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Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 2 – Capítulo 3

Magia — A Magia que Invoca um Colo

Um clarão prateado rasgou o ar.


“Grrroooaaaahhhhhhh!!!!”


A luz abriu um corte que ia da cabeça do monstro esquelético — o spartoi — atravessando seu corpo inteiro. A criatura soltou um último grito agonizante antes de tombar.


Os spartois lembravam esqueletos humanos, exceto pelas peças de armadura presas em vários pontos do corpo.


Eram, sem dúvida, criaturas assustadoras. Com ângulos afiados em cada parte de sua estrutura e empunhando ossos brancos como armas, pareciam exatamente aquilo que eram: guerreiros amaldiçoados de ossos.


Esse monstro era classificado como nível quatro e guardava seu território nas profundezas da Dungeon com eficiência. Desta vez, porém, foi abatido em um piscar de olhos.


“……”


A guerreira fez sua espada cortar o ar antes de apontá-la para o chão, e a força esmagadora de seu golpe foi suficiente para fazer todos ao redor suarem frio.


Ossos, ossos, ossos por toda parte.


Fragmentos brancos cobriam o chão até onde a vista alcançava — tudo o que restava de pelo menos dez spartois que haviam encontrado ali o seu fim.


Cabelos longos, olhos dourados.


Uma garota de beleza capaz de rivalizar com a dos próprios deuses permanecia de pé no centro daquele cenário macabro.


“…E ela fez tudo sozinha.”


“Ela seria ainda mais fofa se, de vez em quando, fingisse estar em apuros…”


No curto instante em que seus aliados trocaram essas palavras, a garota loira — Aiz Wallenstein — guardou silenciosamente sua espada estreita e se virou para se juntar a eles.


“Boa, boa! Mandou bem, Aiz! Quer uma poção? Ou um elixir? Que tal um daqueles seus bolinhos de batata com pasta de feijão doce?”


“Estou bem, Tiona, obrigada… Mas eu quero o último.”


“Por que ela precisaria de uma poção? Nem um arranhão ela tem.”


“De qualquer forma, os monstros já foram eliminados… O que fazemos agora, Fynn?”


“Hmm, voltamos? Viemos aqui só para nos divertir, seria meio sem graça ficar sem comida e ter que voltar com fome. O que você acha, Reveria?”


Eles estavam no trigésimo sétimo andar da Dungeon.


Membros da Familia de Loki haviam descido até a área conhecida como a “Fortaleza Inferior”. O grupo era pequeno — apenas sete integrantes, contando com os apoiadores. Aiz Wallenstein liderava um time de apenas cinco aventureiros de alto nível.


Dessa vez, era realmente apenas diversão. Diferente da expedição anterior, alguns membros da Familia Loki, com tempo livre, se reuniram para dar uma volta pela Dungeon.


Por que estavam ali? Simples: estavam entediados.


Inúmeros aventureiros chegam tão fundo na Dungeon apenas para perder a vida. O fato de eles tratarem aquilo como “diversão” dizia muito sobre o verdadeiro poder que possuíam.


“Vou seguir a decisão do líder… Ei, vocês duas, vamos arrumar tudo!”


A elfa normalmente reservada, Reveria, elevou a voz.


Tiona e Tione, duas irmãs amazonas de pele cor de trigo, assentiram. Aiz, segurando um bolinho de batata em cada mão, abaixou levemente os ombros, decepcionada.


A falta de provisões era um problema comum para qualquer grupo que se aventurava tão fundo na Dungeon.


“Mas falando nisso, se o Bete estivesse aqui, já estaria fazendo um escândalo agora. Ele sempre tenta se mostrar na frente da Aiz. Dá até raiva.”


“Depois daquela noite no bar, quando contamos pra ele — já sóbrio — que a Aiz rejeitou ele sem pensar duas vezes… ele quase chorou! Ficou arrasado!”


“Sério?! Eu queria tanto ter visto isso! Por que não me contou, Tione?!”


Eles não tinham muito o que fazer para se preparar para partir. Coletar pedras mágicas era tarefa dos apoiadores, e Aiz já havia eliminado todos os monstros da área. As irmãs mantinham o clima leve enquanto os dois apoiadores, recém-promovidos ao nível três, trabalhavam nos restos dos spartois.


Aiz levantou o olhar do seu bolinho e falou:


“Fynn, Reveria… eu gostaria de ficar aqui, sozinha.”


Os dois reagiram de formas bem diferentes ao pedido. Os olhos de Fynn se arregalaram levemente; já Reveria manteve a expressão quase inalterada, apenas fechando um dos olhos.


Ignorando a surpresa de Tiona e Tione, Aiz continuou:


“Não precisam deixar comida para mim. Não quero causar problemas para ninguém. Por favor.”


“E-espera—! Só de dizer isso você já está causando problema! Se a gente te deixasse aqui, não conseguiríamos nem pensar direito de tanta preocupação!”


“Concordo com a Tiona. Mesmo que os monstros aqui sejam mais fracos, não posso abandonar uma companheira tão fundo na Dungeon. É perigoso demais.”


Aiz parecia abatida diante de Tiona, que, com as mãos na cintura, se inclinava até quase encostar o rosto no dela. E também não tinha como rebater o argumento de Tione.


Ela sabia que o que diziam estava absolutamente certo.


“Por que você quer lutar tanto assim? É um desperdício, Aiz!”


“Você é tão linda! Devia agir mais como uma dama! Como é que consegue perder pra mim, uma amazona, em senso de moda?”


“Eu… não me importo com isso…”


“Como assim não? Você não quer um homem forte… ou pelo menos alguém de quem goste? Esse rosto bonito é só enfeite?”


“Pare de mandar os outros fazerem coisas que você mesma não faria.”


Reveria respirou fundo, posicionando-se a um passo da silenciosa e cabisbaixa Aiz.


Voltando-se para Fynn, a elfa abriu a boca para falar:


“Falarei por ela também. Por favor, respeite o desejo de Aiz.”


“Reveria?!”


“Hmm?”


A mais baixa do grupo, uma prum, ergueu o olhar para Reveria, tentando entender suas intenções.


“Ela não costuma agir de forma egoísta. Quero que a escute.”


“Você não pode tratá-la como uma mãe cuida de uma criança, Reveria.


Tiona e Tione estão certas. Enquanto for minha responsabilidade garantir que todos voltem em segurança, não posso permitir isso.”


“Eu sei que estou sendo indulgente com ela… Ainda assim.”


Reveria soltou um segundo suspiro e voltou o olhar para Aiz.


Ao ver a expressão triste da garota — que normalmente não demonstrava emoções — a elfa não pôde deixar de rir de si mesma por dentro.


Então, encarou Fynn diretamente.


“Eu também ficarei.”


Declarou, assim, sua intenção de apoiar Aiz.


Fynn sustentou o olhar da elfa, a mão apoiada no queixo, refletindo por um momento. Depois, assentiu lentamente, como se aquela decisão tivesse grande peso.


“Tudo bem, façam como quiserem.”


“Hã? Fynn, fala sério com elas!”


“Se a Reveria estiver com ela, duvido que o pior aconteça.


Por outro lado… talvez sejamos nós que encontremos problemas no caminho de volta.”


“Porque eu não posso atacar nem curar ninguém, certo, Capitão?”


As coisas aconteceram rápido depois que o líder tomou sua decisão.


O grupo de Fynn, junto com os apoiadores, se despediu das duas que ficariam para trás e partiu.


Parada na única entrada da sala, Tiona se virou e acenou com entusiasmo para Aiz e Reveria.


“Obrigada, Reveria.”


“Eu preferia que você desistisse dessa ideia… mas agora já é tarde. Só digo uma coisa: espero não ter que lutar.”


“…Desculpa.”


As duas não se encararam, mas havia uma confiança profunda nas palavras trocadas.


O trigésimo sétimo andar era diferente dos superiores — ali, a escuridão era quase absoluta. O teto era tão alto que não podia ser visto a olho nu. Um abismo negro pairava sobre a cabeça de qualquer aventureiro que cruzasse aqueles corredores.


Pequenos pontos de luz fosforescente, piscando em intervalos regulares como velas ao longo das paredes branco-leitosas da dungeon, eram as únicas referências visuais.


As duas permaneceram ali, em silêncio, enquanto uma expressão de dúvida começava a surgir no rosto de Reveria.


Sentindo algo, Aiz puxou sua espada.


“Está vindo.”


“O que está vindo?”


Os olhos de Aiz se estreitaram, prontos para o combate. Ela ia responder à pergunta da elfa, mas não foi necessário — Reveria logo percebeu o que estava acontecendo.


O chão sob seus pés começou a rachar.


“Não pode ser…”


O sussurro de Reveria alcançou Aiz no exato momento em que os olhos dourados da garota se fixaram em um ponto no centro da vasta sala.


Num piscar de olhos, o chão se abriu.


Terra e pedras foram empurradas para os lados quando algo gigantesco emergiu, erguendo a cabeça para fora do solo.


Crac, crac, crac.


O som horrível da terra sendo rasgada ecoou por toda a câmara. Fragmentos do chão, erguidos pela massa colossal da criatura, despencavam como uma avalanche, enquanto um rugido ensurdecedor crescia a cada segundo.


Primeiro surgiu um crânio. Depois as clavículas, as costelas… e, por fim, a bacia.


Um esqueleto negro estava nascendo do chão da dungeon.


Cada movimento seu enviava ondas de choque por todo o ambiente.


O trigésimo sétimo andar inteiro tremia.


Era como se a própria Dungeon estivesse uivando, celebrando o nascimento de seu filho favorito.


“NGOOOOOOOOOOOHHHHH!”


As duas aventureiras observavam de baixo enquanto o monstro colossal soltava um gemido terrível — um verdadeiro grito de nascimento.


A criatura ergueu a cabeça e rugiu para o teto. Tinha mais de dez metros de altura.


Era completamente negra — um esqueleto gigante, digno do próprio inferno. Grande parte de seu corpo ainda permanecia enterrada no chão, e duas enormes projeções se estendiam do topo de seu crânio. Parecia um spartoi que nunca parou de crescer.


Duas chamas vermelho-sangue brilharam dentro de suas órbitas vazias.


No interior de seu peito, uma pedra mágica flutuava, protegida por uma gaiola de ossos.


“Então… já se passaram três meses…”


Como regra geral, o número e o tipo de monstros em cada andar não mudavam.


Uma única espécie não podia dominar um andar inteiro, e novos monstros surgiam para substituir aqueles derrotados pelos aventureiros. Embora o tempo de reaparecimento variasse de um andar para outro, nunca passava de um dia.


Mas, no meio disso, havia um tipo de monstro que não reaparecia imediatamente após ser derrotado.


Seu tempo de renascimento era muito maior.


Além disso, só existia um desses por andar.


Talvez por serem grandes demais… ou fortes demais… a Dungeon permitia apenas um por vez — nunca mais que isso.


A Guilda conhecia essas criaturas especiais desde tempos antigos, e lhes deu um nome.


“Um Monster Rex.”


“Reveria, deixe comigo.”


Cada Monster Rex era diferente, mas todos compartilhavam duas características: um longo intervalo de reaparecimento… e um poder esmagador.


Dizia-se que cada um deles estava, no mínimo, dois níveis acima dos outros monstros do andar.


Mesmo os aventureiros mais experientes os respeitavam — e temiam — chamando-os de “chefes de andar”. Normalmente, era preciso um grupo inteiro trabalhando junto para derrotar um deles.


“Aiz… você realmente pretende lutar sozinha?”


Reveria olhou para ela com preocupação, seus olhos carregados de severidade.


Aiz ergueu a espada e avançou calmamente em direção a Udaios, o Monster Rex que rugia de forma ameaçadora.


“Não tem problema.”


Os deuses cantavam louvores àquela criatura, chamando-a de “seu chefe, de segunda categoria”. E, ainda assim, a garota agora a enfrentava sozinha.


“Vou acabar com isso em um instante.”


Uma semana depois, rumores sobre uma espadachim de Nível Seis se espalhariam por toda Orario.


“……?”


Bell parou de repente.


Virou o pescoço e olhou por cima do ombro, na direção da escadaria que ligava o primeiro ao segundo andar.


“O que foi, Sr. Bell?”


“…A Dungeon não acabou de tremer?”


Lilly ergueu os olhos para ele, enquanto Bell tentava enxergar mais fundo — para o segundo andar… não, ainda mais além.


“Tremer? A Lilly não sentiu nada.”


“…Será que foi só impressão minha?”


Os sentidos de Bell estavam em alerta total. Mesmo esperando alguns instantes, a sensação estranha não desapareceu. Inclinando a cabeça e franzindo a testa, ele acabou concluindo que devia ter sido apenas imaginação.


“Hoje foi um dia longo…”


“Foi mesmo. Não só longo, mas muito longo! Já são meia-noite.”


“Hã? Sério?!”


Ela assentiu, segurando o relógio de bolso dourado preso ao colar.


Os ponteiros estavam praticamente sobrepostos.


“Uau… nem percebi…”


“É porque os monstros não paravam de aparecer no final.”


Lilly comentou, dizendo que nem teve tempo de olhar as horas, enquanto a enorme mochila em suas costas balançava a cada palavra. Eles haviam conseguido muitos itens de drop naquele dia — tanto que já não havia mais espaço na bolsa exageradamente grande.


Já fazia alguns dias desde que firmaram o contrato.


Com a ajuda de Lilly, Bell vinha tendo dias extremamente produtivos na Dungeon. Talvez ele já estivesse se acostumando à vida de aventureiro. Sua contagem diária de monstros derrotados aumentava rapidamente, muito mais do que quando lutava sozinho. Agora, avançava com tudo em direção ao seu objetivo.


Bell não deixava de se surpreender com a diferença que a presença de um único apoiador podia fazer.


Enquanto isso, Lilly ficava perplexa com o número absurdamente alto de monstros que aquele suposto novato derrotava todos os dias.


“Então… dividimos o lucro de hoje meio a meio?”


“…Sr. Bell, acho que o senhor precisa aprender um pouco mais sobre dinheiro e bom senso. Talvez não seja lugar da Lilly falar isso, porque sou muito grata… mas o senhor é generoso demais.”


“Mas você precisa de dinheiro agora, não precisa, Lilly?”


“É verdade… mas é como se eu não conseguisse suportar ver o senhor tão desprevenido, como se estivesse cuidando do coelhinho de outra pessoa e me preocupando com cada coisinha… Lilly sente como se isso estivesse fazendo mal.”


Ela tem me dado sermões assim com frequência ultimamente, pensou Bell.


Até pouco tempo atrás, a relação entre eles era como a de uma pessoa comum trabalhando para um aristocrata. Mas toda aquela formalidade ao lidar com estranhos já havia sido deixada de lado.


Bell sentia como se a distância entre os dois estivesse diminuindo — como se estivessem se tornando amigos.


Bell e Lilly atravessaram o primeiro andar, afastando goblins que surgiam pelo caminho como se fossem papel, e deixaram a Dungeon. Depois de um banho rápido e uma parada no posto de troca de Babel, os dois saíram pelo portão principal.


“Uau… você não estava brincando. Já está bem tarde mesmo…”


O Parque Central, a área aberta ao redor da Torre de Babel, estava coberto por um manto de escuridão.


Sob a luz das lâmpadas de pedra mágica incrustadas nas paredes da cidade, reinava um silêncio completamente diferente daquele da tarde.


Ainda assim, os bares ao longe continuavam tão animados como sempre, mesmo naquela hora.


“…Ela é realmente enorme.”


Os olhos de Bell percorreram todo o Parque Central até finalmente se fixarem na torre.


Ela atravessava o céu noturno. Babel se erguia imponente, observando tudo lá de cima.


Mesmo sem conseguir enxergar naquele horário, Bell sabia que a torre era coberta de detalhes minuciosos de ponta a ponta.


Por fora, parecia uma verdadeira obra de arte — algo que nem combinava com as instalações práticas que existiam em seu interior. Bell respirou fundo, contemplando aquela construção que carregava a extravagância e a dignidade dos próprios deuses.


“Me pergunto… por que a Torre de Babel é tão alta? É legal que a Guilda alugue espaços lá dentro, mas subir coisas até o quinquagésimo andar parece mais trabalhoso do que vale a pena…”


“Sr. Bell, os inquilinos da Guilda só vão até o vigésimo andar, sabia?”


“Ah… é mesmo?”


Os lábios de Lilly se contraíram levemente ao ver a expressão completamente perdida de Bell.


Um pouco constrangido, Bell resolveu perguntar diretamente.


“Se não tem lojas lá em cima… então o que é que fica acima do vigésimo andar?”


“São os deuses e deusas que moram nesses andares, Sr. Bell.”


“…Os deuses?”


“Sim. Apenas os líderes das várias Familias de Orario podem viver lá, e seus aposentos vão até o topo.”


Parecia natural que os deuses, com seu gosto pelo luxo, escolhessem viver na Torre de Babel, o símbolo da Cidade Labirinto de Orario. Cada quarto era equipado com as comodidades mais modernas e elegantes — mas o verdadeiro atrativo era a vista.


Nenhum outro prédio podia alcançar aquela altura, então os deuses tinham a cidade inteira aos seus pés, visível de suas janelas.


Para viver ali, pagavam um aluguel altíssimo à Guilda.


Mas, para aqueles com riqueza suficiente para ignorar esse detalhe, era simplesmente o lugar mais sofisticado de toda Orario.


Ou seja, apenas os deuses e deusas mais ricos e poderosos podiam se dar a esse privilégio.


“Ahh… então existem deuses que não vivem com suas Familias, preferindo ficar separados.”


“Pense nisso como um espaço particular, Sr. Bell. Há deuses que gostam de conversar e interagir conosco… mas também há aqueles que preferem a própria companhia. Sempre foi assim, desde tempos antigos.”


Bell assentiu, compreendendo.


“Lilly ouviu dizer que a Torre de Babel nem sempre foi tão alta. Antes, ela servia apenas como uma tampa para a Dungeon, e não era maior que os outros prédios ao redor.”


“Então… por que ela ficou tão grande?”


“Quando os primeiros deuses desceram, a torre foi destruída… Eles caíram como estrelas cadentes e atingiram a estrutura.”


Como se tivessem feito de propósito.


Esses deuses destruíram completamente a torre pronta e riram ao ver os rostos desesperados do povo antigo de Orario. Na mente de Bell, surgiram imagens das pessoas com a boca entreaberta, lágrimas escorrendo, enquanto os deuses gargalhavam e tentavam se desculpar. Ele soltou uma risada seca.


“Desde então, ela passou a ser chamada de Babel, a Torre que Caiu. Talvez seja mais um motivo para os deuses viverem ali hoje.”


Lilly continuou, explicando que os deuses tentaram se redimir ajudando na reconstrução… e também protegendo a cidade dos monstros da Dungeon.


O método deles: a Falna.


As pessoas daquela época passaram a venerar as bênçãos de poder recebidas dos deuses e permitiram que eles vivessem em Babel como forma de gratidão.


Com o tempo, muitos deuses e deusas começaram a descer para o Gekai — o “mundo inferior”, como chamavam — e criaram os grupos conhecidos como Familias em várias partes do mundo. A relação entre adoradores e adorados continuou, enquanto Babel era reconstruída cada vez mais alta, simbolizando a influência divina sobre o mundo.


Assim, a Torre de Babel atingiu sua altura atual — e também passou a carregar a imagem de um verdadeiro santuário do poder dos deuses.


“Acho que entendi… Sempre que ouço histórias sobre os deuses, não consigo deixar de pensar no quanto o mundo deles deve ser entediante. Eles devem ter ficado entediados a ponto de querer abandonar o céu e vir parar aqui, né?”


“Talvez eles odiassem tanto o trabalho que decidiram fugir?”


Bell estava olhando para a torre enquanto conversavam, mas essas palavras chamaram sua atenção, e ele se virou para encarar Lilly.


“A Lilly ouviu dizer que os deuses tinham muitas responsabilidades em Tenkai — o mundo superior. A mais importante delas é cuidar de nós, seus filhos, quando entramos no sono eterno.”


“Isso não é…?”


“Sim. Eles são responsáveis por guiar as pessoas depois da morte.”


Ao ouvir aquilo, Bell sentiu o coração acelerar levemente.


Não era uma reação comum diante desse tipo de assunto… mas havia algo na voz de Lilly que tocava diretamente seu destino.


Em resumo, o que ela dizia era que os deuses decidiam o que acontecia com os mortais após a morte.


Ou seja, julgavam as almas.


E o destino de uma alma podia variar drasticamente, dependendo do deus responsável por ela. Poderia ter permissão para viver em Tenkai… ou sofrer dores inimagináveis… ou ser condenada a um trabalho interminável e sem sentido… As possibilidades eram tantas que seria impossível listá-las todas.


O destino de todas as almas libertadas do Gekai dependia apenas dos caprichos dos deuses.


Ser uma boa ou má pessoa em vida não tinha qualquer peso nisso.


Os deuses simplesmente gostavam de você… ou não.


O humor deles decidia entre céu ou inferno.


Um “julgamento” sem regras, sem critérios — apenas vontades e opiniões.


“Mas, no fim, a maioria das almas acaba sendo reencarnada… Como há muito trabalho a fazer, os deuses que ainda estão em Tenkai precisam compensar a ausência dos que vieram para cá. Eles ficam sobrecarregados, sem descanso. Devem ficar irritados, não acha? Os próximos a descer provavelmente terão uma ‘discussão’ bem intensa para decidir a ordem…”


Eu não quero ir pra lá… não quero morrer…


Bell mergulhou em pensamentos.


Se ele fosse para lá agora, provavelmente o mandariam direto para o inferno.


Por diversão.


Como se percebesse para onde os pensamentos dele estavam indo, Lilly estendeu a mão e sacudiu seu ombro.


Ele voltou à realidade e lhe deu um sorriso sem graça.


Mas algo estava errado.


“…Mas houve um tempo em que a Lilly desejava morrer.”


Aquilo o atingiu como um soco no estômago.


“…o quê?”


“Se a Lilly fosse antes até os deuses… se pudesse renascer… a nova Lilly com certeza seria melhor do que a de agora…”


Enquanto falava, Lilly encarava o topo da Torre de Babel — não, muito além, em direção ao céu.


O capuz caiu para trás quando ela ergueu o rosto, revelando seus cabelos castanhos e seus grandes olhos arredondados.


Olhos vazios.


Parecia que ela olhava para o céu como alguém que deseja voltar para casa.


“L-Lilly!!”


Bell gritou de repente.


Teve a sensação de que, se não o fizesse, ela simplesmente desapareceria.


Lilly fechou os olhos devagar, interrompendo seu olhar perdido nas estrelas, e voltou-se para Bell, com os olhos parcialmente escondidos pela franja.


“Desculpe por dizer algo tão estranho.”


“……”


“Isso foi há muito tempo. Por favor, não leve a Lilly tão a sério. A Lilly é mais forte agora. Não penso mais assim.”


Bell não conseguiu responder.


Ela parecia sincera. Lilly estufou o peito com um leve resmungo, e não havia qualquer tristeza em seus gestos.


Ela devia ter superado algo do passado.


E, por isso mesmo, Bell não conseguiu transformar seus sentimentos em palavras ou ações.


“Bem, já está bem tarde, Sr. Bell. Vamos indo para casa. A Lilly também precisa voltar para a sua Familia hoje.”


Com um sorriso leve e animado, Lilly virou as costas para a torre e começou a se afastar, dando pequenos passos.


Bell olhou para seus ombros — ombros pequenos demais para carregar tanto peso.


Observou-a carregar aquela mochila enorme, desproporcional ao seu corpo frágil, sentindo o coração apertado. Um instante depois, correu atrás dela.


“Então… você ficou ainda mais forte.”


Uma voz sussurrou do alto.


Lá embaixo, duas sombras — uma seguindo a outra — se afastavam cada vez mais.


Os olhos de uma mulher, brilhando de excitação, acompanhavam aquela cena com intensidade absoluta.


As nuvens no céu noturno se moveram, deixando a luz da lua invadir o quarto.


Toda a parede externa era feita de vidro. A mulher, parada diante dela, estava tão iluminada que parecia estar sob um holofote lunar.


Seu corpo esguio, porém voluptuoso, estava envolto em uma camisola preta translúcida.


A pele clara adquiria um ar misterioso sob o brilho da lua.


Seus cabelos prateados, longos até quase a cintura, cintilavam como se fossem feitos de gelo.


“Que maravilha… você deve brilhar ainda mais…”


Clap.


A mulher — Freya — juntou as mãos, sua beleza deslumbrante refletida no vidro.


Era o andar mais alto da Torre de Babel.


Freya vivia no aposento mais elevado — e mais luxuoso — de todo o edifício. De sua parede de vidro, observava Bell lá embaixo.


“Mais… brilhe mais… ainda mais intensamente, criança. Agora que você capturou minha atenção, esse é o seu dever.”


Havia um amor profundo em seus olhos — junto com a autoridade absoluta de quem está acima de todos.


Freya estava obcecada pelo garoto.


Obcecada a ponto de ignorar tudo o mais, consumida por uma paixão ardente. A deusa da beleza estava completamente enfeitiçada por ele.


Freya possuía os Olhos da Intuição, uma habilidade que lhe permitia enxergar a verdadeira essência das almas no mundo mortal.


Era um dom natural — não uma das habilidades chamadas Arcanum. Os deuses tinham um acordo que proibia o uso desse tipo de poder no Gekai, mas os olhos de Freya não eram afetados por isso.


Em Tenkai, ela já havia usado esses olhos para julgar as almas dos mortos que chegavam ao seu templo — especialmente guerreiros caídos em batalha — e então conduzi-las…


Para sua coleção.


Freya era capaz de compreender a natureza de uma alma mais rápido do que qualquer outro deus — e rapidamente se apegava às suas favoritas.


As almas que eram julgadas por ela após a morte podiam ser consideradas sortudas.


E aquelas que chamavam sua atenção no momento da morte… eram ainda mais.


Porque seriam amadas pela deusa da beleza por toda a eternidade.


Mesmo que isso significasse viverem presas, privadas de sua liberdade.


Freya dominava o amor e a beleza.


E, para o bem ou para o mal, era uma deusa selvagem… e cruel.


“Fique mais forte… torne-se digno de mim… essa é a sua missão.”


Assim como muitos outros deuses, Freya havia deixado seu templo e Tenkai para viver no Gekai. Mas seus “passatempos” não mudaram.


Ela usava seus olhos para enxergar o verdadeiro valor das pessoas… e reunir, em sua própria Familia, as almas mais brilhantes e talentosas.


Ninguém a recusava.


Ninguém podia recusá-la.


Jamais houve alguém capaz de resistir ao encanto de sua beleza.


Por isso, os membros da Familia de Freya possuíam uma força completamente fora do comum. Mesmo entre as poderosas Familias da Cidade Labirinto, a dela se destacava.


A deusa Loki conhecia muito bem os olhos de Freya — e os chamava de “poder trapaceiro maldito”.


“Eu apenas tenho preferência por homens fortes.”


Ela encontrou Bell por acaso.


Era cedo, numa manhã tranquila. Seus olhos prateados o viram caminhando pela rua principal do oeste.


— Eu quero aquele.


Foi o que sentiu no instante em que o viu.


Já fazia muito tempo desde que experimentava algo assim. Seu corpo reagiu com leve tremor, seu coração disparou, e um suspiro de êxtase escapou de seus lábios. Como sempre acontecia nesses momentos, ela se tornava como uma criança diante de um brinquedo novo — tomada por um desejo puro… e ao mesmo tempo egoísta, de possuí-lo.


A alma de Bell tinha uma cor que Freya jamais havia visto antes:


Transparente.


Que cor ele ganharia? Ou continuaria assim?


Tudo aquilo que envolvia incerteza era capaz de prender o interesse de um deus por tempo indefinido.


E foi por isso que ela não conseguiu simplesmente ignorá-lo.


Decidiu observar.


Seria divertido moldá-lo à sua própria cor… mas sentia que ainda haveria tempo para isso.


“Mal posso esperar… Até onde você vai chegar? Quanto irá brilhar? Que cor irá se tornar?”


Havia amor em seus olhos prateados enquanto observava o garoto… mas era um amor distorcido.


Ela levou um dedo aos lábios cheios e o mordeu de leve.


Por um instante, um perfume provocante se espalhou pelo quarto.


“O que é isso…? …Ah, ah, ah… percebeu de novo, foi?”


O garoto já parecia pequeno à distância, mas havia parado de repente, olhando ao redor.


Era como se tivesse perdido algo — procurando desesperadamente encontrar o que faltava. Os olhos de Freya se estreitaram, enquanto um sorriso amplo tomava seu rosto.


Ele havia feito o mesmo na primeira vez que ela o viu, naquela rua. Percebeu o olhar dela quando sua atenção se fixou nele, carregada de excitação. Sua percepção era melhor do que ela imaginava.


Quase como se o olhar dela fosse forte demais para ignorar.


Ele não tem o talento dos outros que vieram antes… então por quê? Será tudo resultado do seu crescimento? Hmm… interessante…


Pensando agora, talvez devesse ter agido naquele momento.


Ela sentia que poderia tê-lo controlado facilmente, como uma marionete, enquanto o observava conversando com certa naturalidade com uma garota na rua. Mesmo sendo abençoado por outro deus, não duvidava que conseguiria persuadi-lo.


Mas se conteve.


Não sabia a qual Familia ele pertencia — nem qual deus poderia protegê-lo. Não queria comprar briga com alguém como Loki e sua Familia.


E, além disso…


Ao ver o sorriso inocente dele, seu impulso simplesmente se dissipou.


E, naquele instante… ela não teve vontade de agir.


“Vou ter que tirar Hestia do caminho… mas aquele garoto é meu.”


Ainda assim, por enquanto, mudar de planos e observá-lo das sombras não parecia uma má ideia. Freya assentiu para si mesma.


Ninguém gosta de manter um gato o tempo todo no colo. Às vezes, é bom deixá-lo correr livremente pelo jardim, brincar à vontade.


Afinal…


O jardim era dela.


Ela poderia trazê-lo de volta quando quisesse.


“Vou esperar um pouco antes de fazer de você meu… É curioso… uma parte de mim não quer que isso aconteça tão cedo. Talvez seja agora que pensar em você seja mais… agradável.”


Como todos antes dele, no momento em que se tornasse dela, o interesse começaria a desaparecer com o tempo.


Ele se tornaria apenas mais um “favorito” guardado na prateleira — uma entre tantas bonecas alinhadas. De vez em quando, ela se lembraria dele, o pegaria para brincar… e depois o colocaria de volta.


O encanto dos primeiros momentos sempre se desfazia.


As emoções se desgastavam.


E com o amor não era diferente.


Quando atingia o auge, estava destinado a ruir. Ninguém desejava um amor que já havia esfriado.


Mesmo assim, Freya não achava isso algo vazio.


Era simplesmente a natureza do amor.


E ela era a deusa do amor.


Para ela, ter uma coleção um pouco grande demais… parecia perfeitamente natural.


Com um gesto delicado, afastou algumas mechas de cabelo que haviam caído sobre o rosto, prendendo-as atrás da orelha.


Seus ombros nus eram banhados pela luz da lua.


Parecia uma garota apaixonada pela primeira vez enquanto continuava observando Bell com um olhar suave e envolto em afeto.


“…Mas, sim. Acho que já está na hora de você aprender magia.”


Toc. Ela levou o dedo ao queixo, pensativa.


Inclinando levemente a cabeça, algo lhe ocorreu. Seus olhos se afastaram da figura distante lá embaixo, e ela se virou, caminhando para longe da janela.


Os Olhos da Intuição de Freya não conseguiam decifrar os status concedidos por outros deuses, mas permitiam que ela inferisse força e habilidades pela cor e pelo brilho da alma.


E, ao observar Bell, ela percebeu algo:


Ele não possuía magia.


Para Freya, aquilo era uma falha.


E decidiu agir — imediatamente.


“Vamos ver se isso serve…”


Em um canto do quarto, havia uma estante ricamente decorada. Era tão alta e larga que, se tombasse, poderia facilmente cobrir seu corpo inteiro.


Seu dedo fino deslizou até a prateleira do meio e puxou um livro espesso pela lombada. Ele caiu em seus braços com um som surdo.


Folheando algumas páginas, Freya assentiu, satisfeita.


“Ottar.”


“Senhora.”


Uma voz firme respondeu ao chamado de Freya.

Alguém estava ali — ou já permanecia dentro do quarto desde o início, ou havia acabado de entrar pela porta principal.


Orelhas que lembravam as de um javali se erguiam acima de cabelos curtos, de tom castanho-avermelhado. Aquele homem-besta tinha mais de dois metros de altura e um corpo sólido como rocha.


Parado ao lado de Freya, parecia uma estátua — um cão de guarda aguardando as ordens de sua senhora.


“Quero que você leve este livro…”


Ela começou a estender o objeto, mas interrompeu a própria frase.


Fechando os lábios, abaixou o olhar para o livro em seus braços.


“Algo a preocupa?”


“Hehe… não, não é nada. Esqueça.”


“Sim, senhora.”


Ottar assentiu brevemente e deu um passo para trás, enquanto Freya sorria para o livro.


É verdade… não havia necessidade de seu precioso servo entregá-lo pessoalmente.


Além disso, se aquele gigante surgisse do nada diante de Bell tentando lhe dar um livro… o garoto provavelmente morreria de susto. A ideia até era divertida — mas não serviria.


Não precisava colocá-lo diretamente em suas mãos.


Bastava que ele o encontrasse.


E ela sabia exatamente onde deixá-lo.


No mesmo lugar onde o viu pela primeira vez — na grande avenida onde seus caminhos “se cruzaram”.


Havia um certo bar bem próximo dali.


Se o livro estivesse ali… com certeza acabaria nas mãos dele.


No silêncio escuro do quarto, seu servo observava enquanto Freya se voltava novamente para a janela, soltando uma risada baixa para si mesma.


“Ah-choo!”


Syr soltou um espirro delicado.


Corando, levou as mãos à boca para se cobrir. Todos os funcionários do bar ao redor pararam o que estavam fazendo e olharam na direção dela. Syr ficou ainda mais vermelha e abaixou o olhar para o chão.


“Syr, você pegou um resfriado?”


“N-não. Estou bem. Não precisa se preocupar.”


Forçando um sorriso, ainda com o rosto rosado, respondeu à pergunta da elfa Lyu.


Seus cabelos azul-acinzentados estavam presos como de costume — um coque com um rabo de cavalo ao centro. O rabo de cavalo balançava enquanto ela agitava as mãos, tentando convencer a elfa de que estava tudo bem.


“Será que alguém está falando de você?”


“A resposta é óbvia! É aquele aventureiro, miau!”


“Você vai me irritar, Chloe.”


Syr deixou os ombros caírem, lançando um olhar cansado para a garota-gato, que sorria de forma travessa.


Chloe não respondeu — apenas sustentou o mesmo sorriso, enquanto movia uma das mesas do bar e balançava o rabo de forma provocante sob a saia.


Syr soltou um suspiro pesado.


“Mas aquele aventureiro não apareceu ontem à noite!”


“Mesmo ele sempre devolvendo a cesta depois de comer o almoço apaixonado da Syr, miau!”


“Syr até abriu mais cedo e ficou procurando por ele, miau!”


“Eu não fui procurar por ele!”


Enquanto arrumavam as mesas para o dia, os funcionários se revezavam em provocar a garota humana por todos os lados. Syr reclamava do meio do bar, mas ninguém parecia disposto a parar. Continuavam girando ao redor dela, como se estivessem se divertindo demais para parar.


“Não se preocupe, Syr. O Sr. Cranell não é o tipo de homem que ignoraria seus sentimentos. Tenho certeza de que ele só saiu tarde da Dungeon e não teve tempo de vir ontem.”


“Se isso era pra me deixar melhor, Lyu… não, deixa pra lá, eu desisto.”


A elfa observava, confusa, enquanto Syr se frustrava. “É só um mal-entendido”, disse Syr — mas a sempre séria Lyu parecia não compreender.


Desde a primeira vez, Syr vinha preparando almoço para Bell todos os dias. Nem ela mesma sabia bem o motivo, mas todos ao redor já tinham tirado suas próprias conclusões.


Bell costumava devolver a cesta à noite, depois de comer na Dungeon.


Mas, na noite anterior, ele não apareceu.


E agora, pela manhã, ela estava sendo alvo de brincadeiras.


“Será que ele já morreu por aí, miau?”


“Não diga uma coisa dessas, Ahnya. É imprudente. Aquele aventureiro jamais deixaria a Syr para trás!”


“Já cansei disso…”


“Syr, mantenha a calma. Tenho certeza de que o Sr. Cranell está bem.”


“Não é isso que eu quis dizer, Lyu…”


“O que a Lyu disse, miau! Aquele garoto é forte demais pra morrer! Se isso acontecesse… meu coração ia se partir…”


De repente, todas começaram a falar ao mesmo tempo.


“Nem pensar…” “Até você, Chloe…?” e outras expressões de incredulidade surgiram por todo o bar.


Confusa e cada vez mais irritada, Syr olhava de um lado para o outro.


“Hã? O quê?”


“Ele é insubstituível, miau! Não existe outro igual a ele em lugar nenhum!”


“Chloe…? Do que você está falando?”


A garota-gato olhou para o teto enquanto falava, como se estivesse perdida em pensamentos. Agora, Syr realmente não entendia nada.


Então Chloe desviou o olhar do alto e o cravou diretamente nela.


“Syr, eu preciso fazer uma confissão…”


“E-e qual seria…?”


“Eu… adoro aquele corpinho dele! Aquela bundinha me deixa maluca, miau…!”


“……”


“Quando eu penso no que tem ali, dentro daquela calça justa… myaha-ha! Ah, as coisas indecentes que eu faria…! Eu quero—Ai! Ouch—!”


“……”


“A-ai, espera—! Desculpa! Eu paro! Já chega! Socorro!”


As outras funcionárias largaram o que estavam fazendo e correram para conter Syr.


A Benevolent Mistress estava especialmente barulhenta naquela manhã.


“Ei! Suas cabeças de vento! Chega de brincadeira! Voltem ao trabalho!”


A voz de Mia, a dona do lugar, ecoou da porta dos fundos enquanto ela observava o pouco progresso das garotas.


As “cabeças de vento” se assustaram e rapidamente voltaram às suas tarefas. “Mas que coisa…” murmurou a anã, dando de ombros.


“…Hmm? Syr, o que é isso?”


“Hã?”


Uma colega humana apontou atrás dela, e Syr se virou para olhar.


Era no balcão — exatamente no lugar onde Syr havia preparado um espaço especial para Bell na primeira vez em que ele visitou a Benevolent Mistress.


Sobre a cadeira onde ele se sentara naquela noite… havia um livro.


“O que é isso…?”


“Alguém deixou cair?”

“O que é isso, miau?”

“Tem algo errado, miau?”


Syr pegou o livro com as duas mãos, enquanto as colegas se inclinavam por cima de seus ombros para ver melhor.


“Eu não sei ler isso, miau.”

“Nem eu, miau.”

“Já sei disso, então calem a boca.”

“Como é que é?! Eu vou te—”


“Syr, o que é?”


“Tem um livro aqui… Não é nosso. Talvez algum cliente tenha esquecido?”


“Ohh…? Não estava aqui ontem à noite…”


“Isso, isso! Foi erro da Runoa, miau! Mas se não é de cliente, então o quê, miau? Alguém invadiu o bar e deixou isso aí? Essa história nem faz sentido, tô até passando mal…”


“Como sempre, a idiota com conhecimento inútil, miau…”


“O quê?! Eu vou te cortar!”


Ignorando a confusão atrás delas, Lyu e Syr examinaram o livro mais de perto.


Era completamente branco e bastante espesso, com cheiro de papel antigo.


As páginas estavam cheias de símbolos e padrões indecifráveis.


Não havia título.


“…Espere um pouco. Isso—”


Lyu percebeu algo, mas antes que pudesse dizer, o rugido furioso de Mama Mia ecoou pelo salão.


“Quantas vezes eu tenho que repetir?! Vocês não entendem na conversa?! Tá na hora dessa anã ensinar disciplina na marra!”


Todas congelaram de medo.


“E-espera, Mama, miau! A gente achou uma coisa suspeita, miau!”


“Isso! Isso aqui!”


“Syr, anda logo e mostra pra ela!”


“Hã? Algo suspeito?”


Empurrada pela pressão das outras, Syr murmurou um “Tá bom…” e deu alguns passos à frente, com o resto das garotas atrás dela. Seu cabelo azul-acinzentado balançava levemente enquanto mostrava o livro para Mia, que a encarava com expressão severa.


“Mama Mia, parece que alguém esqueceu esse livro aqui sem querer. O que devemos fazer?”


“…O quê…?”


Toda a equipe prendeu a respiração enquanto Mia analisava cuidadosamente tanto Syr quanto o livro, com um olhar carregado.


…?


Lyu não conseguia entender aquela expressão.


Mia já havia sido uma aventureira — e ainda tinha a presença de alguém que poderia voltar ao campo a qualquer momento. Mas Lyu nunca tinha visto aquele olhar antes.


Enquanto tentava compreender, os olhos afiados da anã continuavam fixos no livro.


Então, com uma voz áspera — mais adequada a um campo de batalha do que a um café — ela deu sua ordem:


“…Coloquem em algum lugar visível. Se o dono não for um idiota, vai perceber que perdeu e voltar pra buscar.”


“Sim, entendido.”


Syr fez uma reverência educada, e as funcionárias se dispersaram.


O medo daquela nova forma de irritação nos olhos de Mama Mia fez todas trabalharem com ainda mais afinco.


Lyu chegou a parar por um instante ao ver duas colegas conversando animadamente, mas suspirou e voltou ao trabalho sozinha.


“Sr. Bell! Cuidado! Seus pés!”


“Hã?”


O grito de Lilly ecoa nos meus ouvidos.


Estamos no sétimo andar. Eu estava prestes a avançar contra uma killer ant com a Divine Knife na mão, então minha resposta saiu meio atrapalhada.


Já derrotei tantos monstros aqui que esse lugar praticamente virou meu campo de treino. Estava confiante demais… e não percebi o que estava acontecendo.


“—Kiihiii!!!!!”


“?!”


Entendi na hora.


Um needle rabbit.


Aquele monstro com aparência de coelho, com presas brotando das bochechas, se aproximou pelo meu ponto cego. Essas presas são valiosas — servem para fabricar armas — mas se aquelas pontas vermelho-sangue me acertarem… vou ter sorte se sobreviver.


Ele vem direto na minha perna esquerda, olhos brilhando em vermelho.


“Kh!”


Acabei de apoiar esse pé — não dá pra desviar! Estou no meio de uma corrida total, minha perna direita está segura, mas completamente inútil no ar.


Dobro o joelho esquerdo na hora.


A única parte protegida na parte inferior do meu corpo são os joelhos. É minha última tentativa de bloquear o ataque.


E funciona.


A presa do monstro bate na placa e ricocheteia.


SHING!


O som do osso contra o metal ecoa, enquanto uma dor atravessa meu corpo.


O coelho passa com um ruído metálico agudo… mas meu equilíbrio já foi completamente destruído.


“Gyaaaaaaaaaa!!!”


Ótimo timing… como se ele tivesse planejado isso.


O meu alvo original percebe a abertura e avança junto com outro.


Matei dezenas dessas killer ants nos últimos dias. Já enfrentei quatro ao mesmo tempo antes.


Mas agora são duas.


E, como resultado, quatro garras implacáveis vêm direto nos meus olhos.


“Keehhh!”


Defesa!


Levanto o braço esquerdo, protegido pela braçadeira verde, bem na frente do rosto, bloqueando o ataque por pouco.


O protetor é resistente — nem um arranhão.


Mas o impacto não só faz a dor percorrer meu braço… como arremessa meu corpo inteiro para o lado.


Não giro. Aterrissando na ponta dos pés, deslizo para trás, ainda com o braço erguido.


Agora é a vez da outra killer ant.


Ela vem com tudo.


Droga—


Vou ser imobilizado!


Se ela me acertar em cheio, prender meus membros com as patas e me atravessar com as garras… acabou.


O corpo dessas coisas é como uma armadura — pesado demais.


A Eina me avisou sobre isso.


Com meu físico leve… ser derrubado é o mesmo que perder.


—Ah.


De novo.


Essa sensação inevitável de morte… a mesma de quando enfrentei o Minotauro.


Meu corpo treme.


O medo me paralisa.


Não consigo respirar.


O tempo para.


A boca grotesca da killer ant se abre.


Vejo fileiras de dentes nojentos, escorrendo saliva.


Minha mente fica em branco.


Só resta esperar o impacto.


“—NÃO!”


No instante seguinte, o grito agudo de Lilly e uma bola de fogo surgem ao meu lado.


“Hã?!”


“Degggyaaaaaa!!!!”


“Sr. Bell!”


O tempo volta.


A bola de fogo acerta a cabeça da killer ant, e ela grita de dor.


A Divine Knife em minha mão direita brilha, como se respondesse ao chamado de Lilly.


“Gyuu?”


“YEEEAAAHHHHHH!”


Slash!


A cabeça em chamas da criatura voa com um som satisfatório.


Avanço rolando para frente e engajo a outra, mirando um golpe fatal.


Minha lâmina atravessa sua carapaça, partindo-a ao meio.


Mas não tenho tempo para ver desaparecer.


O needle rabbit vem por trás.


Saco minha segunda lâmina e contra-ataco, atingindo sua cabeça.


“Gii… Gaah…”


“…Hah… haaah…”


Solto o ar preso na garganta.


Todos os monstros no recinto estão mortos.


Só então o suor frio escorre.


Tarde demais.


Me curvo, passando a mão pelo rosto.


Eu quase morri.


Meu coração dispara dentro do peito. Tento controlar a respiração descompassada, acompanhando o ritmo pulsando nos ouvidos.


“Sr. Bell! Você está ferido?”


“…Lilly. Obrigado… você salvou minha vida…”


A tensão deixa meu corpo quando vejo ela correndo até mim.


Assim que chega, eu simplesmente me jogo no chão.


“Isso foi descuido! Já era perigoso — mas o Sr. Bell piorou a situação!”


“Desculpa…”


Não tenho como me defender.


Fiquei confortável demais… e isso virou excesso de confiança.


Achei que conseguiria derrotar os dois de uma vez… e subestimei.


Exatamente como nos livros — e como a Eina disse.


Se eu tivesse enfrentado um de cada vez, mesmo que o needle rabbit aparecesse, nada disso teria acontecido.


Agora eu entendo.


O verdadeiro terror da Dungeon…


É que nada é garantido.


Se eu tivesse cometido um único erro… ou se a Lilly não estivesse ali…


Eu estaria morto.


Um arrepio percorre minha espinha só de pensar nisso, fazendo meu corpo inteiro tremer. Gravo essa sensação na memória.


Descuidos levam à morte.


Ouço apenas metade do sermão da Lilly e solto um longo suspiro.


“Você está me ouvindo, Sr. Bell?”


“Ah… sim, desculpa… estou refletindo sobre o que fiz. Não vou cometer esse erro de novo…”


“O Sr. Bell realmente parece arrependido. Nesse caso, Lilly vai ficar quieta. Se o senhor não aprender com isso, a responsabilidade será sua.”


Faço um grande aceno com a cabeça, prometendo que vou lembrar, e me levanto.


Estou prestes a agradecê-la mais uma vez por ter me salvado quando algo importante me vem à mente.


“Lilly… você usou magia agora há pouco, não foi?”


“…hã?”


Lilly se encolhe quando aponto isso.


“Por acaso… aquilo era uma espada mágica? Então foi assim que você me salvou… Sério, do fundo do coração, obrigado. Estou muito feliz agora.”


“…! A Lilly não salvou o Sr. Bell porque quis! Sem o Sr. Bell, a Lilly não ganharia dinheiro e teria que arrumar outro contrato! Não entenda errado!”


“…Do que você está falando, Lilly?”


Como eu deveria responder a isso?


Os olhos dela se arregalam ao ver minha confusão.


“O que foi que a Lilly disse…?” ela murmura, puxando o capuz e segurando a cabeça.


…Agora eu realmente não estou entendendo nada.


“Ah… você tem uma espada mágica, Lilly?”


“Hahaha… uma coisa levou à outra e… bem… ela acabou caindo nas mãos da Lilly, entende…”


“Entendi. Mas espadas mágicas não quebram se forem usadas demais?”


“Quebram, sim. Por isso a Lilly só usa em momentos como este. Mas a Lilly vai usar todo o poder dela para salvar o Sr. Bell!”


Isso é completamente o oposto do que ela disse antes… mas tudo bem.


De qualquer forma, decidimos almoçar, já que estamos com fome.


Depois que Lilly termina de recolher os restos dos monstros, nos acomodamos no centro da sala. Quando descansamos dentro da Dungeon, geralmente ficamos em áreas abertas — assim evitamos surpresas surgindo das paredes.


Além disso, essa sala é tão grande que, mesmo que algum inimigo entre, vamos perceber a tempo.


Pensando bem… ainda não devolvi a cesta da Syr…


Enquanto como uma comida simples, lembro do almoço que ela me deu ontem.


Saí tarde da Dungeon ontem à noite e acabei dormindo demais hoje, então não tive tempo de passar na Benevolent Mistress. Vou me sentir mal se não devolver hoje.


Eu e Lilly começamos a conversar.


A Dungeon está silenciosa. Não sinto a presença de nenhum monstro.


Lilly parece estar de bom humor. Até está rindo.


Talvez seja uma boa oportunidade para perguntar algo que está na minha cabeça.


“Aliás, Lilly… você disse que precisava voltar para a sua Familia ontem à noite. Aconteceu alguma coisa?”


Tento soar o mais casual possível, mas o rosto dela congela na hora.


Leva apenas um segundo para o sorriso habitual voltar… mas há algo estranho nele.


Um pouco forçado.


Talvez eu não devesse ter perguntado…


“Por que o senhor quer saber, Sr. Bell?”


“Eu sei que você não se dá muito bem com o pessoal da sua Familia… então eu fiquei meio… preocupado. Desculpa.”


A lembrança de quando Lilly me contou que vivia separada da própria Familia ainda está bem viva na minha mente. Foi o suficiente para me deixar inquieto quando ela disse que tinha ido até lá ontem à noite.


Peço desculpas quase por reflexo.


Ela relaxa os ombros e sorri.


“Obrigada pela preocupação, Sr. Bell. Mas está tudo bem. Nada do que o senhor está pensando aconteceu.”


“Sério?”


“Sim, é verdade. Ontem à noite foi a reunião mensal da Familia Soma.”


“Reunião…?”


“…Os detalhes são meio complicados, mas, basicamente, é quando decidem quanto dinheiro precisam arrecadar no mês seguinte. Todos juntos têm que atingir uma certa quantia, então cada um precisa trabalhar para cumprir sua parte.”


Deve ser para cobrir os gastos da Familia.


Faz sentido que cada membro contribua com uma parte do que ganha — é parecido com o dinheiro que eu uso para ajudar a deusa lá em casa. Não parece ter nada de estranho nisso.


E talvez seja por isso que a Lilly trabalha como suporte — para conseguir atingir a própria meta sozinha. Afinal, ela não participa de grupos dentro da própria Familia.


“Mas deve ser pesado ter uma meta pessoal todo mês… principalmente pra quem não consegue juntar muito dinheiro.”


“A Lilly também acha. Principalmente para suportes… ou aventureiros que não são muito fortes…”


Ah!


Meus olhos se arregalam por um instante.


Não chega a ser uma revelação completa, mas… acho que comecei a entender.


Antes, quando a Lilly comentou meio de forma amarga sobre precisar de dinheiro…


Será que o problema dela com a Familia tem a ver com isso?


Um leve desconforto surge na minha mente. Preciso perguntar.


“O que acontece com quem não consegue atingir a meta?”


Como se enxergasse através de mim, Lilly responde com um sorriso:


“Na verdade… nada demais.”


Então não há punição…


Eu relaxo até demais — como um idiota.


Mas ainda assim… o fato de uma garota como Lilly ter que trabalhar sozinha para cumprir a própria meta me faz pensar que tem algo errado dentro da Familia Soma.


Franzo a testa, pensativo.


Lilly me observa e puxa o capuz com uma expressão… estranhamente abatida.


Por que ela está com essa cara…?


“Ah… tem mais uma coisa que eu queria perguntar. A Familia Soma trabalha com vinho, não é?”


Tento mudar de assunto, aliviar o clima.


Forço um sorriso — nada convincente.


“Ah… isso aí é só o que sobra.”


“O que… sobra? Como assim?”


“Isso mesmo. Durante o processo de fabricação, o vinho acaba vazando dos recipientes. Então eles recolhem isso e vendem para as lojas. Seria desperdício jogar fora.”


Espera aí…


Se bem me lembro, a Eina disse que o vinho deles era extremamente bom — sempre muito procurado…


As pessoas ficam atrás… do que “sobrou”?


Como algo assim pode ser considerado sobra?


Lilly olha para minha expressão confusa e sorri, um pouco distante.


“Isso quer dizer que o vinho é tão bom… que até o que dá errado é excelente.”


“Dar errado” não parece ser a palavra certa.


Fico ali, sem reação, coçando a nuca.


Mas então… se isso é o que falha…


“O deus da Lilly, Soma, ignora completamente os outros deuses… e não se interessa por nada… exceto uma coisa.”


“……”


“Fazer vinho.”


Fico em silêncio.


“Não é exagero dizer que ele criou a Familia Soma com um único propósito: ajudar no único hobby dele.”


Então… as metas existem para sustentar a produção de vinho em grande escala.


Pensando bem, não é tão incomum deuses usarem suas Familias para bancar seus próprios interesses. Afinal, eles vieram para esse mundo em busca de diversão… e isso certamente custa mais do que apenas viver — aluguel, comida e tudo mais.


Ainda assim…


É preciso um certo tipo de obsessão para mergulhar tão fundo em algo assim.


Mas… ainda assim, não consigo afastar a sensação de que há algo errado com a Familia Soma.


Pode ser só porque sei da situação da Lilly e isso me deixa desconfiado… mas não consigo deixar de vê-los como os vilões.


—“Brigas internas”… “Viver intensamente, morrer cedo”… “Caos constante”—


Ainda me lembro da expressão da Eina quando disse isso, não faz muito tempo.


“A-ha-ha-ha… Se esse vinho é tudo isso… talvez eu devesse experimentar…?”


Sinto meu rosto começar a fechar, então tento aliviar o clima com uma piada.


Lilly me encara, sem expressão, e solta uma risadinha que desaparece quase instantaneamente.


“A Lilly não acha isso uma boa ideia…”


“……”


A conversa termina ali, com aquelas palavras baixas.


Estou prestes a puxar outro assunto quando monstros aparecem na sala. Não temos escolha além de enfrentá-los.


Logo, Lilly volta ao seu jeito habitual… e eu acabo acompanhando.


Mas ainda existe uma distância entre nós.


E não sei se ela pode ser superada.


É essa a sensação que tenho.


Como se qualquer traço de firmeza que eu tivesse desaparecesse… deixando à mostra apenas meu lado fraco e inútil.


Dois dias se passam.


Já faz um dia inteiro desde a última vez que entrei na Dungeon com Lilly.


Ontem de manhã, ela disse que tinha algo para resolver e não poderia ir. Não sei se tinha a ver com a Familia, mas me lembro bem da expressão de desculpa no rosto dela.


Depois de ver aquilo… não consegui nem pensar em ir sozinho.


Fico repetindo para mim mesmo que descansar um pouco é bom, já que venho passando tanto tempo na Dungeon… mas o que é essa sensação?


Sempre que penso na Srta. Wallenstein, uma voz dentro de mim diz: “Você não tem tempo pra ficar parado!”


E mesmo assim… não consigo me mexer.


Sou como um balão vazio.


“…Ahhhh, isso não está nada bem.”


Levanto do sofá, ajeitando o cabelo de qualquer jeito.


Solto um suspiro profundo, tentando expulsar esse peso do peito.


Preciso me mover. Fazer alguma coisa.


Se continuar assim, vou enferrujar.


Se não consigo clarear a mente, pelo menos posso mudar o foco.


Preciso parar de pensar na Lilly por enquanto.


Já faz um tempo desde que fiz uma limpeza…


Como passo menos tempo aqui ultimamente, acho que deixei as tarefas de lado.


Também não é justo deixar tudo para a deusa.


Forço minhas pernas a sair do sofá… e então vejo algo.


A cesta da Syr, ainda ali, na prateleira.


“…Ah.”


Eu sou um idiota.


“Me desculpa! Me desculpa mesmo!”


“Ah-ha-ha…”


Clap.


Junto as mãos e me curvo o máximo que consigo.


Corri até a Benevolent Mistress sob o sol do meio-dia… e agora estou pedindo desculpas diretamente à Syr.


Não tem desculpa por ter esquecido de devolver a cesta por tantos dias.


“Pode levantar a cabeça, Bell. Eu não me importo.”


“Mas…”


“Se é assim que você se sente, então tome mais cuidado da próxima vez, tá? O que já passou, passou. Não dá pra mudar. Então foque no que pode fazer daqui pra frente.”


Ela está completamente certa.


Levanto o olhar timidamente… e me ergo devagar.


Syr me encara com gentileza, um sorriso suave no rosto.


É nesses momentos que percebo que ela é mais madura que eu.


“Mas, falando sério… como você não deu notícia nenhuma, eu comecei a ficar preocupada. Tanto que até cometi erros no trabalho.”


“Desculpa mesmo…”


“…Você tem ideia do quanto me zoaram por isso?”


De repente, surge um leve ressentimento no olhar dela.


“Hã?”


Meus olhos se arregalam, confuso.


Ela cora, as bochechas ficando rosadas, e solta uma tosse bem óbvia.


Espero que isso signifique que ela vai pegar leve comigo…


Ainda sem entender direito, devolvo a cesta e pego um menu.


Ir embora logo depois de tudo isso não parece certo.


Talvez não seja exatamente um pedido de desculpas… mas pedir alguma coisa simples parece o mínimo a se fazer.


A maioria dos clientes no bar naquele momento era composta por mulheres.


Ver mães de raças bestiais com seus filhos me faz sorrir. Os pratos delas estão cheios de frutas — até que as crianças mergulham neles com sorrisos cheios de presas.


“Ei… isso já estava aí antes?”


Sentado em um lugar no balcão, mais afastado, olho ao redor… quando um grande livro branco chama minha atenção.


Ele está apoiado na parede atrás de mim. Não combina nem um pouco com o ambiente.


“Hehe… bem, sobre isso…”


Pergunto à Syr quando ela vem anotar meu pedido. Por um instante, ela hesita — mas logo continua:


“Acho que foi esquecido por um cliente. Queríamos deixá-lo em um lugar visível, caso a pessoa volte para buscá-lo, então colocamos ali.”


“Ah…”


Respondo meio sem graça. Então realmente tem gente que consegue esquecer algo assim em um bar.


Pouco depois, Syr volta com meu bolo e chá. Ela fica ali comigo, e começamos uma conversa leve. Uma garçonete gata aparece e parece oferecer uma pausa para Syr. Fico me perguntando se está tudo bem.


A garota-gato também está sorrindo… por algum motivo.


“Então… vai ficar descansando por um tempo?”


“Não é nada tão elaborado assim…”


Acabo comentando sobre a Lilly — e sobre como estou sem vontade de fazer nada.


Não foi por acaso.


Talvez eu só quisesse alguém para me ouvir.


Ou, quem sabe, no fundo eu esperasse que ela tivesse algum conselho.


Depois de me ouvir com atenção, me encarando em silêncio, Syr sorri.


“Que tal tentar ler alguma coisa?”


“Ler?”


“Sim. Você não costuma ler muito, não é, Bell? Por que não tentar?”


Ela diz que talvez os livros sejam exatamente o estímulo que estou precisando agora.


Literatura…


Nunca tinha pensado nisso antes.


Mas… faz sentido.


Pode ser exatamente o que eu preciso.


Quero recuperar aquela sensação de quando lia histórias de heróis — eu simplesmente não conseguia ficar parado.


Quem sabe mergulhar no mundo de um livro não faça meu coração bater mais rápido de novo… e cure esse meu estado de pura inércia.


“É… acho que vou tentar. Obrigado pela ideia, Syr. Vou ler alguma coisa.”


“Fico feliz em ajudar.”


Fico contente por ter perguntado — e decido seguir o conselho.


Percebendo que levei a sugestão a sério, Syr emenda outra pergunta:


“Tem algum livro em mente?”


“Não muito. Minha deusa tem vários lá em casa… talvez eu pegue algum emprestado…”


Também poderia passar numa livraria.


Assim que digo isso, ouço Syr comentar:


“Então…”


Ela se inclina e pega o livro branco.


“Por que não tenta ler este?”


“Hã? Mas esse livro… não é de outra pessoa? Foi esquecido aqui.”


“Desde que você devolva, não tem problema. Livros não desaparecem depois de serem lidos. E… acho que pertence a um aventureiro. Pode ter algo útil para você.”


Muitos aventureiros frequentam o bar — é bem provável que o dono seja um deles.


E, sendo algo pessoal de um aventureiro… talvez realmente me ajude.


Além disso, é um livro diferente — nunca vi nada igual.


Talvez seja minha única chance de ler algo assim.


Por outro lado… eu estaria mexendo nas coisas de outra pessoa…


“Não se preocupe. Na verdade, a Mama Mia nem gosta muito de deixar isso aqui, então, se você levar, até ajuda a gente.”


Syr baixa um pouco o olhar, de repente tímida.


“…E eu quero ajudar você da forma que puder, Bell.”


“……”


“É pouco, eu sei… mas, por favor, aceita. Por mim.”


Ela não disse algo parecido antes?


Faço uma careta ao lembrar disso.


Bom… já que ela insiste tanto…


Talvez seja melhor aceitar.


Recusar agora seria quase cruel — ainda mais vendo a expressão dela.


Então pego o livro.


Mas, no momento em que estendo a mão, meus dedos roçam nos dela por acidente.


O toque suave da sua pele faz meu coração dar um salto.


“Ob-obrigado… então… até mais tarde?”


“Sim, obrigada por vir hoje.”


Ainda meio atrapalhado, tento disfarçar enquanto me levanto para ir embora.


Depois de um rápido “o bolo estava delicioso”, deixo o bar.


Foi a mesma coisa com a Eina… sempre que encosto na pele de uma garota, fico nervoso. Coro sem controle. Mas o quão inocente eu sou, afinal?!


“Syr… você deu aquele livro pra ele…?”


“Sim, dei.”


“Pra alguém tão direta e certinha como você sair distribuindo algo do bar assim… nunca pensei que veria isso.”


“Vocês duas não sabem que o amor deixa a gente cega, miau? Syr, você devia soltar mais o cabelo, miau!”


Ainda abalado com o calor das mãos da Syr, volto para casa quase correndo.


Assim que chego, abro o livro.


Como a deusa ainda não voltou, coloco o livro na mesa com uma mão.


Um pouco apreensivo, puxo uma cadeira, me sento e olho a página inicial — que, curiosamente, não tem título.


Espelho, Espelho: A Bruxa Mais Bela do Mundo Sou EU — Uma Autobiografia

(Com Apêndice: Desperte Sua Magia!)


…Logo de cara, parece meio infantil.


Capítulo 1: Magia Moderna que Até Goblins Conseguem Entender!


Ensinar magia pra goblins… isso não pode ser uma boa ideia…


Por um instante, tenho vontade de fechar o livro.


Mas… não posso desperdiçar a boa intenção da Syr.


Respiro fundo e continuo, forçando os olhos a acompanhar as palavras.


O começo é meio estranho… mas o conteúdo em si não é ruim.


Como o título sugere, o livro fala sobre magia.


“Ooohhh!”


Meus olhos brilham de repente, e eu mergulho de vez na leitura.


Existem dois tipos de magia: inata e adquirida.


Como o nome sugere, a magia inata é aquela que certas raças possuem naturalmente, por herança. Desde tempos antigos, essas raças já nascem com potencial mágico e, por isso, são treinadas desde cedo através de rituais. Embora tenham limitações nos tipos de magia que podem usar, o poder e a escala dessas magias costumam ser muito altos.


O texto está em koine, a língua comum, então consigo entender — com algum esforço.


Mas… o que são esses símbolos entre as linhas?


Não parecem palavras… talvez algum tipo de fórmula?


Viro a página.


A magia adquirida, por outro lado, é aquela concedida a quem recebe uma “Falna”, surgindo espontaneamente. Sem muitas restrições, pode assumir diversas formas, e sua força depende muito do excelia acumulado.


Esses símbolos…


Não são hieróglifos.


Não são nenhuma língua conhecida.


Não têm padrão algum.


Só… marcas estranhas.


As palavras…


Estão me puxando para dentro.


Viro a página.


Magia é interesse.


Esse é um fator essencial para toda magia adquirida.


O que chama sua atenção? O que você aceita, odeia, deseja, lamenta, venera, jura, anseia?


O gatilho já está dentro de você.


Sua Falna gravará sua alma como um sol ardente.


Uma imagem aparece.


É uma cabeça.


Tem olhos. Tem nariz. Tem boca. Tem orelhas.


É um rosto.


Um rosto humano, de olhos fechados, desenhado em preto — formado pelas próprias palavras.


Viro a página.


Se você deseja, responda.

Se você deseja, quebre.

Se você deseja, concentre-se.


Um espelho terrível da verdade está diante de você.


Não.


Esse rosto…


É o meu.


Sem nada acima da testa.


Não… é uma máscara.


Outro eu.


Um eu que eu não conhecia.


Viro a página.


Agora… vamos começar.


Os olhos se abrem.


Ele fala com a minha voz.


As letras vermelho-rubi que formam os olhos atravessam meu ser.


Os lábios, formados por pequenos trechos de texto, começam a se mover.


Viro a página.


O que é magia para mim?


Não sei.


Mas é algo grandioso… e misterioso.


Um golpe final capaz de derrotar monstros.


Um poder sobrenatural que permite aos heróis voltar à luta quando tudo parece perdido.


Forte. Intenso. Implacável. Absoluto.


Algo que sempre quis ter.


Algo que sempre desejei.


Viro a página.


O que é magia para mim?


Poder.


Um poder imenso.


Uma arma poderosa para derrotar meu eu fraco.


Uma arma grandiosa para inspirar meu eu fraco.


Não um escudo nobre para proteger aliados, nem algo elegante como uma mão que cura.


Mas um poder heroico para eliminar os obstáculos no meu caminho.


Viro a página.


O que é magia para mim?


“Coisa”?


Que tipo de coisa?


Fogo.


Magia tem que ser fogo. É a primeira coisa que me vem à mente quando penso em magia.


Forte. Feroz. Ardente.


Queimar as planícies, espalhar cinzas, abrasar o ar, envolver tudo em ondas de calor e chamas ondulantes — línguas carmesim que nada têm a ver com minha fraqueza de sempre.


Mais quente do que tudo… uma chama que nunca se apaga.


Uma chama imortal.


Eu quero me tornar fogo.


O que você busca na magia?


Quero ser mais forte… como ela.


Quero ser mais rápido… como ela.


Como a luz rasgando as nuvens.


Como um relâmpago cruzando o céu.


Mais do que qualquer um. Mais do que qualquer um. Mais do que qualquer um.


Mais rápido do que todos.


Como ela.


Quero estar no campo de visão dela.


Só isso?


Se eu puder… se eu puder… se eu puder…


Eu quero me tornar um herói.


Sempre quis ser um herói — e, como um tolo, continuo perseguindo esse sonho.


Como nos contos.


Um herói admirado e amado por todos.


Não importa o quão ridícula seja essa fantasia.


O quão vaidosa, o quão imprópria para alguém como eu.


Ainda assim…


Quero me tornar alguém digno de ser notado por ela.


Você é mesmo uma criança.


…Desculpa.


Mas esse também sou eu.


O eu dentro do livro sorri.


E então… tudo fica escuro.


“…ll…ell—”


Uma voz.


Minha mente emerge da escuridão enquanto uma voz suave ecoa nos meus ouvidos.


Uma luz começa a atravessar aquele vazio.


“Bell!”


No instante seguinte, abro os olhos.


“Ah… D-deusa?”


“Sim, Bell, sou eu. O que houve? Dormindo na mesa? Existem lugares bem melhores pra isso.”


Esfrego os olhos até o rosto dela ganhar foco ao meu lado. Ergo a cabeça e olho ao redor.


Estou em casa — no quarto escondido sob a antiga igreja.


Já é… sete da noite.


Anoiteceu.


Antes mesmo de terminar de olhar em volta, a deusa começa a perguntar:


“Estava lendo um livro? Ah-há! Acho que cheguei bem na hora em que o sono finalmente te venceu. Não está acostumado a ler, né?”


“Ah… sim… acho que sim…”


…Eu dormi?


O livro branco que peguei com a Syr ainda está aberto na mesa.


Pelo visto, apaguei completamente… e ainda usei ele como travesseiro.


Eu terminei de ler…?


Levo a mão à cabeça.


Ela está estranha… como se tivesse sido girada de todos os lados.


Tem… algo ali.


Memórias esquisitas, no fundo da mente.


Irreais.


Como sonhos.


Eu estava falando com alguém?


Alguém me fez perguntas?


Ou isso tudo não passa de restos de um sonho?


…Não adianta.


Não consigo entender.


“Hehe… que fofo. Eu costumo chegar exausta do trabalho, mas graças a essa sua carinha, parece que recuperei minhas energias!”


“C-carinha…?”


“Hehe! Agora vamos preparar o jantar.”


Com isso, minhas orelhas esquentam e eu abaixo a cabeça, envergonhado. A deusa sorri e vai até o armário.


Saio por um instante, esperando até que ela apareça na porta com um animado “Pronto!” antes de ir para a cozinha com ela.


Sinto um pouco de culpa — fui o primeiro a chegar e não preparei nada.


Mas, por outro lado, as bochechas da deusa estão coradas. Ela parece feliz só de estar ali, cozinhando comigo.


Isso me faz sorrir também.


“Bell, o que você estava fazendo com aquele livro enorme? Você não parece o tipo que compraria algo assim.”


“Isso foi meio duro… mas é verdade. Eu peguei emprestado com uma amiga.”


“Ah, posso dar uma olhada quando você terminar? Não é sempre que vejo livros tão antigos. Fiquei com vontade de ler.”


“Você realmente gosta de livros, né?”


Depois de um jantar simples, limpamos tudo e revezamos no banho. Em seguida, decidimos atualizar meu status.


Ele tem crescido rápido ultimamente.


Parece que a deusa finalmente se acostumou com o trabalho na Familia da Hephaistos — agora ela tem tempo e energia para cuidar disso também.


Tiro a camisa e me deito de bruços na cama, enquanto a deusa fura o próprio dedo com uma agulha para extrair o ikoru — o poder contido em seu sangue.


“Hmm… hmmm?… Tsk!”


“D-deusa… meu status ainda está crescendo como antes?”


“…Sim. Não mudou nada. Está avançando a toda velocidade.”


O tom dela soa meio assustador, então preciso juntar coragem para perguntar. Como esperado, a resposta vem carregada de mau humor, logo atrás da minha cabeça.


Ela ainda está irritada… não, ficou irritada de novo.


Ultimamente, sempre que atualiza meu status, ela acaba assim…


“Isso mesmo, você é teimoso. Eu sei, eu sei… seus sentimentos não mudam da noite pro dia.”


Não faço ideia de como responder a esses resmungos irritados.


Não há muito o que fazer além de ficar quieto e esperar a tempestade passar.


De repente, sinto duas picadas fortes nas costas — como se uma agulha estivesse sendo cravada.


Espera aí… isso dói!


“Deusa! Isso machuca! Você está fazendo isso de propósito?!”


“Hmmm?”


“Como assim ‘hmmm’?!”


Meus protestos, meus olhos marejados… nada disso a afeta.


E como se estivesse dizendo “sem reclamações”, ela enfia a agulha na parte de trás da minha cabeça.


Acerto direto.


Sem poder reagir, só me resta enxugar as lágrimas no travesseiro, completamente indefeso.


…Vou me vingar hoje à noite, nem que seja atrapalhando o sono dela.


“…Bom, com exceção da sua Defesa, todos os seus atributos básicos estão quase no rank S. Então é natural que o crescimento esteja desacelerando.”


“…Ah, entendi.”


“Mesmo assim… isso não é normal…”


O nível máximo dos atributos é o rank S. Quanto mais perto dele, mais difícil fica evoluir.


Por isso, o crescimento desacelera bastante. Já ouvi dizer que alguns aventureiros derrotam centenas de monstros… e não ganham nem um ponto.


No meu caso, essa desaceleração deve ser por causa disso.


Mas o fato de eu ainda estar evoluindo… significa que continuo avançando.


Mesmo assim… como a deusa disse, talvez isso esteja além do normal.


“………”


“…Deusa?”


Estranho… nem as mãos dela nem a voz estão se movendo.


Mesmo depois de chamá-la, ela permanece em silêncio.


Até que—


“…Magia.”


“Hã?”


“Magia apareceu no seu status.”


Aquilo foi a última coisa que eu esperava ouvir.


“O QUÊEEEE?!”


“Eek!”


A surpresa explode dentro de mim.


Levanto o corpo de uma vez, como um cavalo assustado.


E, com isso…


A deusa, que estava sentada nas minhas costas, é arremessada da cama — caindo de cabeça no chão com um THUNK alto.


Espera— droga!!


“D-deusa!! Desculpa! Você está bem?!”


“Não achei que você fosse se vingar assim… você é incrível, Bell…”


Ela está aos pés da cama, presa no meio de uma tentativa de cambalhota que deu muito errado. Os olhos brilham com lágrimas, o corpo tremendo levemente.


E… os peitos dela estão pressionando o queixo…?!


Não, foco, seu idiota!


Estendo a mão para ajudá-la, tentando ao máximo não olhar para o decote, com as mãos tremendo de nervoso.


Pouco depois…


Toda a Familia Hestia está em posição de desculpas no chão, pedindo perdão sem parar.


Demora um bom tempo até eu finalmente ver os detalhes do meu novo status.


Bell Cranell

Nível 1


Força: B-701 → B-737

Defesa: G-287 → F-355

Destreza: B-715 → B-749

Agilidade: B-799 → A-817

Magia: I-0


Magia:

(Firebolt)

• Magia de disparo rápido


Habilidades:

( )


“…!!”


Preciso me segurar para não gritar.


Seguro o papel com força, os dentes cerrados, as mãos tremendo.


Meus olhos brilham.


Mesmo sem me ver, sei que estou sorrindo de orelha a orelha.


“Não acredito… magia apareceu… Será que tem a ver com aquela habilidade…? Não sei dizer…”


A deusa murmura, pensativa, franzindo as sobrancelhas — completamente diferente da minha reação.


Ela olha para minhas costas… depois para meu rosto… depois para minhas costas de novo.


Mas eu não me importo.


“D-deusa… magia… eu tenho magia! Eu virei um usuário de magia…!”


“Sim, estou vendo. Parabéns, Bell.”


Eu estou feliz.


Simplesmente feliz.


Uma alegria intensa percorre meu corpo — como se eu estivesse em chamas.


Ao mesmo tempo, sinto lágrimas se formando nos olhos.


É um sonho realizado.


Meu corpo inteiro treme de empolgação.


Amasso o papel nas mãos e me agacho no chão.


Tenho a impressão de que a deusa, ao meu lado, faz uma careta.


Mas não importa.


Eu estou feliz.


Muito feliz.


Finalmente…


Eu posso usar magia.


Não é qualquer magia… é aquela magia! A mesma que os heróis usavam como golpe final nas histórias de aventura!


“Não quero estragar sua empolgação… mas precisamos falar sobre essa sua magia. Tem algo me incomodando.”


“Sim, Deusa!”


Levanto de um salto e respondo em voz alta.


Preciso me acalmar… fico repetindo isso para mim mesmo enquanto respiro fundo, tentando relaxar o corpo tenso.


“Está me ouvindo? Vou resumir: para usar magia, normalmente é preciso recitar um encantamento. Você já sabia disso, certo?”


Assinto rapidamente.


Toda magia possui características que podem ser moldadas por meio de um feitiço — uma invocação dita em voz alta pelo usuário.


Esse encantamento funciona como uma espécie de base para a magia. Quando ele é concluído, o feitiço é liberado na direção desejada. Em outras palavras: quanto mais longo o encantamento, mais poderosa será a magia.


Por outro lado, encantamentos curtos são mais rápidos de usar — quase instantâneos — mas geram magias menores.


“Então vou direto ao ponto. Pelo que me disseram, quando alguém aprende magia, ela aparece no status. E a pessoa aprende o encantamento ao olhar para ele. É como um gatilho.”


“Sério? Mas… não tem nenhum feitiço escrito no meu status…”


“Exatamente. E não venha dizer que fui eu que esqueci de escrever, entendeu?”


“Firebolt” está lá, no campo de magia…


Mas não há nada que pareça um encantamento.


Sem isso… como eu vou usar?


Inclino a cabeça, confuso — e então a deusa revela sua teoria.


“É só um palpite… mas, pelo que está escrito no seu status… talvez a sua magia não precise de encantamento, Bell.”


Eu travo.


Devagar, olho novamente para o papel nas minhas mãos.


Realmente…


Não há nenhum feitiço.


A única descrição é:


“Magia de disparo rápido.”


…Faz sentido.


Na verdade… não consigo pensar em outra interpretação.


“Não sei o quão forte ela é, mas… não tem tempo de conjuração. ‘Magia de disparo rápido’. Acho que estou certa.”


“Então… essa Fireb—Ghlk!”


As mãos macias da deusa cobrem minha boca.


Ela se estica na ponta dos pés, encarando meus olhos.


“Eu recomendo que você não diga esse nome por aí.”


“Mmgh?”


“Não sabemos qual é o gatilho… mas pode ser que só de dizer ‘Firebolt’ você já ative.”


…Meu rosto empalidece.


Se eu disparar isso aqui sem querer…


Posso destruir nossa casa inteira.


“Entendeu?”


Assinto rapidamente, e ela tira as mãos.


“Resumindo: é só uma hipótese. Você só vai ter certeza quando testar… Use na Dungeon amanhã.”


“Amanhã…?”


“Não me diga que quer testar agora? Você acabou de tomar banho, não foi? Sua magia não vai desaparecer!”


“Ah… é… você tem razão…”


Ela ri de leve enquanto eu concordo.


Já está tarde.


A deusa está claramente cansada — até esconde um bocejo com a mão.


Então decidimos dormir.


Depois de escovar os dentes, ela se joga na cama e apaga a luz.


Eu também me deito no sofá…


…por um instante.


Desculpa, deusa.


Mas quem conseguiria dormir agora?!


Meus olhos estão arregalados.


Levanto num pulo.


Ouvindo a respiração dela — e tomando cuidado para não acordá-la — pego minha mochila já preparada e saio do quarto.


Visto minha armadura o mais rápido possível, deixo a mochila na escadaria da igreja… e saio correndo.


Eu quero usar isso agora!


A lua e as estrelas iluminam a rua principal.


A luz que escapa das lojas e bares ilumina os rostos das pessoas. As vozes animadas — e bêbadas — dos demi-humanos criam um ritmo agradável.


Sem perceber, meus passos acompanham esse ritmo enquanto avanço pela noite.


Orario ainda não dormiu.


E eu também não.


A torre branca cresce diante de mim conforme me aproximo. Sorrindo, levanto o mecanismo do portão principal.


Assim que entro no primeiro andar de Babel, sigo direto para baixo.


Alcanço a entrada da Dungeon no subsolo — aquele grande buraco que leva às profundezas. Sem hesitar, salto para dentro e começo a descer a escada em espiral quase como se estivesse deslizando.


Mas ainda não é rápido o suficiente.


Apoio a mão no corrimão no meio da descida… e me lanço por cima.


Corto o ar.


Caio com um impacto firme.


A sensação é tão boa que meus olhos chegam a marejar — e minhas pernas tremem de empolgação.


Agora estou oficialmente no primeiro andar da Dungeon.


“……!!”


Crunch.


Paro de repente.


Um corredor amplo.


E bem no meio da minha visão… uma pequena sombra verde e atarracada.


Um goblin.


Perfeito…


A distância… o tamanho… tudo parece ideal.


Engulo seco, limpando o suor das mãos na roupa.


Ele me vê.


Grita.


E parte para cima de mim com tudo.


Fecho o punho direito — e então estico o braço, abrindo a mão na direção dele.


“……”


Meu coração bate alto nos ouvidos.


Concentro tudo — nervosismo, ansiedade, empolgação — no meu braço.


Respiro curto.


Ergo as sobrancelhas… e grito com tudo:


“FIREBOLT!!”


Um clarão escarlate invade minha visão.


“?!”


Um relâmpago vermelho corta o corredor.


Não…


Não exatamente.


São chamas elétricas.


Riscos irregulares, vibrando no ar — avançando direto para o goblin.


Então—


Explosão.


A luz é tão forte que me cega por um instante.


Uma flor de fogo se abre no impacto.


“…ah.”


O goblin permanece de pé por um segundo.


Seu corpo, queimado… soltando fumaça.


Os olhos ficam brancos—


E ele desaba no chão.


O último som que emite ecoa pelo corredor.


“…Não pode ser.”


Funcionou.


Funcionou mesmo.


Minha magia… funcionou.


Baixo o braço devagar… e encaro a palma da minha mão, em silêncio.


Essa mesma mão…


A que eu sempre tive.


Nada mudou.


E, ao mesmo tempo… mudou tudo.


Foi daqui que saiu.


Magia.


“…H… haa… haa…!”


Eu sei que funcionou.


Mas não é o bastante.


Meu corpo inteiro está fervendo.


Fecho a mão em punho, diante do rosto.


Sim…!


Isso é real.


Progresso de verdade.


Não é só número em um papel.


Eu consigo ver.


Eu consigo sentir.


Estou me aproximando da Srta. Wallenstein—


Eu sei que estou!


Firebolt.


Chama elétrica.


Invocada num instante.


Rápida como luz.


Com o poder do fogo.


Uma magia mais rápida que qualquer outra.


Uma magia…


Só minha.


“!”


Uma nova onda de euforia me envolve.


Fecho o punho, repetidas vezes, quase sem perceber.


Acabo mordendo o lábio.


Dói.


Mas não importa.


Nada disso importa.

Estou totalmente empolgado, o rosto vermelho de entusiasmo.


Meus olhos não brilhavam assim desde o dia em que me registrei na Guilda — um brilho puro, inocente.


A emoção sobe direto à cabeça.


Saio correndo pela Dungeon em busca do próximo alvo.


“FIREBOLT!”


“Gyuaaaaaaa!!!!”


Encontro um monstro — estendo o braço.


“FIREBOLLLTTTT!!!”


“Ebbbsshhiiii!”


Me sinto como uma criança, correndo por aí e gritando o mais alto que pode.


“FFFIIIRRREEEBBBOOOLLLTTT!!!!!!”


“BGYAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”


Explosões por todos os lados.


“FIREBOLT!” “FIREBOLT!” “FIREBOLT!” “FIREBOLT!”

“FIREBOLT!” “FIREBOLT!” “FIREBOLT!” “FIREBOLT!” “FIREBOLT!”

“FIREBOLTTT!!!!”


“GYAAHH!!!”


“Ops… cheguei no quinto andar…”


Fui longe demais.


Dou uma risada sozinho, olhando ao redor com um sorriso satisfeito.


As paredes, agora em tom esverdeado, confirmam.


Eu estava me divertindo demais.


Dou meia-volta.


“Já é hora de voltar”, penso comigo mesmo, até começo a assobiar…


Quando—


“…Hã?”


Algo está… estranho.


Meu coração bate forte nos ouvidos.


“Uh…?”


E então acontece.


Nunca bebi álcool, mas… deve ser assim que alguém bêbado se sente.


Minhas pernas não firmam.


Nem tenho certeza se ainda estão tocando o chão.


Minha visão gira.


Vejo o chão se aproximando rápido—


E tudo escurece.


…


“…?”


“O que foi, Aiz?”


Duas aventureiras chegam ao quinto andar.


Mas não vieram de cima.


Vieram de baixo.


Sem um arranhão sequer, Aiz e Reveria haviam subido desde o nível trinta e sete — a Fortaleza Inferior.


Após quarenta e seis horas lutando quase sem parar, nenhuma das duas parecia cansada.


Já estavam perto da saída… mas Aiz, que caminhava à frente, para de repente.


Reveria observa seus longos cabelos loiros enquanto pergunta:


“O que houve?”


“Tem alguém caído no chão.”


“Foi derrotado por um monstro?”


No centro da sala… havia um aventureiro.


Caído de bruços, como se tivesse tropeçado e nunca mais se levantado.


As duas se aproximam.


“Sem ferimentos visíveis… não parece precisar de cura nem desintoxicação… Parece um caso típico de Mind Down.”


Reveria conclui, com naturalidade, que ele provavelmente abusou da magia sem pensar nas consequências.


Magia não é gratuita.


Ela consome energia.


Energia mental.


Assim como o corpo tem limites… a mente também.


Reveria se surpreende com o fato de aquele garoto ter usado magia até perder a consciência.


Enquanto isso, Aiz se agacha ao lado dele, apoiando as mãos nos joelhos, observando seus cabelos brancos.


“Esse garoto…”


“O quê? Você o conhece, Aiz?”


“Não exatamente… nunca conversamos… mas ele é… o garoto de quem falei. O Minotauro…”


“…Entendi. O garoto que aquele idiota insultou.”


Reveria já tinha ouvido falar dele — Bell — pelas palavras de Aiz.


O garoto que fugiu de um Minotauro.


O mesmo que saiu correndo de um bar depois de ser humilhado por Bete.


Mesmo tendo defendido o garoto naquela ocasião, Reveria não percebeu que ele estava ali ouvindo tudo.


E agora…


Percebia que, de alguma forma, também havia contribuído para machucá-lo.


Pior ainda, Aiz acabou sendo arrastada para o meio daquela situação.


“Reveria, eu quero compensar esse garoto.”


“…Existem outras formas de dizer isso.”


Reveria soltou um longo suspiro diante da escolha de palavras de Aiz.


A loira olhou para ela com olhos brilhantes, quase suplicantes, piscando duas… três vezes.


Percebendo que Aiz realmente não entendia, Reveria desistiu de explicar.


“Bem… ajudar alguém numa situação dessas é o mínimo…”


Aiz assentiu duas vezes, o tecido de suas roupas balançando junto com o movimento. Reveria então se inclinou para observar Bell mais de perto.


Vendo que o garoto não dava sinais de que acordaria tão cedo, voltou seu olhar para Aiz.


“…Aiz, faça exatamente o que eu vou te dizer. Se quer compensá-lo, isso será suficiente.”


“O quê?”


Reveria lançou um olhar significativo.


“…Só isso já basta?”


“Não posso afirmar com certeza. Mas você ficará aqui protegendo este lugar. Não precisa fazer nada além disso. E, além do mais… qualquer homem ficaria feliz sendo você.”


“Eu não… entendo.”


Não precisa entender, pensou Reveria, divertindo-se em silêncio.


A elfa observou Aiz por um instante — quase como uma mãe olhando o crescimento de uma filha — antes de retomar sua postura elegante e impecável.


Com a expressão já recomposta, ela se levantou.


“Vou voltar para a superfície. Só vou atrapalhar se ficar aqui. Vocês dois precisam estar sozinhos para se entenderem.”


“Sim. Obrigada, Reveria.”


A elfa respondeu com um leve aceno antes de partir.


Ela não estava nem um pouco preocupada com ataques de monstros.


Afinal, como guardiã…


Aquele garoto tinha a melhor possível ao seu lado.


—


Uma profunda escuridão me envolve.


Um perfume suave, como um vento tranquilo aquecido pelo sol.


Tudo o que sinto é… macio.


Agradável.


Estou sonolento.


Confortável demais para me mover…


……?


Algo acaricia meu cabelo.


Dedos finos deslizam pela minha bochecha.


Gentil.


Reconfortante.


Minhas pálpebras se abrem lentamente.


…Mãe?


Chamo por alguém que nunca conheci. Alguém cujo rosto eu nem sei imaginar.


A silhueta diante de mim para de se mover.


“Desculpa… eu não sou sua mãe…”


……Hã?


A voz atravessa meu corpo.


Pisco algumas vezes, tentando clarear a visão.


A imagem borrada começa a ganhar forma.


Primeiro, cabelos loiros brilhantes.


Depois… um rosto incrivelmente bonito.


E, por fim, olhos dourados — iguais ao cabelo.


“……”


“Você acordou…?”


Meus olhos estão abertos.


Minha mente também.


Mas… o tempo não anda.


Ainda vazio, fico apenas encarando o rosto inclinado sobre mim.


A parte de trás da minha cabeça está quente.


Macio.


…Ah.


Acho que entendi.


Minha cabeça… está no colo dela.


Aiz Wallenstein passa a mão no meu cabelo novamente.


Seu toque é quente.


Delicado.


“……”


Levanto o corpo de forma desajeitada.


Sei que estou abandonando aquele conforto…


Mas ainda assim me sento.


Ela sai do meu campo de visão.


No lugar… um cenário de destruição — monstros derrotados, ossos espalhados.


Finjo que não vejo nada.


Viro novamente para ela.


Ela ainda está ali.


“…Uma ilusão?”


“Não é uma ilusão.”


A expressão da Srta. Wallenstein muda de repente. Suas sobrancelhas se contraem levemente.


Nossos olhares se encontram.


Por um instante que parece eterno.


Ouro… e vermelho-rubi.


O silêncio pesa entre nós.


Meu rosto vai ficando cada vez mais quente a cada batida do coração. Quando ela percebe, minha cabeça já deve estar tão vermelha quanto uma maçã madura.


Meus olhos tremem, perdidos, sem foco.


E então—


Eu me levanto num pulo.


“GAAAAAAAH!!!”


Saio correndo com todas as forças.


“…Por que você sempre… foge?”


Se alguém estivesse ali para ouvir, teria percebido…


Um leve tom de solidão na voz de Aiz.

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