Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 2 – Capítulo 2.1
INTERLÚDIO: Clama, ó Deusa
O céu tingido de vermelho profundo aos poucos se dissolvia em um azul escuro, quase negro, anunciando a chegada da noite.
No oeste de Orario, a Avenida Principal fervilhava de vida. Grupos de moradores e aventureiros que retornavam da Dungeon se espalhavam pelas ruas, tentando aliviar o cansaço de mais um dia.
“E-Eu consegui de novo…”
Hestia caminhava entre a multidão com passos trôpegos, completamente exausta. A Torre de Babel erguia-se imponente atrás dela enquanto fugia dali, arrastando-se de volta para casa com as pernas bambas.
Seu turno na loja da Família Hephaistos, localizada na torre, finalmente havia terminado.
“Essa Hephaistos… Será que ela não pode pegar um pouco mais leve comigo…?!”
Mesmo que aquilo fosse apenas o pagamento de uma dívida, aquele período havia sido, sem dúvida, o mais desgastante de toda a vida de Hestia.
Até pouco tempo atrás, ela levava uma rotina praticamente despreocupada — quase preguiçosa. Agora, no entanto, sua realidade beirava a tortura.
Entre os sermões incessantes de sua “amiga” deusa Hephaistos e a falta de respeito das crianças que trabalhavam ao seu lado, ela não tinha um momento de paz. Pelo contrário — parecia até que faziam questão de sobrecarregá-la ainda mais. Chegava a um ponto em que ela sentia vontade de gritar todos os dias.
Aquilo era um vislumbre claro do quanto Hephaistos levava a sério a ideia de corrigir o hábito de Hestia de depender dos outros.
“Ahhh… eu quero ver o Bell…”
Exausta após dias seguidos de trabalho pesado, o pensamento em seu querido “filho” surgiu naturalmente em sua mente cansada.
Até poucos dias atrás, ela mal podia esperar para recebê-lo calorosamente toda vez que ele voltava da Dungeon — chegando até a sair mais cedo do trabalho para isso. Agora, os papéis haviam se invertido.
O que ela mais queria era correr e se jogar nos braços dele assim que ele atravessasse a porta de casa. Mas, sabendo que isso não aconteceria, continuou arrastando seu corpo cansado pela rua.
“—Hm?”
Seus pensamentos foram interrompidos por um vislumbre repentino — cabelos brancos, como os de um coelho, chamaram sua atenção.
Entre a multidão de diferentes raças que lotavam a rua à sua frente, ela reconheceu uma silhueta familiar.
—Era Bell!
Seus olhos se iluminaram no instante em que percebeu.
Ele devia estar voltando da Dungeon. Ainda vestia sua nova armadura. Como estava de costas para ela, provavelmente seguia em direção ao quarto.
A energia voltou ao corpo de Hestia como se fosse um peixe retornando à água. Ela estava prestes a correr até ele—
Mas então…
“?!”
Por causa da multidão, ela não havia notado a pessoa caminhando ao lado dele — até que finalmente conseguiu enxergar.
Era alguém mais baixo que Hestia, vestindo um manto largo demais para o próprio corpo e carregando uma mochila. De costas, era impossível distinguir muitos detalhes — mas Hestia sabia.
Era uma garota.
Uma garota que parecia exalar aquela aura delicada que fazia qualquer homem querer protegê-la. E, mais do que isso…
Ela segurava firmemente a mão que Bell estendia para ela.
Hestia conseguiu ver o perfil de Bell enquanto ele olhava para a garota — e ela, para ele.
Ele estava sorrindo.
Um sorriso feliz.
Boom.
Foi como se um peso colossal despencasse sobre a cabeça de Hestia.
Seu corpo e sua mente já estavam no limite — e aquilo foi o golpe final. Bell, seu último refúgio, estava ali… de mãos dadas, rindo com outra garota.
Não com ela.
Era como se o céu tivesse desabado sobre a terra.
Uma dor profunda, impossível de medir, rasgou seu coração.
Sem sequer perceber que aquela garota provavelmente era a “supporter” sobre quem Bell havia comentado, Hestia virou as costas e saiu correndo.
O mal-entendido se enraizou pesado dentro de seu peito.
“—Escuta só, Miach! O Bell… ele… ele me traiu!!”
BAM!
Outro copo vazio bateu contra a mesa enquanto Hestia chorava, soluçando.
Eles estavam em um bar um pouco afastado da avenida principal. O lugar era apertado, antigo, feito de madeira gasta, e cheio de aventureiros mal vestidos, falando alto sem qualquer cerimônia.
Misturada a eles, Hestia afogava suas mágoas em bebida barata, sentada à mesa diante de outro deus, despejando tudo o que havia acontecido.
“Traição é algo muito sério. Não consigo imaginar Bell fazendo algo assim.”
A voz calma e educada que respondeu foi a de Miach.
O belo deus havia escutado atentamente toda a história de Hestia antes de finalmente opinar. Sua túnica desgastada, de tom acinzentado, combinava perfeitamente com o ambiente simples do bar.
Hestia e Miach ocupavam o degrau mais baixo entre os deuses de Orario — eram, sem dúvida, os mais pobres. Talvez por isso, compartilhavam um vínculo tão forte.
A Família Hestia mantinha uma boa relação com a Família Miach, conhecida pela produção de poções, e ambos conheciam muito bem os “filhos” um do outro.
Hestia havia encontrado Miach por acaso na rua — e praticamente o arrastou para beber com ela.
Durante tudo aquilo, Miach não demonstrou irritação nem uma única vez. Apenas escutava pacientemente.
“Eu vi com meus próprios olhos! Eles estavam de mãos dadas, sorrindo, rindo! Isso é prova suficiente! Ele é culpado, culpado, culpado!!”
“Não sabemos a situação de Bell… pode ter sido algo inocente. Acho cedo demais para julgá-lo como ‘culpado’… Além disso, vocês não são casados nem amantes, então falar em ‘traição’ não faz muito sentido.”
Hestia já estava ocupada demais virando mais um copo de bebida para sequer ouvir a segunda metade do que ele disse.
Ela está assim de novo hoje…, pensou Miach, suspirando enquanto seus cabelos azul-mar balançavam com o movimento de cabeça.
“Droga! Mas afinal, quem é aquela garota?! O Bell é meu! Ele é meu! MEU!!”
“Calma, calma. Você pode até ser a deusa dele, mas isso foi um pouco… tirânico. Bell não pertence a ninguém.”
“Você acha que eu não sei disso? Sei sim! Eu só queria dizer… sempre quis dizer isso!”
“Você já está bêbada?”
“Tôooo!”
Hestia bebia como se não suportasse ficar sóbria — como se estivesse se afogando em álcool. Em pouco tempo, a mesa já estava tomada por copos vazios, e o cheiro forte de bebida pairava no ar.
O efeito da bebida atingiu Hestia em cheio, como uma parede de aço. Com o rosto completamente vermelho, seus olhos voltaram a se encher de lágrimas enquanto ela puxava um grande fôlego.
“WAAAAAAAAAHHHHH! Bell, Bell, BellBell BE—E—ELL! Não me deixa sozinhaaa—!”
“H-Hestia! Fica quieta!”
Até mesmo o sempre calmo Miach precisou intervir. Os gritos dela eram altos o suficiente para silenciar o bar inteiro. Todos os olhares estavam voltados para os dois.
“Eu moraria num esgoto se isso te fizesse feliz, sabia?! Eu te amo tanto assim! Quero dormir na mesma cama que você e esfregar o rosto no seu peito! Eu viveria com três pedaços de pão por dia se isso te fizesse sorrir—!”
Miach recuou discretamente na cadeira.
“Eu te amo, BELL!… Hee-hee… Só queria que o mundo soubesse disso uma vez. Ahhh… bem melhor agora!”
“Ainda bem que ele não está aqui para ouvir isso… Garçom, a conta, por favor.”
Miach olhou o valor e sorriu, aliviado — pelo menos não tinham sido enganados.
Hestia estava largada sobre a mesa, a cabeça caída, rindo sozinha de forma despreocupada.
“Meu deus…” murmurou Miach, enquanto a observava completamente embriagada.
Com paciência, ele levantou o corpo mole da deusa e a ajudou a sair do bar.
“Miaaach… e a con-taaa…?”
“Não precisa. Eu já paguei tudo.”
“A gente é amigo, né? Então… a gente divide…”
“Não. Você só tem vinte vals.”
Miach respondeu imediatamente às palavras arrastadas dela.
Ele a colocou dentro de um pequeno carrinho de quatro rodas que havia usado para transportar itens mais cedo. Com Hestia encolhida ali dentro, parecia mais um carrinho de bebê.
Os dois seguiram pela rua, acompanhados pelo som das rodas de madeira contra a pedra e iluminados pelas lâmpadas de pedra mágica sob o céu noturno.
“Miaaach… faz uma poção do amooor… Vou hipnotizar o Bell…”
“Não. Vou fingir que não ouvi isso.”
“Aaaaaiii… minha cabeça…!!”
Uma dor latejante a recebeu no instante em que abriu os olhos.
Soltando um gemido, Hestia encarou o teto enquanto ainda estava deitada. Reconheceu o lugar imediatamente — era sua própria cama.
O relógio na parede já marcava a manhã.
Era o dia seguinte àquela noite de bebedeira com Miach — e a ressaca estava brutal.
“D-Deusa… você está bem?”
Bell estava ao lado da cama.
Com um copo d’água na mão, ele a observava com preocupação.
“E-Eu… me desculpa, Bell. Desculpa você ter que me ver assim…”
“Tudo bem, eu não me importo… Ah… ontem o Miach veio aqui e falou comigo. Então é verdade?”
“…É. Acho que eu bebi demais.”
Bell estendeu o copo. Ainda deitada, Hestia bebeu a água fazendo uma careta.
Na noite anterior, Miach havia aparecido na velha igreja e dito: “Ela está muito… cansada. Deixe que descanse, nem que seja só um pouco.” E então foi embora.
Eu não lembro de nada…
Todas as memórias da noite anterior haviam desaparecido. Ela não fazia ideia do que tinha feito — ou dito.
E, depois de ouvir o que Miach contou a Bell, não conseguiu evitar um leve aperto no peito.
A lembrança do sorriso silencioso, mas triste, de Miach fez com que ela sentisse que provavelmente havia causado problemas.
“…Bell, tem certeza que você devia estar aqui? Não na Dungeon?”
“Eu não podia te deixar assim, então tirei o dia de folga.”
Bell sorriu suavemente ao explicar que já havia avisado sua supporter.
Hestia ficou um pouco envergonhada com tudo o que ele fazia por ela… mas, por dentro, estava radiante.
Poder passar o dia inteiro sozinha com ele…
Naquele instante, decidiu que também tiraria o dia de folga.
As consequências — ou melhor, a fúria da deusa da forja — ela deixaria para depois.
“Deusa, consegue comer isso?”
“…Acho difícil. Bell, você pode me ajudar?”
“Ah… claro. Vou tentar.”
Bell colocou um pedaço de maçã numa colher e levou até a boca dela.
Hestia se apoiou nos cotovelos e o observou com um brilho travesso nos olhos. Abocanhou a colher com satisfação, claramente feliz.
Normalmente, aquilo seria constrangedor — era praticamente um passo antes de alimentá-la como um bebê. Mas Bell fazia tudo com um sorriso.
E isso só deixava Hestia ainda mais encantada.
Ver ele disfarçar a própria vergonha para cuidar dela daquele jeito aquecia seu coração.
“Ahh… minha cabeça…”
“D-Deusa?”
Com uma atuação digna de um desastre completo, Hestia levou a mão à cabeça e “desabou” sobre o peito de Bell.
Agora, ele a segurava nos braços.
Ela percebeu o desconforto no olhar dele — mas isso só a fez querer se aconchegar ainda mais.
O cheiro dele… era como uma floresta tranquila.
Aproveitando a oportunidade, ela o abraçou com força.
E assim começou uma pequena — e bastante constrangedora — disputa silenciosa entre uma deusa eufórica e um Bell completamente sem jeito.
“Hm… Então… ontem você saiu pra comer com aquela supporter?”
“Sim. Algo muito bom aconteceu ontem…”
Já era meio da tarde.
Ainda deitada, Hestia conversava com Bell enquanto a ressaca finalmente começava a passar.
Ficou aliviada ao ouvir aquilo… mas, só de lembrar deles de mãos dadas, uma pontada de dúvida voltou a surgir.
E, mais do que isso…
Seu coração ficou inquieto quando atualizou o status dele.
O crescimento de Bell continuava impressionante.
O que só significava uma coisa.
Seus pensamentos ainda estavam voltados para Aiz Wallenstein — a garota de cabelos dourados e olhos dourados.
E ele ainda estava profundamente enganado sobre seus sentimentos.
Mas, por ora, Hestia deixou de lado tudo o que sentia em relação àquela princesa da espada.
Agora, queria entender melhor essa tal supporter.
Queria saber… exatamente o que Bell sentia por ela.
Mesmo sem nunca tê-la encontrado…
Hestia já começava a sentir um ciúme nada discreto.
“Que maravilha, não é? Deve ter sido tão divertido… sair pra comer algo delicioso, só você e a sua supporter. Quem me dera ter estado lá…”
Com um leve tom de ironia nas palavras, Hestia virou o rosto, dando uma leve tremida nos ombros enquanto pigarreava. Mas aquela encenação não teve o efeito que ela esperava.
Bell ficou em silêncio por um instante, o corpo levemente tenso. Parecia hesitar… até que finalmente tomou coragem e abriu a boca.
“E-então… hum… que tal a gente ir também? Só nós dois… sabe… jantar em um restaurante mais… elegante…”
“…Hã?”
“Tipo… um jantar mais… especial?”
Hestia congelou.
Ali, ao lado dela, Bell lutava visivelmente contra o próprio constrangimento.
Ela simplesmente não acreditava no que estava ouvindo.
“N-na verdade… eu consegui bastante dinheiro na Dungeon ontem…! E eu… queria te agradecer, então…”
Hestia não ouviu mais nada.
Sua mente já estava ocupada demais repetindo aquelas palavras sem parar.
Isso… isso é… u-um e-e-encontro???
E ainda por cima vindo do Bell? Jantar?! Seus pensamentos disparavam sem controle.
Seu coração disparou.
“Quando você estiver melhor, Deusa… vamos algum dia.”
“Vamos hoje!”
“Hã?”
“Hoje!”
Hestia jogou as cobertas para o lado e saltou da cama.
Bell só conseguia encará-la, completamente atônito.
“D-Deusa… seu corpo precisa descansar…”
“Já estou ótima!”
E não era mentira.
A empolgação — e o nervosismo de um encontro, ainda mais com Bell — haviam enchido seu corpo de energia.
Bell permaneceu sentado, sem reação, enquanto Hestia voava pelo quarto, se preparando.
—Espera.
Hestia parou de repente.
Levantou a gola da roupa até o nariz e puxou o ar com força.
…Horrível.
O cheiro de álcool ainda estava impregnado nela. De jeito nenhum uma deusa digna poderia aparecer assim.
Seus olhos se arregalaram.
“Bell, às seis!”
“S-sim?”
“Avenida Sudoeste, às seis! Me encontra na Praça Amour!”
Bell começou a suar frio ao ver Hestia sair correndo pela porta, levando apenas uma pequena bolsa.
—
Em uma palavra… aquilo era o paraíso.
“Será que o meu ainda vai crescer?”
“Como se nós, deuses, ainda fôssemos crescer—Ei! Nada de apalpar!”
Se qualquer mortal colocasse os pés naquele lugar, provavelmente desmaiaria de tanta perda de sangue pelo nariz.
Ali, envoltas pelo vapor quente, as deusas exibiam seus corpos sem qualquer pudor — nuas como no dia em que nasceram. A luz refletia em suas peles impecáveis, enquanto braços e pernas bem definidos surgiam suavemente através da névoa.
Era, sem dúvida, a própria definição do paraíso que tantos homens sonham conhecer ao menos uma vez.
“Ahhh… isso é maravilhoso…”
Um sorriso relaxado se espalhou pelo rosto de Hestia enquanto ela afundava até os ombros na água quente, pequenas ondas acariciando seu corpo.
O Balneário Divino.
Um espaço reservado exclusivamente para deuses — exatamente como o nome sugeria.
Havia uma grande piscina central, cercada por várias banheiras menores de diferentes tamanhos. Árvores altas e rochas naturais estavam espalhadas pelo local, criando a sensação de um oásis isolado. Construído inteiramente em pedra, com entalhes detalhados nas paredes e colunas, o lugar transmitia uma beleza imponente.
O Balneário Divino era mantido pela Guilda para os deuses de Orario. Cada Família contribuía com recursos — uma espécie de tributo — para que aquele lugar existisse.
Naturalmente, havia áreas separadas para deuses e deusas. Mas, como poucos deuses utilizavam o espaço, quando se falava no “Balneário Divino”, geralmente se referiam ao lado feminino.
Depois que, certa vez, um velho deus pervertido conseguiu invadir o banho das deusas (um feito que acabou virando lenda), a segurança foi reforçada a tal ponto que nem um rato conseguiria entrar.
Hestia se juntava agora às outras deusas, completamente à vontade, sem qualquer vestígio de pudor. Sua pele brilhava levemente rosada com o calor enquanto ela soltava um suspiro profundo, relaxando sob a água.
“Mas que surpresa… Hestia? Não esperava te ver por aqui.”
“Ahh… Demeter! Quanto tempo!”
Hestia respondeu de imediato, com o rosto completamente relaxado.
A deusa Demeter, dona de um corpo generoso e curvilíneo, cobria-se apenas com uma toalha fina enquanto se acomodava ao lado dela.
“Oho… Vejo que seus seios continuam tão fartos quanto sempre.”
“Olha quem fala!”
Hestia deu um tapa na mão que se aproximava de seu peito.
O impacto fez o corpo de Demeter balançar levemente — e ondas se espalharam pela água ao redor.
“Então, qual é a ocasião? Aposto que é sua primeira vez aqui, não?”
“Bem…”
Hestia recompôs a expressão enquanto olhava para a outra deusa, que ajeitava seus cabelos macios cor de mel.
Entrar no Balneário Divino custava dinheiro — por isso Hestia sempre evitara o lugar.
Mas agora…
Com um encontro com Bell pela frente, ela decidiu gastar suas economias.
Era importante demais.
Não apenas para se livrar do cheiro de álcool — mas também para renovar o corpo e a mente.
Porque, naquela noite…
Tudo precisava ser perfeito.
“Tenho planos de encontrar alguém para jantar depois disso. Resolvi caprichar hoje.”
“…Não me diga que é com um homem?”
“E se for?”
Hestia lançou um olhar irritado ao ver a expressão de puro choque no rosto da amiga.
Do outro lado da piscina, uma pequena cascata murmurava suavemente, mas os olhos de Demeter já brilhavam como os de uma criança.
“Mas veja só! Quem diria, Hestia com um homem! Meu Deus! Ei, gente—!”
“O-o que você está fazendo?!”
Hestia perdeu a compostura ao ver Demeter animada demais.
A voz da deusa ecoou pelo salão, e as outras começaram a se aproximar, curiosas. Assim que ouviram a novidade, o caos foi imediato.
“Hestia com um homem?!”
“O que aconteceu?!”
“Aquela Hestia que não tinha interesse nenhum por homens lá no céu—?!”
“A mesma que vivia trancada no quarto o ano inteiro?!”
“Hestia, a eterna carinha de bebê!”
“Que história é essa?!”
“Conta tudo, agora!”
Num piscar de olhos, todas as deusas ao redor cercaram Hestia.
Ignorando completamente qualquer regra de etiqueta do lugar, algumas pularam direto na água, enquanto outras se espremeram entre os corpos alheios só para chegar mais perto.
“Qual é o problema? É tão estranho assim eu ter um encontro?”
“Não é isso, querida. Mas você recusou todos os convites até hoje, não foi?”
“Você é uma das três grandes deusas virgens, junto com Athena e Artemis!”
“Sinceramente, queremos saber que tipo de homem conseguiu derrubar essa sua fortaleza impenetrável.”
Hestia recuou levemente diante da avalanche de perguntas, com um olhar já meio irritado.
Ela tentou dizer que nunca apareceu ninguém que realmente valesse a pena, mas logo percebeu que nenhuma delas aceitaria uma resposta simples.
Quando o assunto ficava interessante, o lado curioso — quase fofoqueiro — das deusas falava mais alto.
“…Ele é da minha Família. Um humano.”
Um coro de “Oooh!” e “O quê?!” ecoou ao redor. Antes mesmo do barulho cessar, novas perguntas surgiram.
“Eu sabia!”
“Ele está se aproveitando do seu instinto de proteção?”
“Tem certeza que ele não está te enganando? Seria terrível se você caísse nas mãos de um homem ruim…”
“O que você acha que eu sou? Eu sou uma deusa! Sei muito bem ler as pessoas.”
“As crianças não conseguem esconder nada de nós.”
“Então… o que fez você se apaixonar por ele?”
“Hmm… a personalidade, eu acho.”
Pensando melhor…
Não havia um único motivo.
Se tivesse que escolher, talvez fosse a sinceridade dele. Aquela honestidade pura.
Ela respondeu quase em pensamento.
Mesmo assim, as perguntas continuaram sem parar — e Hestia já estava ficando exausta daquilo tudo.
Decidiu que era hora de sair.
Além disso… já estava na hora de se arrumar.
Escapando do círculo de deusas, ela se levantou.
Gotas de água escorriam por seu corpo esguio, refletindo a luz que entrava pelo teto. Seus longos cabelos negros, normalmente presos, agora caíam soltos e molhados pelas costas, brilhando sob a luz.
Por um instante, Hestia fechou os olhos.
Era uma cena digna de pintura — uma jovem deusa reluzente, envolta pela luz, enquanto outras a observavam encantadas.
“Ei, Hestia. Qual é a coisa que você mais gosta nele?”
Uma das deusas fez a última pergunta.
Hestia olhou por cima do ombro… e sorriu suavemente.
“Tudo… nele.”
—
A Praça Amour ficava a um quarteirão da Avenida Sudoeste.
Era só seguir por uma rua lateral.
O chão era coberto por pedras coloridas, cercado por plantas e flores que formavam um belo contorno verde. Tudo ali criava uma atmosfera encantadora.
À medida que o sol se punha, lâmpadas de pedra mágica começavam a acender, iluminando suavemente o local sob o céu escurecendo.
Faltavam poucos minutos para as seis.
Cercado por casais de mãos dadas, Bell tentava parecer o menor possível enquanto aguardava diante da estátua de uma deusa no centro da praça.
“Bell!”
“Ah…!”
Hestia o encontrou e se aproximou.
No primeiro momento, Bell apenas se sentiu aliviado ao ouvir aquela voz familiar.
Mas, quando ergueu os olhos…
Ele travou.
Hestia estava diferente.
Seus cabelos, normalmente presos em dois rabos de cavalo, estavam soltos, caindo livremente pelas costas. O brilho negro dos fios destacava ainda mais sua presença.
Parecia… mais madura.
Por um instante, Bell perdeu o fôlego.
As fitas com sininhos que ela costumava usar estavam agora amarradas nos pulsos, como delicadas pulseiras. E ela vestia as melhores roupas que possuía.
Hestia havia se esforçado ao máximo.
Ela parou diante dele, prendendo a respiração por um momento.
Suas bochechas coraram intensamente enquanto reunia coragem.
“E-então… o que você acha? Eu quis tentar um visual diferente, então…”
“…Ah, sim, você está linda! Muito, muito linda! Como posso dizer…? Você parece muito mais… elegante que o normal, Deusa! Você está… é… li-linda!”
O rosto de Bell ficou completamente vermelho enquanto ele tropeçava nas próprias palavras, tentando elogiá-la.
Ele claramente se esforçava para mostrar respeito à líder de sua Família, mas sua voz carregava uma timidez inconfundível. Naquele momento, Bell estava totalmente encantado por Hestia.
Por fora, Hestia manteve a compostura.
Por dentro…
“ISSOOO!”
“Queria ter chegado antes… desculpa, Bell. Você esperou muito?”
“N-não! Eu cheguei agora há pouco!”
Ambos desviaram o olhar, mexendo nas próprias roupas, sem saber o que fazer.
Aquilo já parecia demais com um encontro de verdade — a ponto de Hestia sentir o rosto quase dormente de tanto corar.
E, daquele ponto em diante…
Nada seria capaz de abalar seu bom humor.
“Então, Bell… trate de ser um bom acompanhante esta noite, viu?”
“P-pode deixar!”
Ele sorriu e estendeu a mão.
Hestia ia aceitá-la—
Mas então…
Elas surgiram.
Como uma alcateia.
“Ali estão!”
“A Hestia!”
“Então aquele ao lado dela é…!”
Eram as deusas do banho.
Todas aquelas mulheres absurdamente belas avançavam em grupo, com os olhos brilhando de pura empolgação.
Bell congelou diante da investida.
Hestia, ao lado dele, arregalou os olhos ao máximo.
“Aaaah! Que fofo!”
“Então esse é o tipo da Hestia!”
“Mm—?!”
A multidão simplesmente empurrou Hestia para o lado e engoliu Bell num instante.
Braços surgiam de todos os lados, puxando-o para perto, sendo envolvido pelos corpos das deusas uma após a outra.
Faltava ar.
Preso naquele “paraíso infernal”, Bell mal conseguia respirar. Seu rosto ficou vermelho em segundos enquanto tentava desesperadamente recuperar o fôlego.
“Nn—hngh…! Haaah?!”
“Desculpa, Hestia! A gente ficou curiosa demais pra saber quem era, não resistimos! Então seguimos você… Nossa, nossa! Ele realmente parece um coelhinho!”
“Nnn—hngh—!”
“B-BEEEELL—!”
O grito de Hestia ecoou pela praça.
A vida de Bell estava por um fio.
Ele havia sido praticamente soterrado… no vale formado pelo enorme decote de Demeter.
Nenhuma das outras deusas sequer se comparava àquele verdadeiro abismo. E, a cada vez que Demeter acariciava os cabelos brancos de Bell…
A pressão dentro de Hestia só aumentava.
As veias em sua testa pulsavam como se fossem explodir.
A curiosidade desenfreada das deusas havia invadido sua vida pessoal — e estava passando por cima de tudo sem piedade.
Quando Hestia estava prestes a explodir—
Com as roupas bagunçadas, o rosto em chamas e o cabelo totalmente desalinhado, Bell finalmente conseguiu escapar por uma brecha.
“Deu…sa…”
“B-Bell! Você está bem?!”
“…Posso morrer feliz…!”
PÁ!
Hestia cravou o pé na canela dele.
“Desculpa…!”
“Perdoado. Agora vamos sair daqui!”
Puxando Bell — que agora mancava — com força, Hestia iniciou a fuga.
As deusas demoraram um segundo para perceber que haviam perdido o “alvo”… e foi exatamente essa brecha que os dois precisavam.
Eles dispararam pela cidade, correndo o mais rápido possível, sempre atentos a qualquer sinal de perseguição.
“Ahhh! Por que elas são sempre assim?! Deusas não têm autocontrole nenhum!”
“Hahaha…”
Bell forçou um sorriso ao lado de uma Hestia irritada e reclamando.
Depois de muito correr, finalmente conseguiram despistar as perseguidoras.
Pararam em uma antiga torre de sino, um pouco afastada da Avenida Oeste.
Feita de tijolos, a torre agora silenciosa permanecia de pé, com o sino antigo — já quebrado — pendurado no alto.
Eles se esconderam ali dentro até que o perigo passasse.
Só então conseguiram respirar.
“Já está quase de noite… Ahh… e hoje era pra ser o nosso encontro…”
“E-encontro?”
Já não faltava muito para a meia-noite.
Hestia soltou um suspiro longo enquanto tentava arrumar o cabelo, completamente bagunçado pela correria.
O dia havia terminado… de forma nada ideal.
Ela ficou ali, remoendo aquilo por um instante.
“Ah…! Deusa, olha aquilo!”
“…Hm?”
Bell apontou animado para fora.
Quando Hestia se virou—
A visão diante dela fez seu coração parar por um instante.
A cidade inteira.
Orario brilhava sob a noite, iluminada por incontáveis lâmpadas de pedra mágica, como estrelas espalhadas pelo chão.
Luzes de todas as cores cintilavam entre os prédios.
E, no centro de tudo…
A imensa Torre de Babel erguia-se, atravessando a escuridão em direção ao céu.
Hestia ficou em silêncio.
Encantada.
Então, lentamente, olhou para Bell ao seu lado.
Nos olhos dele…
Refletia-se toda a cidade.
Bell percebeu o olhar dela e se virou.
Compartilhar aquele momento com Hestia… aquecia seu coração.
Tomando coragem, ele falou:
“Deusa… vamos sair de novo, outro dia. Com certeza.”
“Bell…”
“Até lá, vou trabalhar duro pra juntar dinheiro. A gente pode comer coisas gostosas, beber algo bom… e depois vir aqui.”
“……”
“Hoje a gente encontrou esse lugar incrível… então, da próxima vez, vamos vir juntos de novo.”
Ele sorriu, tentando mostrar que aquele dia…
Não tinha sido em vão.
E que ele estava feliz por compartilhar aquele momento com ela.
Bell estava tentando animar Hestia.
Mas não era só aparência — ele realmente sentia aquilo.
Um sorriso leve e despreocupado iluminou seu rosto… e tocou algo dentro dela.
Hestia fechou os olhos devagar, sentindo um frio suave percorrer seu corpo.
Aquele sorriso inocente — absurdamente sincero — só fez com que ela se apaixonasse ainda mais por ele, ali, naquele instante.
Ela sentia amor nas memórias daquele dia… e também na promessa de amanhã que Bell lhe oferecia.
“Estou ansiosa por isso, Bell.”
“Sim.”
Ela respondeu com um sorriso tão amplo que parecia iluminar tudo ao redor.
Os dois voltaram a olhar para a cidade lá fora, aproveitando em silêncio o pouco tempo que ainda restava só para eles.
Hestia havia conseguido se aproximar mais dele.
Esse simples fato fez suas bochechas corarem, enquanto seu coração finalmente encontrava um pouco de paz.
Eu ia perguntar sobre aquela supporter hoje, mas…
…acho que não quero mais.
Agora não era o momento para algo tão… desagradável.
Pensando assim, ela voltou a contemplar a paisagem.
Sentindo o calor suave do garoto ao seu lado, fechou os olhos e sorriu.
Os sininhos presos às fitas em seus pulsos tilintaram de leve, balançando com a brisa fresca que atravessava a torre…
E envolvia os dois, sob o velho sino silencioso.