para uma amiga estava fora de questão. Solicitar o suor e o sangue de seus ferreiros nessas condições seria um abuso de poder. Completamente tabu.
Hephaistos havia dito muitas vezes a Hestia, da forma mais direta possível, para voltar com dinheiro se quisesse fazer um pedido personalizado.
No entanto, Hestia não desistiu e continuou pedindo. Cada vez que pedia, sua cabeça se curvava um pouco mais. Ela estava sendo persistente desde o início da Celebração, e Hephaistos já estava no limite.
Hestia não mostrava sinais de desistir — nem mesmo de levantar a cabeça.
Hephaistos disse para ela fazer o que quisesse e voltou para a base de sua Familia. Planejava simplesmente ignorá-la até que desistisse. Em algum momento Hestia ficaria com fome e iria para casa.
Isso foi há dois dias.
Hestia ainda estava implorando.
Por que ela está fazendo isso…?
Hephaistos olhou para ela com um olhar questionador.
Ela não conseguia entender o que levava Hestia a manter aquela posição, mesmo enquanto Hephaistos tentava dormir. Foi um grande susto quando acordou. Quase caiu da cama.
Hestia já havia pedido muitas coisas antes, mas desta vez era diferente.
A forte determinação dela — sua obsessão — estava evidente.
— Que pose é essa, afinal? Você está fazendo isso desde ontem.
— … Dogeza.
— Do-ge-za?
— Také me disse que essa pose tem o poder de fazer as pessoas perdoarem qualquer coisa que você tenha feito e conceder qualquer pedido.
— Také…?
— Takemikazuchi…
— Aaa… — disse Hephaistos, enquanto o rosto do deus em questão surgia em sua mente. Ela sabia que, se Hestia estava seguindo o conselho dele, aquilo poderia virar um grande problema.
Não aguento mais isso…
Hephaistos suspirou. Não conseguia se concentrar na papelada. Então colocou a pena de escrever ao lado da mesa e empilhou os documentos que ainda precisavam de sua assinatura.
O sol projetava longas sombras douradas pelo quarto. A noite estava quase chegando.
Hephaistos olhou pela janela antes de endireitar sua postura sempre perfeita. Respirando fundo, lançou o olhar para a parte de trás da cabeça de Hestia.
— … Hestia, me diga. Por que você está indo tão longe assim?
Seu dedo arranhou levemente o tapa-olho enquanto ela fazia a pergunta.
— …Porque eu quero ajudá-lo!
Hestia não levantou a cabeça, apenas ergueu a voz o suficiente para ser claramente ouvida.
— Ele está mudando, e rapidamente. Ele — Bell — tem um objetivo, e escolheu seguir o caminho mais difícil. É um caminho perigoso, por isso eu quero ajudá-lo! Quero dar a ele a força de que precisa! Uma arma que abra caminho para ele!
Hestia continuou falando com o rosto colado ao chão, sem nunca olhar para cima.
Uma deusa pedindo ajuda a outra deusa. Hestia precisava revelar suas verdadeiras intenções. Era impossível esconder qualquer coisa de um deus.
Ela expôs todo o seu ser na tentativa de convencer Hephaistos a mudar de ideia.
— Ele sempre me ajuda! Parece que eu estou vivendo às custas do esforço dele! Eu sou a deusa dele, mas não fiz nada de divino por ele!
O corpo inteiro de Hestia se tensionou enquanto ela forçava as próximas palavras:
— …Eu odeio ser inútil…
Sua voz era fraca, mas foi suficiente para alcançar os ouvidos de Hephaistos.
Naquele momento, a sinceridade nas palavras de Hestia a convenceu a agir.
— …Tudo bem. Uma arma será feita para esse… garoto.
Os olhos de Hestia se arregalaram quando sua cabeça se levantou de repente. Hephaistos deu de ombros.
— Se eu não dissesse sim, você nunca se moveria daí.
— …Sim! Muito obrigada, Hephaistos!
Hestia tentou pular de pé, mas depois de passar um dia inteiro de rosto no chão, seus membros não estavam prontos. Ela caiu de volta de joelhos, com um sorriso inocente no rosto. Hephaistos suspirou novamente, mas desta vez foi um suspiro leve.
Ela sabia que estava sendo gentil demais com ela, mas Hephaistos via uma mudança em Hestia. Não sentia nenhuma animosidade em ajudá-la assim.
Pelo menos Hestia não estava mais trancada em um quarto na loja dela. Pensar na diferença entre aqueles dias e agora a fez sorrir, apesar de si mesma.
— Mas deixe-me dizer uma coisa: você vai me pagar cada único val, entendeu? Não me importa se levar cem anos, você vai me pagar.
Isso não significava que ela daria a arma de graça.
Mesmo que Hestia estivesse usando seus próprios recursos para conseguir o que queria, a mundialmente famosa Familia Hephaistos estava entrando em ação. Hestia teria que trabalhar por isso.
Ainda assim, Hestia havia demonstrado determinação. Hephaistos assentiu para si mesma ao se levantar da cadeira, caminhar até a Hestia ainda ajoelhada e tocar suavemente a ponta de seu nariz.
— Eu sei, eu sei. Se eu me esforçar, consigo. E vou provar para você que meus sentimentos pelo Bell são de verdade!
— Ha-ha, estou ansiosa para ver.
Hephaistos estava apenas meio ouvindo as palavras ousadas de Hestia enquanto caminhava até uma prateleira do outro lado da sala. Usada mais como decoração, a prateleira exibia uma fileira de martelos curtos novinhos em folha, de cores variadas.
— O que ele usa?
— Umm… ele usa uma faca…
Hephaistos murmurou “Entendo” para si mesma enquanto pegava um martelo vermelho-escarlate da prateleira.
O martelo não tinha decorações ou marcas desnecessárias — foi projetado para ser usado, não para ser exibido. Hephaistos deslizou a ferramenta para dentro de uma bolsa presa à sua cintura.
Em seguida, caminhou mais adiante pela prateleira até uma caixa de cristal transparente e abriu a tampa. Dentro havia uma mistura de vários metais e ligas. Ela selecionou um que brilhava com um leve tom prateado: mithril.
Mais leve e mais forte que o ferro, o mithril também era muito mais maleável e fácil de trabalhar.
Era o melhor metal para os braços finos de uma ferreira — sem habilidades especiais — moldarem.
— H-Hephaistos? Você vai fazer isso você mesma?
— Sim, é claro. Isso deveria ser óbvio. Isso não tem nada a ver com minha Familia. É um pedido particular entre nós. Não posso deixá-los se envolver.
Aquela era a loja principal do negócio de sua Familia, mas havia uma pequena forja e oficina no primeiro andar. Hephaistos planejava ir até lá para fazer a arma com as próprias mãos.
Ela lançou um olhar para Hestia com seu olho bom, como se dissesse: “Você tem algum problema com isso?”
Hestia balançou a cabeça e os braços, indicando “Nenhum”. Seu rosto brilhava com energia juvenil.
— Por que eu teria motivo para reclamar? Bell vai receber uma arma feita pela ferreira mais famosa de todo o Tenkai! Na verdade, eu não poderia pedir mais do que isso!
— Você esqueceu? Isso não é Tenkai. Eu não posso usar meu “poder” aqui.
Os deuses e deusas tinham um acordo mútuo. Todos eram proibidos de usar Arkanam enquanto estivessem em Gekai.
Hephaistos havia feito centenas de armas e armaduras para deuses enquanto vivia em Tenkai. Mas aqui embaixo, a Deusa da Forja estava no mesmo nível de uma criança sem bênção — apenas uma humana em termos de força.
— Você acha que eu me importo? Estou tão feliz que você está fazendo isso!
— …
Ela não duvidava da habilidade de Hephaistos. Ainda assim, aceitar fazer o trabalho sem condições deixava Hephaistos inquieta. Estava escrito em todo o seu rosto.
O que mais a incomodava era que ela própria não se importava.
— …Você vai me ajudar. Não vou deixar você apenas sentada sem fazer nada.
— Pode contar comigo!
Escondendo um pequeno sorriso com os dedos, Hephaistos se virou para sair.
Hestia a seguiu, pulando de um lado para o outro como um filhote animado.
Tenho que atender aos desejos da cliente, não é?
Hephaistos estava mudando sua mentalidade, deixando de lado o papel de líder da Familia para assumir o de artesã.
A lâmina que Hestia desejava…
Uma lâmina que abriria caminho para um aventureiro.
Uma lâmina digna do nome “Hephaistos”.
…Mais fácil falar do que fazer…
Hephaistos vasculhou sua memória, tentando lembrar o máximo possível de informações sobre o garoto.
Bell Cranell. Humano. Um garoto de pouco mais de quatorze anos.
Ele era o único membro da Familia Hestia. Tinha recebido sua Falna há pouco mais de duas semanas.
Basicamente, ele ainda era um novato completo no que dizia respeito a aventureiros.
Uma lâmina de alta qualidade que pudesse ser usada até pelo mais inexperiente dos aventureiros…
Esse era um problema muito difícil.
Aventureiros que tentavam usar uma lâmina forte demais acabavam sofrendo por isso. Seu crescimento parava enquanto tentavam dominar a arma. Eles não conseguiam manejá-la em batalha. Em termos simples, ainda não estavam prontos.
Por outro lado, se ela fizesse uma lâmina ruim, isso mancharia o nome “Hephaistos”.
Hephaistos se considerava uma ferreira antes de ser uma deusa. Ela tinha muito orgulho de tudo o que fazia. Nunca permitiria a si mesma produzir algo que não fosse o melhor. Essa era sua política.
Qualquer coisa que valesse a pena ser feita, valia a pena ser bem feita. Ela decidiu colocar seu coração e alma em criar a lâmina perfeita.
Ela estava entre a cruz e a espada.
Bem… como faremos isso?
Ela recorreu ao conhecimento adquirido ao fabricar inúmeras outras peças.
Pode ser para uma amiga, mas esse pedido é um verdadeiro pé no saco…
Hestia observava com olhos brilhantes enquanto Hephaistos trabalhava, amaldiçoando toda a situação.
A deusa saiu há três dias. Ainda não voltou.
Senti um pouco de solidão tomando café da manhã em um quarto vazio hoje de manhã. Vou voltar à Dungeon novamente hoje.
Tenho um trabalho a fazer; não importa se ela está aqui ou não. Além disso, quero surpreendê-la com uma grande pilha de saque quando ela voltar.
“Ei! Olha quanto eu ganhei enquanto você estava fora!”
Já consigo imaginar a cara dela… Mas primeiro preciso conseguir o saque.
Uma rápida olhada no espelho; tudo parece em ordem.
Meu coldre de perna tem as duas poções que ganhei ontem à noite. Minha adaga está presa na parte inferior das costas. Coloco a mochila por cima da armadura e estou pronto.
Vamos lá, Bell, você consegue!
— Estou saindo.
Não tem ninguém para ouvir, mas sinto que devo me despedir mesmo assim.
Lá vou eu.
Minha perna voltou ao normal. Hoje é o dia em que volto ao quinto andar inferior.
Alguns dias atrás, eu me empolguei e desci até lá. Não terminou muito bem. Eu fugi chorando — literalmente.
Desta vez vai ser diferente. Não sei exatamente o quanto, mas meu status está muito mais alto agora. Bem, por segurança, talvez eu devesse falar com Eina antes de entrar na Dungeon hoje…
Quando percebo, já subi da sala escondida sob a igreja e estou caminhando pelo meu trajeto habitual entre as ruínas.
Eu adoro como a manhã parece — tão fresca e cheia de possibilidades.
Ah, já estou na Rua Principal Oeste. O tempo está voando hoje de manhã.
Talvez eu devesse me aquecer um pouco antes de chegar à Dungeon… Uma corrida matinal parece uma boa.
Esta manhã parece muito com a manhã em que conheci Syr. O sol está na mesma posição, as pessoas estão cuidando de suas rotinas.
Posso correr mais rápido que isso — anda logo, acelera!
Sim, lá estão as mesmas duas pessoas-fera conversando na esquina. Alguém está montando o terraço.
Mas a garota que estava na janela do segundo andar daquela loja não está lá hoje.
— Oi! Espera aí, nya, garoto cabelo branco!
Garoto cabelo branco…?
Não ouço “garoto” desde…
De onde veio essa voz?
Não é o The Benevolent Mistress? E aquela é a garçonete gata. Correndo para cá, com a cauda fina balançando, agitando os braços como uma maluca…
…Atrás dela, não é aquela elfa que também trabalha lá?
Eu lembro muito bem da voz que me chamava de “garoto”. Era isso ou “garoto tomate” e outras coisas que prefiro nem lembrar.
Ela está mesmo falando comigo…?
Eu devolvi a cesta da Syr ontem à noite no caminho para casa…
Aponto para mim mesmo e digo com os lábios: “Eu?”
A garota-gato continua vindo em minha direção em alta velocidade, assentindo.
— Bom dia, nya! Desculpa chamar nyocê assim do nada, nya!
— Ah, um… bom dia… Posso ajudar em algo…?
Ela está fazendo uma reverência para mim. Certo, eu também posso fazer isso…
Essa reverência parece bem ensaiada, deve ser coisa do trabalho.
Ela está prestes a dizer algo.
— Tenho um favor para pedir. Aqui, nya!
— ?
— Syr é nyossa amiga, garoto cabelo branco. Então quero que nyocê entregue isso para ela, nya!
É uma bolsinha de moedas de pano com um fecho metálico. Já vi esse estilo antes. É popular.
Há um emblema desconhecido gravado no fecho, e dá para perceber na hora que foi feito por uma das Familias.
A bolsa em si é roxa, meio fofa e feminina.
Sim, é fofa e tudo mais, mas eu não entendo…
Entregar isso para Syr? O que está acontecendo?
— Ahnya. Você não está sendo clara. O Sr. Cranell está confuso.
Ah, a elfa. Foi ela quem estava no terraço esta manhã.
Talvez ela possa me explicar o que está acontecendo…
…Espera aí, ela disse “Sr. Cranell”!
Ela se lembrou de mim. De mim!
— Lyu, nyocê é burra! Syr esqueceu a carteira, faltando ao trabalho para ir ao Monsterphilia, nya. Ela precisa dela, então estou pedindo para ele levar até ela. Nyocê sabia disso, né, garoto cabelo branco?
— É exatamente isso. Peço desculpas pela confusão.
— Ah, não, agora entendi. Então é isso que está acontecendo.
A elfa chamada Lyu ignora a cara emburrada da colega de trabalho e me faz uma pequena reverência de desculpa. Eu também abaixo a cabeça; ela esclareceu tudo para mim.
A garota-gato parece desanimada, como se tivesse sido deixada de lado. Sua cauda fica caída enquanto ela olha para o chão.
Ouço um pequeno “hm” sair de seu nariz.
Ela está brava comigo?
— Por favor, não ligue para ela. Tem certeza de que está tudo bem aceitar nosso pedido? Ahnya, os outros funcionários e eu estamos ocupados demais nos preparando para ir atrás da Syr pessoalmente. Sei que estamos interrompendo seus planos de hoje…
— Não é grande coisa, mas é verdade que a Syr está faltando ao trabalho?
— Ahnya não escolheu bem as palavras. Syr não está matando serviço. A situação dela é diferente, pois ela não mora no estabelecimento como nós.
Eu sabia que Syr não faltaria ao trabalho. Ela parecia realmente gostar dele.
Parece que ela só tem um dia de folga ou algo assim.
Ela não mora no bar, o que significa que não precisa trabalhar todos os dias como essas duas.
Mas aposto que aquela anã, Mama Mia, precisou dar permissão.
Então é natural que ela tenha um dia de folga de vez em quando, certo?
E parece que ela foi a algum tipo de festival…
— Monsterphilia…?
— Sim. Ela foi ver os eventos de abertura hoje.
Eu ouvi essas palavras no porão da Torre Babel.
— Você não sabe? Todos os residentes de Orario conhecem esse evento.
— Na verdade, eu não moro aqui há muito tempo… Poderia me contar sobre ele?
— —Nyaay! Eu vou te contar, nya!
Assim que perguntei, a garota-gato de repente pulou entre nós duas.
Mas ela não estava deprimida dois segundos atrás…?
De onde veio toda essa energia?
Ela também está falando super rápido!
— Monsterphilia é um evento que acontece uma vez por ano, organizado pela Familia Ganesha, nya! Nós lotamos o estádio por um dia inteiro e domesticamos monstros, nya!
— Hã?… D-domesticamos?!
Do que diabos ela está falando?!
Domesticar monstros? Manter aquelas feras violentas como animais de estimação?!
— Nyão é tão estranho assim, nya? Nyocê é um aventureiro, nya, não é, cabeça branca? Nyocê já viu quando um monstro derrotado acorda com um olhar diferente nos olhos. Ele quer ser nosso amigo, nya!
— Uh… não. Não posso dizer que já vi…
Será que devo acreditar nela? Posso mesmo?
Devo estar com uma cara bem confusa, porque Lyu volta a falar.
— A domesticação foi reconhecida como uma habilidade. Explicando de forma breve: uma pessoa prova ser mais poderosa que um monstro. Em troca, o monstro passa a obedecer às ordens dessa pessoa.
“O monstro obedece às ordens…” Parece que estou em outro mundo.
— Os monstros da Dungeon têm temperamento ruim, nya! Então geralmente os monstros que já estão na superfície são domesticados. Mas os domadores da Familia Ganesha são bons! Eles também dominam monstros nascidos na Dungeon, nya!
Familia Ganesha… Já ouvi esse nome antes. Provavelmente é a Familia mais influente de Orario. Também ouvi dizer que eles têm uma quantidade enorme de membros.
— Então, basicamente, esses domadores lutam contra um monstro até ele se render. E as pessoas assistem?
— Isso mesmo, nya! Como um circo bem grande!
Só que muito mais perigoso… Entendi.
— Nyós também queríamos ir, nya! Mas a Mamãe Mia disse nyão nyão… Syr disse que compraria alguma coisa para nyós, mas esqueceu a carteira, nya! Ela sorriu e acenou, mas nyão tinha dinheiro! Garota descuidada, nya!
— Ahnya, não acredito que isso esteja correto…
Ahh, já entendi tudo.
Syr não pode comprar lembranças, ou qualquer outra coisa, sem a carteira. Eu tenho uma dívida com ela, então é o mínimo que posso fazer levar isso até ela.
— Acredito que a área ao redor do estádio na Rua Principal Leste estará muito cheia. Se seguir naquela direção, deverá encontrar o estádio facilmente.
— Syr acabou de sair, nya! Nyocê pode alcançá-la!
— Certo.
Minha mochila pesada só iria atrapalhar, então peço que guardem ela no The Benevolent Mistress. Posso passar lá depois para buscá-la.
Segurando a carteira da Syr na mão, sigo em direção à Torre Babel. Vou precisar passar por ela, mas deve ser um caminho direto daqui.
Monsterphilia… como será que é?
Talvez eu devesse dar uma olhada depois?
A Rua Principal Leste estava viva com as músicas e vozes dos cidadãos de Orario.
Agora eram nove horas da manhã. Enquanto a maioria dos aventureiros já estava explorando a Dungeon, multidões de moradores da cidade se reuniam nas ruas.
Uma fileira de barracas de comida corria pelo meio da rua, com outras duas fileiras nas laterais. Sons e aromas de várias guloseimas se espalhavam por um oceano de pessoas.
A própria rua estava decorada com longas fitas e flores vibrantes. Bandeiras de muitas cores tremulavam na brisa da manhã. Algumas delas tinham a silhueta de monstros particularmente ferozes estampada. As outras exibiam a cabeça de um elefante, o emblema da Familia Ganesha.
Um jovem garoto homem-fera, com o rosto vermelho de empolgação, puxava o braço da mãe enquanto mergulhavam na multidão. O próprio sol parecia estar celebrando o dia, seus raios amarelos brilhantes iluminando o céu.
A Rua Principal Leste havia sido completamente transformada pela feira.
“……”
A fila de visitantes do festival se estendia desde o portão leste até o próprio estádio.
Um par de olhos prateados observava aquela multidão avançar lentamente, vistos de cima da rua.
Mais precisamente, do segundo andar de um café.
O café tinha um interior de madeira e uma atmosfera muito tranquila. Uma mulher estava sentada a uma mesa ao lado de uma janela de vidro voltada para a rua. Ela vestia um manto azul-marinho para impedir que seu rosto — e sua pele branca como neve — fosse visto.
No entanto, uma única camada de tecido não era suficiente para esconder a beleza daquela pessoa.
Mesmo com o rosto bem escondido sob o capuz, todos no café mantinham os olhos nela. Sempre que ela passava delicadamente os dedos pela borda da xícara ou quando seu elegante queixo aparecia por um instante sob o capuz, todos ao redor prendiam a respiração.
Muitas pessoas que por acaso a viam paravam e ficavam encarando.
Todos estavam fascinados por alguém que praticamente não fazia nada.
Freya, a Deusa da Beleza, ignorava todos eles e mantinha os olhos voltados para a rua abaixo.
“……”
Ela observava as muitas pessoas de Gekai — as crianças.
Humanos, homens-fera, anões, elfos. Alguns aventureiros estavam espalhados entre as cores dessas diferentes raças.
Freya examinava todos eles cuidadosamente com seus olhos afiados.
O rangido do piso de madeira anunciou a chegada de alguns clientes.
Freya interrompeu sua observação e se virou para cumprimentar os recém-chegados.
— Ei! Desculpa por te fazer esperar!
— De forma alguma. Eu mesma acabei de chegar.
Freya sorriu sob o capuz para a pessoa que acenava para ela do topo da escada.
O cabelo da recém-chegada não tinha o vermelho flamejante de Hephaistos, mas um tom mais suave — a cor do céu ao entardecer. Estava preso em um pequeno rabo de cavalo. Sua camisa e suas calças estavam gastas e desbotadas.
Se Freya não a conhecesse, talvez tivesse pensado que aquela pessoa era um homem.
Reprimindo um bocejo e com lágrimas nos olhos, Loki sorriu de volta para a figura encapuzada.
— Ainda não tomei café da manhã. Se importa se eu pegar alguma coisa pra comer?
— Faça como quiser.
Loki puxou uma cadeira em frente a Freya e se sentou.
Freya continuou com seu sorriso habitual, sem reagir particularmente à presença de Loki.
Havia um ar entre as duas, como amigas que se conheciam há muito tempo.
— Ouvi dizer que você teve uma bela noite depois da Celebração. Se afogou na bebida e desmaiou, foi? Hee-hee-hee, aquela Hestia é algo mesmo, não é?
— Onde cê ouviu isso, sua idiota peituda?
— Ouvi alguns dos seus adoráveis filhos comentando. Eles estavam se divertindo bastante com a história.
— Aqueles desgraçados, sempre se divertindo sem mim!
Freya havia convidado Loki para aquele café às nove da manhã.
Já fazia alguns dias desde a Celebração. As duas deusas estavam ali apenas por causa do pedido de Freya.
— Então, quando você vai apresentar a garota que está atrás de você?
— Hein? Precisa mesmo apresentar?
— É a primeira vez que nos encontramos frente a frente.
Loki não havia entrado sozinha no café.
Parada atrás dela como uma guarda, com a bainha da espada segurada na mão, estava uma jovem de cabelos loiros e olhos dourados — tão marcantes que até Freya, a Deusa da Beleza, teve que notá-los.
— Tá bom então, essa é minha Aiz. Isso basta? Aiz, essa aqui é uma deusa, pelo menos diga olá.
— …Prazer em conhecê-la.
Freya murmurou “Kenki” baixinho enquanto seus olhos passavam pela garota.
Aiz Wallenstein. Era a espadachim responsável pela súbita ascensão da Familia Loki à fama, mesmo entre os deuses.
Seu nome e reputação eram conhecidos não apenas em Orario, mas estavam se espalhando pelo mundo. De fato, ela não precisava de apresentação.
Uma garota com aquela aparência normalmente não entraria em uma profissão perigosa como a de aventureira. Quem não conhecesse seu rosto jamais imaginaria que ela havia matado incontáveis monstros e pisado sobre tantos de seus cadáveres.
— Pode se sentar — disse Loki.
A garota de rosto fino e delicado assentiu e puxou uma cadeira para se sentar.
— Ela é muito fofa. E também… sim. Consigo entender por que você se afeiçoou a ela.
Os olhos dourados de Aiz encontraram os olhos prateados de Freya. Aiz manteve o rosto inexpressivo enquanto inclinava a cabeça em uma reverência educada.
Seu apelido era perfeito em alguns sentidos — completamente errado em outros. O sorriso de Freya se moveu por um instante ao pensar nisso.
— Posso perguntar por que você trouxe a kenki com você?
— Fu-he-he-heee… É a feira, não é? Que momento melhor pra um encontro com a minha Aizuu?
Os olhos de Loki brilharam, com um sorriso vulgar nos lábios.
— Além disso, ela acabou de voltar de uma expedição. Daqui a pouco já vai estar de volta na Dungeon. Ela é assim mesmo.
“……”
— Alguém tem que dizer pra ela relaxar de vez em quando, não acha?
Loki acariciou a cabeça da garota enquanto falava. Aiz apenas abaixou o olhar, decidindo não dizer nada.
Freya viu o calor nos olhos estreitos de Loki e não pôde deixar de lembrar como ela era antes de vir para cá. Loki havia sido uma grande causadora de problemas em Tenkai.
— Bem, então acho que já está na hora de você me dizer por que estou aqui.
— Eu só queria conversar. Já faz um tempo.
— Mentira descarada.
Loki lançou um sorriso torto para Freya, que continuava sorrindo sob o capuz. Ela respondeu no mesmo tom.
A aura de “velhas amigas” desapareceu.
Um garçom teve o azar de chegar naquele exato momento para anotar o pedido.
Preso entre dois raios prestes a cair, ele ficou parado e em silêncio na ponta da mesa, como se estivesse acorrentado ao chão.
Quanto a Aiz, ela manteve o rosto sem emoção e decidiu apenas observar em silêncio.
— Vou perguntar de novo: por quê?
— Não entendo. O que foi, Loki?
— Ah, cala a boca, sua idiota.
Freya virou-se para o garçom, ainda imóvel ao lado da mesa, e lhe lançou um sorriso.
Os olhos do homem se arregalaram como comportas se abrindo, e seu rosto ficou completamente vermelho.
Ele começou a suar frio antes de se virar rapidamente e sair dali sem perder tempo.
Loki observou ele se afastar por um momento antes de voltar seu olhar de ave de rapina para Freya.
— Cê anda estranha ultimamente. Diz que não tá interessada na Celebração, mas aparece lá no último minuto. Diz que tá lá por informação? Você nunca ligou pra isso… O que cê tá tramando?
— Tramando…? Por que você faz isso parecer tão maldoso?
— Fecha a boca.
Loki completou dizendo que coisas estranhas sempre aconteciam quando Freya agia daquele jeito.
E acrescentou que, se aquilo atrapalhasse seus planos, ela mesma daria um fim.
Loki não piscou. Seus olhos vermelhos davam peso às suas palavras.
Freya não recuou, encarando Loki diretamente.
A expressão no rosto de Loki poderia ter matado uma serpente, mas Freya enfrentou aquilo de frente — sorrindo.
Faíscas invisíveis voavam; a pressão da conversa entre elas preenchia toda a sala.
O café esvaziou em um instante.
Aiz tinha um lugar na primeira fila para assistir ao confronto entre deusas que parecia não ter fim.
Até que…
Loki se cansou e recuou.
A tensão desapareceu imediatamente, e Loki continuou em um tom mais relaxado:
— É um homem, não é?
“……”
Freya não respondeu, apenas continuou sorrindo.
Loki tomou isso como uma confirmação.
Ela soltou um longo e profundo suspiro.
Já tinha visto aquilo acontecer muitas vezes.
— Então… você já está de olho em uma criança que pertence a outra Familia, é isso?
Todos os deuses e deusas sabiam dos “hábitos” de Freya quando o assunto eram homens.
Quando um homem em Gekai chamava sua atenção, ela fazia sua jogada.
Sua beleza era poderosa o suficiente para fazer seu alvo se render a ela.
Ninguém sabia exatamente quantos homens já haviam caído sob seu encanto.
Loki concluiu que o alvo de Freya provavelmente não estava em sua própria Familia.
Por isso ela tinha ido à Celebração em primeiro lugar: para descobrir a qual Familia o alvo pertencia.
Obviamente, tentar tirar alguém de outra Familia não seria bem recebido.
O deus daquela Familia não ficaria parado.
Freya estava basicamente comprando uma briga.
Se o outro lado fosse forte, ela seria rejeitada e se afogaria em desespero até encontrar um novo alvo.
Ela estava sendo cautelosa, reunindo informações antes de agir.
Pelo menos era isso que Loki pensava.
Freya não tentou negar as palavras de Loki.
— Sério, mulher. É só nisso que você pensa? Você vai atrás de qualquer um, jovem ou velho?
— Que rude. Eu tenho padrões.
— Tirando todos aqueles idiotas atrapalhados em Tenkai que você manipula?
— Eles têm suas utilidades. Sou bastante habilidosa em tirar dinheiro deles.
Loki pigarreou.
A bruxa estava expondo toda a própria sujeira.
Loki ergueu uma sobrancelha para a deusa à sua frente.
Freya deu de ombros, mas apenas o suficiente para que o tecido do manto se movesse levemente.
Pensando que não havia mais nada a ser dito, Loki colocou as mãos atrás da cabeça e se inclinou tanto para trás na cadeira que as pernas da frente saíram do chão.
Freya também relaxou a guarda e tomou um gole de sua xícara agora fria. Ambas tinham suas respostas, e o clima finalmente se dissipou.
Um céu claro e ensolarado se estendia pela janela ao lado delas. Os sons da rua invadiam o café.
O manto azul-marinho de Freya balançava suavemente com a brisa que entrava pela janela aberta.
— E então?
— …?
— Quem é o cara? Que criança você está perseguindo agora? Quando encontrou ele?
Loki inclinou a cabeça como quem diz: “Conta logo.”
Agora ela estava interessada. Diferente de Freya, Loki adorava detalhes.
Se não conseguisse a resposta agora, simplesmente iria embora.
“……”
— Eu vim até aqui, mudei meus planos. Tenho o direito de saber.
Freya desviou o olhar da deusa que exigia respostas e voltou a observar a rua.
O capuz de seu manto se abriu o suficiente para que Loki visse seus olhos prateados ficarem distantes, como se estivesse pensando em algo do passado.
— …Ele não é muito forte. Fraco, se comparado às crianças de nossas Familias. Se abala facilmente, começa a chorar pelos problemas mais simples… Esse tipo de criança.
A palavra “mas” estava na ponta de sua língua.
— Ele era bonito, puro. Nunca vi nada igual.
E foi por isso que ela se apaixonou por ele.
Ela ouviu uma melodia que a maioria não conseguiria ouvir, vindo da chama dentro dele. Um soprano.
— Eu o encontrei por acaso. Ele simplesmente cruzou minha linha de visão.
Enquanto falava, Freya pensava em cada detalhe daquele segundo em que o viu pela primeira vez.
Ela mantinha os olhos na rua movimentada, procurando por ele. Foi assim que o encontrou da última vez.
Talvez hoje fosse o dia.
— Foi exatamente assim…
Manhã cedo, ar fresco, luz do sol nova, Rua Principal Oeste.
Ele tinha vindo da outra ponta da rua — exatamente como agora.
Ele entrou em seu campo de visão, exatamente como naquela manhã.
“……”
Freya parou de respirar.
Seus olhos haviam encontrado um garoto humano de cabelos brancos vestindo uma leve armadura de aventureiro.
Ele pulava entre as pessoas, corria um pouco e depois parava antes de repetir tudo de novo.
O garoto estava indo em direção ao estádio. Monsterphilia.
Levado pelo fluxo de pessoas, ele seguia em direção ao prédio circular não muito longe dali.
Freya o observou por um momento.
Um novo sorriso — um sorriso assustador — surgiu em seus lábios.
— Peço desculpas. Algo surgiu.
— Hein?
— Vamos repetir isso em breve.
Loki desabou sobre a mesa em completa frustração. Freya já estava de pé.
Ela ajustou o manto enquanto descia as escadas e saía do prédio.
Restaram apenas Loki e Aiz no café.
— Que tipo de pessoa simplesmente vai embora assim…?
Loki ficou olhando para a escada por um momento, com o olho tremendo.
Um pequeno “hmm” escapou de sua garganta quando se virou para a garota sentada a um assento de distância.
Aiz estava com os olhos fixos na janela.
— O que foi, Aiz? Algum problema?
— …Não.
Ela acrescentou: “Não é nada”, mas não desviou o olhar.
Seus olhos dourados, assim como os olhos prateados da deusa que estava ali antes, viam uma cabeça branca familiar se movendo pela multidão em direção ao estádio.
— Aqui está.
Hephaistos, ainda vestida com suas roupas de trabalho, entregou a Hestia uma pequena caixa.
— Ooooo!
Hestia soltou um gritinho de alegria.
Havia olheiras sob seus olhos, mas seu rosto ainda brilhava de animação.
— Corresponde às suas expectativas?
— Sim, sim! Muito mesmo! Nenhuma reclamação!
As dobradiças da caixa chiaram quando Hestia a abriu para ver o que havia dentro.
Lá dentro estava uma adaga com cabo e bainha pretos.
A arma inteira era negra, da ponta ao punho.
À primeira vista podia parecer uma lâmina simples, mas Hephaistos havia colocado sua alma na criação daquela arma… com uma pequena ajuda de Hestia.
Terminar a nova arma de Bell em menos de um dia deixou Hestia com uma expressão de felicidade e satisfação como Hephaistos nunca tinha visto antes.
— Ah! Hephaistos, a lâmina precisa de um nome! Posso dar um? Vamos ver… que tal algo que una eu e o Bell? Tipo “Adaga do Amor” ou algo assim?
— Por favor, não… Essa adaga vale mais do que isso. Mas agora a lâmina é sua…
Hephaistos sugeriu o nome “Hestia Knife”, mas Hestia não pareceu muito animada com a ideia.
Na verdade, ficou mais foi envergonhada.
Ela corou e coçou a cabeça.
Mesmo assim, seu entusiasmo continuava nas alturas.
Até os longos rabos de cavalo dos dois lados de sua cabeça pareciam cheios de energia, balançando de um lado para o outro.
— Vou dizer de novo: não volte atrás no empréstimo.
— Não vou! Não vou!
Hephaistos soltou o cabelo do coque apertado que havia feito no dia anterior e começou a prendê-lo com grampos.
A energia de Hestia era contagiante, e ela não conseguiu evitar sorrir e concordar com a cabeça.
Mas Hestia já estava ocupada arrumando suas roupas, como se estivesse prestes a sair.
— Já vai embora?
— Sim, desculpa!
Ela simplesmente não conseguia ficar parada ali agora.
Hestia seguiu para a saída.
— Você deveria descansar antes de ir!
Hestia não se virou nem respondeu. Apenas acenou com a mão enquanto saía pela porta.
Ela estivera esperando em um pequeno quarto atrás da loja principal da Familia Hephaistos.
Passou direto por ele e saiu para a rua principal.
Mal posso esperar para entregar isso a ele!
Só de imaginar o rosto dele no momento em que recebesse a adaga já a deixava tão feliz que parecia que seu coração ia explodir.
Primeiro, ele simplesmente sorriria para ela, olharia com respeito e admiração… e então a abraçaria…
As bochechas de Hestia inflaram enquanto ela imaginava como preparar aquele momento.
Ela caminhava bem no meio da rua, mantendo a mesma expressão no rosto enquanto ria sozinha.
Depois de avançar um pouco mais pela Rua Principal Noroeste, acabou se acalmando um pouco.
Decidiu esperar Bell em casa, em vez de tentar encontrá-lo pela cidade.
Claro, queria entregar o presente o mais rápido possível, mas não fazia ideia de onde ele estava agora.
Provavelmente em algum lugar da Dungeon, conhecendo ele.
— Hmm?… Ha-ha-ha, já entendi…
Ela tinha um plano — até que, por acaso, viu um cartaz na parede de uma loja.
Ninguém mostrou aquilo a ela.
O cartaz simplesmente estava lá.
Um sorriso triunfante se abriu em seu rosto.
O cartaz detalhava a programação da Monsterphilia, que começava naquele dia.
O festival anual é hoje!
Bell tinha chegado recentemente a Orario.
Se ele soubesse sobre a Monsterphilia, era para lá que iria!
Logo, se ela fosse também, havia uma grande chance de encontrá-lo lá.
Ela estava tão animada que a ideia de procurar Bell no meio de uma multidão gigantesca não a incomodava nem um pouco.
Ela havia descoberto como ele pensava.
Ou pelo menos foi o que declarou para si mesma com sua nova — e um tanto infundada — confiança.
Agora ela sabia para onde ir.
Girando sobre os calcanhares, começou a caminhar em direção à Rua Principal Leste.
— Ei! Táxi!
Ela acenou com sua pequena mão para chamar uma carroça puxada por cavalo que passava pela rua.
O jovem condutor parou a carroça direitinho aos pés de Hestia.
Ela subiu e disse:
— Para a Rua Principal Leste, por favor!
E ainda apontou na direção, só para garantir.
— Ha-ha, entendido. A senhorita deusa está indo para a Monsterphilia, por acaso?
— Algo assim.
O jovem estalou as rédeas, colocando a carroça em movimento.
O som das rodas de madeira batendo nas pedras da rua ecoava em seus ouvidos. O banco tremia a cada irregularidade do caminho.
A cidade era enorme. Lar do maior número de aventureiros e Familias do mundo, Orario se destacava até entre as maiores cidades.
Em um lugar daquele tamanho, caminhar nem sempre era o meio de transporte mais eficiente. Cavalos eram usados para levar suprimentos às lojas da cidade e também para transportar cidadãos comuns.
O termo “táxi” surgiu quando um deus tentou chamar uma dessas carroças na rua.
O nome pegou — e desde então todos passaram a usar.
— Quero chegar o mais rápido possível. Sei que hoje está cheio, mas você pode ir mais rápido?
— Eu pareço o tipo de homem que recusaria um pedido de uma deusa?
O jovem ficou mais do que feliz em atender, incentivando o cavalo a correr mais rápido.
Como as ruas principais estavam cheias de pessoas e barracas de comida, ele desviou para becos e ruas secundárias.
Às vezes o caminho era tão estreito que a carroça mal passava enquanto seguiam em direção à Rua Principal Leste.
O motorista — que não devia ser mais que cinco anos mais velho que Bell — era bastante amigável e manteve uma conversa animada durante a viagem. Hestia entrou totalmente no clima do festival ao ver todas as decorações passando pela carroça.
— A-ya-ya… Me desculpe, Deusa. Parece que não posso ir mais longe.
— Hmm?
Eles estavam avançando muito bem, mas de repente a carroça parou.
A Rua Principal Leste estava a apenas um quarteirão de distância, porém o número de visitantes do festival havia aumentado tanto que o táxi não conseguia mais avançar.
O motorista abaixou a cabeça em sinal de desculpas, mas Hestia achou que estava perto o suficiente e começou a descer da carroça.
— Está tudo bem, senhor motorista. Eu vou andando daqui.
— Peço realmente desculpas. Pode estar um pouco escuro, mas se usar aquela rua lateral deve conseguir chegar à Rua Principal Leste.
— Obrigada! Quanto eu devo?
— Fica em noventa vals.
Hestia virou sua bolsa de cabeça para baixo e despejou todo o conteúdo nas mãos do motorista, com o rosto radiante de empolgação.
— Hee-hee. Fique com o troco! É a sua gorjeta!
— Hum… Deusa… isso aqui é exatamente noventa vals…
As palavras dele não surtiram efeito. Hestia praticamente saiu dançando pela ruazinha lateral que ele havia indicado. O motorista a observou por alguns instantes, com uma expressão um pouco solitária no rosto. Desistindo da gorjeta, virou a carroça e partiu em busca de outro cliente.
A rua lateral era escura e estreita. Mas, ao contrário da avenida principal, não havia ninguém ali, e Hestia avançava rapidamente pelo caminho.
Ela saltitava enquanto caminhava, cantarolando uma melodia alegre e abraçando o estojo da arma contra o peito.
Foi então que percebeu que não estava sozinha.
— Hã? É você, Freya?
— …Hestia?
Hestia quase esbarrou em uma mulher coberta da cabeça aos pés por um manto azul-marinho em um pequeno cruzamento. Mesmo assim, conseguiu reconhecer a Deusa da Beleza pelos fios prateados que escapavam do capuz e pela postura elegante.
— Você também veio ver a Monsterphilia? Pegando um atalho desses, parece que está com pressa.
— …De certo modo, sim. Há muitas crianças na rua principal, então estou evitando chamar atenção. Andar por trás assim é a maneira mais rápida de se deslocar.
— Ah! Deve ser difícil ser a Deusa da Beleza!
Cada pessoa que via Freya reagia de um jeito, mas muitos simplesmente paravam para admirá-la. Permanecer fora de vista evitava muitos problemas — e também significava que ela não podia simplesmente pegar um táxi pela cidade. Provavelmente aquele era o único jeito.
Freya exibiu seu sorriso habitual. Hestia assentiu com a cabeça.
— Ah, Freya, já que te encontrei… Você viu o garoto da minha Familia? Estou procurando por ele.
— ……
— Ele é humano, tem cabelo branco e olhos vermelhos bem vivos… meio que parece um coelhinho!
Hestia fez gestos com as mãos, imitando orelhas de coelho para explicar como Bell era. Freya parou de sorrir e ficou em silêncio.
Mas logo o sorriso voltou aos seus lábios, e ela respondeu:
— Agora que você mencionou… sim, eu o vi. Na Rua Principal Leste, não faz muito tempo.
— Sério?!
— Sim. Ele estava indo em direção ao estádio. Então, se você virar à esquerda ali na frente, deve conseguir evitar a multidão completamente.
Sem questionar as instruções, Hestia agradeceu com o maior sorriso que já dera e saiu correndo.
Freya, por sua vez, deixou escapar um sorriso diferente antes de seguir pelo seu próprio caminho.
Hestia seguiu pela rua e virou à esquerda. Cada vez mais luz do sol iluminava o caminho conforme ela se aproximava da Rua Principal Leste.
Já não faltava muito.
Hestia acelerou o passo e saiu da ruazinha direto para o mar de gente na avenida principal.
Os visitantes do festival também não tinham tempo a perder.
Mas, no meio daquela onda de pessoas, ela imediatamente encontrou a cabeça branca de Bell tentando — e falhando — avançar pela multidão.
— Heeey! BELL!!!
— Hã?
É quem eu estou pensando ali…? Uau.
Faz dias que não vejo a deusa, e de repente ela aparece aqui, no meio dessa confusão?
— Deusa?! O que você está fazendo aqui?
— Ei, não seja bobo! Eu queria te ver, por que mais seria?
Ela vem direto até mim, com aqueles seios absurdamente grandes praticamente abrindo caminho.
Isso não responde nada…
Estou ficando um pouco nervoso.
— É… eu também queria ver você, mas não é isso. Onde você esteve…?
— Que coincidência maravilhosa, não acha? Eu queria te ver e aqui está você! Devemos ter algum tipo de ligação especial! Hee-hee-hee!
Ela não está ouvindo… nada.
Entrou completamente no próprio mundinho dela. E eu fico como nisso?
— D-Deusa… você parece estar de muito bom humor. O que aconteceu?
— Hee-hee… quer saber? O motivo de eu estar tão feliz…
— S-sim?
Eu juro que ela está sorrindo forte o suficiente para iluminar todas as lâmpadas de pedra mágica de Orario…
E também está escondendo algo atrás das costas.
O que será? Bom… acho que vou ter que esperar. Ela está prolongando isso demais.
— A verdade é que…
Espero que ela continue, mas ela simplesmente para.
Olha ao redor do festival, observando as barracas, as cores, o barulho. Mas parece que sua mente está em outro lugar.
Agora ela está olhando para o céu. O que será que está passando pela cabeça dela?
— …Hmm. Já que estamos aqui fora, eu te conto depois!
— Ehhh?!
— Espere por algo realmente especial!
Meus ombros caem — tenho quase certeza de que minha mandíbula também. O que ela está tentando fazer comigo?
Espera… o quê? Ela pegou minha mão?!
Meu coração dispara quando ela segura minha mão direita. A pele dela é tão macia… e ela está puxando!
— Vamos ter um encontro, Bell!
Ela se vira de costas e olha por cima do ombro com um sorrisinho fofo.
— …Um encontro?!
— Isso mesmo! Olhe para a cidade! Está tudo tão animado! Vamos nos divertir muito!
— Tudo bem, mas… o que você quer dizer com encontro?
— Hee-hee! Vamos, Bell! Vamos!
Estou corando feito louco — consigo sentir o calor nas bochechas. Mas a deusa parece tão feliz.
Seus dedos macios apertam minha mão, e ela me puxa direto para dentro da rua lotada.
Os vendedores não mostram nenhum sinal de desacelerar.
Estão vendendo de tudo!
Espetinhos de carne — fáceis de carregar, imagino.
Ah! Naquela barraca estão vendendo lembrancinhas pequenas, chaveiros e acessórios com o emblema da Familia Ganesha ou com monstros!
Espera… aquelas são… armas de verdade??
Não são de altíssima qualidade, mas são reais.
Só em Orario mesmo…
Fogos de artifício lançados do estádio pintam o céu. Mal consigo ouvi-los por causa do barulho da rua.
— Espere, Deusa. Eu preciso te dizer, estou no meio de uma tarefa!
— Ah, é? Que tarefa?
— Pediram para eu encontrar alguém.
— Então pronto! Procuramos essa pessoa durante nosso encontro! Acho que o ditado é “matar dois coelhos com uma cajadada só”? Ei! Senhor! Dois daqueles crepes, por favor!
— Deusa?!
Ela me ignorou de novo…
Estou encrencado.
Não posso voltar para o The Benevolent Mistress sem entregar a carteira da Syr e dizer que foi porque estava em um encontro!
Isso é mesmo um encontro…?
De qualquer forma, se aquelas mulheres descobrirem, com certeza vão me odiar!
E além disso…
A deusa.
Não consigo tirar os olhos dela.
Minha mão não relaxa, está molhada de suor. Mas isso não é nada comparado a todos esses novos olhares dela.
É estranho pensar nisso, mas ela está agindo exatamente como aparenta — correndo de barraca em barraca, os olhos brilhando enquanto aponta para doces ou roupas como uma adolescente.
Em casa ela é diferente, mais adulta.
O sorriso dela sempre foi contagiante…
Mas agora está… fofo.
A deusa realmente é uma jovem linda.
Ver esse lado dela prova isso.
Meu coração começou a bater em outro ritmo…
No que foi que eu me meti?
Ela é uma deusa!!
— Bell? Beeell?
— Ah, sim. O que foi?
— Aah—nn.
— …Hã?
Ela está complicando muito as coisas…
Com aquele sorriso radiante no rosto, ela ergue um dos crepes que acabamos de comprar até a minha boca…
Ela finalmente soltou minha mão, mas agora está na ponta dos pés, segurando o crepe com as duas mãos, tentando me fazer abrir a boca.
Meus braços se agitam enquanto tento falar alguma coisa, os olhos presos naquele doce que agora está a poucos centímetros de mim.
— Deusa, o que você está fazendo?!
— Como assim “o que”? Diga “ah”! Vamos, ahh—nn. Eu sempre quis tentar isso.
— …?!
Meu corpo inteiro está tremendo…
Que patético…
Esqueci completamente o que ia dizer. Ótimo. Tudo bem… talvez, se eu não disser nada, ela entenda.
Minhas bochechas estão pegando fogo!
Eu sei que ela está de bom humor, mas isso é absurdo! Talvez seja o festival que esteja colocando essas ideias na cabeça dela.
— Ahh, o que foi, Bell? É porque eu dei a primeira mordida?
— N-não! Não é isso, é que…
É um pouco constrangedor… e você é uma deusa!! Eu tenho que respeitar você! Respeito!
Ser alimentado assim por uma divindade de outro mundo?
Eu não teria nenhuma educação!
Evite contato visual!
Eu já pareço patético o suficiente!
Vamos lá, pense! Tem que ter uma saída!
Ah! O meu próprio crepe!
— Eu comprei esse para você! Dar uma mordida no seu crepe seria desrespeitoso, porque eu tenho o meu. Por favor, coma um pouco do meu!
— …Você escapou…
O sorriso dela desapareceu, substituído por um leve biquinho. Pelo menos ela abaixou o crepe.
Mas logo ela dá de ombros.
— Ah, tudo bem.
E o sorriso volta!
— Certo, então vamos fazer do seu jeito. Eu vou dar uma mordida no seu.
— Eh?
— Viu? Aahhh—nnn.
— …Ah—nn.
Ela fecha os olhos. Seus lábios finos se abrem levemente.
Certo… eu consigo lidar com isso.
É só aproximar o crepe da boca dela…
Nhac.
Os lábios dela — delicados como pétalas de cerejeira — avançam um pouco enquanto ela dá uma pequena mordida.
Ela parece uma criança fofa e inocente…
Pare de olhar para ela assim!
Estou corando de novo!
Ela abre os olhos ainda com os dentes cravados no meu crepe e sorri como uma raposa travessa antes de dar outra mordida enorme no doce. Quando se afasta, suas bochechas estão cheias como as de um esquilinho fofo.
Como será que está a minha cara agora…?
Há um pouco de creme na bochecha dela. Deve ter saído do recheio do crepe. Posso limpar rapidinho.
Minha mão para no meio do caminho.
O que eu estou fazendo?!
Ela é uma deusa!!!
Ela não vai querer ser tratada assim! Ainda mais por um humano como eu!
Pegue um guardanapo, idiota!
Começo a recuar a mão, mas ela segura meu pulso com aqueles dedos delicados.
— Hee-hee-hee, eu quero que você faça isso.
— ……
Ela sorri docemente para mim, corando, os olhos cheios de confiança.
Com cuidado, deslizo o dedo pela bochecha dela.
Seus olhos se apertam e o corpo se contorce um pouco, como se fizesse cócegas.
Ufa…
O sangue está subindo para a minha cabeça. Meu corpo inteiro está em chamas, como uma coceira impossível de alcançar.
Isso é tão constrangedor…
Ou será que eu só sou tímido?
Ela me tem completamente na palma da mão.
— Muito bem, Bell! Agora é a vez dos petiscos de batata! Vamos! Vamos!
— V-vamos continuar?
— Claro! Quase nunca temos tempo para aproveitar algo juntos!
Ela segura minha mão outra vez e me puxa pela rua.
Talvez eu esteja com um pé na cova de tanta vergonha, mas por algum motivo… eu também estou sorrindo.
Pensando bem, ela tem razão.
Nós somos uma Familia de apenas duas pessoas. Estamos sempre ocupados tentando ganhar dinheiro suficiente para sobreviver até o dia seguinte.
Eu fico na Dungeon; ela no trabalho de meio período.
Consigo contar nos dedos quantas vezes saímos juntos do quarto.
Nós nos esgueiramos entre pessoas de todas as raças que lotam a Rua Principal Leste de Orario.
Talvez eu pareça completamente deslocado ali, mas a deusa está feliz.
E isso é exatamente o que eu quero.
Tudo começou com um enorme rugido vindo da multidão.
Liberto de suas correntes, um monstro uivou enquanto avançava pela arena, levantando uma nuvem de poeira atrás de si.
O Battle Boar tinha mais de dois metros de altura.
Apenas uma domadora — uma mulher de cabelo curto — estava em seu caminho. Ela rolou para o lado com agilidade, os cabelos girando no ar.
A multidão explodiu em aplausos diante daquela demonstração impressionante de habilidade física.
Cinquenta mil pessoas nas arquibancadas formavam um verdadeiro redemoinho de energia, todo concentrado no centro do estádio.
O estádio Anphiteatom ficava na parte leste de Orario.
A cortina havia acabado de se levantar para o evento principal da Monsterphilia. Milhares de cidadãos entravam no estádio para assistir ao espetáculo.
O Battle Boar havia sido capturado justamente para aquilo.
Ele se impulsionou contra o chão da arena, decidido a despedaçar a mulher em seu caminho.
A força esmagadora da criatura deixava rachaduras no piso a cada passo.
Mesmo assim, a domadora da Ganesha Familia não se abalou.
Ela desviava habilmente de todas as investidas do javali, para o deleite da multidão.
A batalha lembrava muito uma tourada.
Uma pessoa de aparência chamativa, vestindo roupas extravagantes, enfrentava uma fera armada apenas com um chicote e uma capa.
O monstro avançava repetidas vezes, mas a domadora desviava por uma margem mínima.
A missão dela não era matar a criatura.
Era domá-la.
Ver aquela calma diante de um perigo mortal inspirava admiração e respeito no público.
Eles queriam ver mais.
A multidão aplaudia cada vez que a domadora escapava ilesa de uma investida.
Os rugidos aterrorizantes do monstro ecoavam por todo o estádio através de microfones de pedra mágica, garantindo que até as pessoas nas arquibancadas mais altas sentissem o impacto do espetáculo.
O estádio estava absolutamente eletrizado.
— Já começaram… — murmurou Eina ao ouvir a explosão de barulho atrás de si.
Ela estava posicionada do lado de fora do estádio, mas ainda assim podia sentir as vibrações dos rugidos do monstro na própria pele.
Olhou por cima do ombro para a parede de pedra que a separava da arena.
Eina havia sido designada para aquele posto pela Guild.
Ela e alguns colegas eram responsáveis por orientar os visitantes do festival para dentro do estádio e também por dar suporte aos membros da Ganesha Familia.
A Monsterphilia não era apenas um evento criado pelos deuses por diversão.
A Ganesha Familia fornecia os monstros e domadores para o espetáculo, mas o resto da organização ficava por conta da própria Guild.
Não é meu lugar questionar… mas por que a Monsterphilia existe em primeiro lugar?
Os administradores da Guild aprovaram o evento.
Eina não teve qualquer participação na decisão — apenas precisava cumprir ordens.
Mas ela não se sentia totalmente confortável com aquilo.
Mesmo que o risco para a cidade fosse quase inexistente, monstros não deveriam ser retirados da Dungeon.
Se pudesse, Eina teria se oposto.
Se a Guild estava realmente preocupada com a segurança e a administração da cidade, como afirmava, então deveria ter tomado mais medidas para restringir os monstros.
Arrancar suas garras, por exemplo, já seria um começo.
Afinal, monstros eram criaturas assustadoras.
O verdadeiro objetivo daquele evento não podia ser apenas domá-los.
Tinha que ser entretenimento.
Criar uma situação potencialmente perigosa apenas por diversão era algo que deveria ter sido encerrado.
No mínimo, a Guild não deveria estar envolvida nisso.
Esses pensamentos foram levando Eina, pouco a pouco, a essa conclusão.
— E agora… o show de aberrações. Isso até dói um pouco.
— Hã? Você disse alguma coisa, Eina?
Eina balançou a cabeça. Um colega de trabalho havia escutado ela resmungando sozinha.
Orario era o lar de muitas Familias e de seus aventureiros.
Isso podia parecer algo positivo, mas a maioria dos aventureiros não era exatamente amigável. Muitos tinham o hábito de agir conforme as próprias regras. A falta de educação deles com os cidadãos comuns causava inúmeros problemas para a Guild.
Funcionários como Eina tinham justamente a tarefa de amenizar esses conflitos.
Para continuar colhendo os benefícios da Dungeon, a Guild precisava manter os aventureiros sob controle — além de protegê-los.
Esse festival era praticamente a única forma de fazer os cidadãos comuns enxergarem os aventureiros de maneira positiva, então a Guild acabava fechando os olhos para certos perigos.
Não havia muito o que fazer.
Mesmo assim, as palavras “show de aberrações anual” continuavam ecoando na mente de Eina.
Ela sabia que a reputação da Guild estava sempre por um fio, e o festival era a melhor maneira de aliviar essa pressão.
Contanto que nada dê errado…
A época do festival sempre a deixava nervosa. Ela só conseguiria relaxar quando a cortina final caísse.
Ou talvez ela fosse apenas rígida demais.
Seus amigos e colegas reclamavam por não poder assistir ao espetáculo, enquanto ela massageava a têmpora, pensando no papel da Guild.
— Não… aqui também não…
— Talvez já tenham entrado?
Hmm?
Alguém que ela conhecia vinha caminhando em sua direção.
Era Bell.
Ele olhava ao redor enquanto caminhava pela parte externa do estádio, como se estivesse procurando alguém. A deusa ao lado dele certamente era a líder de sua Familia.
Eina lançou um olhar rápido para os colegas. Como eles ainda estavam reclamando entre si, concluiu que poderiam cuidar do posto por alguns minutos.
Então caminhou para cumprimentar o aventureiro sob sua supervisão.
— Bell.
— Ah, Srta. Eina?
— Bell, quem é essa meio-elfa?
Eina riu por um momento ao ver a expressão completamente confusa dele, depois fez uma reverência educada para Hestia e se apresentou.
— Meu nome é Eina Tulle. Sou membro do secretariado da Guild e também conselheira de Bell em assuntos relacionados à Dungeon. É um prazer conhecê-la pessoalmente, Deusa Hestia.
— Ah, então é assim que vocês se conhecem. Bell depende de você, pelo visto.
Satisfeita com a explicação, Hestia apertou a mão de Eina. Eina fez outra reverência enquanto Bell observava em silêncio.
Ele então saiu do transe e perguntou:
— Por que você está aqui fora, Eina?
— A Guild é responsável pela organização da feira, então todos os funcionários têm uma tarefa. Eu estou ajudando a orientar os visitantes até seus lugares. Então, Bell, você veio assistir ao evento de abertura?
— Ainda não. Na verdade estou procurando alguém. Ela é uma garçonete… mas não usaria o uniforme aqui fora. Ha-ha… Você viu alguma garota humana que não tenha dinheiro?
— Não tenho certeza…
Eina não conseguiu conter uma risada diante da forma como Bell descreveu a garota. Bell desviou o olhar, coçando a cabeça.
— Eu devia ter imaginado…
Eina então explicou que havia uma pequena taxa de entrada para entrar no estádio, então as chances de uma garota sem dinheiro ter conseguido entrar eram mínimas.
Bell assentiu e inclinou a cabeça em agradecimento.
— Bem, então vou continuar procurando do lado de fora do estádio antes de voltar para a Rua Principal Leste. Talvez ela não saiba da taxa e venha parar aqui mesmo assim.
— Parece um bom plano. Se eu vir uma garota assim, digo para ela esperar aqui.
Bell fez uma última reverência e se virou para sair.
Hestia viu ali uma oportunidade de falar com Eina em particular e deu um passo à frente quando Bell já estava fora de alcance.
Eina ficou um pouco confusa, mas se virou para encarar a deusa.
— Senhorita Conselheira.
— Sim? O que foi?
— Você não usaria sua posição para tentar dar em cima do Bell… usaria?
Hestia manteve o olhar firme. Em um instante, Eina percebeu que ela estava falando sério.
— Eu prefiro manter minha vida pessoal e profissional separadas…
— Certo. Vou confiar em você.
Hestia deu um leve tapinha no braço dela, com uma expressão solene nos olhos.
Bell, percebendo que a deusa não estava atrás dele, voltou com um olhar completamente confuso. Hestia foi ao encontro dele e os dois seguiram caminho.
Eina teve a sensação de ter sido espetada por uma agulha. Observou os dois se afastarem enquanto uma gota de suor escorria pela nuca.
Massageando a têmpora outra vez, voltou para onde seus colegas estavam posicionados na base do estádio Anphiteatom.
— Que diabos está acontecendo ali?
— Reclama depois, agora manda gente para lá!
— …?
O clima havia mudado. Vozes exaltadas ecoavam por todos os lados.
Eina estreitou os olhos ao se aproximar do grupo.
— Com licença, o que está acontecendo?
— Funcionários da Guild que estavam no portão oeste desmaiaram por algum motivo.
— …Hã?
— Eles estão conscientes, mas todos sentados sem conseguir trabalhar ou deitados no chão… Pode ser só uma ressaca terrível da noite passada. Mas ninguém ali está em condições de fazer nada, então estamos enviando mais gente para ajudar.
O funcionário da Guild — um homem da raça animal — revirou os olhos, frustrado.
Mas Eina sentiu um frio percorrer o peito.
Agora ela não estava apenas nervosa.
Seu corpo inteiro começou a ficar tenso.
Será que estou exagerando…?
Outro rugido da multidão ecoou por cima da muralha de pedra atrás dela. Eina levantou o olhar para o topo da parede, tentando se acalmar.
Mas um outro eco também chegou aos seus ouvidos.
Um rugido de monstro… vindo do subterrâneo.
Era uma sala escura e suja, quase sem iluminação.
Apenas uma lâmpada de pedra mágica pendia do teto, lançando sombras longas por todo o aposento.
Caixotes de cerca de um metro de altura se alinhavam pelo depósito úmido e empoeirado. Diferentes tipos de armas e equipamentos estavam pendurados nas paredes.
Havia também muitas jaulas.
O som de correntes ecoava enquanto as feras presas dentro delas lutavam contra suas restrições.
As jaulas de ferro eram feitas em padrão de grade. Monstros enfiavam o focinho pelas aberturas, mostrando as presas enquanto rosnavam e uivavam.
A sala ficava sob o palco principal do estádio Anphiteatom.
Era usada como a sala de espera dos monstros.
Quando chegasse a hora de cada criatura entrar em cena, um funcionário moveria sua jaula até a superfície. Um domador estaria esperando no momento em que as correntes fossem soltas.
— O que vocês estão fazendo? Já estamos prontos para o próximo! Por que não estão subindo a jaula?!
Clop. Clop. Clop.
O som seco de saltos altos ecoou pelo corredor de pedra do lado de fora antes que a porta se abrisse.
Uma mulher da Ganesha Familia apareceu.
Ela era a responsável pela equipe de transporte dos monstros.
Seus assistentes nunca falhavam, então quando a próxima jaula não apareceu no horário esperado, ela correu para investigar.
Estava pronta para repreendê-los.
Mas ninguém respondeu.
— O-o que houve? Ei!
Seus subordinados estavam espalhados pelo chão da sala.
Os quatro homens que ela havia deixado responsáveis estavam sentados, encostados em caixas, com expressões vazias no rosto.
Ela correu até o mais próximo, temendo o pior.
Ele estava respirando.
E não havia ferimentos.
Ela verificou os outros.
Todos estavam exatamente no mesmo estado estranho.
Estavam vivos.
O problema era que pareciam marionetes cujos fios haviam sido cortados.
Não havia força alguma em seus corpos.
— Ah… ah…
Veneno de monstro…? Não, impossível…
Que diabos causou isso?!
Todos murmuravam algo.
Seus rostos estavam completamente vermelhos.
Seus olhos não focavam em nada.
Ela nunca tinha visto algo assim.
Um arrepio percorreu seu corpo quando percebeu que não fazia ideia de como ajudá-los. Como curar algo que ela estava vendo pela primeira vez?
O que aconteceu aqui…?
Ela se levantou e examinou a sala, ignorando os uivos e as investidas das feras ainda presas nas jaulas.
— …
O ar atrás dela mudou de repente.
Não foi um ataque furtivo agressivo.
Parecia mais alguém se aproximando de um amigo pelas costas.
Não havia intenção de machucar — e foi justamente por isso que ela reagiu tarde demais.
Alguém estava atrás dela.
— Poderia ficar parada?
— —ah.
Um rápido farfalhar de tecido.
De repente, ela não conseguia mais ver.
Seus olhos haviam sido cobertos por dedos delicados e suaves.
No instante seguinte, seu corpo inteiro congelou.
Seus membros começaram a tremer levemente.
Um perfume doce tocou seu nariz.
Um corpo macio se encostou às suas costas.
Calor envolveu sua pele.
Todos os seus sentidos foram dominados por uma beleza que ela nem conseguia ver.
Era um “encanto” esmagador.
Um encanto impossível de compreender.
Ela não conseguia resistir.
Não conseguia lutar.
Sua mente começou a ficar vazia, os pensamentos evaporando de uma vez.
Sua liberdade havia desaparecido.
— Onde está a chave?
— —e…
— A chave das jaulas… onde está?
A voz sussurrou suavemente em seu ouvido.
Mas o som dominou completamente sua consciência.
Sua cabeça caiu para frente, o pescoço incapaz de sustentá-la.
Ela não conseguia lutar contra aquelas palavras.
Então obedeceu.
Seu braço direito trêmulo se moveu para trás, pegando o molho de chaves preso ao cinto.
As chaves sacudiam violentamente em sua mão trêmula.
Ela as levantou até a altura do ombro.
— Obrigada.
As mãos que cobriam seus olhos desapareceram enquanto as chaves eram retiradas de sua mão.
Mas seus olhos não reagiram.
A mulher não viu nada.
A presença atrás dela se afastou.
Sem aquele apoio, seus joelhos cederam.
Ela caiu no chão, sentando-se pesadamente.
Agora ela era vítima do mesmo encanto que havia atingido sua equipe.
Seu destino era o mesmo.
— Minhas desculpas.
Freya deixou a garota para trás e caminhou mais fundo no depósito.
Funcionários da Guild e os “membros de elite” da Ganesha Familia estavam guardando o portão oeste.
Ela havia deixado todos incapacitados para chegar até ali.
Freya não possuía habilidade para lutar contra ninguém.
Era apenas uma entre muitos deuses que viviam em Gekai.
Não tinha poderes especiais.
Mas possuía sua beleza.
Ela era a própria beleza.
Uma força que não podia ser controlada pela razão.
Até mesmo deuses podiam cair sob seu encanto.
Humanos e demi-humanos não tinham a menor chance.
Ela tinha a capacidade esmagadora de colocar qualquer um em transe sempre que quisesse.
Dessa vez…
Ela estava usando isso apenas para se divertir um pouco.
O gênero de suas vítimas não importava.
Sua consciência simplesmente desaparecia.
Eles esqueciam até como se manter de pé.
Todos ficavam completamente fascinados por seu “encanto”.
Desde que tomasse cuidado para não ser vista, infiltrar-se daquele jeito estava totalmente dentro de suas capacidades.
— ……
Freya parou no meio do depósito.
Jaulas de monstros estavam alinhadas por toda parte ao redor dela, e seus ocupantes uivavam com vigor renovado. Ela ouviu a explosão de rugidos bestiais que ecoava ao seu redor.
No entanto, assim que abaixou o capuz, todas as feras ficaram em silêncio.
“……”
A beleza dela também os havia capturado.
A pele da cor da neve recém-caída encheu seus olhos. Os cabelos prateados e os olhos prateados de Freya hipnotizaram os monstros, colocando-os em um estado passivo, seus músculos simplesmente paralisando.
Nem mesmo monstros ferozes estavam a salvo de seu “encanto”.
“… Você servirá bem.”
Ela observou cada um deles individualmente antes de parar diante de uma jaula em particular.
Aquele monstro era coberto por um espesso manto de pelos brancos. Seus braços eram enormes, os ombros largos e cheios de músculos salientes. Uma faixa de pelos mais longos, quase como fios, que combinavam perfeitamente com a cor do cabelo de Freya, descia por suas costas e terminava no que parecia ser uma pequena cauda.
O grande macaco prateado selvagem cruzou o olhar com a Deusa da Beleza, sua respiração ficando cada vez mais pesada a cada segundo que passava.
— Saia.
Ela abriu a tampa da jaula com a chave que tinha na mão.
O monstro obedeceu às instruções de Freya e saiu da jaula de grades. As correntes que prendiam seus braços e pernas tilintaram enquanto arrastavam pelo chão.
Ela havia soltado um monstro. Sabia muito bem o quão perigoso aquilo podia ser.
Mas, sendo ela quem puxava os fios por trás de tudo, pequenos detalhes como esse não significavam nada.
Ela tinha vindo ali por um único motivo.
Aquele garoto está logo ali fora…
Seu alvo era Bell Cranell.
Ahh… que pena. Eu queria observá-lo crescer um pouco mais…
Ela sabia que Bell estava evoluindo em um ritmo assustador. Não sabia o motivo, mas conseguia ver claramente que ele melhorava aos saltos.
Nenhum segredo podia permanecer escondido de um deus.
… Quero brincar com ele.
Freya riu sozinha, como uma criança.
Queria pregar uma peça naquele que amava, como se fosse uma menina imatura.
Mas não conseguia parar. Seu amor à primeira vista a impulsionava para frente como uma pontada de dor no fundo do peito a cada momento em que não podia estar com ele.
Ela queria vê-lo assustado, queria vê-lo chorar, mas acima de tudo queria ver sua coragem.
“……”
“Fhaa… fhaaaa…?”
Freya acariciou com carinho a bochecha do macaco prateado, enquanto as narinas dele se dilatavam a cada respiração pesada. Ela fez uma pausa por um instante, enquanto um novo pensamento surgia em sua mente.
E se esse monstro acabasse matando Bell por causa dela?
Ela não tinha pensado nisso antes, mas logo deu de ombros.
Se Bell morrer hoje…
Eu irei atrás dele.
Se o espírito dele deixasse o Gekai, ela o perseguiria até os confins do tempo e do espaço.
Eu vou abraçá-lo.
Quando finalmente o alcançasse, iria apertá-lo contra seus seios ardentes.
Seus olhos brilhavam com amor e ternura, mas seu rosto revelava um prazer cruel. Um sorriso absolutamente perverso se desenrolou em seus lábios.
Ela segurou a cabeça do macaco prateado com as duas mãos, ainda com aquele sorriso maligno. Cada músculo do corpo do monstro pulsava com energia.
Então…
Ela se inclinou para frente e encostou os lábios na testa da criatura.
Espere por mim, está bem?
Um rugido explodiu dentro do depósito.
— Deusa, sobre o que você estava conversando com a Eina?
— Ah, isso e aquilo.
A deusa e eu já demos uma volta completa pelo estádio procurando por Syr. Agora estamos de volta à rua principal leste. As ruas estão bem mais vazias agora. Provavelmente todo mundo está lá dentro assistindo aos domadores trabalhando.
— Ei, Bell. Essa pessoa que você está procurando é uma garota, não é?
— Eh? Ah, sim. Ela tem cabelo e olhos da cor de cinzas. Parece mais madura… e é um pouco mais alta do que eu…
Ela não estava perguntando como a Syr é. Os olhos dela estão apenas meio abertos, me encarando. Ela nem pisca…
Por que ela está me olhando desse jeito…? Estou com um mau pressentimento.
— Hã… Deusa?
— … Assim como aquela conselheira, você realmente não percebe nada.
— Eh…? Como assim?
— Quem sabe.
Pelo menos ela não está mais me encarando… mas agora está emburrada…
Eu juro que aqueles rabos de cavalo dela estão vivos. Eles estão se mexendo… como se quisessem me estrangular…
O que eu fiz? Por que ela está assim…?
Caminhamos em silêncio por uma eternidade.
— …?
— … O que foi, Bell?
Sinto algo estranho no ar e paro de andar. A deusa ainda parece tão irritada quanto antes quando olha por cima do ombro para mim.
Agora mesmo… alguma coisa…
Algo chega aos meus ouvidos.
Não é o barulho do festival; é mais agudo, mais tenso.
— … Um grito?
Assim que as palavras saem da minha boca, uma onda de som nos engole.
— MONSTROOOOOOOOO!!!
A rua tranquila explode em pânico ao ouvir aquela única palavra.
Lá está.
Um monstro no final da rua, vindo do estádio.
Ele avança pela estrada de pedra, com todo o seu pelo branco eriçado.
O monstro — o macaco prateado — estava enfurecido.
Uma tempestade ardia dentro dele. Seus músculos se contraíam com força total, e sua respiração era tão poderosa que parecia capaz de varrer tudo à sua frente. Ele a queria — e a queria agora.
Estava procurando por uma deusa.
A última vez que viu seus cabelos prateados foi do lado de fora do estádio, desaparecendo no meio da multidão. Totalmente enfeitiçado, o monstro disparou atrás dela com mais força e poder do que jamais tivera, quase como se estivesse sendo puxado por uma corrente invisível.
O amor dela!
O carinho da deusa!
Os instintos mais puros e primitivos do monstro haviam tomado conta de seu corpo e o impulsionavam para frente.
Os instintos de um monstro não vacilam. Sua busca pelo amor de uma deusa o consumia por completo.
— Gaaaaahhhhhh!!!
— Heeee!
O silverback avançou pela rua, arremessando carroças e caixas para longe com golpes de seus braços.
Um cavalo em pânico conseguiu sair do caminho. O condutor da carroça não teve a mesma sorte. Foi lançado pelos ares e caiu pesadamente no chão. O cavalo virou a carroça vazia e voltou para perto de seu dono enquanto o silverback passava em disparada.
Ele estava perdendo o cheiro da deusa. O doce aroma dela havia desaparecido. Será que havia pegado o caminho errado?
O silverback parou por um momento e tentou encontrar o cheiro dela novamente. Olhou em todas as direções, puxando grandes lufadas de ar.
As ruas voltaram a se encher de pessoas — gente correndo, gente em choque, gente gritando no topo dos pulmões. O silverback estava cercado por um círculo de humanidade.
Os olhos da criatura percorreram a multidão… até que de repente pararam.
Seu olhar se fixou em um ponto.
Em alguém específico.
Ele viu “ela” com os olhos injetados de sangue.
Uma pequena garota de cabelos negros e olhos vazios, encarando-o de volta.
Um ser claramente diferente de todos os outros ao seu redor.
Alguém em um plano completamente diferente.
Alguém com as mesmas qualidades da “deusa” que ele perseguia.
Uma voz subiu até seus ouvidos:
— Poderia perseguir a pequena?
As palavras que sussurravam em seu ouvido eram dela.
— Te encontrei!
O silverback deu um grande passo em direção à garotinha de olhos arregalados.
— —
Ele dá um passo à frente.
— …B-Bell.
Eu agarro a mão da deusa e dou um, dois passos para trás.
Cada fio de cabelo do meu corpo está arrepiado. Não me sentia assim desde aquele dia.
Um corpo branco, com pelos prateados descendo pelas costas. Sua presença é esmagadora.
Seus olhos são os de uma fera — sem ritmo, sem razão. E estão voltados para mim e para a deusa.
Não consigo respirar.
Por que há um monstro aqui? O que está acontecendo? Já fiz essas perguntas antes…
Estou diante de algo que não deveria estar aqui. É como o Minotauro novamente. Estou suando, tremendo tanto quanto da última vez.
Um de nós vai acabar sendo esmagado!
— …Dê o seu melhor.
De onde veio essa voz…?