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Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 1 – Capítulo 4

É Por Isso Que Eu Quero Ajudar

O tique-taque marcava o tempo dentro do quarto.


O relógio na parede apontava cinco da manhã.


Hestia andava de um lado para o outro no cômodo sob a velha igreja — seu lar.


Ele está atrasado demais…


Cruzou os braços e franziu as sobrancelhas. A ansiedade pulsava em suas veias.


Na noite anterior, ao ver o quanto a “paixonite” de Bell por Aiz o fizera crescer, ela tinha perdido completamente a compostura.


Nem conseguiu aproveitar a confraternização com os colegas.


Quando voltou para casa, foi recebida apenas pelo silêncio.


Bell não estava lá.


Ela havia dito para ele jantar sozinho, mas o fato de ele não estar ali para recebê-la só a deixou mais irritada. Ignorou o banho e se jogou na cama decidida a dormir.


Dez horas. Onze. Meia-noite.


E ele não voltou.


Foi então que Hestia percebeu que havia algo muito errado.


A raiva a manteve acordada até ali. Desistindo de vez de dormir, chutou as cobertas para longe e saiu para procurá-lo.


“Onde você foi…?”


Não encontrou nada.


Nenhum sinal do cabelo branco inconfundível do garoto. Sua última esperança era que Bell tivesse voltado enquanto ela estava fora. Mas, ao retornar, o quarto continuava vazio.


Tudo o que ganhara com a busca exaustiva foram pernas doloridas. Seus nervos também estavam à flor da pele.


Ela estava um caco.


Será que foi por causa do que eu disse? Mas ele sempre pensa nos outros antes de si mesmo… não me deixaria preocupada só porque ficou chateado… Normalmente já estaria aqui, cabeça baixa, pedindo desculpas…


A última imagem que tinha dele era a de um coelhinho abandonado.


Repassou a última conversa várias vezes na cabeça.


A ideia de que a culpa fosse dela voltou a se insinuar — mas ela afastou o pensamento.


Agora não era hora de se afogar em arrependimentos.


Respirou fundo e começou a pensar nas possíveis razões para a ausência dele.


Se não foi por minha causa que ele não voltou… então isso quer dizer que…!


Algo ruim aconteceu.


Ela tinha certeza.


A calma forçada desmoronou como um castelo de areia. Um suor frio cobriu sua pele.


Não podia ficar parada imaginando que algo pudesse ter acontecido com ele.


Agarrou o manto e foi até a porta, decidida a sair novamente.


“—Gyahhh!”


No exato momento em que tocou a maçaneta da porta quadrada, ela se abriu de repente —


e acertou seu rosto em cheio.


Ao mesmo tempo, seus “travesseiros pessoais” foram comprimidos contra a madeira quando a porta parou.


A fé de Hestia aumentou cem pontos!


Ela soltou um gritinho agudo, levando as mãos ao rosto e se agachando.


“D-Deusa?! E-Eu sinto muito…”


Ainda zonza pelo impacto inesperado, Hestia espiou entre os dedos a figura parada na entrada.


Quando percebeu quem era, levantou-se de um salto.


“Bell?!?”


Era ele.


O alívio a atravessou por inteiro. Quase chorou — mas as palavras morreram quando a luz revelou seu estado.


Ele a olhava com olhos arregalados, quase implorando perdão.


O rosto estava coberto de cortes — vermelho de sangue, marrom de lama.


Parecia completamente exausto.


A parte de cima do corpo estava em estado deplorável.


Hestia ficou tonta ao ver os farrapos pendendo de seus ombros. Aquilo fora uma camisa quando ela saíra.


A pele exposta estava marcada por talhos inchados que se cruzavam.


A parte de baixo estava ainda pior.


As calças estavam manchadas de algo indefinido e rasgadas em pedaços.


Mas três cortes profundos no joelho direito — claramente feitos por uma lâmina afiada — chamavam mais atenção. Escurecidos, ainda sangrando, eram as piores feridas em um corpo já coberto de machucados.


Hestia empalideceu ao se aproximar devagar.


“O que aconteceu com você? Que ferimentos são esses? Você foi atacado na rua?!”


“N-Não… não foi isso…”


“Então o que foi, afinal?!”


“Eu fui para a Dungeon…”


Assim que ouviu aquilo, esqueceu a raiva por um instante e ficou olhando para ele, incrédula.


“Você enlouqueceu?! Entrou na Dungeon desse jeito? À noite?!”


“…Desculpa.”


Bell não usava armadura alguma.


Entrar na Dungeon assim era como entrar nu.


Um único golpe de um monstro forte seria o fim — e o estado dele provava isso.


Talvez tivesse levado uma faca, mas a falta de cuidado com a própria vida chocou Hestia profundamente.


Aquilo não era coragem.


Era imprudência.


“…Por que você faria uma coisa dessas? Você não é do tipo que busca emoção. O que estava passando pela sua cabeça?”


“……”


Quanto mais o observava, menos vontade tinha de repreendê-lo.


Ele não parecia ele mesmo.


Havia algo mais sombrio nele — quase pesado.


Ela suavizou a voz, tentando alcançá-lo.


Mas Bell não reagiu.


O cabelo escondia seus olhos.


Ele estava se fechando.


Hestia suspirou, frustrada.


“Tá bom, tá bom. Não vou perguntar mais nada. Você é teimoso demais — não dá para vencer.”


“…Desculpa.”


“Eu já disse que está tudo bem, não disse? Agora você precisa de um banho. O sangramento quase parou, mas suas feridas estão sujas. Eu cuido delas depois.”


“…Obrigado.”


Bell esboçou um pequeno sorriso.


Mesmo com o coração apertado, Hestia sorriu de volta.


Afastou-se da porta para deixá-lo entrar, mas ele cambaleou.


A perna direita devia estar realmente ruim.


Resmungando por não ser mais alta, Hestia passou o braço dele por seus ombros. Precisou ficar na ponta dos pés para sustentá-lo.


“E-Eu sinto muito.”


“Você só sabe pedir desculpas. Se está mesmo arrependido, pense no que fez.”


“A-ah… desculpa…”


“De novo?”


Meio carregando, meio sendo carregada, Hestia conduziu Bell até o banheiro. Ficava ao lado da cama, atrás de uma velha porta branca de madeira.


A porta pendia torta, uma das dobradiças estava solta.


Hestia concentrou toda a força em mantê-lo de pé enquanto atravessavam o quarto.


Pouco antes de chegarem ao banho, uma ideia lhe ocorreu.


“Bell, dorme na cama hoje, tá?”


“Você tem certeza…?”


“Claro! Você está todo machucado. Eu não vou conseguir te arrastar até o sofá desse jeito, vou?”


Ela sabia que, acima de tudo, ele precisava dormir para se recuperar.


Era o mínimo que podia fazer — ceder a própria cama para que ele descansasse.


Assim que terminou de oferecer, outra ideia lhe ocorreu.


Por que não provocá-lo um pouquinho?


“Mas eu vou dormir na mesma cama, tá? Fiquei exausta saindo por aí atrás de você. Você não vai recusar, né?”


“Claro. Você deve estar cansada também. Vamos dormir juntos.”


“…Hã?”


Bell não percebeu o tom provocador e aceitou na hora.


Pegando-a completamente de surpresa, a resposta foi como um golpe direto no peito. O coração disparou enquanto ela tentava organizar os pensamentos.


E agora?


Ela estava se aproveitando dele?


Ele estava completamente exausto.


Nem dava para saber se ele entendia o que tinha acabado de dizer.


Droga, Bell! Você chega tão perto…!


Hestia cerrou os dentes, o rosto ficando rosado enquanto o coração falhava uma batida.


A gente pode se aninhar! Não — a gente vai se aninhar!


Imagens do que poderia acontecer invadiram sua mente enquanto calculava mentalmente o tamanho e o peso do garoto que sustentava.


Ela tinha a palavra dele.


Agora ele não podia escapar.


Yay!


“Deusa…”


“…! O-o que foi?”


A voz de Bell a arrancou dos devaneios, e ela respondeu às pressas.


Será que ele percebeu meu plano?


Um suor nervoso surgiu enquanto esperava o que ele diria.


“…E-eu quero ficar mais forte.”


“!”


Ela ergueu o rosto para encará-lo.


Ele olhava para frente, mas sem focar em nada específico.


Hestia respirou fundo e voltou os olhos para a porta do banheiro.


“Sim…” respondeu, baixinho, aceitando aquelas palavras.


Bell Cranell


Nível Um


Força: H-120 → G-221


Defesa: I-42 → H-101


Destreza: H-139 → G-232


Agilidade: G-225 → F-313


Magia: I-0


Magia


( )


Habilidades


Realis Phrase


Crescimento acelerado.


Desejo contínuo resulta em crescimento contínuo.


Desejo mais intenso resulta em crescimento mais intenso.


“—!”


As mãos de Hestia pararam no mesmo instante.


Seus olhos estavam fixos nas costas magras do garoto. O status dele se desdobrava diante dela como um antigo texto sagrado, cheio de símbolos. As informações gravadas na Falna que ela lhe concedera fizeram um arrepio percorrer sua espinha.


Já fazia um dia desde que Bell voltara.


Ele gritara ao perceber que estava dormindo ao lado da deusa. Passara o dia inteiro naquela cama e acordara no horário de sempre, na manhã seguinte, ainda naquela situação. Como ainda era cedo, decidiram fazer a atualização de status.


Como sempre: Bell de bruços na cama, sem camisa; Hestia sentada sobre ele, furando o próprio dedo e deixando gotas de sangue caírem em suas costas…


A única diferença eram os números que emergiam à superfície — um status completamente inacreditável.


Ele está crescendo rápido demais.


Bell era o primeiro membro de sua Familia — o primeiro a receber sua bênção. Algumas amigas já haviam comentado sobre como os abençoados cresciam, mas Hestia não era especialista.


Ela não sabia como acelerar a aquisição de experiência, como desbloquear habilidades ou despertar magia.


Mas sabia que aquilo não era normal.


Aquilo não era crescimento.


Eram saltos gigantescos.


Talvez não exista outro aventureiro como ele…


Se todos crescessem no ritmo de Bell, a maioria já estaria no Nível Dois, quase no Três.


Alcançar o Nível Dois já era difícil o suficiente; muitos que conseguiam pertenciam a grandes Familias. Mais da metade dos aventureiros jamais passava do Nível Um.


O status atual de Bell equivalia à soma de dois aventureiros veteranos comuns.


Normalmente, os pontos de status subiam dez ou mais de uma vez só apenas no começo da carreira. Depois, vinha um muro — e muitos iam reclamar com seus deuses.


Pouquíssimos ultrapassavam esse primeiro bloqueio.


Os outros ficavam girando em círculos.


Por que ele cresceu tanto…? A única explicação possível é…!


Algo estava se expandindo dentro dele.


Hestia — a única que conhecia a habilidade Realis Phrase — mordeu o lábio, a mente em turbilhão.


Existia uma emoção que as crianças conheciam bem: inveja.


E essa emoção estava abalando Hestia até o fundo da alma.


“Deusa?”


“!”


Bell olhava por cima do ombro, tentando entender por que ela havia parado.


“A-ah! Desculpa! Desculpa!” disse ela, apressando-se a continuar. Pelo menos fingiu que continuava; já estava quase terminando.


O que eu faço…? Entrego o status completo…?


Confiança súbita e força repentina podiam gerar arrogância.


Ela sabia disso. Não era exclusividade dos humanos — todos tinham essa fraqueza. A arrogância levava ao descuido. E o descuido… à morte.


Uma parte dela queria acreditar que Bell jamais se tornaria arrogante.


Mas outra parte sussurrava: “E se?”


E como sua protetora, ela não podia ignorar essa possibilidade.


E se eu o perder?


Confiança e preocupação lutavam dentro dela. Por mais motivos que encontrasse para confiar em Bell, a preocupação sempre pesava mais.


Mas se eu esconder a verdade… estarei mentindo para ele…


E isso atrapalharia o crescimento dele.


Se Bell não soubesse do próprio potencial, enfrentaria inimigos que não deveria enfrentar todos os dias. E, se sobrevivesse, o que isso faria com seu status? A excelia — a experiência — acumulava-se mais rapidamente quando se enfrentava alguém mais forte.


Por mais que mentir a tranquilizasse, seria como cortar com as próprias mãos um rasgo nos sonhos dele.


Por um instante, Hestia ficou em silêncio absoluto.


No fim, escolheu confiar.


Dominando o “e se?” com força de vontade, inclinou a balança.


Ele estava fazendo algo que nem mesmo os deuses podiam alterar. E estava ao alcance dela impulsioná-lo com seu status.


“Eu quero ficar mais forte.”


Mesmo que a motivação viesse de sentimentos por outra, ele já tinha tomado sua decisão.


“Bell, tudo bem se eu só te disser o seu status hoje?”


“Ah, claro. Tudo bem.”


Bell olhou por cima do ombro enquanto ela dizia quantos pontos ele havia aumentado.


Mas omitiu a parte sobre a habilidade Realis Phrase.


Era, sem dúvida, uma habilidade rara.


A maioria das habilidades era relativamente comum, com efeitos semelhantes entre aventureiros.


Ainda que não se compreendesse totalmente como eram adquiridas, as habilidades conhecidas tinham nomes e efeitos distintos — e não era difícil encontrar alguém com algo parecido.


Além disso, certas raças tendiam a compartilhar padrões. Muitos elfos tinham habilidades voltadas para magia; anões, para força física.


Havia inúmeros tipos de habilidades, para todas as raças.


Mas quando pouquíssimos aventureiros possuíam uma determinada habilidade, ela era considerada uma “habilidade rara.”


Era assim que os deuses a chamavam.


Se ele soubesse… as coisas ficariam complicadas.


Ela não estava escondendo a habilidade dele por maldade.


É verdade que uns 70% — talvez 90% — da decisão vinham do ciúme daquela Wallens… seja lá qual fosse o nome dela. Mas havia outros motivos para manter a boca fechada.


Os deuses desceram ao mundo em busca de diversão. E quando ouviam falar de uma habilidade “rara” ou “original”, reagiam como crianças diante de uma vitrine de doces. Os olhos brilhavam. A boca se abria. Às vezes até escorria um fio de baba.


Alguns, mais imprudentes, podiam até tentar arrancar o portador da habilidade de sua Familia atual, ignorando completamente a bênção já concedida.


Para eles, era só um jogo.


Bell não sabe mentir. Se alguém perguntasse, ele contaria. A notícia se espalharia num instante. Então… só isso eu vou guardar para mim.


A habilidade aumentava o crescimento sob certas condições.


Realis Phrase, sem dúvida, era algo que não constava em registro algum.


Hestia decidiu proteger Bell dos outros deuses, trancando aquele segredo no fundo da própria mente.


O queixo de Bell caiu quando ela começou a explicar o que estava gravado em suas costas — omitindo, claro, a parte da habilidade. Hestia terminou de ajustar os hieróglifos. Era a única coisa concreta que podia fazer por ele.


“Então… é isso. Você cresceu bastante dessa vez. Sabe por quê?”


“Não… não faço ideia… Ah!”


“Sim?”


“Bem… naquela noite eu desci até o sexto andar inferior…”


“O quê? O QUÊ?! Você enlouqueceu?! No que estava pensando? E sem armadura?!”


“E-eu sinto muito!”


Hestia se levantou num salto e ficou sobre ele, fuzilando-o com o olhar. Despejou uma enxurrada de broncas enquanto Bell, ainda sem camisa, permanecia sentado na cama.


“Enfim. O ponto é que, seja lá qual for a razão, você está crescendo num ritmo absurdo. Eu não sei quanto tempo isso vai durar, nem até onde você pode chegar. Vamos chamar de… um estirão.”


“S-sim!”


“… Isso é só a minha opinião, mas acho que você tem um potencial enorme. Tem talento. E ótimos instintos como aventureiro.”


Aquela habilidade não era a única explicação para o desempenho dele.


Era apenas a faísca que acelerava o crescimento.


Havia muitos sinais do que Bell realmente era capaz.


Um garoto do campo, sem mestre, sobrevivera a situações de quase morte explorando a Dungeon sozinho, todos os dias.


Realis Phrase elevava os atributos básicos. Mas não ensinava a atacar, bloquear ou desviar. Isso só vinha da experiência real em combate. Mesmo sem a habilidade, as decisões eram dele — e isso era sua verdadeira força.


O fato de ter sobrevivido sozinho até ali já era prova de talento.


“… Você vai ficar mais forte. E eu quero que fique ainda mais forte do que é agora.”


“… Sim.”


Bell se sentou direito e olhou nos olhos dela. Hestia cruzou os braços e sustentou o olhar.


Colocou todo o coração nas próximas palavras.


“… Quero que você me prometa que não vai exagerar. Que não vai repetir o que fez naquela noite.”


“Eu—”


“Seu desejo de ficar mais forte é incrível. Eu admiro isso. Vou te incentivar, te apoiar, ajudar no que puder… Então.”


Os olhos dela brilharam, enchendo-se de lágrimas.


“… Por favor, não me deixe sozinha.”


O efeito foi imediato.


Os ombros de Bell caíram levemente enquanto a encarava. O rosto dele ficou pensativo, como se recordasse outra promessa que já cumprira. Ele fechou os olhos e respirou fundo.


O silêncio que se seguiu pareceu longo demais para os dois.


“… Eu prometo.”


Bell ergueu a cabeça.


O rosto parecia à beira do choro — mas, ao mesmo tempo, transbordando alegria.


Não havia a menor sombra de mentira naquele sorriso. Para Hestia, aquele rosto era mais confiável do que qualquer juramento.


Naquele instante, teve certeza de que podia confiar nele.


“Eu não vou exagerar. Vou fazer o meu melhor para ficar mais forte… Mas não vou deixar você para trás nem te fazer sofrer. Você não vai ficar sozinha.”


“Fico feliz em ouvir isso. Agora posso ficar tranquila.”


Segurando o impulso de se jogar nos braços dele, Hestia sorriu.


Apanhou a camisa dele no chão e entregou. Ele murmurou um “Obrigado.” Ela levantou os olhos para o teto enquanto ele se vestia.


… Eu estou tão feliz!


Havia algo que ela podia fazer por ele.


Seus passos ecoaram no assoalho empenado enquanto corria até uma prateleira na cozinha. A maior parte era ocupada por utensílios, mas no centro havia uma caixa. Ela a abriu de supetão e começou a remexer às cegas, procurando algo escondido.


Afastou panfletos e papéis do trabalho de meio período até encontrar o que queria.


Um convite com o título: A CELEBRAÇÃO DOS DEUSES DE GANESHA.


Hephaistos vai estar lá, não vai?


O rosto da amiga — a deusa que lhe conseguira aquele quarto — surgiu em sua mente.


Não era fácil encontrar Hephaistos; ela vivia ocupada, viajando pela cidade por causa do trabalho.


Hestia decidiu usar aquela festa como oportunidade para vê-la pessoalmente.


A festa começava… naquela noite.


“Ah!” escapou de sua boca enquanto olhava ao redor, organizando as ideias.


“Bell, vou sair hoje à noite. Talvez fique fora por alguns dias. Tudo bem?”


“Hã? Ah… tudo bem. É algo do trabalho?”


“Não. No começo nem me interessei muito, mas algumas amigas próximas vão a uma festa. Acho que vou passar lá para cumprimentá-las. Faz tempo que não vejo todo mundo.”


“Então vai, claro!” disse Bell, sorrindo. Amigos eram importantes. Ele não tinha motivo algum para impedir.


Hestia sentiu-se um pouco culpada por tocar no assunto assim, de repente, mas sorriu de volta e foi até o armário. Nenhuma de suas roupas era realmente adequada para a ocasião, ainda assim escolheu o melhor vestido que tinha e o colocou na bolsa de viagem.


Acrescentou mais algumas coisinhas e estava pronta. Só faltava pedir para alguém cobrir seu turno no trabalho — resolveria isso no caminho.


Já estava quase saindo quando se lembrou de algo.


“Bell, você vai à Dungeon hoje?”


“Estou pensando em ir… Não deveria?”


Ele tinha acabado de fazer uma promessa. Ergueu os olhos com cautela, como se esperasse outra bronca cair sobre ele como um muro.


“Não, pode ir. Mas seja ainda mais cuidadoso, está bem? Você ainda está se recuperando.”


“Vou ser! Obrigado!”


As covinhas surgiram nas bochechas dele enquanto sorria. Ele acenou para Hestia, que saiu.


Os raios do sol se estendem pelo céu.


Já é fim de manhã. Um bom horário para caminhar pela Rua Principal. Muita gente aproveita o tempo agradável.


Saí pouco depois da deusa. Desta vez estou com a armadura. Indo para a Dungeon.


Ela tinha razão. Meu joelho não está nada feliz. Seja lá qual for o monstro do sexto andar que me acertou, tinha um braço infernal. Vai demorar para voltar ao normal.


Mais um motivo para não exagerar. Nada de aventuras imprudentes. Se eu errar, volto para casa na hora. Mas vou me concentrar e dar o meu melhor.


Ali está. A Dungeon ainda fica um pouco longe. Até alguns dias atrás, eu teria corrido o caminho inteiro, impaciente. Mas não agora.


A deusa me acalmou bastante. Minha cabeça está clara. Só preciso continuar avançando, o mais rápido que puder.


Vai levar tempo, mas esse é o caminho mais curto para alcançar a srta. Wallenstein. Continuar indo à Dungeon. Continuar ficando mais forte. Todo esforço dá fruto, não dá?


Ainda consigo ouvir a voz dela: “Não exagere.”


Com essas palavras ecoando na cabeça, meus pés param diante “daquele” lugar.


É… tem algo que preciso fazer antes de ir à Dungeon hoje.


“Isso pode ser meio complicado…”


Fechado, hein…


Coço a cabeça, pensando.


Uma hora eu ia ter que encarar. Melhor agora. Só preciso entrar.


Ding-ding.


O sino toca quando enfio a cabeça pela porta de A Senhora Benevolente.


“Peço desculpas, senhor, mas ainda não abrimos. Poderia retornar em algumas horas?”


“Nyow, o bar da Mia ainda não está aberto, nya!”


Uma elfa e uma garota-gato arrumavam as toalhas das mesas, mas me responderam imediatamente.


As duas são muito bonitas. Com o mesmo uniforme da Syr, só dá para descrevê-las como jovens encantadoras.


Acho que tenho uma fraqueza por elfas e suas orelhas pontudas, porque só de ouvir a voz dela já fico nervoso.


“Desculpem incomodar. Eu não vim como cliente. A… hum… Syr Flover está? E a dona também.”


“Kyaaa! O caloteiro de antes, nya! O que veio dar uma oferenda para a Syr e depois abandonou ela na mesa, nya! O garoto de cabelo branco!! Nya nya!”


“Fique em silêncio.”


“Bnya?”


“Perdão pelo comportamento da minha colega. Vou chamar Syr e Mama Mia imediatamente.”


“O-obrigado…”


Nem vi a elfa se mover.


De repente ela já segurava a garota-gato pela gola e a arrastava escada acima. Elegante, rápida, precisa… Dá até suor nas mãos.


Agora ficou silencioso demais aqui.


Antes parecia um bar. Agora tem cara de café.


Talvez mudem o ambiente durante o dia? Como os aventureiros estão na Dungeon, devem atrair o pessoal comum da cidade.


Café… Ah, é mesmo. Tem até um terraço aqui. Pensaram em tudo.


“Bell?!”


Passos apressados atrás de mim.


Ah, é a Syr — descendo correndo as escadas?!


Se eu pudesse cavar um buraco e me enterrar aqui mesmo…


Não. Encare. Seja homem. Dá um passo à frente.


“Eu sinto muito pelo outro dia. Eu não paguei—”


“… Não, não, está tudo bem. Fico feliz que você tenha voltado.”


Ela está rindo? Acho que estou curvado demais.


Ela nem perguntou o motivo? Está ali, braços abertos, sorriso caloroso.


Eu posso chorar aqui mesmo. Não, lágrimas, voltem!


Ah! Posso fingir que caiu poeira no olho. Boa desculpa.


Certo, o dinheiro está na mochila… Aqui!


“Isso deve cobrir a comida. Se não for suficiente, eu posso pagar mais…”


“Jamais diria que não é suficiente! Você ter voltado já basta para mim… E me desculpe também.”


“Você não precisa pedir desculpas…”


Ela é gentil demais.


Vamos apertar as mãos. Um aperto firme… ahhh, acho que exagerei…


Ela está girando o ombro…


Mas está rindo! Que alívio!


Está sorrindo com os olhos! Ainda bem que me perdoou!


Ei, para onde ela foi?


Pareceu lembrar de algo e desapareceu nos fundos…


Ali está ela de novo, carregando uma cesta grande.


“Você vai para a Dungeon, não vai? Por favor, leve isto.”


“Hã?”


“O cozinheiro assou nossas provisões esta manhã, então estão bem fresquinhas. Eu… toquei em algumas delas, porém…”


“Tudo bem, mas por quê?”


“Você acreditaria se eu dissesse que simplesmente quis?”


Ela inclina a cabeça, com aquele mesmo sorriso tímido.


Tão gentil… não dá para recusar.


Talvez ela esteja torcendo por mim…?


“… Obrigado. Vou comer antes de entrar na Dungeon.”


Seguro a cesta, mas não consigo continuar sorrindo. Minhas bochechas doem…


Ela está corando também.


Gosto da risadinha dela.


“Então é o garoto, é?”


Uma voz atrás do balcão. A porta range.


Mama Mia.


Caramba, ela domina o ambiente inteiro. Preciso sair daqui—


Não. Fique firme.


Mesmo sendo uma anã, ela é enorme. Os ombros são o dobro dos meus.


“Ah! Entendi. Voltou pra pagar, foi? Bonito da sua parte.”


“D-de nada…”


“Syr, vai descansar um pouco. Você ficou indo e vindo o dia todo.”


“Sim, claro.”


Ela faz uma reverência discreta.


Mama Mia está vindo.


Ela sorri — mas não é um sorriso acolhedor. É ousado.


A mão pesada pousa no meu ombro.


Agora ela fala:


“Se você não tivesse voltado, a gente soltava os cães atrás de você!”


Engulo seco.


“Se tivesse demorado mais um dia, eu mesma teria ido ouvir meu alvo gritar de novo.”


Quase morri duas vezes naquela noite… Ela teria me matado…


Boa, Bell. Boa.


“Syr, é seu almoço que ele está levando. Tá tudo bem com isso?”


“Oh, sim. Ficar sem almoço não é grande coisa.”


“Por que é que tá tudo bem passar fome e dar seu almoço pra ele, nya?”


“É só que—”


“Oh-oh! Não seja rude, nya! Vocês dois são assim, nya? Ele é seu—”


“Não é isso!”


Acho que Syr foi atrás da garota-gato, mas não consegui acompanhar.


Há alguém mais importante com a mão no meu ombro.


Nunca mais farei nada fora da linha diante da Mama Mia.


“Trate de agradecer à Syr. Muita gente aqui não é tão compreensiva quanto ela. Na verdade, se ela não tivesse dito que estava tudo bem, você já tava nadando com os peixes.”


“……”


Ela está falando sério…


“Syr saiu atrás de você naquela noite, mas não te encontrou. Voltou arrasada. A elfa ali, Lyu, até pegou um montante nos fundos. Não foi fácil impedir ela de ir te caçar.”


Eu posso gostar de elfas, mas definitivamente não as entendo.


Mas… Syr saiu atrás de mim… mesmo depois daquilo…


Uma nova chama se acende no meu peito. Dessa vez, uma boa.


Eu estou mesmo em dívida com a Syr. Um dia preciso retribuir.


“… Ei, garoto!”


“O que foi?”


“Ser aventureiro não é só parecer um. Primeiro aprende a sobreviver. Depois que pegar o jeito, o pior quase nunca acontece.”


Meus olhos se arregalam.


Ela sabe? Estava no bar naquela noite… Será que ouviu tudo?


Espera… ela está sorrindo?


“O melhor é sempre o último que fica de pé, entendeu? Não importa o que custe. Volta aqui depois que eu te sirvo uma caneca bem grande! Ei, você ganhou, não foi?”


Mama… Mia…!


“Não me venha com essa cara estranha! Anda logo, vai! Tá atrapalhando!”


De repente, uma força colossal me gira pelo ombro e praticamente me lança para fora do bar.


Estou até ofegante — mas voltar aqui foi a melhor decisão que tomei em dias.


É como se as últimas sombras daquela noite finalmente tivessem se dissipado. Não esqueci o que aquele homem-fera da Loki Familia disse. Mas agora não dói. Não irrita.


Virou combustível.


Faça o que puder agora. O mais rápido que puder. Sem exagerar. Foque em sobreviver.


Parece um ótimo plano.


“Ô, garoto! Já falei bastante, então nem pense em morrer por aí, ouviu?”


“Não vou! Obrigado de novo!”


Eu me sinto… vivo.


“Estou indo!” grito de volta antes de mergulhar na rua movimentada.


Noite.


Uma lua brilhante flutua acima do manto escuro que cobre a terra. A floresta banhada pela luz prateada pulsa com o pio das corujas e o farfalhar das folhas.


Esses sons viajam com a brisa, atravessam a vasta planície e se misturam ao canto distante de pássaros noturnos e ao sussurro da relva. Um coro da natureza que ecoa livremente — até encontrar uma mudança brusca na paisagem.


Um muro imenso.


Alto, espesso, imponente. A borda da cidade parece a muralha de um castelo.


Construída inteiramente em pedra, a estrutura afasta a escuridão. A luz se espalha pelo interior, enquanto as vozes da natureza são abafadas pelo burburinho da vida noturna.


A Cidade Labirinto, Orario.


Uma das poucas cidades que existem desde a antiguidade, anterior até mesmo à descida dos deuses. E, ainda assim, a única “cidade-labirinto” do mundo.


A muralha forma um círculo perfeito, abraçando a metrópole. Torres e edifícios relativamente altos se erguem próximos às bordas; construções mais baixas ocupam o centro.


Centenas de lâmpadas de pedra mágica iluminam esse colosso de pedra. É como se um mar de estrelas tivesse descido do céu para habitar um castelo terrestre.


No centro de Orario, uma torre colossal parece capaz de perfurar as nuvens.


A mais alta da cidade, sua sombra imponente desperta admiração nos cidadãos. Visitantes vêm de longe apenas para vê-la e contemplar sua grandeza.


A torre se ergue exatamente sobre a entrada da Dungeon.


Chamada de Babel, sua principal função é servir como uma “tampa”.


Com Babel como coração, a imagem de Orario se espalhou pelo mundo.


Mais aventureiros chamam Orario de lar do que qualquer outra cidade ou país.


A Dungeon é o berço de todos os ancestrais dos monstros espalhados pelo mundo. Muitos a consideram um dos três grandes mistérios da existência.


No fundo mais profundo da Dungeon, algo colossal — um “desconhecido” — repousa.


Esse desconhecido atrai aventureiros destemidos para suas profundezas.


Claro, a maioria é movida pela ganância.


Um lugar que gera monstros infinitos e itens de drop infinitos oferece riqueza sem fim. Para aqueles que buscam glória, derrotar criaturas ferozes é o caminho mais rápido para se tornarem lendas.


O nome “Cidade Labirinto” foi dado a Orario quase por capricho dos deuses. Soava interessante.


E assim ficou.


A emoção do desconhecido. A promessa de riqueza. A chance de fama — e, acima de tudo, notoriedade.


Ano após ano, mais pessoas chegam.


Entre elas, talvez algumas que vieram apenas por diversão… ou por um encontro destinado.


“A cidade mais apaixonante do mundo.”


É assim que a chamam.


“Ah! Olhem ali! É o chefe da Familia quebrada do Takemikazuchi! Oii! Ei, ooii!!—heh-heh.”


“Ah! Não é o cara que vive tão sem dinheiro que o rosto está afundando, Takemikazuchi? Oii! Ei, ooii!!—hee-hee-hee.”


“Silêncio, deidades inúteis!”


Era inevitável.


Os deuses e deusas que vieram ao mundo inferior em busca de entretenimento estavam ali.


Vieram a Orario atrás do “desconhecido” ainda mais do que os aventureiros.


Esse era o jeito deles.


Reuniam-se em um ponto específico da cidade — algo raro, já que não costumavam se juntar em grande número.


“Yo!”


“Eeeeh! Quanto tempo! Já faz quanto?”


“Uns quatrocentos anos, eu diria.”


“Ohoh! Tudo isso? Você mudou bastante!”


“Falando nisso, a Celebração é mesmo aqui?”


Diante do grupo extravagante de deuses erguia-se um prédio igualmente extravagante.


No meio das luzes de Orario, aquilo era… estranho. Deslocado. Quase misterioso.


Uma estátua colossal, com cerca de trinta metros, em forma de homem com cabeça de elefante, sentada de pernas cruzadas no centro do quarteirão. A base era cercada por um muro de pedra.


A estátua inflava o peito com orgulho.


Famosa por provocar admiração… e desconforto.


As lâmpadas de pedra mágica iluminavam o elefante de vários ângulos, destacando-o contra o céu negro.


A construção tinha história.


Foi erguida pelo belo deus de pele escura, Ganesha, que — sabe-se lá por quê — gastou as economias da própria Familia nessa monstruosidade.


A estátua, chamada Aiam Ganesha, era a sede da Ganesha Familia.


Nem mesmo seus membros gostavam dela. Muitos quase choravam ao entrar ou sair, lembrando-se de quanto trabalho pagara aquilo.


E o detalhe final?


A entrada do prédio ficava… na virilha da estátua.


“O que o Ganesha está aprontando?”


“Ele realmente exagera!”


Entre risadas, os deuses entravam pelo ponto mais constrangedor da construção.


Todos ali eram deuses e deusas.


Vieram para a Celebração dos Deuses, organizada por Ganesha.


Ela tinha o rosto fino, queixo afiado, expressão de vontade firme. Nem os brincos de ouro competiam com sua beleza. Ainda assim, metade do rosto — o lado direito — era coberto por pele escurecida, ocultando um olho sob uma faixa.


O olho esquerdo encarava Hestia, arregalado.


Hestia engoliu o último pedaço de comida que tinha na boca.


“Hephaistos!”


“Também fico feliz em te ver, Hestia. Que bom que está bem… ficaria ainda mais feliz se estivesse vestindo algo mais apropriado.”


Hephaistos balançou a cabeça. A luz das lâmpadas mágicas brilhava sobre seus longos cabelos vermelhos, que cintilavam como fios de açúcar cristalizado.


Hestia a admirou por um instante antes de se aproximar com um sorriso largo.


“Eu sabia que devia ter vindo!”


“O quê? Só vou dizer uma vez: não vou te emprestar nem um val.”


“Que grosseria!”


Hephaistos lançou-lhe um olhar severo.


Era a deusa que acolhera Hestia antes de Bell — a mesma que a expulsara da sede de sua Familia. A relação entre as duas ainda carregava tensão.


Eram amigas há muito tempo, mas Hephaistos perdera a paciência. Hestia não formava uma Familia, não trabalhava, tornara-se um fardo.


Mesmo após expulsá-la, Hestia sempre voltava pedindo ajuda: um emprego, um quarto que não deixasse a chuva entrar…


Ela sempre tinha uma história triste.


Hephaistos se via dividida. Não podia deixar a amiga na rua, mas também não podia sustentá-la para sempre.


No fim, conseguiu-lhe o quarto sob a igreja e um trabalho de meio período.


A única coisa que Hestia fez sozinha foi aceitar Bell em sua Familia.


Diante dele, ela agia madura e responsável.


Sozinha… era uma deusa preguiçosa.


“Eu pareço uma deusa que faria isso?! Tá bom, já precisei da sua ajuda antes, mas graças a você agora estou me virando sozinha! Não preciso mais comer do prato dos outros!”


“Não era exatamente isso que estava fazendo agora há pouco?”


“E-essa comida ia sobrar… Se vai ser jogada fora, pelo menos eu dou um bom destino, certo?”


“Ho-ho! Que justificativa maravilhosa. Estou tão emocionada com sua mudança que quase vou chorar.”


“Gyuuuu…”


Hephaistos soltou um riso pelo nariz ao ver a expressão sofrida de Hestia.


Cliq-cliq, cliq-cliq. O som de saltos altos ecoou pelo salão quando outra deusa se aproximou.


“Hee-hee… Vejo que continuam as melhores amigas.”


“Eh… F-Freya?”


Hestia se virou — e viu surgir, dentre outro grupo de divindades, uma deusa cuja beleza fazia todas as outras parecerem comuns.


O chão era sua passarela. Todos os demais estavam ali apenas para admirá-la.


A pele, branca como neve recém-caída. Lisa, impecável. Freya deslizava pelo ar como se estivesse nadando. Seu perfume atraía olhares à medida que passava. Muitos olhos desciam, inevitavelmente, até suas curvas generosas, contidas por um tecido que parecia fino demais para tamanha responsabilidade.


O vestido longo, adornado em dourado, era aberto na frente. Uma única camada de tecido cobria cada seio, exibindo suas formas com ousadia. O decote era rosado, como se o próprio calor emanasse dali.


Proporções perfeitas. Cílios longos. Olhos serenos que transbordavam confiança.


Sua beleza ultrapassava o conceito de beleza.


A Deusa da Beleza afastou os fios prateados do cabelo enquanto se aproximava das outras duas.


“E você está aqui por quê…?”


“Vi você parada aqui. Pensei em dizer algo como ‘faz séculos’ e convidá-las para dar uma volta pelo salão. Algo assim.”


“N-não fala desse jeito, Hephaistos…”


“Estou atrapalhando, Hestia?” perguntou Freya com um sorriso suave.


“Não é isso…” Hestia conteve um tique irritado no canto da boca. “Eu só não gosto muito de você.”


“Hee-hee-hee. É isso que eu gosto em você.”


Hestia cruzou os braços e virou o rosto.


Freya sempre se portava como a mais elegante entre as elegantes. Sempre um passo acima.


Tinha o dom de fazer qualquer um parar para contemplar seu charme. Até deuses caprichosos caíam sob seu feitiço. No mundo inferior, bastava um sorriso para escravizar corações.


Mas Hestia detestava aquela personalidade — e outras parecidas.


“Ei! Fei-Fei! Freya—! Baixinha!”


“Pensando bem… você nem é tão ruim comparada a certas pessoas…”


“Oh? Está tão tensa assim?”


Freya abriu ainda mais o sorriso ao ver a recém-chegada se aproximar, gesticulando exageradamente.


Olhos e cabelos vermelhos como brasa. O penteado, antes simples, agora estava estilizado em um elegante espiral para dentro. Vestia um vestido preto ajustado.


Ao lado de Freya, poderia até parecer discreta — mas seu rosto era tão expressivo quanto o de Hestia e Hephaistos.


“Yo! Loki.”


“Por que diabos você está aqui…?!”


“Ué? Preciso de motivo pra cumprimentar? É uma Celebração, né? Seria rude não dar oi. Acompanha o ritmo, Baixinha.”


“……!……!”


“Que expressão assustadora, Hestia.”


Loki era bem mais alta. Hestia limitou-se a virar o rosto com frieza.


Loki era inimiga.


“Faz mesmo tempo, Loki,” comentou Hephaistos. “Também não esperava ver Freya nem Hestia hoje. A Celebração está cheia de surpresas.”


“É, faz tempo… Mas isso vale pra quase todo mundo aqui.”


Os olhos finos de Loki se abriram um pouco mais para encarar Freya.


Um garçom da Ganesha Familia trouxe bebidas. Congelou no lugar quando Freya se virou para pegar uma taça. Sorrindo, ela deu um longo gole.


“Vocês realmente não se encontraram em lugar nenhum?”


“Nos vimos outro dia. Mas não foi muita conversa.”


“Engraçado ouvir isso de você. Eu me deixei aberta ao diálogo.”


“Hm. Ah, Loki, ouço falar da sua Familia o tempo todo. Deve estar indo bem?”


“Waaa! Ouvir isso de alguém com uma Familia como a sua… Eu devo estar subindo na vida… Mas sim, minhas crianças são meu orgulho. Quer que eu me gabe?”


Um leve rubor tingiu o rosto de Loki enquanto coçava a cabeça, tímida. Ali, era mais difícil esconder o carinho que sentia pelos seus.


Hestia escutava atenta. Era a oportunidade perfeita.


“Ei, Loki. Quero perguntar sobre alguém da sua Familia. Wallen… alguma coisa.”


“Oh! A kenki! Quero ouvir também, se não se importam.”


“O quê? A Baixinha tem pergunta pra mim? Olhem pro céu! É o Armagedom? Ragnarok? O inferno congelou?”


Hestia rangeu os dentes. Eu vou estraçalhar essa desgraçada.


“… Vamos lá. A kenki tem namorado ou algum companheiro especial?”


“Idiota, ela é minha favorita. Não vou entregar ela pra ninguém, ouviu? Se alguém tentar encostar um dedo nela, eu penduro a cabeça na parede do meu quarto.”


“Tsk.”


“Estranho você estalar a língua pra mim.”


Informação obtida.


Aiz Wallenstein era protegida ferozmente por Loki.


Hestia sentia o mesmo por Bell. Se ao menos Aiz tivesse alguém especial para proteger…


Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios.


Hephaistos percebeu a tensão aumentar e tentou mudar o rumo da conversa.


“Falando nisso, é estranho ver você de vestido, Loki. Você não costuma usar roupas masculinas?”


“Hee-hee, sobre isso… Um passarinho me contou que certa Baixinha estava se preparando para vir a uma festa…”


Hestia lançou-lhe um olhar mortal. Loki se inclinou para falar bem perto do rosto dela.


“Ouvi dizer que ela era pobre demais pra ter um vestido. Pensei que seria divertido rir.”


Sua bbbbbiiiitttttccccchhhhhhh!!!


Hestia ficou vermelha até as orelhas. A qualquer segundo poderia explodir.


Sempre era assim.


Não se conheciam há tanto tempo — talvez cem anos. Mas toda vez que Loki via Hestia, sentia uma necessidade incontrolável de provocá-la.


A razão era simples:


Hestia tinha o que Loki não tinha.


Tudo por causa das duas generosas razões no peito da deusa.


“Ha-ha!! Excelente! Fazer todo mundo rir do seu próprio complexo! Loki, você é um gênio da comédia!”


“O que você quer dizer?”


“Ah, desculpa. Não da comédia — você é gênio em cavar buracos. Como o túmulo onde está pisando!”


Agora foi Loki quem ficou vermelha.


As duas se encararam, os rostos cada vez mais inflamados.


O vestido de Loki tinha um decote profundo e sem ombros — e era dolorosamente evidente o quanto faltava ali.


“Lá vamos nós…”, murmurou Hephaistos, de braços cruzados.


Freya, segurando sua taça, assistia com um sorriso delicado. Os fogos estavam prestes a começar.


“Quantos homens já despencaram no abismo da sua tábua de passar? Ha-ha! Viu o que eu fiz?”


“Nada engraçado, sua velhacaaaaa!!!”


“Kiyaaaaaaa!!!”


Loki avançou.


Agarrou as bochechas de Hestia e puxou com força. O rosto da menor se esticou como massa elástica.


Hestia tentou reagir, mas seus bracinhos não alcançavam. Debatia-se inutilmente, lágrimas brilhando nos olhos.


“Ohhh, o que temos aqui?”


“Loli Peituda versus Loki Sem Peito!”


“Dez elixires que Loki sai frustrada!”


“Aposto todas as minhas fichas que eu vou consolá-la depois!”


“Faz uma aposta decente, idiota!”


Mais e mais deuses se aproximaram para assistir à briga.


Hephaistos deixou a cabeça pender, exausta. Já bastava aturar as duas — agora tinham plateia.


Loki sacudia Hestia inteira, esquerda, direita, cima, baixo.


Sacudia.


Sacudia.


Sacudia.


“… hee… hee… acho que você já teve emoção demais por hoje…”


Ela está tremendo inteira!!!


Triste por não ter conseguido “finalizar o serviço”, Loki largou Hestia no chão e virou as costas.


Nem sequer olhou para a deusa caída. Apenas saiu andando, o corpo ainda tremendo enquanto cruzava o salão.


Não era uma volta triunfal.


“Hmph… Da próxima vez não fique com essa cara patética, perdedora. Enfia o rabo entre as pernas e corre!”


“Da próxima eu acabo com você, ouviu?! Da próxima!!!”


Loki disparou em direção à saída, deixando um rastro de lágrimas pelo caminho.


“Como eu pensei…” murmurou alguém entre os deuses que tinham assistido ao espetáculo. Com o show encerrado, cada um voltou às próprias conversas e se dispersou.


“A Loki amadureceu mesmo…”


“Amadureceu?? Ela ainda parece uma criança…”


Hephaistos apenas ergueu uma sobrancelha diante do comentário de Freya.


Freya curvou levemente os lábios enquanto passava os dedos pelos longos cabelos prateados.


“Antes de descermos para cá, os deuses lutavam até a morte por diversão. Isso aqui é até fofo. Nem é perigoso.”


“Bem… é verdade. Você conhece a Loki há muito tempo, não é?”


“Há muito tempo mesmo. Quase tanto quanto vocês duas.”


Hephaistos ajudou Hestia — ainda cambaleante — a ficar de pé.


“Não somos tão próximas quanto já fomos”, disse ela com um sorriso fraco.


“Parece que Loki se apegou às crianças. Talvez seja por isso que tenha mudado.”


“Reluto em admitir, mas nisso ela é parecida comigo.”


“Oh? Não foi você quem disse ‘eu não olho para as crianças desse jeito’ há pouco tempo? Foi aquele novo garoto, Bell, que mudou isso?”


“Hee-hee… talvez. Ele é um bom menino. Bom demais para mim.”


“Se não me engano, é um garoto humano de cabelo branco e olhos vermelhos, certo? Você veio me contar assim que fundou sua Familia. Fiquei surpresa.”


As orelhas de Freya estremeceram ao ouvir isso. Ela pousou a taça vazia na mesa e jogou os cabelos para trás.


“Despeço-me.”


“Já? Tem algum compromisso, Freya?”


“Consegui as informações que queria. Não há motivo para ficar.”


“… Mas você nem perguntou nada a ninguém hoje.”


Freya e Hephaistos estavam juntas desde o início da Celebração. Hephaistos inclinou a cabeça, confusa com a partida repentina da amiga.


Freya ignorou a pergunta e voltou os olhos para Hestia.


O sorriso permanecia — mas agora havia algo diferente nele.


Hestia piscou algumas vezes ao perceber a mudança em sua aura.


“… E já me cansei dos homens daqui.”


Não ouse!!!


“……”


“……”


Com um leve aceno de despedida, Freya desapareceu na multidão.


As duas deusas restantes observaram-na ir embora e então trocaram um riso constrangido.


“Freya realmente é a Deusa da Beleza… não respeita ninguém.”


“Ela governa o amor e o desejo. Sempre haverá alguém querendo sua ajuda…”


“Ela já tem uma Familia. Só não enxerga o que está bem diante dos olhos. Pensar que pode se tornar uma rival… faz com que eu valorize ainda mais as crianças.”


“Ela poderia recrutar membros novos só com um sorriso…”


Hephaistos suspirou fundo e levou a mão à faixa que cobria seu olho direito — um hábito. Sempre que algo a incomodava ou não lhe agradava, sua mão ia parar ali.


Hestia observou o gesto com um leve “hmm”.


“Enfim, o que você vai fazer agora? Vou circular um pouco, falar com mais algumas pessoas. Vai voltar para casa?”


Uma lâmpada se acendeu na mente de Hestia. Seus ombros saltaram ao perceber que quase tinha esquecido algo essencial.


“Você… poderia ficar mais um pouco? Tomar alguma coisa?”


“Hum… sim… bem…”


A expressão de Hephaistos mudou ao ver Hestia começar a se remexer. Já tinha visto aquilo muitas vezes.


Ignorando o olhar desconfiado que parecia emanar calor por baixo dos cabelos vermelhos da amiga, Hestia tomou coragem e limpou a garganta.


“Eu… hum… queria te pedir um favor.”


“……”


O olho esquerdo de Hephaistos se estreitou, afiado como uma lâmina.


A Hephaistos descontraída desapareceu num instante. Em seu lugar surgiu a deusa séria — a mesma que antes declarara que não emprestaria dinheiro.


“Vai pedir agora, depois do que disse mais cedo? Lembra do que falou?”


“Umm… O que foi mesmo?”


“‘Não preciso mais comer do prato dos outros.’ Isso te soa familiar?”


Hestia sorriu e assentiu. Não tinha como negar.


Hephaistos olhou para ela como se tivesse acabado de sair de um esgoto. Hestia queria engolir as próprias palavras, mas manteve-se firme.


Era para isso que tinha vindo.


Poderia até perder uma amiga por causa disso — mas precisava tentar.


“… Está bem. Vou entrar no seu jogo. Qual. É. O. Seu. Pedido?”


Hephaistos fitou a deusa mais baixa, os cabelos vermelhos quase parecendo crepitar.


No mundo superior, ela era conhecida como a Deusa da Forja. No mundo inferior, sua Familia não dependia da renda de aventureiros para sobreviver.


Mesmo assim, não havia um único aventureiro em Orario que não conhecesse o nome Hephaistos.


Ela era uma marca.


Sua Familia reunia artesãos capazes de forjar armas incomparáveis — armas cuja qualidade superava dezenas de outras.


Hestia viera à Celebração para falar diretamente com a líder da Hephaistos Familia.


Respirou fundo e, com a maior firmeza que conseguiu reunir, disse:


“Eu gostaria que você forjasse uma arma para Bell… um membro da minha Familia.”

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