Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 2 – Capítulo 2
A Situação da Suporte
— Então… você não é uma suporte livre…?
— Não. A Lilly faz parte de uma Familia.
Estamos no segundo andar da Torre de Babel, na cafeteria. Ainda é meio da manhã; a maioria dos aventureiros está explorando o Dungeon. O lugar está quase vazio. A pequena garota e eu estamos sentados frente a frente, numa mesa bem no meio do salão amplo.
Tenho algumas perguntas que quero fazer para essa tal de Lilliluka Erde.
— Qual é o nome da sua Familia?
— É a Familia Soma, senhor. A Lilly acha que ela é bem conhecida.
Pelo que entendi, essa garota que me abordou para irmos juntos ao Dungeon tinha sido dispensada de um contrato com outro grupo. Desde então, vinha passando os dias indo e voltando entre a Guilda e a Babel, tentando encontrar alguém que a contratasse para ganhar dinheiro. Ela estava em uma situação bem difícil.
E hoje… por acaso, me encontrou.
Ela viu alguém sem grupo, sem suporte — um aventureiro solo.
E agarrou a oportunidade sem pensar duas vezes.
Claro, eu tinha dito que queria uma suporte… mas alguém simplesmente aparecer assim, bem quando eu precisava… não sou tão ingênuo assim.
Observo-a novamente. O corpo dela é muito magro, e os lábios finos que consigo ver sob o capuz mantêm sempre o mesmo sorriso alegre. Não consigo enxergar seus olhos, mas o nariz pequeno no centro do rosto delicado dá a ela um ar adorável.
Ela parece uma criança inocente.
Não quero duvidar do que essa garota de aparência tão frágil está dizendo… mas também não acho certo aceitar tudo de imediato sem fazer algumas perguntas. É simplesmente o mais sensato.
Algo não parece certo. Então continuo questionando.
— Mas… por que eu? Eu não faço parte da sua Familia. Não é uma boa ideia membros de Familias diferentes terem esse tipo de ligação. Por que você não se junta a aventureiros do seu próprio grupo?
— Eh-heh… a Lilly é muito pequena… e não é nada forte. “A Lilly é lenta e só vai nos atrasar”, é o que os honrados membros da Familia da Lilly sempre dizem. A Lilly é tratada como um peso. Mesmo que peça, ninguém aceita.
Ela está sendo excluída…?
De repente, sinto vontade de ajudá-la.
— A Lilly é tão inútil em combate que chega a ser vergonhoso… E o ambiente lá em casa é tão ruim que a Lilly anda dormindo em hotéis baratos, um diferente a cada noite…
Espera… ela não pode nem dormir em casa? Nem descansar…?
O quê…?
As palavras dela me atingem em cheio. Não consigo acreditar que alguém trataria assim um membro da própria Familia.
Para mim, uma Familia é… uma família.
É verdade que a Familia Hestia só tem dois membros, mas ainda assim existe um vínculo forte. Não é apenas amizade — é algo mais profundo, um laço caloroso, verdadeiro. Mesmo que outra pessoa entrasse, tenho certeza de que isso não mudaria.
Uma Familia existe para apoiar seus membros, em qualquer situação.
É assim que deveria ser.
Mas a família dessa garota… está a rejeitando?
Sinto uma leve tontura. Sei que não deveria acreditar cegamente nas palavras dela, mas… parece que meu mundo virou de cabeça para baixo. Estou abalado.
— A Lilly não tem dinheiro suficiente para ficar no mesmo hotel esta noite… Então, por favor, por favor, por favor, senhor! Leve a Lilly com você ao Dungeon hoje!
— Bom… é que…
— Ah! Se o problema for a questão das Familias, não deve ter problema. O deus da Lilly, o Deus Soma, não conversa com outros deuses ou deusas… nunca. Então, a menos que o seu deus já tenha algo contra ele, não acho que vá dar briga entre as nossas Familias.
Ela deve ter interpretado errado minha hesitação. Sem deixar espaço para silêncio, Lilliluka acrescenta essa informação.
…Tenho algumas coisas em mente sobre isso, mas por ora, melhor mudar de assunto.
Talvez seja o momento certo para esclarecer minhas dúvidas.
— Eu entendo a sua situação, Lilliluka… mas posso confirmar uma coisa?
— Claro, o que foi?
— A gente… nunca se encontrou antes mesmo?
Ela realmente não é a garota prum que encontrei ontem naquele beco?
É isso que está me incomodando. Não lembro do rosto nem da voz daquela garota, mas fisicamente… Lilliluka é quase idêntica a ela. Foi ontem — minha memória não é tão ruim assim.
— Hoje foi a primeira vez que a Lilly viu você… Será que não está confundindo a Lilly com outra pessoa?
— …Se não for problema… você pode tirar o capuz?
Se eu puder ver o rosto dela direito, posso ter certeza. Até agora, só vi metade.
Lilliluka me encara por um instante. Depois de olhar rapidamente ao redor, um leve “Tá bom…” escapa de dentro do capuz. Suas pequenas mãos se erguem e o puxam para trás.
— …Hã?
— I-isso serve?
No topo da cabeça dela, balançando suavemente de um lado para o outro… estão duas orelhas de animal.
Minha mandíbula cai.
Se isso for verdade…
— …Então você é um povo-fera?
— S-sim… A Lilly é uma chienthrope… uma pessoa-cão.
Alguns segundos se passam até que… de repente, me levanto e me inclino sobre a mesa.
Lilliluka se encolhe na cadeira, inquieta — talvez sentindo meu olhar. Uma cauda se move de um lado para o outro sob sua roupa. Consigo ver o pelo castanho escapando pela barra.
Ela não é uma prum… mas uma garota fera?
…Não pode ser.
Minha mente ainda está em choque, mas minhas mãos se movem por conta própria.
Elas alcançam e seguram as duas orelhas dela, mal percebendo o tremor em seus pequenos ombros.
— Hnnn…
As orelhas entre meus dedos são macias… quentes… sensíveis.
Deslizo os dedos por elas, e Lilliluka vai ficando cada vez mais vermelha.
…São reais.
O pelo suave, os músculos sob a pele, o interior rosado e úmido… tudo é real.
Não há dúvida.
Não é ela…
Tenho certeza absoluta. Podem parecer semelhantes, mas nem sequer são da mesma raça.
Não há mais o que questionar.
Abandono todas as dúvidas inúteis… e simplesmente sigo em frente.
— Hm… senhor…?
— —?! D-desculpa!!
Uma vozinha me faz perceber o que eu estava fazendo, e eu solto imediatamente, recuando de volta para a cadeira como um sapo fugindo do fogo.
Ela segura com força as orelhas que eu estava acariciando, pressionando-as contra a cabeça, e me encara com um leve ar de irritação… até que um sorriso malicioso surge em seus lábios.
— Pensar que um homem brincaria assim com algo tão precioso da Lilly… A Lilly vai fazer você assumir responsabilidade por isso.
…Não consigo dizer uma palavra.
Piscando algumas vezes, sinto meu rosto pegando fogo. Minha voz finalmente volta, e eu começo a me desculpar repetidas vezes, sem parar.
— …Se não for incômodo perguntar… por que você esconde sua raça assim…?
— O pelo da Lilly é sujo… embaraçado… não quer que as pessoas vejam…
Pergunto isso depois de terminar minha sequência de desculpas. Lilliluka puxa o capuz de volta, escondendo o rosto com um ar envergonhado.
Sinceramente, eu acho o pelo dela bem bonito… até fofo.
Mas, bem… eu sou homem. Não tem como eu entender completamente como garotas veem o próprio cabelo — ou, no caso, o próprio pelo.
Se ela fosse uma prum, que é conhecida por ser a menor raça, seria uma coisa… mas Lilliluka é, de longe, a menor garota fera que já vi. Ela não deve ter mais do que dez anos.
— Então, o que vai fazer, senhor? Vai contratar a Lilly?
— …Tudo bem. Eu te levo comigo. Por enquanto… só por hoje, vou te contratar como minha suporte.
— Obrigada, obrigada, obrigada!!
Depois do que fiz com as orelhas dela, como eu poderia recusar? Se eu fosse embora agora, seria só um canalha que fez aquilo com uma garotinha e depois fugiu.
…E, para ser sincero, eu quero um suporte mais do que tudo agora. Quero ficar mais forte o mais rápido possível — e não consigo fazer isso sem focar totalmente no combate.
A proposta da Lilliluka veio como um presente dos deuses.
— Bem… ahm… não tem algum pagamento adiantado que eu precise te dar antes de irmos?
— Às vezes tem, sim. Mas hoje é só um teste, então podemos dividir o dinheiro depois que voltarmos do Dungeon. Se o senhor der trinta por cento pra Lilly, a Lilly vai ficar radiante!
— Só isso? Por mim, tudo bem. Eu só queria deixar tudo mais… profissional.
A partir daí, ficamos um tempo discutindo os detalhes, enquanto aquele mesmo sorriso despreocupado permanecia estampado no rosto de Lilliluka.
Cada andar do Dungeon era como um mundo próprio, com estrutura e características únicas.
Do primeiro ao quarto andar, as paredes tinham um tom azul-claro, e os monstros que apareciam ali eram, em sua maioria, goblins e kobolds. Nem havia tanta variedade assim.
Os monstros mais próximos do quarto andar eram um pouco mais fortes e espertos do que os dos níveis superiores, mas ainda assim, essa área era considerada a mais fácil para aventureiros iniciantes. Se entrassem sozinhos e evitassem ser cercados — ou melhor ainda, se formassem um grupo — o risco era mínimo.
Mas tudo mudava no quinto andar.
As paredes passavam a ter um verde viscoso, e o layout se tornava mais complexo. E não era só isso. Monstros mais desagradáveis, como a formiga assassina do sétimo andar, começavam a aparecer em maior número.
Além disso, o intervalo de surgimento dos monstros era muito menor no sétimo andar do que no quarto. Bastava um aventureiro entrar em um beco sem saída para ser cercado por todos os lados, com monstros surgindo diretamente das paredes do Dungeon.
Muitos aventureiros que se tornavam confiantes demais nos andares superiores encontravam seu fim ali. Mesmo sem baixar a guarda, os novatos tinham seu primeiro vislumbre real do perigo entre os níveis cinco e sete. Era o primeiro grande obstáculo que precisavam superar.
Não dava para simplesmente descer mais fundo quando se entediavam nos andares superiores. Era necessário construir uma base sólida antes disso. Não apenas um bom “status”, mas também experiência, bons equipamentos, reflexos rápidos e conhecimento geral de aventureiro — entre muitas outras coisas — eram essenciais para sobreviver.
Aventureiros iniciantes precisavam passar tempo aprendendo e evoluindo nos andares superiores.
Isso era ainda mais importante para aventureiros solo.
No entanto…
— Hya!!
— Gyshaaaa!!!
No caso de Bell… as coisas eram um pouco diferentes.
A velocidade de crescimento dele quebrava todas as regras — a ponto de não poder ser comparado com outros novatos.
O abdômen fino de uma formiga assassina foi atingido por um amplo golpe da faca de Bell… e partido ao meio.
Percorrendo o sétimo andar, Bell avançava sozinho contra uma horda incessante de monstros — em um nível onde um grupo era praticamente indispensável.
— Jigigigigigigi!!
— Hoje não!
— Byugii!!
Bell desviou com agilidade de uma mariposa roxa que desceu do alto. Ao girar para trás, a Faca de Hestia atingiu uma de suas asas.
A criatura, agora com apenas uma asa, perdeu o equilíbrio — e foi abatida quando Bell cravou a adaga diretamente em seu corpo.
— Vocês dois, fiquem aí!!
Bell impulsionou o corpo na direção de duas formigas assassinas.
As criaturas escancararam as mandíbulas para intimidá-lo — mas Bell apenas acelerou ainda mais.
Ele avançou como se fosse enfrentar as duas ao mesmo tempo, mas no último instante investiu contra a da direita.
As formigas reagiram tarde demais.
— —Giya?!
A lâmina de Bell perfurou o corpo da criatura como um espeto.
A carapaça dura se desfez diante do poder da Faca de Hestia; a carne por baixo foi dilacerada em um instante. A criatura sequer teve tempo de se contorcer ou gritar — o brilho em seus olhos se apagou, e ela caiu, imóvel.
Bell imediatamente se virou para a outra formiga —
Mas sua faca não se movia.
— Hã?!
A faca havia ficado presa na carapaça espessa do monstro morto. Bell não conseguia movê-la.
Ao mesmo tempo, enfurecida com a morte de sua companheira, a formiga assassina restante se virou para o garoto e desceu suas garras afiadas em direção ao rosto dele.
Bell ergueu o braço esquerdo no último instante para se proteger.
— Giii!!!
— A… AAHHHHHH!!
Shing!
As garras, afiadas como lâminas, deslizaram sem causar dano pelo protetor verde-esmeralda de Bell.
Faíscas se espalharam no rastro do impacto. Nem mesmo a força da criatura foi suficiente para arranhar aquela peça de armadura.
Bell contra-atacou.
Ignorando a dor que percorria seu braço esquerdo, ele lançou levemente a lâmina para o alto — ao mesmo tempo em que soltava a Faca de Hestia.
Com a mão direita agora livre, agarrou a adaga no ar.
Slash.
A lâmina encontrou um ponto fraco entre o abdômen e o tórax blindado da formiga assassina. Um líquido roxo jorrou da ferida.
Mesmo sendo uma das armas mais fracas disponíveis para aventureiros, a adaga de Bell ainda era suficiente para causar um golpe fatal.
— —Gii!
— Próximo!
Bell desferiu o golpe final na criatura agonizante, arrancou a Faca de Hestia do corpo da anterior e, sem sequer recuperar o fôlego, avançou contra o próximo grupo de monstros.
— O Sr. Bell é muito forte!!!
Enquanto Bell enfrentava seus inimigos, Lilly reunia os corpos derrotados em um único ponto.
Ela era incrivelmente eficiente. Mesmo com um sorriso no rosto, mantinha plena atenção ao redor enquanto alinhava os cadáveres, sem deixar que se encostassem. Usando luvas especiais de suporte, puxava os corpos pelas pernas e braços com facilidade, arrastando-os pelo chão do Dungeon.
— Sha!!!
— Kyuu?!
Graças ao trabalho de Lilly, Bell não precisava se preocupar com o terreno. Ele eliminou um coelho-agulha com um golpe preciso da adaga.
Bell era humilde. Mesmo possuindo força suficiente para derrotar monstros do nível de uma formiga assassina, não deixava isso subir à cabeça. Seguia à risca as instruções de sua conselheira, Eina: eliminar rapidamente as formigas assassinas antes que chamassem reforços e evitar, a qualquer custo, enfrentar grupos sozinho.
Ele tinha total controle da batalha naquele amplo salão.
— —Gushyuuu…!! ShyaaaaaAAAAA!!!!
— Cuidado!! Sr. Bell! Uma está nascendo!
Uma fenda se abriu na parede do Dungeon, e o som ameaçador de uma formiga assassina ecoou de dentro.
Bell reagiu imediatamente — já havia passado por aquilo inúmeras vezes.
Finalizou os monstros restantes e correu até a criatura que tentava emergir da parede.
Após avançar cerca de dez metros, saltou no ar e cravou o pé esquerdo contra o corpo da besta.
— Um… dois…!!!
— Guweiii?!
O impacto ecoou pelo ambiente.
Crack!
O pescoço da criatura se partiu. Seu corpo sem vida ficou preso na parede.
— Ohh, Sr. Bell… o que fazemos? Essa formiga ficou presa lá em cima…
— Hmm… o que a gente faz…?
Uma gota de suor escorreu pelo rosto de Bell enquanto ele tentava descobrir como remover o corpo — grande demais para passar pela abertura. Estava fora do alcance de Lilly, mas ao notar a expressão confusa dele, ela não conseguiu conter uma risadinha.
— O Sr. Bell é muito forte… mas meio estranho. Hahaha!
— …Não ri!
Percebendo o quão ridículo devia parecer, Bell acabou sorrindo também.
Com o chão praticamente limpo e o salão seguro, os dois começaram a coletar as pedras mágicas.
Agora, era a vez de Lilly brilhar. Bell apenas ficava atento a qualquer monstro que pudesse surgir de surpresa.
— Uau… você é muito boa nisso…
— É porque é a única coisa que a Lilly pode fazer para ajudar. O Sr. Bell derrotou todos esses monstros, então quem é realmente incrível é o senhor.
Com mãos experientes, ela usava uma faca para extrair apenas a pedra mágica com precisão e rapidez.
Seus dedos pequenos se moviam com agilidade, abrindo um pequeno corte no peito do monstro antes que o corpo se desfizesse em cinzas.
Bell observava, lembrando do quanto era desajeitado ao fazer aquilo… mas decidiu comentar outra coisa.
— …Posso te pedir uma coisa? Você pode parar de me chamar de “Sr. Bell”?
— Desculpe, mas não pode. Isso vai contra o contrato, e também mostra quem tem posição superior no grupo. Suportes não podem tratar aventureiros com intimidade.
— Mas, Lilliluka…
— Sr. Bell, por favor, chame a Lilly apenas de Lilly. Outros nomes também servem, mas não o nome completo.
— Por que você se preocupa tanto com isso?
A terceira formiga assassina se transformou em cinzas enquanto Lilly levantava o olhar.
Seus olhos escondidos pelo capuz, ela forçou um sorriso.
— O senhor está ouvindo, Sr. Bell? — disse, antes de continuar.
— A palavra “suporte” parece bonita… mas, no fundo, Lilly e os outros suportes só carregam bagagem. Comparados aos aventureiros corajosos que lutam na linha de frente, somos apenas covardes que assistem de longe e recebem recompensas por batalhas que não travamos. Não somos melhores do que parasitas.
Mesmo que, ao entrar no Dungeon, os suportes enfrentassem os mesmos perigos que os aventureiros, as palavras de Lilly não eram completamente justas. Ainda assim, ela continuou sem hesitar.
— É arrogância da Lilly — e de outros suportes — pensar que somos iguais aos aventureiros. Os aventureiros não permitem isso. Se a Lilly tenta, eles ficam irritados… e não dão a parte dela.
— I-isso é horrível…!
— A Lilly percebeu que o Sr. Bell era uma boa pessoa assim que se conheceram. Mas precisa existir uma linha. Se descobrirem que a Lilly não trata o Sr. Bell como superior, a Lilly não vai conseguir mais contratos com outros aventureiros. Vai acabar trabalhando de graça.
— ……
Bell tinha seus próprios valores — e eles não iam mudar.
Mas ele não podia falar pelos outros aventureiros.
Algo que parecia errado para ele… podia muito bem ser considerado normal por outros.
— Pode ser difícil para o Sr. Bell… mas pode aceitar o pedido da Lilly? Pense nisso como ajudar a Lilly.
— …Claro, Lilly.
— Muito obrigada!
Bell cedeu. Se era para ajudar Lilly, não tinha escolha a não ser deixar de lado suas próprias opiniões — por mais que ainda o incomodassem.
Decidiu que falaria com ela como alguém da mesma idade, como um amigo… e não como um parceiro de negócios.
— Mudando de assunto… o Sr. Bell é mesmo um aventureiro iniciante? A Lilly não consegue acreditar que o senhor derrotou todos aqueles monstros sozinho…
Lilly interrompeu o trabalho e começou a contar os corpos ao redor com seus pequenos dedos.
Se incluísse também os que já haviam virado cinzas, Bell havia derrotado quatro formigas assassinas, três mariposas roxas e cinco coelhos-agulha — um total de doze monstros.
Desconsiderando as formigas, que eram do tamanho de humanos, os outros monstros eram classificados como “pequenos”, então não era tão difícil para aventureiros lidarem com eles.
Mas o mais impressionante… era que Bell havia feito tudo aquilo sozinho.
Depois de ver aquilo, Lilly já não conseguia enxergá-lo da mesma forma.
— Sim, eu consegui… mas, várias vezes, quase fui derrotado…
— O Sr. Bell está lutando sozinho, então isso é normal. Aventureiros experientes como o senhor costumam entrar no Dungeon em grupos de três ou mais, sabia? Eles evitam lutar sozinhos aqui embaixo.
— É porque não querem, né? Não significa que não conseguiriam. Tem vários aventureiros de Nível Um mais fortes do que eu também.
— Isso… pode ser verdade.
— Você já acompanhou muitos grupos, não foi, Lilly? Então já deve ter visto aventureiros muito mais fortes que eu.
— …Sim. A Lilly já viu aventureiros mais fortes que o Sr. Bell…
— Então… ainda tenho um longo caminho pela frente.
Lilly ergueu o olhar, encarando Bell — que fazia uma expressão frustrada — com uma mistura de confusão e irritação.
Ele havia entendido tudo errado.
Existiam, sim, aventureiros que exploravam o Dungeon sozinhos. Mas o que Lilly queria saber era outra coisa: será que Bell realmente tinha começado há menos de um mês?
Segundo o conhecimento comum, aventureiros de Nível Um conseguiam explorar os andares inferiores do primeiro ao décimo segundo.
Se fosse dividir por nível de status: aventureiros com status I ou H ficavam entre os níveis um e quatro; G e F, entre cinco e sete; E a C, entre oito e dez; e B a S, entre onze e doze.
Mas isso era apenas uma média geral. A partir do décimo terceiro andar, começavam a aparecer monstros de Nível Dois — e, de modo geral, acreditava-se que aventureiros de Nível Um não tinham nenhuma chance ali.
Se alguém perguntasse qual era o nível médio de um aventureiro em Orario, a resposta seria: “Um”.
Mais da metade deles trabalhava nos primeiros doze andares.
Metade do restante estava no nível dois… e o que sobrava era composto por aventureiros ainda mais poderosos.
A diferença entre Nível Um e Nível Dois era enorme.
Era a linha que separava os aventureiros comuns dos de elite. Isso porque, ao alcançar o Nível Dois, eles entravam na chamada “Terceira Classe”. Como o Nível Um era o padrão, ultrapassá-lo exigia talento e habilidade de verdade.
Os status dos aventureiros eram considerados informação pessoal, bem protegida. Era difícil determinar uma média exata — mas, ainda assim, a maioria dos que não haviam subido para o Nível Dois passava seu tempo entre os níveis sete e dez.
Em outras palavras, o status médio de um aventureiro ficava entre G e C.
Era essa a barreira que separava iniciantes de aventureiros experientes.
E Bell… já estava nesse nível.
Com apenas algumas semanas de experiência.
Não era estranho que Lilly tivesse dificuldade em acreditar no que havia presenciado.
— Além disso… o Sr. Bell tem uma arma muito boa, que combina com seu status.
O tom de voz de Lilly mudou sutilmente.
Bell não percebeu — apenas riu, meio sem jeito.
— É… você tem razão. Acho que estou dependendo demais dessa faca. Se continuar assim, não vou ficar muito mais forte, né?
— Não, não… é o sonho de qualquer arma ser empunhada por alguém digno. O importante é que o Sr. Bell usa essa arma sem desperdiçar nenhum movimento. O que vimos hoje prova sua força.
— V-você acha mesmo?
De costas para Lilly, Bell permanecia atento a qualquer sinal de perigo. Ainda assim, levou a mão até a faca, acariciando-a.
Negra da ponta ao cabo… era uma arma rara.
Seus dedos passaram pelo símbolo de Ἥφαιστος gravado na bainha.
Os olhos de Lilly se arregalaram — brilhando com intensidade.
— A Lilly não entende muito de armas… mas sabe que essa é especial. Como o senhor conseguiu algo assim? Não quero ser rude, mas… o Sr. Bell ainda é iniciante, e iniciantes não costumam ter muito dinheiro…
— Foi… a deusa da minha Familia que me deu. Pelo que ela disse, passou por muita coisa para conseguir essa faca com uma amiga dela. Acho que ela se esforçou até demais…
— Que… deusa gentil a sua.
— Sim. Ela é muito importante pra mim.
Bell não percebeu o leve tom de inveja escondido na voz de Lilly… nem o tremor sutil em suas palavras.
Terminando de extrair a pedra do último coelho-agulha com um pouco mais de força do que o necessário, Lilly se levantou e se aproximou silenciosamente por trás de Bell.
— Sr. Bell?
— Ah, terminou?
Quando Bell se virou, Lilly exibiu mais uma vez aquele grande sorriso.
— Já que estamos aqui… que tal pegar a pedra mágica daquela formiga que ficou presa na parede?
— Concordo. Mas… como?
— Se o Sr. Bell cortar a parte mais fina do peito, já é o suficiente. A pedra mágica está ali dentro. A Lilly pega depois.
— Entendi. Então…
— Aqui, Sr. Bell.
— Eh… ah, certo.
Bell pegou a faca que Lilly lhe entregou. Ele pensou em usar a Faca de Hestia, mas aquela serviria.
Caminhando até a formiga assassina, cujo corpo ainda estava parcialmente preso na parede, ele segurou a carapaça da parte superior e posicionou a faca no ponto mais fino entre o tórax e o abdômen.
Hmm… essa faca é bem difícil de usar…
Ficando na ponta dos pés, Bell lutava contra a carapaça dura, tentando abri-la.
Estava completamente concentrado, sem olhar uma única vez para trás.
Com os braços erguidos à frente, suas costas e laterais estavam totalmente expostas.
— Hã?
Algo pareceu errado.
Um arrepio percorreu sua mente.
Ele virou a cabeça de repente.
— Já terminou?
Lilly estava ao seu lado, olhando para o corpo da formiga com olhos atentos, esticando-se ao máximo para alcançar.
Bell piscou algumas vezes… e soltou uma risadinha.
Erguendo a mão, fez um gesto.
— Só um momento.
Por fim, conseguiu guiar a lâmina até o ponto certo. Lilly rapidamente se aproximou para retirar a pedra.
— Então… vamos encerrar por hoje, Sr. Bell?
— Eh? Já? Eu ainda posso continuar, sem problema.
— Não, não… isso é excesso de confiança. Hoje o Sr. Bell enfrentou muitas mariposas roxas — monstros que liberam escamas venenosas durante o combate. O efeito não é imediato, mas se você inalar demais, seu corpo vai acabar sendo envenenado.
— N-não pode ser!
— É verdade. A Lilly foi descuidada e esqueceu de comprar mais antídotos… então sugere que voltemos à Torre de Babel para tratamento.
Assim que Lilly terminou, Bell se lembrou do aviso de Eina — de sempre prestar atenção ao ambiente ao enfrentar monstros do tipo mariposa. Ele levou a mão à cabeça, surpreso, e concordou.
— Como é esse veneno…? Quer dizer, quando os sintomas aparecem? Eu preciso estar no máximo para lutar, senão…
— Não se preocupe, Sr. Bell. A Lilly conhece um caminho rápido de volta à Babel sem precisar enfrentar monstros.
— S-sério?
Lilly assentiu com firmeza e apontou para a saída.
Logo além do arco, um grupo de aventureiros estava reunido. Ao ver que Bell e Lilly já haviam derrotado todos os monstros da sala, eles seguiram adiante.
— Se seguirmos o caminho de aventureiros fortes, não encontraremos monstros. Eles ficam rondando o Dungeon atrás deles… quer dizer, de itens e pedras mágicas, não é?
— Ah… entendi.
— Mesmo que apareçam monstros, podemos nos esconder atrás de outro grupo e deixar que eles resolvam. Basta escolher um caminho movimentado e evitamos combate.
Normalmente, Bell evitava contato com aventureiros de outras Familias para não arrumar problemas.
Mas, em uma situação dessas… talvez fosse a melhor escolha.
Era uma boa estratégia — se desse certo.
— Há muitos aventureiros respeitáveis no Dungeon a essa hora. Se o Sr. Bell ficar perto da Lilly, nem vai precisar usar sua arma.
Lilly olhou para ele com aquele sorriso largo — e, naquele momento, Bell percebeu o quanto ela era confiável.
— Lilly… você é incrível mesmo. Não é à toa que é uma suporte. Posso contar com você.
— O Sr. Bell também vai aprender muito com experiência. Agora, vamos!
Ela agarrou a mão de Bell e praticamente o puxou para fora da sala.
Seguindo as pegadas no chão, passaram por alguns grupos de aventureiros enquanto subiam. Sempre que um monstro surgia, estavam próximos o suficiente de outro grupo para evitar perigo.
O instinto de Lilly era impecável.
Era como se ela já tivesse feito aquilo centenas de vezes.
— Sr. Bell, Sr. Bell… sobre o pagamento de hoje…
— Bom… você me ajudou bastante. Acho que podemos dividir meio a meio…
— Todas as pedras mágicas e itens coletados hoje são seus, Sr. Bell. Que sua carteira fique bem cheia esta noite.
— O quê?! Mas isso não deixa nada para você! Você não disse que queria pelo menos trinta por cento?!
— A confiança do Sr. Bell vale muito mais para a Lilly. Hoje foi um dia para o senhor conhecer a Lilly… então considere isso um presente de agradecimento.
— Conhecer você…?
— Todo mundo passa por esse “dia de teste”, não só o senhor.
Então… aquilo tudo tinha sido apenas um teste para Lilly.
Bell não se sentia nada bem com isso.
Corando levemente, ele a olhou, querendo se desculpar.
— …Além disso, o resto é um presente de despedida.
Uma rajada de vento atravessou o saguão… levando suas palavras junto.
— …? Você disse alguma coisa, Lilly?
— Não, não disse nada, Sr. Bell. Se não se importar… por favor, contrate a Lilly novamente no futuro!
— Claro… vou pensar e depois te dou uma resposta.
Lilly se virou e saiu correndo, mas olhou por cima do ombro e acenou.
— Por favor! A Lilly está sempre na Babel, então pode me encontrar a qualquer momento! A Lilly não vai a lugar nenhum, então pode pensar com calma!
Ela sorria de orelha a orelha.
— Ah… uma suporte de outra Familia…
— Então… isso não foi uma boa ideia?
Estou na sala de aconselhamento da Guilda — um lugar já bem familiar para mim — conversando com Eina sobre Lilly. Depois de passar pela enfermaria (que, aliás, custa dinheiro) e pelo posto de troca, vim direto para cá.
Pode parecer meio patético… mas não acho que consigo tomar uma decisão dessas sozinho.
A melhor forma de resolver isso é ouvir a opinião de alguém — e não há pessoa melhor do que Eina.
— Entendo sua preocupação com possíveis conflitos entre Familias… mas já houve muitos casos em que ambos os lados se beneficiaram de contratos saudáveis e respeitosos. Bell, o que você acha dessa garota, Lilliluka?
— Bom… ela é uma boa garota… e muito habilidosa como suporte.
Recordo-me do que vi no Dungeon.
Ela realmente deixou uma boa impressão.
Além disso… havia a situação dela.
Fiquei com tanta pena que simplesmente não consegui ignorar.
Eu sei que não é certo agir só por compaixão, mas…
Tenho quase certeza de que ela não estava mentindo quando falou sobre como vinha sendo tratada pela própria Familia. Meu instinto diz que era verdade.
— Você sabe a qual Familia ela pertence?
— Ela disse que é da Familia Soma.
— Familia Soma, hein… Não posso dizer que sou totalmente a favor… nem contra.
— Ah… Srta. Eina? Que tipo de Familia eles são?
— Espere um momento.
Ela puxou um grande arquivo da mesa — aparentemente já preparado — e o abriu diante de si.
Em seguida, tirou um par de óculos do bolso e, com um movimento rápido e elegante, colocou-os no rosto com um leve clique.
Pelo jeito, não ia apenas dar sua opinião… mas também informações confiáveis.
— Pelo que vejo, a Familia Soma é do tipo clássico de exploradores de Dungeon. Mas eles têm uma peculiaridade: também atuam no comércio.
— Comércio? Vendem o quê?
— Vinho.
— Vinho…?
— Sim. Eles não distribuem grandes quantidades para lojas e mercados, mas dizem que o sabor é excepcional. Há uma demanda muito alta em Orario.
Ela continuou explicando que, com um produto desses, eles nem precisariam entrar no Dungeon.
Como o perigo está sempre presente na vida dos aventureiros, o ideal para um deus, ao formar uma Familia, seria investir em algo seguro.
Claro, o comércio também tem seus riscos. Mas depender exclusivamente de aventureiros para ganhar dinheiro… é como atravessar uma ponte suspensa que pode se romper a qualquer momento.
Afinal, aventureiros convivem com a morte todos os dias.
Por outro lado…
São justamente os aventureiros que podem mudar tudo.
Se um deus não teme o ambiente de alto risco e alta recompensa de Orario, então investir em aventureiros é o caminho mais rápido para enriquecer.
— Em termos de força, essa Familia está na média. Não há ninguém que se destaque muito, mas todos têm um poder acima do comum… Ah, e eles têm bastante membros também. Eu não fazia ideia.
— Então, se eles têm tantos membros…
— Significa que o deus Soma tem muitos seguidores. Mas, sinceramente, nunca ouvi nada bom… nem ruim sobre ele.
— Ah… a Lilly comentou comigo… é verdade que o deus Soma não interage com outros deuses?
— Na verdade, ele é famoso por isso. É estranho dizer que um deus se mantém afastado do mundo… mas esse é exatamente o caso dele. Nunca participa das celebrações, nem responde a convites sociais. É difícil até encontrar alguém que já o tenha visto.
…Isso é extremo demais.
Lilly havia dito a mesma coisa.
E agora Eina também parecia indecisa — sem apoiar nem condenar.
Provavelmente porque a Familia Soma é… neutra demais.
Não têm alianças, mas também não têm inimigos.
— Não parece haver nada de errado com a Familia em si… apenas…
— Apenas?
Eina franziu a testa, pensativa… então decidiu falar.
— Isso é só uma impressão minha, mas os membros da Familia Soma parecem diferentes dos de outras Familias. Eles brigam entre si… como se estivessem desesperados.
— ……
— Não é exatamente um “viver rápido, morrer jovem”… mas… não sei explicar bem. De qualquer forma, todos parecem… pressionados, de alguma forma.
A expressão de Eina mostrava preocupação.
E, ouvindo aquilo… comecei a entender um pouco melhor a situação da Lilly.
— Por enquanto, eu apoio que você contrate essa garota como suporte.
— Eh? Tudo bem mesmo?
— Sim. Pode haver algumas coisas estranhas na Familia Soma, mas não acredito que isso vá causar problemas diretos entre vocês. Estou baseando isso no próprio Soma.
Lilly havia dito algo parecido.
— Desde que você tome cuidado com os outros membros, não deve haver problema. E, pessoalmente, eu prefiro que você forme um grupo com um suporte do que continue sozinho. Então, eu recomendaria que a contratasse.
— Srta. Eina…
— A partir daí, a decisão é sua. Você terá que assumir a responsabilidade pelo que escolher.
…Claro.
Seria muito rude depender da aprovação de outra pessoa para decidir algo que envolve a Lilly.
A decisão precisava ser minha.
Respirei fundo, organizei meus pensamentos… e me preparei para escolher.
— Ah, mais uma coisa. Eu tentei encontrar um suporte livre para você, mas não achei ninguém. Havia alguns, mas todos entraram recentemente em alguma Familia.
Eina sorriu de leve.
— Me desculpe por isso.
Já tínhamos falado antes sobre eu contratar um suporte… então ela devia estar procurando desde então.
— Provavelmente porque pessoas “Free” não costumam querer entrar no Dungeon. A renda delas depende totalmente dos contratos que conseguem, e é muito perigoso. Existem trabalhos mais seguros e melhor pagos por aí.
“Free” são aqueles que não pertencem a nenhuma Familia.
Ou seja, não possuem Falna — a bênção de um deus — nem Status.
São, basicamente, tão fortes quanto cidadãos comuns.
Claro, há exceções — como anões naturalmente fortes ou elfos com grande afinidade mágica — que conseguem lutar contra monstros.
Mas, no geral… são vulneráveis.
Enquanto organizava tudo isso na minha cabeça, algo que Lilly disse voltou à tona.
— Srta. Eina… aventureiros desprezam suportes?
— …De certa forma, sim. Suportes que trabalham exclusivamente nisso não são muito respeitados. Acho que você consegue imaginar o motivo…
“Só carregamos as bolsas…”
A voz de Lilly ecoou na minha mente.
Então… isso é mesmo verdade?
Sempre admirei os aventureiros… mas agora, sinto uma certa decepção.
— Normalmente, aventureiros que não são muito fortes acabam se tornando suportes. A maioria das Familias direciona seus membros mais fracos para essa função, mesmo que eles evoluam.
Mas, nesse caso, isso também serve como aprendizado. Ao carregar bagagens e acompanhar companheiros mais fortes, eles têm a chance de observar de perto monstros de alto nível… e técnicas avançadas de combate.
— Nem todo mundo que recebe uma Falna continua ficando mais forte indefinidamente. Isso depende da pessoa… se ela consegue encarar um monstro sem ceder ao medo. Na verdade, é bem comum ver aventureiros que derrotam monstros fracos o dia inteiro… mas não conseguem sequer encostar em algo mais forte.
— ……
— O fato é que esses aventureiros mais fracos acabam se tornando especialistas em suporte… e, por isso, acabam sendo alvos fáceis de discriminação.
O clima na sala fica pesado.
A expressão de Eina diz tudo — ela claramente não gosta disso. Nem de falar sobre isso.
Mas agora… tudo faz sentido.
É por isso que Lilly era tão humilde.
Ela foi rotulada como uma “suporte fraca”.
E, por isso… se afastou da própria Familia.
De todos.
……Eu odeio isso.
Que sentimento é esse?
Nem é problema meu… mas não consigo ficar parado. Não consigo me acalmar.
Segurando a vontade de puxar o próprio cabelo, respiro fundo e me levanto.
Se eu ficasse ali, acabaria perdido em pensamentos por horas.
— Obrigado, Srta. Eina. Vou pensar no que disse… e tomar uma decisão.
— Não tem problema. Pode me procurar quando quiser. Sempre que algo assim te incomodar, venha conversar comigo, está bem?
Ela sorri gentilmente.
Eu me curvo mais uma vez, em agradecimento.
Então me viro em direção à porta.
— Ah… Bell?
— Sim?
— O que aconteceu com a sua faca?
— Eh…?
Ainda distraído, respondo meio sem pensar.
Eina já está meio levantada da cadeira, o rosto cheio de preocupação, olhando para minhas costas.
— A faca…
Levo a mão até a cintura.
Minha adaga… está aqui.
Bolsa de pedras mágicas… também.
A Faca Divina…
…Está.
Mas só a bainha.
— ………
Onde deveria estar o cabo…
Não há nada.
Um frio percorre meu corpo.
O sangue desaparece do meu rosto num instante.
Eina observa, enquanto começo a me apalpar desesperadamente, murmurando:
— Não pode ser…
A Faca Divina…
Sumiu.
Meu rosto empalidece.
— …Eu deixei cair?!
O ladrão seguia pelas ruas dos fundos.
O ambiente ali era completamente diferente das lojas elegantes e das cores vibrantes da rua principal.
Ao erguer o olhar, via apenas uma estreita faixa de céu entre fileiras de casas de tijolo. As nuvens estavam tingidas de laranja pelo sol do entardecer.
O dia estava acabando.
Um grupo de gatos rodeava um monte de lixo. Seus olhos dourados se voltaram todos na mesma direção.
— Nyaaa…
Assim que o ladrão se aproximou, eles se dispersaram.
Tum, tum, tum.
Passos leves ecoavam pelo beco.
O ladrão avançava por ruas mais confusas que o próprio Dungeon, sem hesitar — como se soubesse exatamente para onde ia.
Depois de várias curvas, encontrou o lugar.
Uma construção antiga se erguia no centro de um pequeno espaço aberto.
Não dava para dizer se era realmente velha… mas certamente parecia.
Uma placa empoeirada e quase ilegível pendia sobre a casa de madeira.
A porta se abriu.
Um pequeno sino soou, fraco.
— Oh… é você, meu amigo.
— Tenho negócios.
Um gnomo completamente careca, com barba branca, levantou os olhos do jornal. Usava um chapéu vermelho — embora não tivesse um único fio de cabelo.
Sem dizer mais nada, o ladrão colocou uma faca sobre o balcão.
— Trouxe algo… curioso de novo, pelo visto…
O velho ajustou os óculos e examinou a lâmina com atenção.
— Já volto.
Ele desapareceu para o fundo da loja, um lugar abarrotado de antiguidades.
O ladrão olhou ao redor.
Joias impressionantes estavam expostas em vitrines.
O gnomo voltou rapidamente.
Mas sua expressão… era estranhamente amarga.
— O que é isso? Você achou isso no lixo no caminho até aqui?
— Hã…?
— Essa lâmina não corta, não perfura, não fatiada. Não tem nenhuma propriedade especial… e… não sei como explicar, mas… parece… morta.
Ele colocou a faca de volta no balcão.
Coçando a barba, concluiu:
— Isso aqui é lixo. Nada além disso. Estranho você trazer algo assim.
— E-espera! Isso não pode estar certo…!
— Mesmo assim, não posso mostrar isso aos meus clientes… Se ainda quiser vender, serve como decoração. Que tal trinta vals?
— E-eu volto depois!
— Ho-ho! Estarei esperando… embora… essas marcações… parecem trilhas de minhoca… sinto que já vi isso em algum lugar…
Com os ombros tremendo, o ladrão pegou a faca.
A porta bateu atrás dele.
Tum, tum… tum.
Seus passos ecoaram novamente pelo beco — mais pesados agora.
Trinta vals?
O mesmo preço de um espetinho de batata?
Aquele velho idiota!
Essa arma cortava carapaças de monstros como se fossem papel!
Devia valer o suficiente para construir três palácios… e ainda sobrar dinheiro!
Será que o velho tinha enlouquecido?
Mas… ontem mesmo ele fez uma avaliação perfeita.
Será que ficou senil de um dia para o outro?
Não… os olhos dele nunca falham.
Nem mesmo os avaliadores da Guilda chegam perto.
Não existe ninguém melhor que ele nessa cidade.
Então por quê…?
O ladrão olhou para a faca.
Nenhum brilho vinha da lâmina.
Ela estava coberta por uma série de caracteres complexos, gravados ao longo do metal. Totalmente negra da ponta ao cabo — naquela escuridão do beco, era difícil até distinguir seu formato. Era como se fosse feita da própria sombra.
Para uma lâmina ser tão… morta, tão opaca… algo estava errado.
Antes, ela cortava o ar com facilidade… e emitia um brilho roxo sombrio…
Se ao menos tivesse a inscrição “Ἥφαιστος”… A bainha… preciso da bainha…
Se houvesse alguma prova concreta de seu valor, até mesmo aquilo poderia ser vendido por uma fortuna.
A bainha.
Sem ela, aquela lâmina não valia nada.
Todos esses pensamentos se embaralhavam na mente do ladrão, enquanto encarava o objeto sem valor.
A única opção agora era mudar o plano.
Correr um grande risco… e tentar negociar novamente.
— Me desculpe, Syr. Não queria que você tivesse que carregar as compras.
— Eu realmente não me importo, mas… Lyu, você sempre passa por aqui?
— Sim. Descobri que consigo economizar tempo conhecendo melhor esses becos. Eles não são tão inconvenientes quanto você imagina, Syr.
— Não era exatamente isso que me preocupava…
Duas figuras vinham na direção oposta.
Uma elfa e uma humana.
Ambas carregavam sacolas cheias até a boca — frutas e verduras ameaçavam cair a qualquer momento.
O ladrão desviou o olhar… e escondeu a faca dentro da manga.
Quem em sã consciência atravessa um beco desses…
Só passa direto… age normal…
— —Pare aí, prum!
Uma voz cortou o ar.
Carregada de uma presença esmagadora.
O ladrão parou bruscamente.
Um suor frio escorreu pelas costas.
Por quê…?
Algo estava muito errado.
— Essa faca escondida na sua manga… gostaria de vê-la de perto.
Por dentro, o ladrão estalou a língua em irritação.
— Lyu…? Hm… Lyu?
— …Por que quer isso?
— Porque ela se parece muito com algo que pertence a alguém que conheço. Quero confirmar que não é a mesma arma.
Mas que droga… que visão absurda é essa?!
A elfa conseguia enxergar aquela lâmina na escuridão?
Nem mesmo um prum, com sua visão aguçada, conseguiria isso facilmente.
— Lamento informar… mas isso é meu. Você está enganada.
Sem dar tempo para reação.
Fugir — essa era a única saída.
Ignorando completamente o pedido, o ladrão disparou.
— Saque.
O ar… estalou.
— …?!
— Só conheço uma pessoa que usa uma arma com inscrições assim.
Era como se uma lâmina de gelo estivesse pressionada contra o pescoço.
As pernas do ladrão travaram.
Até a humana recuou, chocada.
A presença da elfa… era esmagadora.
Não posso olhar para trás.
Não quero olhar.
— Fique parado.
A mandíbula travou.
A respiração ficou irregular.
O coração batia com tanta força que parecia prestes a romper o peito.
Passos se aproximavam.
Não havia mais distância.
É tudo ou nada.
Sem plano — só correr.
Os joelhos se dobraram, prontos para disparar.
Mas, no mesmo instante—
BAM!
O pé da elfa atingiu o chão à frente, bloqueando a fuga.
— Eu avisei.
O ladrão virou para a esquina mais próxima — quase escapando—
CRASH!
Algo atingiu sua mão com força absurda.
— Gwahhhhh!
…Uma maçã?
Ela explodiu no impacto.
O fruto vermelho acertou a mão esquerda — a que segurava a faca — espalhando pedaços para todos os lados.
— Recomendo que prepare o estômago.
— —?!
A faca caiu.
O ladrão olhou para trás.
Olhos azul-céu o encaravam, frios… enquanto a perna da elfa permanecia elevada, pronta.
Ah… então é isso.
Eu sou a bola.
Tá de brincadeira.
A perna desceu.
Direto nas costas.
— HNGGAAAH?!
— O que foi isso…?
Bell ouviu o grito enquanto corria desesperado pela Rua Principal Oeste, em frente à Guilda.
Ele estava refazendo seus passos, tentando encontrar a Faca de Hestia…
Mas no mesmo instante, percebeu.
Aquilo não era um grito comum.
Parou imediatamente.
Os demi-humanos ao redor também.
No momento seguinte, uma onda de gatos surgiu de um beco — correndo como se suas vidas dependessem disso.
Bell olhou naquela direção, seus olhos rubros atentos.
— Miau! Miau!
Os gatos fugiam em pânico, atravessando a rua movimentada e causando confusão.
Bell avançou entre as pessoas, suando frio, abrindo caminho até o beco.
Se preparando para o que quer que estivesse vindo…
Ele entrou.
E, de repente—
Um pequeno vulto caiu com força aos seus pés.
— L-Lilly?
— Haa… ah?
Surpreso ao encontrar alguém tão inesperado, Bell deu um salto para trás antes de rapidamente se ajoelhar ao lado da garota.
— Ei, o que aconteceu?! Você tá bem?! O que houve?!
— E-essa voz… Sr. Bell…?
O pequeno corpo dela tremia enquanto tentava se levantar, como um filhote recém-nascido tentando ficar de pé pela primeira vez. No começo, seu rosto estava cheio de medo… mas logo ela forçou aquele sorriso de sempre.
— Na verdade… fui atacada por uma mulher violenta… quer dizer… por um cachorro de rua…
— V-você tá bem mesmo?!
— De algum jeito…
O manto claro que ela usava não estava tão sujo… mas era óbvio para Bell que ela tinha levado um golpe sério.
Sem pensar duas vezes, ele passou o braço pelos ombros dela e a ajudou a sair do meio da rua.
Justo quando Bell ia pegar um de seus frascos de poção—
— Não acredito que ele conseguiu escapar…
Crack, crack.
O som firme de passos ecoou no beco.
Lyu surgiu virando a esquina.
— Você também, Lyu?! O que está acontecendo aqui?!
— Ah, que bom timing. Eu acabei de encontrar o seu—
Lyu parou no meio da frase.
Seus olhos haviam encontrado Lilly, encolhida no chão.
A garota tremia, esfregando as mãos sobre o capuz que escondia seu rosto.
— Sr. Cranell, afaste-se.
— Eh? O quê? Ei—?!
— Eiiikkkk!
Sem hesitar, Lyu empurrou Bell para o lado e agarrou Lilly.
Num movimento brusco, puxou o capuz para trás.
Olhos grandes e redondos.
Pelos castanhos desalinhados.
E duas orelhas de cachorro.
Lyu encarou a garota, fria e direta… então disse:
— Me desculpe.
E recolocou o capuz no lugar.
— O que você acha que está fazendo?! Lilly! Você tá bem?!
— S-sim…
— Confundi você com outra pessoa. Agi sem pensar.
Bell estava completamente perdido.
Apoiando Lilly, ainda instável, ele alternava o olhar entre Lyu e o fundo do beco.
Logo, outro som de passos se aproximou.
Syr apareceu, carregando sacolas cheias nas duas mãos.
— Lyu! Lyu—!! Você não pode usar comida assim! A Mama vai brigar com você!
— Isso… pode ser um problema.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo…?
— Ah, Bell.
Syr sorriu e fez uma pequena reverência.
— Oi…
Bell respondeu meio sem jeito.
Assim que terminaram, Lyu foi direta ao ponto.
— Sr. Cranell, aquela faca preta… está com você?
— Ah! É mesmo!! Vocês viram uma faca completamente preta?!
Bell, finalmente voltando a si, olhou desesperadamente para as duas.
Lyu puxou algo de dentro da roupa.
Uma faca.
Preta… sem brilho.
— É esta?
— —WAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH!!
O grito de alegria de Bell ecoou pelo entardecer.
As três garotas se assustaram ao mesmo tempo.
Até mesmo Lyu arregalou os olhos.
— OBRIGADO! Muito obrigado mesmo!!
— …Sr. Cranell. Isso está me deixando desconfortável. Não fui eu quem merece isso, mas sim a Syr…
— Estou agradecendo você, Lyu!
Com os olhos marejados, Bell segurava a mão dela com força.
A expressão normalmente calma da elfa vacilou por um instante diante daquela reação.
Ao ouvir Syr reclamando, Bell pegou a faca e limpou o rosto na manga.
— Que alívio… Deusa, me desculpa… Eu juro que nunca mais vou te perder…!
— Perder…?
Bell encostou a faca no rosto.
E então—
A lâmina… voltou à vida.
Um brilho roxo começou a emanar dela.
Como um cachorro reencontrando seu dono, a Faca de Hestia havia retornado.
Os olhos de Lilly se arregalaram ainda mais.
— Muito obrigado mesmo. Onde você encontrou?
— Não exatamente encontrei. Ela estava com um prum.
— Um prum?
Bell franziu o cenho.
Atrás dele, sob o capuz… a tensão aumentou.
— Será que era… aquele de antes…?
— Sim. Eu estava perseguindo, mas o perdi… e acabei confundindo essa garota com ele. Fui precipitada. Peço desculpas.
— Então… quer dizer que…?
— Sim. Essa garota é claramente uma chienthrope. O que eu perseguia era um prum masculino.
Os olhos de Bell se iluminaram.
Agora tudo fazia sentido.
Sob o capuz… Lilly relaxou.
— Você viu esse prum por aqui? Ele está por perto?
— Desculpa… não vi ninguém…
— Então parece que ele encontrou a faca que você perdeu. Provavelmente já tinha visto antes… É uma arma peculiar, então deve ter se lembrado dela.
— Ah… faz sentido.
Durante a conversa, Lilly parecia… desconfortável.
Syr observava tudo em silêncio, por trás das sacolas.
Com a situação resolvida, Lyu e Syr precisavam continuar suas tarefas.
Bell agradeceu novamente.
Lyu apenas inclinou a cabeça.
Syr sorriu, dizendo que não havia feito nada.
Bell abriu caminho para as duas.
E foi nesse momento—
Que Syr se inclinou levemente…
E sussurrou no ouvido de Lilly:
— —Sem mais travessuras, certo?
“!!”
Um arrepio gelado percorreu a pele de Lilly.
Seu corpinho pequeno tremia de forma quase comovente.
Syr simplesmente se levantou, como se nada tivesse acontecido, e seguiu ao lado da séria Lyu, entrando novamente no beco.
“Lilly, o que a Syr disse agora há pouco?”
“N-nada… Ah… Sr. Bell?”
“Sim?”
“Quem são aquelas duas?”
“São garçonetes de um bar. Chama-se The Benevolent Mistress. É bem famoso… você já ouviu falar?”
“…Sr. Bell.”
“Hm?”
“Nunca, nunca leve a Lilly lá, está bem?”
“Ah… c-claro…” foi tudo o que Bell conseguiu responder, diante da Lilly meio rindo, meio chorando.
Ele percebia que ainda havia algo errado com ela — e, em silêncio, começou a suar frio.
Com o sol já se pondo no oeste, a Rua Principal finalmente se acalmava, voltando ao seu ritmo habitual. Bell e Lilly permaneceram ali por um instante, envoltos em um clima estranho.
No dia seguinte.
Lilly e eu seguimos rumo à Dungeon logo cedo.
Caminhamos lado a lado pelo primeiro andar, enquanto os pontos de luz no teto iluminam o caminho — lembrando as lâmpadas de pedra mágica da cidade lá em cima.
No fim, decidi contratar Lilly como minha suporte.
Pensei em várias coisas antes disso, mas, depois de organizar meus sentimentos, percebi que era isso que eu realmente queria fazer. A deusa também deu sua permissão. Depois disso, não fazia mais sentido recusar.
Lilly e eu firmamos um contrato de membros de grupo, sem limite de tempo definido.
Hoje é o primeiro dia.
“…Sr. Bell?”
“Hm?”
“Aquela faca… onde o senhor a guardou?”
“Ah. A faca e a bainha estão na minha armadura peitoral. Tem um encaixe por baixo da camada externa, e elas ficam bem seguras ali. Assim, não corro o risco de deixá-la cair de novo.”
“Entendo…”
Inclino levemente a cabeça, confuso, ao ver o olhar dela baixar.
Hoje ela parece sem energia alguma.
Está sorrindo como sempre, mas… é um sorriso vazio.
Será que aconteceu alguma coisa?
“Sr. Bell… deixe Lilly agradecer mais uma vez por tê-la contratado como suporte. Lilly vai se esforçar ao máximo para que o senhor não a abandone na Dungeon.”
“Abandonar?! Eu nunca faria isso com ninguém. Além disso, você é a única suporte que eu tenho, Lilly.”
“Lilly fica feliz em ouvir isso… Mas Lilly já sabia que o Sr. Bell não faria algo assim, porque o senhor é surpreendentemente gentil.”
Acho que nunca vou me acostumar com essa hierarquia.
Lilly também está começando a diminuir essa distância, mas… “gentil”? Ser chamado de algo tão formal assim me deixa desconfortável.
“Sr. Bell, posso perguntar qual é o plano para hoje?”
“Bem… eu estava pensando em irmos até o sétimo andar novamente e trabalhar até o fim da tarde. Tudo bem para você, Lilly?”
“Se essa é a decisão do Sr. Bell, então Lilly irá obedecer. Mas… tem certeza? Como o senhor sabe, Lilly é apenas uma suporte e não serve para combate. O senhor terá que enfrentar ondas e mais ondas de monstros sozinho.”
“Tudo bem. Eu já estou acostumado a lutar sozinho. Além disso, ontem à noite a minha deusa atualizou meu status com a experiência de ontem.”
Eu não passei as últimas semanas como aventureiro solo à toa.
Enfrentar longos períodos sozinho na Dungeon já virou rotina para mim. Graças aos métodos… um tanto rigorosos da Eina, também fiquei muito bom em administrar o tempo. Acho que posso me orgulhar um pouco disso.
Mas, acima de tudo, minha deusa atualizou meu status com as próprias mãos ontem à noite — então não tem como eu ser superado por monstros daquele nível.
Para ser sincero… estou até ansioso para testar esse novo poder.
Meu status cresceu tanto quanto antes. É quase assustador a velocidade com que minhas habilidades estão evoluindo.
É uma sensação incrível.
…Mas, por algum motivo, sempre que a deusa vê o quanto eu cresci, ela fica chateada e de mau humor… sinceramente, não faço ideia do porquê.
“Estou mais preocupado com você, Lilly. Os itens derrubados vão se acumular rápido, e sua mochila vai ficar bem pesada…”
Olho para a garota ao meu lado.
Seu corpo pequeno mal chega à altura do meu estômago. Não deve ser nada fácil carregar tanto peso pelos andares da Dungeon.
“Não precisa se preocupar, Sr. Bell. Lilly também possui uma Falna. Não importa o quanto pese a mochila, Lilly não vai se cansar.”
Tenho certeza de que ela está dizendo a verdade… mas ainda assim.
A mochila de Lilly é bem maior que o padrão. Mesmo vazia, já chama bastante atenção.
“Além disso, Lilly possui uma Skill. Então o Sr. Bell não será prejudicado durante o transporte até a superfície, mesmo que algo inesperado aconteça.”
“Quê?! Você tem uma skill, Lilly?!”
Incrível! Fico até com inveja — e não consigo esconder isso na voz.
Lilly dá uma risadinha antes de balançar a cabeça.
“É melhor do que nada, mas é uma skill insignificante. Não é essa ‘bênção maravilhosa’ que o senhor está imaginando, Sr. Bell.”
“Mesmo assim! Eu nem tenho uma skill…”
As “Skills” são diferentes da “Magia”. Desde que você acumule excelia — experiência — pode aprender várias delas. Já ouvi dizer que existem aventureiros com cinco (!!) skills.
Então, mesmo que seja uma habilidade simples como a da Lilly, se não tiver efeitos negativos, já torna alguém mais forte do que antes.
“Estou com muita inveja agora… Skills e Magia são bem difíceis de aprender, né? Eu também não tenho magia… Ah, falando nisso, você tem alguma magia, Lilly?”
“…Infelizmente, Lilly também não possui magia. Há muitas pessoas que nunca despertam sua própria magia… e Lilly provavelmente é uma delas.”
Isso mesmo.
Dezenas de milhares de pessoas podem ganhar a possibilidade de aprender magia ao receber uma Falna… mas ainda assim, não passa disso: uma possibilidade.
E, ao que parece, muitos nunca têm a sorte de ver essa possibilidade se tornar realidade.
Para alguém como eu, que desde pequeno sonhava em usar todo tipo de magia enquanto relia histórias de heróis aventureiros… essa é uma verdade difícil de encarar.
…Lilly ergue o olhar para mim.
Meus ombros tremem levemente, enquanto minha mente fica presa na ideia de que talvez eu nunca tenha magia.
Contar os detalhes do próprio status para alguém de fora da sua Familia é considerado falta de educação — além de ser proibido. Mesmo que essa pessoa tenha um contrato com você.
Pensando bem, é algo óbvio.
O status de um aventureiro é tanto informação confidencial quanto sua própria linha de vida.
Sinto que fui um idiota por tocar nesse assunto… e me arrependo.
“Mais uma coisa: você tem certeza de que não quer um pagamento inicial ou algum adiantamento?”
Mantendo os olhos na estrada à frente, pergunto a Lilly sobre os detalhes do nosso acordo.
Ela mesma disse, durante aquela cerimônia de contrato meio improvisada na Torre de Babel, que só queria uma parte dos ganhos depois que levássemos os itens da Dungeon até a Guilda.
Mas sou eu quem está contratando… deveria haver mais do que isso.
“Sim, isso é o suficiente. Como o Sr. Bell não está em grupo com mais ninguém, não haverá problema em dividir os ganhos no fim do dia… e então…”
“E então?” repito, quase como um papagaio.
De repente, o clima leve de Lilly muda.
Por um instante… acho que vejo hesitação nos olhos escondidos sob sua franja.
“…Além disso, esse é o melhor acordo para o Sr. Bell, não é?”
“Eh?”
Há algo estranho em sua voz — uma mistura de sarcasmo com desprezo por si mesma.
Fico um pouco desconcertado ao ouvi-la falar assim comigo.
Não faço ideia do porquê.
Mas, no instante seguinte, Lilly volta a sorrir como sempre, como se nada tivesse sido dito, e sua personalidade alegre retorna.
“Certo, vamos lá! Enquanto o Sr. Bell se esforçar bastante, Lilly vai poder comer algo gostoso hoje à noite!”
“S-sim…”
O melhor para mim…?
Isso quer dizer que… basicamente, eu não preciso pagar nada a ela?
Ou será que é outra coisa completamente diferente?
Não consigo entender o que ela quis dizer.
Eu não sou ela… então não faço ideia do que está pensando — ou do que está escondendo.
Mas—
—Você não é diferente dos outros aventureiros.
Tenho a sensação de que foi isso que os olhos dela tentaram me dizer.
“Eina. Ei, Eina.”
“Hm?”
Eina estava ocupada trabalhando no balcão de atendimento da sede da Guilda quando uma colega ao seu lado chamou sua atenção.
Erguendo levemente uma sobrancelha, ela perguntou com o olhar: “O que foi?”
A colega respondeu em silêncio, apenas movendo os lábios:
“Olha aquilo.”
E apontou para o outro lado do salão.
Seguindo a direção indicada, Eina viu um funcionário da Guilda discutindo acaloradamente com um aventureiro, bem em frente ao balcão de trocas.
“Tá vendo? São eles de novo. Aquele cara é da Familia Soma.”
“……”
Eina franziu o cenho ao observar a cena.
As vozes irritadas chegaram até ela, que inclinou levemente a cabeça para ouvir melhor.
“Doze mil vals só?! Tá brincando comigo?! Você é cego?!”
“Seu idiota! Há quanto tempo você acha que eu trabalho com isso, hein?! Meus olhos funcionam perfeitamente!”
Era uma discussão sobre os termos de troca — isso era evidente.
Esse tipo de situação não era nada raro.
Aventureiros arriscam a vida todos os dias na Dungeon. Depois de um dia inteiro de trabalho, chegam até a Guilda com grandes — ou pequenas — expectativas… e muitos acabam se exaltando quando o valor oferecido pelos itens não corresponde ao que imaginavam.
A Guilda já estava acostumada com isso.
Os avaliadores que trabalhavam naquele balcão tinham nervos de aço — e aquele, em especial, gritava tão alto quanto o aventureiro.
Era só mais um dia comum de trabalho.
Mas, sempre que membros da Familia Soma estavam envolvidos… uma discussão comum deixava de ser comum.
Já nem valia a pena contar quantas vezes membros da Familia Soma contestavam os valores oferecidos.
Era algo cotidiano.
Os funcionários da Guilda já estavam completamente exaustos dessa repetição.
Todos os membros da Familia Soma tinham o mesmo problema com o sistema de troca:
“Queremos mais dinheiro!”
Era uma obsessão que ultrapassava qualquer limite racional.
Seus pedidos por quantias maiores eram tão intensos que faziam até quem estava por perto sentir um arrepio.
“Ahh… só de olhar já dá vontade de arrancar os olhos! Que nojo! Ainda bem que eu não cuido da Familia Soma!”
“……”
Eina lançou um olhar severo para a colega humana ao ouvir aquilo.
Ela não era responsável por nenhum membro da Familia Soma… mas, por conta de acontecimentos recentes, não conseguia mais tratar aquilo como um problema distante.
“Droga… isso é tudo… tudo que eu recebo…?!”
Eina levou a mão à têmpora, sentindo uma dor de cabeça surgir ao ver, à distância, o aventureiro segurar a própria cabeça com ambas as mãos.
Talvez ele tenha se precipitado…
A presença da suporte Lilly teve um impacto enorme.
Para começar, como era ela quem carregava a mochila, eu não precisava mais voltar à superfície para trocar os itens quando a minha ficava pesada.
Isso me permitia permanecer muito mais tempo dentro da Dungeon.
Mas havia um problema.
Cada andar que eu atravessava em direção às partes mais profundas significava que a distância até a Guilda aumentava — e o tempo útil dentro da Dungeon diminuía.
Então, mesmo avançando mais fundo do que antes…
eu não estava ganhando mais dinheiro por isso.
Havia tempo demais sendo perdido só com deslocamento.
Hoje, todos esses problemas foram resolvidos de uma vez.
Graças à Lilly, eu nem precisei carregar uma mochila. Me senti leve, livre, avançando pelo sétimo andar enquanto derrotava monstro após monstro — a ponto de nem conseguir lembrar quantos abati.
Sempre que um monstro aparecia, eu avançava com minha faca, e Lilly rapidamente extraía a pedra mágica e recolhia os itens deixados.
O resultado:
O dinheiro que recebemos na Guilda—
“ “……” ”
Lilly e eu seguramos juntos a borda do saco amarelado, abrindo-o ao mesmo tempo e espiando lá dentro.
E o que encontramos foi…
dinheirodinheirodinheirodinheirodinheiro.
Moedas de todos os tamanhos, tantas que é impossível contar, abarrotam o saco!
Tudo brilhando…!
“Vinte e seis mil vals…”
Erguemos o olhar ao mesmo tempo, nossos rostos a poucos centímetros de distância.
Respiramos fundo e—
“YYYYAAAAAAAHHHHHHHAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!”
Saltamos de alegria!
“Incrível! Simplesmente incrível! Lilly conseguiu contar os itens só nos dedos, mas o Sr. Bell passou dos vinte e cinco mil vals sozinho!”
“Uau, uau, UAU! Isso é real mesmo, né?! Eu não tô sonhando?! Tudo isso em um dia… isso é tudo graças a você, Lilly!”
Vida longa às suportes!
“Não diga bobagens, Sr. Bell. Depende dos monstros, claro, mas um grupo de cinco aventureiros de Nível Um costuma ganhar cerca de vinte e cinco mil vals por dia. Ou seja, o Sr. Bell fez mais do que todos eles juntos!”
“Ei, calma! Até coelho sobe em árvore se for elogiado demais! É a mesma coisa!”
“Lilly não entendeu nada do que o Sr. Bell disse, mas, por enquanto, Lilly concorda! O Sr. Bell é incrível! Vamos fazer ainda melhor!”
“Lilly, isso já é elogio demais…!”
Eu sei que estou exagerando, mas não consigo me acalmar.
Nem estamos em um bar, mas estamos fazendo barulho como se estivéssemos comemorando lá dentro.
Já está completamente escuro lá fora, então Lilly e eu somos praticamente os únicos aventureiros na cafeteria de Babel. Todo mundo já deve ter ido beber em algum lugar.
Tomados pela empolgação, Lilly chega até a se levantar na cadeira, gritando “Ebaaa!”, enquanto batemos palmas um com o outro várias vezes.
“Então, Sr. Bell… Lilly pode pegar a parte dela agora?”
“Claro, sem problema!”
Pego 13 mil vals do saco, coloco sobre a mesa com um som seco e empurro na direção dela.
“………Hã?”
“Ahh… com esse dinheiro, finalmente posso dar à deusa uma comida deliciosa…!”
Já consigo imaginar a expressão dela ao receber algo que nunca pudemos comprar antes.
Finalmente vou conseguir retribuir um pouco!
Lilly está me encarando, os olhos arregalados como bolinhas de gude, mas eu nem percebo. Estou completamente perdido na minha própria animação.
“S-Sr. Bell… o que é isso…?”
“Sua parte! Foi o que combinamos! Ah, já sei! Vamos comemorar! Lilly, vamos a um bar! Eu conheço um lugar ótimo!”
Os olhos de Lilly ficam meio vazios ao ouvir meu convite animado.
Ah… é mesmo, ela disse que não queria ir ao The Benevolent Mistress, né?
Bom… tanto faz! É só hoje!
“Vamos!”
“S-Sr. Bell!”
Lilly levanta a voz enquanto começo a juntar nossas coisas rapidamente.
Hã?
Olho para ela, confuso.
Seus lábios pequenos tremem enquanto tenta dizer algo.
“…O Sr. Bell… não quer todo o dinheiro…? …Ficar com tudo para si?”
“Eh? Por que eu faria isso?”
Não entendo mesmo.
Isso me parece estranho demais.
Diante da minha resposta, Lilly fica sem palavras.
“Eu não teria conseguido ganhar tudo isso sozinho. Nós fizemos isso juntos, não foi, Lilly?”
Abro um grande sorriso e acrescento:
“Muito obrigado!”
E ainda deixo escapar:
“Vou continuar contando com você!”
Estou tão feliz por ter conhecido Lilly que não consigo parar de sorrir para ela.
“……”
“Então, Lilly, vamos?”
Estendo a mão na direção dela.
Ela encara minha mão por um instante… e então, com cuidado, estende a sua e a segura.
“…O Sr. Bell é estranho.”
Finjo com perfeição que não ouvi o que ela murmurou por último.
[Bell Cranel]
Familia: Hestia Familia
Raça: Humano
Classe: Aventureiro
Alcance da Dungeon: Nível Sete
Armas:
Faca Divina
Adaga
Renda: 18.900 vals
[Status]
Nível Um
Força: D-591
Defesa: G-233
Utilidade: C-607
Agilidade: B-702
Magia: I-0
Magia:
[ ]
Habilidade:
Realis Phrase
• Crescimento Acelerado
• Desejos persistentes levam a um crescimento contínuo
• Quanto mais intenso o desejo, maior o crescimento
Equipamentos:
Armadura de Coelho “Pyonkina” MK-II
• A primeira de uma série de armaduras criada por Welf Krozzo, um ferreiro da Família Hephaistos.
• Em parte por causa do nome, acabou esquecida dentro de uma caixa, largada numa prateleira para venda. Bell chegou a sentir pena da forma como ela era tratada.
• Foi forjada a partir do item de drop “Pelo de Coelho Metálico”. Segundo Bell, é “incrivelmente leve”.
• De fato, sua capacidade defensiva recebeu alta avaliação da Família Hephaistos.
“Vambrace Verde”
• Valor: 7.700 vals
• Um presente de Eina, com o mesmo tom verde-esmeralda de seus olhos.
• Cumpre a função de um escudo. Embora não seja tão resistente quanto um escudo convencional, é muito mais leve.
• Possui um compartimento longo e estreito, capaz de armazenar armas pequenas, como facas, adagas e espadas curtas.