Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka. – Volume 2 – Capítulo 1
Encontro… e depois, Supporter
Croc, croc.
É o som de algo mastigando a terra.
Uma luz cai do teto, iluminando as paredes verde-pálidas que me cercam por todos os lados. Estou em um espaço quadrado dentro da dungeon, um lugar que os aventureiros simplesmente chamam de “sala”.
Aponto a Faca Divina da Hestia para a criatura que está roendo o chão; a lâmina se projeta por baixo da minha mão.
Ela tem quatro pernas, dois braços finos e dois olhos grandes. O corpo lembra o de uma enorme formiga vermelha.
O que a diferencia de uma formiga comum é o tamanho. Quando levanta a parte superior do corpo, apoiando-se sobre o tronco curvado, ela fica quase da minha altura.
Uma Formiga Assassina.
É um monstro que começa a aparecer no sétimo andar inferior. Já ouvi dizer que ela é chamada de “assassina de novatos”, assim como o Wall Shadow do sexto andar.
Ganhou esse apelido por causa da pele grossa e da força que deixa monstros de andares inferiores, como goblins, no chinelo. A pele da Killer Ant é tão resistente que parece uma armadura.
Ataques descuidados simplesmente ricocheteiam naquele casco vivo, e atravessar aquela camada externa não é tarefa fácil.
Na ponta dos braços existem quatro garras afiadas. Tortas e curvadas, essas armas mortais pendendo à frente do corpo me dão arrepios.
Essas garras despedaçam as pessoas antes mesmo que elas consigam atravessar as defesas da formiga. Esse costuma ser o padrão.
Aventureiros acostumados com os monstros até o quinto andar geralmente não esperam que essas formigas sejam tão perigosas… e acabam virando o lanche da tarde delas.
“Gegii!”
Clac, clac, clac.
A Formiga Assassina estala as mandíbulas, mordendo o ar.
Ah, e tem mais uma coisa.
Esse monstro consegue chamar reforços.
Não é um chamado audível; ele libera algum tipo de feromônio que os humanos não conseguem sentir para reunir seus companheiros. Pelo que ouvi, fazem isso quando estão em apuros.
Uma combinação bem conveniente de resistência e trabalho em equipe.
Para um aventureiro, porém, isso é uma receita para desastre.
De qualquer forma, preciso acabar com ela rápido. Um golpe certeiro em um ponto vital é minha melhor opção.
A formiga e eu nos encaramos, dando alguns passos à frente ao mesmo tempo.
“—Yah!”
Eu faço o primeiro movimento. Receber o ataque primeiro para depois contra-atacar definitivamente não é meu estilo.
Ela avança direto para cima de mim, erguendo o braço direito bem alto. Eu a enfrento de frente, avançando para perto do corpo dela com um salto.
No canto do meu olho esquerdo, vejo um arco branco passar—
Slash!
Sou apenas um piscar de olhos mais rápido.
As garras do monstro — junto com boa parte do braço — voam pelos ares.
“Giii!!!!”
O lado direito do monstro — braço e armas — desapareceu. Seus gritos de dor ecoam enquanto preparo a Faca Divina para o próximo golpe.
O método recomendado para matar uma Formiga Assassina é mirar nos espaços entre as carapaças rígidas nas articulações, atingindo a carne macia por baixo.
Para um aventureiro novato isso pode ser difícil, mas pelo menos essa é a teoria.
Eu, porém, decidi ignorar isso.
Sem braço — e sem arma — as defesas do lado direito ficam vulneráveis.
Cravo a lâmina negra como azeviche entre a cabeça e o tórax.
“—”
Sinto a pele grossa ao redor do pescoço rasgar enquanto a lâmina atravessa.
A sensação dura apenas um instante.
A lâmina desliza pela carne do monstro quase sem resistência. Só falta finalizar com um simples giro de pulso.
Shing!
A lâmina canta ao sair por baixo do pescoço da formiga, lançando sua cabeça ao chão.
Um líquido roxo escorre do ferimento aberto. A expressão de surpresa típica de um inseto ainda permanece congelada no rosto do monstro quando ele despenca no chão da dungeon.
O corpo decapitado permanece de pé por um momento, como se ainda não tivesse percebido que algo está faltando.
Alguns instantes depois, percebe.
E cai como um saco de pedras.
“…É, foi perfeito!”
Sacudo o líquido roxo da Faca Divina antes de observá-la de perto.
Ela se encaixa perfeitamente na palma da minha mão.
É quase como se tivéssemos crescido juntos… ou como se ela tivesse crescido para caber na minha mão.
E o poder dela também não deixa nada a desejar.
A lâmina atravessou a armadura daquela Formiga Assassina como uma faca quente na manteiga.
Incrível.
Esse é o poder de uma arma forjada por Hephaistos.
Um presente da minha deusa.
“—”
Com a expressão de uma criança que acabou de ganhar um brinquedo novo, começo a trabalhar no monstro abatido para retirar a pedra mágica dentro de seu peito.
Na verdade, não sou muito diferente de uma criança.
Sinto-me como no meu aniversário, quando o Vovô me deu Dungeon Oratoria, um livro ilustrado cheio de imagens de heróis famosos.
Era tão especial para mim que, no começo, tive até medo de abrir — com receio de que pudesse sujá-lo.
Claro, esse presente também seria desperdiçado se eu não o usasse… mas o sentimento é o mesmo.
Obrigado, Deusa…
Sorrio ao imaginar o rosto dela.
Ela tem estado tão ocupada ultimamente… preciso encontrar um momento para agradecê-la direito.
Eu vou ficar mais forte.
Forte o suficiente para ser digno desta arma—
Forte o suficiente para deixar minha deusa orgulhosa.
Guardo a lâmina na bainha presa na parte inferior das minhas costas e sigo em busca do próximo alvo no sétimo andar.
“Em que andar você foi?!”
“Ah!”
Bell soltou um grito.
O motivo de seu guincho patético era Eina Tulle, que o encarava com uma expressão carrancuda, visivelmente furiosa.
Bell havia retornado triunfante à Guilda depois de explorar o sétimo andar com a ajuda da Faca de Hestia.
Depois de vender todas as pedras mágicas e itens obtidos no balcão de troca, ele foi dar um relatório à sua conselheira — com um grande sorriso no rosto.
Mas no instante em que disse “sétimo andar”, todo o seu bom humor desapareceu.
“O que está acontecendo com você?! Nada do que eu digo entra nessa sua cabeça dura?! Ir do quinto direto para o sétimo?! Você ficou louco?!”
“D-d-d-d-d-desculpa!”
BAM!
Eina bateu as duas mãos com força sobre a mesa.
Seus olhos verde-esmeralda queimavam de irritação enquanto inclinava levemente a cabeça.
Bell parecia pouco mais que um sapo sendo encarado por uma píton.
Eina estava furiosa porque Bell não demonstrava nenhuma preocupação com a própria segurança e estava entrando em andares cada vez mais profundos com uma tranquilidade assustadora.
Ele estava se aventurando — e era justamente isso que a incomodava.
“Diga-me… quem foi mesmo que quase morreu para um Minotauro apenas uma semana atrás?”
“É… e-eu?”
“Então por que você está fazendo isso?! Você não entende o quão perigoso é, depois de tudo o que já passou?!”
“D-desculpa…!”
Bell respondeu com lágrimas começando a se formar nos olhos.
Ele nunca tinha visto Eina tão furiosa.
Ela estava realmente indo com tudo.
O desejo de mantê-lo vivo estava praticamente transformando Eina em um ogro.
Um aventureiro novato, com menos de um mês de experiência, se aventurando além do quinto andar era praticamente o mesmo que cometer suicídio.
Depois do quinto nível, a estrutura da dungeon ficava muito mais complicada, sem falar nos monstros mais poderosos.
Bell havia descido até o sétimo andar — se aquela Formiga Assassina tivesse chamado suas companheiras, ele não teria saído vivo.
Formigas Assassinas não eram como um bando de kobolds.
Elas despedaçariam um aventureiro solitário membro por membro.
“Pelo visto você não entende a palavra ‘perigoso’. Nem um pouco. Eu vou corrigir isso aqui e agora!”
Bell soltou outro grito miserável.
Nas últimas semanas, ele já havia se acostumado bastante ao estilo quase espartano de “orientação” de Eina.
Bell tinha visto na prática tudo o que ela havia ensinado no campo. Mas poder dizer tranquilamente “eu entendi, pode deixar comigo” para sua conselheira era uma história completamente diferente.
Bell se apressou em explicar.
“Por favor, espere! Eu… eu cresci bastante desde então, senhorita Eina!”
“‘Bastante’ é uma grande afirmação vinda de alguém que acabou de chegar ao grau H!”
“N-não, é verdade! Várias das minhas habilidades básicas já estão no nível E!”
“…E?”
Eina congelou no lugar, os olhos se arregalando.
No início ela nem entendeu o que ele tinha dito, mas quando sua mente finalmente organizou a informação, suas sobrancelhas se ergueram em incredulidade.
“Você acha que pode me enganar fazendo uma afirmação dessas?”
“É verdade, tudo! Talvez eu esteja passando por algum tipo de surto de crescimento, mas estou ficando mais forte muito rápido!”
“…Sério?”
Eina lançou um olhar confuso para Bell enquanto ele assentia com todas as forças.
Ela não era sua conselheira havia tanto tempo assim, mas já sabia reconhecer quando o garoto à sua frente estava mentindo.
E de acordo com sua intuição… Bell estava dizendo a verdade.
“…Sério, E?”
“S-sim.”
Eina ergueu as mãos, com as palmas voltadas para frente, como quem diz espere um momento.
Os níveis restantes eram S, A, B, C, D e então E.
Ela os contou nos dedos, assentindo para si mesma.
Mais uma vez — S, A, B, C, D, E… seis de novo.
O mesmo de antes.
Eina agora estava oficialmente confusa.
Ela não duvidava completamente de Bell, mas aquela velocidade de crescimento parecia saída de uma história de terror.
Eina tinha estimado o grau H porque esse era o nível de habilidade mais alto que um aventureiro com a experiência de Bell normalmente teria.
H já era o crescimento máximo plausível naquele período — e isso apenas para indivíduos realmente talentosos.
G já seria absurdo.
Qualquer coisa acima de F… simplesmente rápido demais, não importava como ela pensasse sobre o assunto.
Se Bell tivesse sido um guerreiro antes de se tornar aventureiro, com algum tipo de treinamento de combate, talvez ela pudesse aceitar.
Talvez.
Mas ele era um fazendeiro.
Ainda assim, ele não parecia estar mentindo nem um pouco…
“Hmm… hmmmmm…”
Eina esfregou o queixo com o dedo indicador, incapaz de decidir no que acreditar.
Bell ficou sentado em silêncio, observando-a como se ela pudesse explodir a qualquer momento.
“Ei… Bell.”
“S-sim, senhora?”
“Você se importaria de me mostrar o status nas suas costas?”
“…Hã?!”
Um suspiro agudo escapou da garganta de Bell enquanto ele olhava para o rosto sério de Eina.
“Não é que eu não acredite no que você está dizendo, é só que…”
Ela desviou o olhar, balançando as mãos de um lado para o outro, tentando garantir que Bell não entendesse errado.
Para ela, a explicação mais razoável era que a deusa de Bell, Hestia, tivesse cometido algum erro ao registrar o status dele.
Ou talvez tivesse ocorrido algum mal-entendido.
A ideia de Bell ter evoluído até estatísticas de grau E era simplesmente inconcebível para ela.
Eina não acreditaria em uma única palavra que saísse da boca de Bell até ver uma prova irrefutável.
“M-mas a principal coisa que aventureiros não devem revelar é justamente o status… certo?”
Todos os aventureiros da cidade estavam sob a jurisdição da Guilda e eram proibidos de revelar informações pessoais a qualquer pessoa, incluindo funcionários da própria Guilda. Seus níveis e suas Familias eram registrados, mas nada além disso.
Também havia aventureiros com habilidades e magias especiais. As relações entre os deuses e suas Familias mudavam constantemente. O amigo de hoje poderia ser o inimigo de amanhã. Informações eram protegidas com extremo cuidado para evitar que fraquezas fossem expostas.
“Eu lhe dou minha palavra de que não contarei a ninguém o que eu vir. Assumirei total responsabilidade caso seu status se torne público. Se isso acontecer, eu juro que obedecerei a você.”
“Obedecer…? Espere, senhorita Eina, você sabe ler hieróglifos?”
“Sim, mas só um pouco. Acho que consigo ler o suficiente para entender um status.”
Eina tinha frequentado bastante a escola e se destacado nos estudos teológicos. Ela certamente conseguia ler e escrever hieróglifos simples.
“Se eu não vir com meus próprios olhos, nunca vou autorizar você a ir além do quinto andar.”
“Isso definitivamente me causaria muitos problemas…”
“Prometo que não vou olhar seus espaços de magia ou habilidades, então… por favor?”
“Eu nem tenho habilidades ou magia mesmo, então isso não faria diferença… mas tudo bem.”
Bell acabou cedendo ao pedido de Eina enquanto ela se inclinava para frente e juntava as mãos em súplica.
Eina já tinha feito tanto para ajudar Bell até então que ele sentia que podia confiar completamente nela, assim como confiava em Hestia. Bell não tinha motivo algum para duvidar da palavra dela.
“Bem… hum… eu vou tirar a roupa agora?”
“Se você já está corando de vergonha, não precisa pedir minha permissão primeiro! Você vai acabar me deixando constrangida também!”
Os dois ficaram com as bochechas vermelhas enquanto Bell se levantava e se virava para um canto afastado da sala. Ainda atrapalhado, ele desenganchou a armadura e rapidamente tirou a camisa por baixo.
Em vez de olhar imediatamente para o status gravado nas costas do garoto, os olhos de Eina acabaram sendo atraídos por um instante para os músculos das costas dele, surpreendentemente bem definidos. Balançando a cabeça de leve, ela forçou o olhar de volta para os hieróglifos.
Suas orelhas pontudas ficaram levemente avermelhadas enquanto seus olhos percorriam as inscrições da esquerda para a direita.
Bell Cranell
Level 1
Força: E-403
Defesa: H-199
Destreza: E-412
Agilidade: D-521
Magia: I-0
Não pode ser…
Ela não conseguia acreditar no que via; seu queixo se abriu levemente de choque.
Com exceção da Magia, ele era definitivamente forte o suficiente para lidar com monstros do sétimo andar. Eina costumava avaliar aventureiros principalmente pela capacidade defensiva, então a nota baixa de “Defesa” de Bell a deixava um pouco apreensiva. Ainda assim, o estilo de combate dele — atacar e recuar — combinava muito bem com suas habilidades, então ela concluiu que ele provavelmente evitava a maioria dos golpes.
O fato de sua “Agilidade” já estar no grau D quase a deixou enjoada.
Não acredito…
Eina tossiu de leve para disfarçar. Era como se seu conceito de “senso comum” tivesse acabado de se quebrar; um arrepio frio subiu por sua espinha. Trabalhando na Guilda e aconselhando tantos aventureiros, Eina sabia exatamente o quão anormal era a velocidade de crescimento de Bell.
Aquilo não estava apenas fora do comum.
Era algo de outro mundo.
—Uma Skill?
A possibilidade surgiu no fundo de sua mente.
Talvez ele tenha uma Skill que explique esse crescimento anormal, pensou, com um leve aperto no peito. A única maneira de verificar… seria quebrar sua promessa.
Se for só uma olhadinha rápida…
Seus olhos desceram abaixo das habilidades de Bell e captaram mais hieróglifos.
O lugar onde ficavam listadas suas Magias e Skills.
Ela já tinha chegado até ali. Agora era tarde demais para desviar o olhar. Querer saber o que havia dentro de um baú depois de levantar um pouco a tampa devia ser um traço típico dos demi-humanos.
Sua curiosidade foi despertada; ela examinou todos os espaços de Skill.
…Ah, não.
Ela não conseguia entender o que estava escrito.
Havia caracteres complexos demais para que ela pudesse compreender qualquer coisa.
Talvez a deusa dele, a superprotetora Hestia, tivesse colocado alguma camada extra de proteção sobre o status, para impedir que outras pessoas o lessem mesmo que tivessem a chance. Eina não dominava completamente o tamanho e a ordem dos traços dos hieróglifos, e não percebeu que a “proteção” de Hestia era, na verdade, apenas a caligrafia terrível da própria deusa.
Eina acabou ganhando um novo respeito por Hestia e por sua estratégia para manter o status de Bell em segredo.
“Hum… senhorita Eina? Já terminou?”
“A-ah! Sim!”
As orelhas de Eina se ergueram quando a voz ainda constrangida de Bell chegou até ela e a trouxe de volta à realidade. Eina riu de si mesma, envergonhada, desviando o olhar do status dele e se inclinando algumas vezes em desculpa.
É verdade… ela resmungou internamente.
Com um status daqueles, não havia como negar permissão para ele entrar no sétimo andar. Desde que fosse cuidadoso, ele provavelmente conseguiria explorar aquele nível com segurança, até mesmo sozinho.
—No entanto, havia outro problema em deixá-lo ir tão fundo.
“…”
“O-o que foi?”
Já completamente vestido, Bell percebeu a própria voz tremer enquanto os olhos de Eina percorriam seu corpo da cabeça aos pés. O olhar dela era intenso.
Mas não parecia que ela estava duvidando da força ou da habilidade dele.
Ela não estava olhando para o corpo dele.
Estava olhando para a armadura miserável que o cobria.
“Bell.”
“S-sim?”
“Você tem algum compromisso amanhã?”
“…Hã?”
Um dia se passou desde aquela conversa.
Estou sozinho em um parque em forma de meia-lua, construído logo ao lado da North Main.
Esperando por Eina.
Isso mesmo. Estou encontrando com ela aqui.
Isso é… um encontro?
Não, isso não é possível, tento me convencer.
Ontem, Eina perguntou se eu tinha tempo para ir comprar uma nova armadura com ela. Parece que ela achou que o conjunto que estou usando agora não é suficiente. Mais uma vez, ela está se esforçando para me ajudar. Está cuidando de mim.
Então ela definitivamente não está pensando nisso como um encontro. Ela só está sendo gentil — gentilmente se metendo onde não foi chamada.
…Mesmo assim, para qualquer pessoa que não soubesse dos detalhes, isso realmente pareceria…
Bem… um encontro.
Todas as condições estão presentes.
Coisas como: “Vamos nos encontrar às dez em frente à estátua de bronze no parque!” e “Só nós dois!”
Ei! Ei!!!
“Ei! Bell!”
“!”
E então chega a hora.
A dona da voz bonita vem correndo na minha direção, acenando com a mão, sua figura ficando cada vez maior no meu campo de visão.
“Bom dia! Você chegou cedo, não foi? Estava tão animado assim para comprar uma armadura nova?”
“Ah, não, é que eu…”
—É que eu acho estranho estar sozinho com você, Eina. Mas não tenho coragem de dizer isso em voz alta.
“Bem, eu também estava animada. Sei que essa é sua ida às compras, mas estou ansiosa para começar.”
Eina está usando roupas que eu nunca tinha visto nela antes. Normalmente ela usa o uniforme impecavelmente passado da Guilda, mas hoje está com uma blusa branca rendada muito bonita e uma saia curta. Ela tem um ótimo senso de moda. Não consigo olhar para ela da mesma forma de sempre.
Talvez seja porque estou acostumado a vê-la sempre naquele uniforme, mas hoje ela parece mais… madura. Como posso dizer… ela está praticamente brilhando.
Sim, ela está muito bonita.
Estou completamente encantado com essa nova Eina.
“Você acha estranho eu ficar animada para comprar um equipamento que pode ser perigoso?”
“N-não, claro que não!” balanço a cabeça com força, mas Eina apenas dá uma risadinha.
Whoa… espera…
Eina provavelmente está entre o primeiro ou segundo funcionário da Guilda mais popular entre todos os aventureiros. Será que todas as meio-elfas são assim…?
“Ahem. Enfim, Bell?”
“Q-qual é?”
“O que você acha? Me ver fora do uniforme? Não tem nada a dizer?”
Ela olha para mim com os olhos de uma criança travessa.
Calma, calma…
“Você parece… bem… muito mais jovem do que o normal.”
“Ei! Eu ainda tenho só dezenove anos, sabia?!”
“Ai, ai, ai, ai, ai!!!!!”
Eina envolve meu pescoço com o braço fino e branco e me prende num mata-leão.
Enquanto tento escapar, minha cabeça acaba escorregando para debaixo do braço dela, e minha bochecha encosta em algo muito macio…
“Ei! Peça desculpa!!”
“P-pelo amor de Deus, me perdoaaaaaaa!!!” grito com todas as forças, por cima da risada divertida de Eina.
“Fazia tempo que eu não saía para fazer compras assim.”
“Sério? Estou surpreso que deixem alguém como você andar por aí sozinha… principalmente os caras.”
“Hee-hee, você sabe falar, Bell. Mas é verdade. Desde que comecei a trabalhar na Guilda, tenho estado ocupada o tempo todo.”
O céu está de um azul claro e brilhante.
Perfeito para um encontro… quer dizer, não é isso que estou tentando dizer, mas o clima é bem tranquilo. Sigo a senhorita Eina rumo ao sul pela North Main, com uma brisa refrescante soprando pelas minhas costas.
As ruas principais estão sempre cheias a essa hora do dia. É difícil até caminhar direito. Funcionários de lojas grandes e pequenas ficam do lado de fora tentando atrair clientes. Juro que o chão chega a tremer quando um anão grita anunciando as promoções da loja dele.
Alguns deles chamam Eina (aparentemente achando que eu sou algum tipo de criado), mas ela apenas acena educadamente com um sorriso. Um atendente homem-fera fica visivelmente feliz quando ela sorri para ele.
“Hum… posso perguntar para onde estamos indo hoje? Se continuarmos por aqui, vamos acabar chegando à Dungeon…”
“Você ficaria bravo se eu dissesse que ‘não saber faz parte da diversão’? …Tudo bem, eu conto.”
Orario possui oito avenidas principais que se estendem a partir do centro da cidade. Uma vai para o norte, outra para nordeste, leste, sudeste, sul, sudoeste, oeste e noroeste. Se olhar de cima, parecem quatro grandes linhas cruzando-se no meio da cidade.
A Dungeon fica exatamente no ponto onde todas se encontram.
Mas no nível do solo, todas essas avenidas convergem no Parque Central.
Ele está bem diante de nós agora. No centro do parque ergue-se um prédio gigantesco. Ele bloqueia cada vez mais a vista do sul de Orario enquanto espero a resposta de Eina.
“Nosso destino é… a Dungeon.”
“O quêêêê?!”
“A torre acima da Dungeon — Babel, para ser mais específica.”
A Torre de Babel funciona como uma espécie de tampa sobre a Dungeon. É aquele prédio enorme que neste momento projeta uma sombra gigantesca sobre o oeste de Orario.
Por servir como “tampa”, Babel é usada para monitorar e controlar a entrada da Dungeon.
Administrado pela Guilda, é um prédio que os aventureiros veem com muita frequência.
“Babel… não é só um prédio público e um… tipo de banheiro com chuveiro para aventureiros?”
“Você realmente não sabe de nada, né? Mas como você só é aventureiro há algumas semanas, acho que dá para entender. Certo, então hoje você vai receber algumas informações úteis.”
Eu me lembro muito bem do estilo espartano dela de “explicar” informações úteis sobre a Dungeon… e, para ser sincero, aquele olhar nos olhos dela está me assustando.
Rezando para que não seja tão intenso quanto daquela vez, preparo-me para a aula que vem aí.
“Como você disse, há banheiros com chuveiros para aventureiros e instalações públicas dentro da torre administrada pela Guilda. Mas você sabia que também existem uma cafeteria, um hospital e até um Posto de Trocas dentro de Babel?”
“Hã? Eu pensei que os Postos de Trocas da sede da Guilda e das filiais fossem os únicos.”
“Não. Também tem um aqui. Só que ele tem poucos funcionários, então dizem que as filas ficam enormes. Enfim, tem mais uma coisa. A Guilda aluga espaços dentro da torre para lojas e comerciantes… e é para lá que estamos indo hoje.”
Ah, agora entendi.
Viemos até aqui porque vamos visitar uma das lojas de equipamentos dentro da Torre de Babel.
“Como Babel foi construída bem em cima da Dungeon, naturalmente todas as lojas lá dentro são voltadas para aventureiros. Muitas são administradas por Familias mercantes especializadas. Imagino que você já tenha ouvido falar da Familia Hephaistos?”
“S-sim.”
Meu coração dá um salto. Minha mão automaticamente segura a faca presa na parte de trás da minha armadura.
“O quanto você sabe sobre a Familia Hephaistos, Bell?”
“Bom… eu sei que essa Familia fabrica armas e equipamentos de altíssima qualidade que todos os aventureiros querem…”
“Isso mesmo. E, por coincidência, hoje vamos visitar uma loja administrada pela Familia Hephaistos.”
“O-o quêêêê?!”
Esse foi o grito mais alto que dei o dia inteiro. Eina olha para mim com a mesma expressão de uma criança que acabou de fazer uma travessura — e eu sou a vítima.
Corro para alcançá-la, esperando alguma explicação.
Mas ela simplesmente dá um passo para o lado e revela um grande espaço aberto na base da Torre de Babel atrás dela.
“Chegamos…”
Parque Central.
Ele forma um círculo perfeito com a imensa torre branca no centro. Com árvores plantadas por toda parte e fontes embutidas no chão, realmente parece um parque.
Lá atrás, na North Main, todo tipo de gente se mistura enquanto segue com seus afazeres. Mas a maioria das pessoas no Parque Central carrega espadas enormes e lanças compridas — são aventureiros.
O mais assustador é que, mesmo com aventureiros suficientes para fazer minha cabeça girar, o Parque Central não parece nem um pouco cheio.
“Eina, o que está acontecendo? Eu pareço um aventureiro que poderia comprar alguma coisa da Familia Hephaistos?!”
“Não saber faz parte da diversão! Você vai entender quando chegarmos.”
“Eu estou suando frio desde que nos encontramos esta manhã! Não aguento mais isso!”
Ela olha diretamente para meu rosto tenso e meus olhos quase chorando, mas não demonstra a menor reação. Nem sequer diminui o passo.
“Vamos lá! Seja homem e pare de reclamar!”
Meu rosto fica vermelho e minha mente fica completamente em branco quando Eina segura minha mão e me puxa para dentro da torre.
As mãos finas dela são macias e quentes — o completo oposto das minhas. As mãos ficam ásperas quando você trabalha no campo todos os dias. Minha cabeça gira; não consigo organizar nenhum pensamento.
Enquanto abrimos caminho pela multidão, não consigo deixar de sentir que todos os aventureiros homens prestes a entrar na Dungeon estão me olhando como se quisessem me matar…
Respiro fundo e olho para o topo da torre para me acalmar.
“S-senhorita Eina, m-m-minha mão… Por favor, solte. Eu imploro…!”
“Já que estamos prestes a visitar uma das Familias de forjadores mais importantes, seria bom você saber um pouco sobre os ferreiros, não acha? Bell, você conhece as chamadas ‘Habilidades Avançadas’?”
Acho que ela vai simplesmente ignorar meu pedido atrapalhado. Eu sou um homem, mas nem consigo fazer ela me ouvir. Sinto que vou morrer aqui.
Tento me encolher atrás dela o máximo possível, tremendo.
“Não… não conheço.”
“Uma pessoa abençoada recebe uma Habilidade Avançada por escolha quando sobe de nível. Elas costumam ser mais especializadas do que as habilidades básicas.”
Eina simplifica dizendo que uma Habilidade Avançada é como uma recompensa por subir de nível… uma espécie de presente de rank up.
“Os tipos de Habilidades Avançadas disponíveis para escolha já são pré-determinados, mas uma delas se chama ‘Forja’.”
Burst Ability e Forja. Nunca ouvi essas palavras antes.
Segundo Eina, Forja é necessária para se tornar um ferreiro no mundo atual. E, aparentemente, mais da metade dos ferreiros da Familia Hephaistos possui essa habilidade.
Ou seja, mais da metade deles é nível dois ou superior. É um grupo extremamente forte.
“Ferreiros existem desde a antiguidade, é claro. A maioria das obras deles hoje são apenas relíquias antigas, mas algumas ainda podem ser usadas. Porém, ferreiros abençoados com a habilidade Forja conseguem adicionar propriedades especiais aos itens que criam.”
“Propriedades especiais…?”
“Uma habilidade única daquela arma. Você sabe como aventureiros podem ganhar Skills além do próprio status? Ferreiros com a habilidade Forja conseguem dar Skills às armas. Por exemplo, eles podem criar uma espada que nunca se quebra ou que permanece sempre afiada. Se fosse apenas moldar metal, isso não seria possível, certo?”
Muito verdade, concordo com um aceno de cabeça.
“Também existem armas que produzem algo muito parecido com magia — como lançar chamas quando são balançadas, coisas desse tipo.”
“Hã?!”
“Pensei que isso fosse conhecimento comum… Enfim, armas capazes de produzir efeitos semelhantes à magia são chamadas de Lâminas Mágicas. Apenas alguns poucos ferreiros conseguem fabricá-las.”
Engulo em seco. Isso significa que, se eu conseguisse colocar as mãos em uma dessas espadas mágicas, teria o poder de enfrentar espadachins muito mais experientes.
“Só um aviso rápido — as Lâminas Mágicas têm limite. Depois que toda a energia delas se esgota, elas quebram. E também não são tão poderosas quanto magias lançadas por um usuário de magia.”
Eina acrescenta, com um pequeno sorriso, que elas são descartáveis… e extremamente caras.
Acho que isso significa que a maioria dos aventureiros não usa espadas mágicas. Tenho certeza de que não é por falta de popularidade. Mas levar uma arma que pode quebrar para dentro da Dungeon, onde qualquer coisa pode acontecer, não parece muito confiável. É… provavelmente é por isso que a maioria das pessoas resiste à tentação de ter uma.
Bem… isso, e o preço absurdo.
“Hum, Eina… existem outras Habilidades Avançadas além de Forja?” Como aventureiro, eu precisava perguntar. Um dia eu também chegarei lá.
Eu também vou subir de nível!
“Bem, muitos aventureiros ganham habilidades chamadas Guarda Pesada ou Controle de Magia. Além dessas, também existe uma habilidade chamada Enigma.”
“Enigma…?”
“Sim, agora… como posso explicar… Ela permite que alguém realize um tipo especial de truque — um milagre, por assim dizer. Talvez ‘Arte Divina’ seja uma boa forma de chamar. Bell, você conhece a Pedra Filosofal?”
Não. Claro que não. Balanço a cabeça negativamente.
“Isso aconteceu há muito, muito tempo, mas um membro de uma Familia que possuía a habilidade Enigma conseguiu criar um item chamado Pedra Filosofal. Essa pedra concedia vida eterna ao usuário.”
“…Não sei por quê, mas minha boca simplesmente não consegue fechar.”
“Hee-hee, eu sei, né? Mas a história continua… Veja, o criador levou a Pedra Filosofal até o deus da sua Familia… O deus pegou a pedra na mão e a esmagou no chão diante dele… a fonte da vida eterna.”
“…………”
“Segundo a história, depois disso o deus olhou para o rosto completamente vazio do criador… e riu tanto que acabou até distendendo um músculo da barriga.”
Esse é o mito mais cruel que eu já ouvi.
Quando digo mito, estou falando de uma história sobre os deuses… com um final completamente terrível.
Sou muito sortudo por ter conhecido Hestia primeiro…
“A Pedra Filosofal foi criada por acidente, e todas as tentativas de recriá-la falharam. Ninguém depois daquele criador conseguiu dominar a habilidade Enigma, então a Pedra Filosofal dele acabou se tornando um item lendário.”
“Dominar…? Então essas habilidades também precisam de experiência para evoluir, como um status?”
“Não exatamente. Elas têm classificações de S até I, mas aumentar o nível delas não exige experiência como o status. É preciso muito mais para elevar o grau, e é extremamente difícil. Não tem nada a ver com evoluir uma Habilidade básica.”
Isso parece muito difícil… mas eu não digo isso em voz alta.
Ainda estou bem longe de passar por algo assim, mas consigo imaginar.
Chegamos ao portão da Torre de Babel enquanto ainda conversávamos. “Portão” talvez não seja a melhor palavra, porque o térreo da torre possui vários arcos distribuídos por toda a circunferência, permitindo que qualquer número de aventureiros entre por qualquer direção a qualquer momento.
Ao atravessarmos o arco mais próximo, um amplo saguão em tons de azul-claro e branco se abre diante de nós.
A entrada da Dungeon fica logo abaixo dos nossos pés.
“Daqui…?”
“Nós vamos subir. As lojas da Babel começam no quarto andar.”
O primeiro andar da torre é, como eu disse, um enorme saguão. O centro comunitário fica no segundo. Subimos até o terceiro, com Eina me puxando pela mão até o meio de outro saguão.
De relance, vejo o Exchange pelo canto do olho.
Mas não consigo enxergar escadas.
Há vários pedestais largos e circulares espalhados pelo chão do saguão. Eina me conduz até um deles. Um tubo transparente se ergue ao nosso redor. Juro que parece vidro…
Eina estende a mão até algum tipo de painel de controle.
No instante em que ela toca nele, o pedestal se desprende do chão e começa a flutuar no ar.
Ele sobe e sobe… não, está se estendendo para cima!
“?!”
“A-ha-ha, eu reagi do mesmo jeito na primeira vez.”
Parece que o pedestal e o tubo de vidro fazem parte de um dispositivo de transporte entre andares… provavelmente outro aparelho movido a pedras mágicas.
Isso significa que deve haver uma grande quantidade de pedras mágicas sob o pedestal, e a energia delas está sendo convertida em sustentação.
Eina olha para minha expressão surpresa e explica que as pedras mágicas precisam ser substituídas depois de certo tempo. Ou seja, isso aqui não funciona para sempre.
Em pouco tempo chegamos ao quarto andar da Babel.
“A loja que eu tenho em mente fica alguns andares acima, mas já que estamos aqui, vamos dar uma olhada ao redor. Você também quer ver os equipamentos de primeira linha, não quer, Bell?”
O andar inteiro está cheio de lojas de armas e armaduras. Admito que fico empolgado olhando para todas aquelas lâminas afiadas e reluzentes.
Assinto para Eina enquanto descemos do pedestal.
Há apenas um único símbolo em todo o andar:
Ἥφαιστος.
Não me diga… todas as lojas aqui pertencem à Familia Hephaistos…?
“Vejo que você percebeu o símbolo. Na verdade, todas as lojas do quarto até o oitavo andar pertencem à Familia Hephaistos.”
…O andar inteiro…
Quão poderosa é a Familia Hephaistos?!
Aliás, eles também têm uma loja perto da minha casa, com a deusa na Northwest Main.
A espada curta na vitrine… custa 8 milhões de vals.
Isso dá para comprar várias casas.
Aproximo-me da vitrine da loja mais próxima, e uma espada carmesim exposta ali chama minha atenção. Chego mais perto para ver o preço…
…Trinta milhões de vals?!
Todo o sangue parece desaparecer do meu rosto.
Levo a mão à testa, tentando me recompor. Percebo que, ao meu lado, Eina está rindo baixinho.
Eu estou carregando agora mesmo uma faca feita pela Hephaistos; foi um presente da minha deusa. Ela disse que era a única no mundo…
Quanto será que aquilo custou?!
“Bem-vindo à nossa loja! Posso ajudar em alguma coisa hoje?”
A atendente da loja provavelmente me viu babando enquanto encarava a espada carmesim. Ela se aproxima de nós com uma voz animada e alegre.
A garota é baixa, mas parece extremamente profissional, com um sorriso muito bem ensaiado estampado no rosto radiante. Dois rabos de cavalo pretos balançam ao redor da cabeça dela, deixando-a muito fofa.
Ela usa um uniforme vermelho-escuro em forma de avental, que está sendo empurrado para cima por seios grandes demais para o seu corpo, balançando a cada movimento…
“…Hum… Deusa? O que você está fazendo?”
“……”
O sorriso dela congela instantaneamente.
Então é por isso.
Eu pensei que ela estivesse mais cansada que o normal ultimamente.
Ela estava trabalhando aqui…!
“Por que você está aqui?! Você não precisa de dois empregos de meio período! Eu não acabei de dizer que podemos começar a economizar dinheiro agora que estou indo mais fundo na Dungeon?!”
“Escute bem, Bell. Você vai esquecer que me viu aqui e sair em silêncio agora mesmo…! Ainda é cedo demais para você estar aqui!”
“Também é cedo demais para você! Você não ganha trinta vals por hora no seu outro trabalho?!”
“Não faça pouco da minha carreira nos salgadinhos de batata!”
“Esqueça isso! Vamos, vamos para casa. Você é uma deusa! Não pode ser vista assim, é vergonhoso! Está tentando virar motivo de piada?”
“Me solta, Bell! Me solta agora!! Até deuses precisam jogar o orgulho fora quando os tempos ficam difíceis!”
“E quando é que os tempos ficam difíceis para deuses?! Por favor, só escute o que estou dizendo!”
Seguro o braço direito dela com as duas mãos, viro e tento ao máximo puxá-la para fora dali.
Por que, em nome dos céus, minha deusa está sendo tão teimosa…?!
Consigo sentir o olhar arregalado de Eina nas minhas costas, mas agora não é hora de me preocupar com isso.
“Ei! Garota nova! Pare de enrolar! Volte ao trabalho!!”
“Sim, senhor!”
“Hã?”
Boing! A deusa se torce e escapa do meu aperto, saltando para longe.
Observo seus dois rabos de cavalo balançando por um instante antes de ela desaparecer no fundo da loja.
“Deusa…”
“B-bem… pelo visto ela continua sendo uma deusa tão… interessante quanto sempre, não é?” Eina não sabe como responder à minha voz abatida e força um sorriso.
Sinto-me um pouco desanimado, mas então lembro que hoje não estou sozinho.
Ergo a cabeça à força.
…Por enquanto, vou esquecer esse problema com minha deusa.
“Desculpe por você ter visto aquilo…”
“Não tem problema. Vamos subir?”
Assinto levemente algumas vezes enquanto Eina, ainda com um sorriso um pouco constrangido, me conduz de volta ao pedestal.
Entramos no “elevador” (como esse elevador mágico é chamado) e logo chegamos a um andar mais alto.
“É aqui.”
“Chegamos…”
Eina empurra a porta de vidro, revelando outro andar tomado por lojas, assim como no quarto piso.
Espadas, lanças, machados, martelos de guerra, lâminas, arcos e flechas, escudos, armaduras e vários outros equipamentos estão expostos em todas as lojas desse amplo andar. A única diferença é que aqui há mais clientes — mais aventureiros.
Só de pensar nisso, acabo me encolhendo um pouco.
“Você está pensando que não deveria estar comprando nas lojas da Familia Hephaistos, não é, Bell?”
Não estou exatamente no melhor humor, então lanço um olhar para ela como quem diz que é um pouco tarde para falar disso agora. Mesmo assim, acabo concordando com um aceno.
Eina me observa como uma rainha olhando para um servo, sorrindo.
“Na verdade, isso não é totalmente verdade. Mas ver para crer! Venha comigo.”
Eina me guia até a loja mais próxima — pelo que parece, uma loja de lanças.
Ela me leva até a parede do fundo e para diante de um suporte cheio de lanças. Todas estão posicionadas em pé, com as lâminas apontando para o teto.
Quando começo a pensar lá vamos nós de novo, meus olhos captam a etiqueta de preço: 12.000 vals.
“H-hã…?”
Talvez… eu consiga comprar isso…
“Hee-hee, surpreso, não é?”
“S-sim… mas por quê?”
Esse preço é inacreditável. Chega a ser chocante. Eina também pareceu bem satisfeita quando perguntou se eu estava surpreso.
Continuo encarando as lanças.
“O que diferencia a Familia Hephaistos de outros ferreiros é que até os membros mais inexperientes deles fabricam itens que são vendidos nas lojas.”
“Isso… é permitido? Quero dizer, comparado aos mestres…”
“Claro que essas armas não ficam expostas ao lado das feitas por ferreiros mestres. Mas os novatos ganham uma valiosa experiência comercial e podem vender seu trabalho diretamente para aventureiros. Para os ferreiros mais jovens, receber feedback — tanto elogios quanto críticas duras — é uma grande vantagem. Tudo isso serve de motivação para que eles criem armas cada vez melhores.”
Fico um pouco surpreso, mas pensando bem… faz todo sentido.
Em vez de ficarem apenas treinando ou experimentando isolados, receber opiniões de pessoas que realmente usam as armas deve ser muito mais motivador.
“Também é bom para as lojas. Assim elas conseguem vender armas para aventureiros de nível bem baixo e atrair mais clientes.”
Ou seja, eles conseguem atrair iniciantes junto com os aventureiros mais fortes. Quando os novatos ficam mais fortes, passam a poder comprar armas melhores na mesma loja. Eina diz que é como uma pirâmide.
As lojas tentam atrair o máximo possível de aventureiros novatos para criar o maior número de relações possível. Quando esses aventureiros sobem de nível, tornam-se clientes frequentes e começam a comprar armas de alto nível.
Isso é algo bem característico de Orario. A enorme população de aventureiros cria todo tipo de vantagem e oportunidade.
“O mais importante aqui é que novos aventureiros e novos ferreiros criem vínculos logo no início de suas carreiras. Não importa se o vínculo é fraco ou forte.”
O que você quer dizer com isso? Pergunto apenas com o olhar.
“Novos ferreiros são descobertos por novos aventureiros através dos itens que produzem. Se um aventureiro se lembrar do nome do ferreiro, isso pode significar um cliente. Ferreiros muito talentosos — mas ainda inexperientes — podem estar escondidos no meio do mercado, esperando que um aventureiro com bom olho para qualidade os encontre. Talvez eles não se tornem grandes amigos, mas aventureiros que usaram as armas deles em combate, que sentiram a armadura no próprio corpo, podem oferecer o feedback mais valioso.”
…Faz sentido quando ela explica assim.
Pelo menos, é assim que me sinto em relação à minha adaga e ao equipamento leve que consegui através da Guilda.
“Ferreiros também podem despertar propriedades especiais nos itens que criam quando estão forjando para alguém específico, especialmente se houver um forte vínculo entre o ferreiro e o aventureiro… ou pelo menos é o que dizem.”
Eina mostra a língua de leve.
Eu simplesmente congelo no lugar.
Nem nos meus sonhos mais malucos eu teria imaginado ver Eina fazendo algo tão… infantil.
“Acabei me desviando um pouco do assunto, mas o que quero dizer é que existem itens feitos pela Familia Hephaistos que estão dentro do seu orçamento. Quanto dinheiro você tem agora, Bell?”
“Hum… devo ter por volta de dez mil vals.”
“Será que conseguimos encontrar um conjunto completo de armadura nova para você? Como eu disse antes, existem verdadeiros diamantes brutos feitos por ferreiros iniciantes. Só precisamos encontrá-los! Vamos!!”
Eina parece mais animada do que eu. Tudo o que consigo fazer é forçar um sorriso agora que já me recuperei um pouco do choque.
Ela me leva até uma loja que tem uma placa com uma armadura e um escudo do lado de fora. Com um sorriso animado no rosto, Eina sugere que nos separemos para procurar mais rápido. Então entro na loja sozinho.
A visão logo no primeiro passo dentro do estabelecimento é algo que eu nunca tinha visto antes.
Olhe só para isso! Será que tudo isso foi mesmo feito por ferreiros de nível mais baixo?
Tudo parece incrível!
Contemplar aquela verdadeira floresta de armaduras é, sem dúvida, o ponto alto do meu dia até agora.
Peitos de manequins completamente brancos exibem diversos tipos e formatos de armadura. Mesmo sem cabeça e braços, os torsos parecem estranhamente imponentes. Alguns manequins de corpo inteiro estão totalmente equipados. Consigo até me imaginar lutando usando aquelas placas de metal.
Escudos e elmos de batalha estão alinhados em prateleiras nas paredes. Alguns parecem completamente impenetráveis, outros são simplesmente lindos — há opções para todos os gostos.
Clientes homens e mulheres enchem a loja, todos procurando uma armadura que combine com eles. Pelo visto, também é possível experimentar as peças.
Acho que… estou começando a ficar um pouco empolgado…!
O que eu faço agora?… Hã?
Enquanto observo tudo ao redor, meus olhos acabam sendo atraídos para um canto no fundo da loja.
É o canto mais comum e sem graça do lugar. Há apenas uma caixa cheia de peças de equipamento largada ali.
São… peças de armadura?
O restante do estoque da loja está todo exposto nos manequins, então essas caixas seriam… restos? Elas estão simplesmente jogadas ali, como se fossem um monte de sucata.
Espera, tem outra caixa ao lado… e mais algumas depois dessa. Acho que devem ser itens que a Familia considerou não valer a pena colocar em exposição.
Tenho certeza de que não venderiam algo defeituoso, mas talvez tenham pequenas imperfeições ou algo assim.
“Ah… sim, estão à venda…”
Há etiquetas de preço na parte de baixo de cada caixa: 5.700 vals, 6.800 vals, 3.900 vals…
Todos os preços foram escritos com tinta vermelha por pessoas diferentes, mas todos são bem baratos.
O conjunto completo de armadura que vi perto da entrada da loja custa 15.000 vals, e minha armadura leve atual da Guilda custou 5.000…
Sim… acho que estou certo. Essas estão dentro do meu orçamento.
Por outro lado, Eina diria que isso é algo que vai salvar minha vida, então eu não deveria economizar demais.
“…?”
De repente paro diante de uma caixa no meio da fileira.
Essa armadura… há algo nela que parece me chamar, mesmo estando entre todas as outras caixas.
Prata.
Em vez de ter tons avermelhados ou o negro escuro de outras peças, esta brilha como metal branco puro.
Não tem cores chamativas nem decorações extravagantes. Parece que acabou de sair da forja e esfriar.
Ela está puxando as cordas do meu coração.
Eu me abaixo para olhar mais de perto — é uma armadura leve.
Há proteções para os joelhos e um pequeno peitoral moldado para se ajustar firmemente ao peito. Abaixo dessas peças encontro proteções de pulso e cotovelo, além de uma placa que cobre a parte inferior das costas.
Foi feita para proteger apenas o essencial do corpo, permitindo máxima mobilidade.
Uma espécie de armadura remendada.
Ao erguer o peitoral, descubro que ele é muito leve — bem mais leve que a armadura fornecida pela Guilda. Bater algumas vezes nela não me diz muito, mas acho que também é mais resistente que a minha atual. Pelo menos parece ser.
E… é exatamente do meu tamanho.
Isso é quase assustador.
Acho que me apaixonei.
Talvez seja porque foi a primeira que peguei nas mãos.
Mas, de repente, tudo o que consigo imaginar é a mim mesmo vestindo essa armadura.
Levanto o peitoral em direção à luz para examiná-lo melhor. Quando o viro, encontro algo gravado na parte interna: a assinatura do criador.
“Welf Krozzo.”
Parece que essa peça não foi considerada digna de levar o nome “Ἥφαιστος”.
Welf Krozzo…
Vou me lembrar desse nome.
Meu cérebro agarra esse nome como um falcão pegando um peixe na água. É o nome de um ferreiro que vou procurar a partir de agora.
Eina me contou sobre o vínculo entre aventureiros e ferreiros.
Então… é assim que isso se sente.
Já decidi. Quero essa armadura leve.
Quero comprá-la agora mesmo.
Vamos ver quanto custa—
Arf! 9.900 vals!
Isso é praticamente todo o meu dinheiro…
“Ei, Bell! Encontrei algo muito bom! Um protetor e uma armadura de couro! São um pouco caros, mas seria uma boa ideia pegar pelo menos um deles—Oh? Você encontrou alguma coisa?”
Eina voltou. Ela se inclina sobre mim e observa com uma expressão pouco impressionada.
Talvez ela não tenha gostado por estar sendo vendida dentro de uma caixa, como se isso fosse prova de que a qualidade é ruim.
“…Você vai comprar isso?”
“Sim. Vou comprar.”
“Haaa… Você realmente gosta de armadura leve, não é? Justo quando eu tinha encontrado algumas coisas boas para você também…”
“Desculpa.”
Eina vê meus ombros encolherem, já que eu realmente não tinha mais nada a dizer. Então ela força um sorriso e faz um gesto como se não fosse nada.
“Não se preocupe. Quem vai usar é você. Eu gostaria que pensasse um pouco mais na sua segurança… mas se você decidiu comprar essa, para mim já está bom.”
“…Obrigado.”
Eu me levanto novamente e pego a caixa.
Depois de ir até o balcão e pagar, fico com apenas 100 vals…
Hoje acabou saindo bem caro.
“Hã…?”
Eina sumiu.
Eu me viro, com minha nova armadura presa nas costas dentro da caixa, procurando por ela.
Quando começo a me perguntar para onde ela foi, finalmente a encontro.
Ela estava bem atrás de mim, com um sorriso brilhante no rosto. Talvez tivesse acabado de sair de outra loja?
“Bell, toma.”
“…O quê?”
Ela me entrega calmamente uma peça longa e estreita de armadura para o braço.
Ela se encaixa logo acima do pulso e se estende até o cotovelo. Pela parte externa, dá para perceber que foi feita para ser usada quase como um pequeno escudo.
A armadura tem a mesma cor dos olhos de Eina: verde-esmeralda.
“E-essa é…?”
“É um presente meu, então por favor use, certo?”
“O quê?! N-não posso aceitar isso! Vou devolver!”
“O quêê? Está dizendo que não pode aceitar o presente de uma garota?”
“N-não é isso… É que eu me sinto tão patético!”
Com o suor escorrendo pelo rosto, acabo soltando exatamente o que estou sentindo. Não importa que ela seja mais velha do que eu — receber um presente de uma garota desse jeito…
Parece que fiz algo errado.
Eina abre um grande sorriso enquanto meus ombros começam a desabar de novo.
“Eu quero que você fique com isso. Não por mim, por você.”
“O quê…?”
“A verdade é que aventureiros nunca sabem realmente quando vão morrer. Mesmo os mais fortes simplesmente desaparecem, como se fosse um capricho de um deus. Eu conheci muitos que não voltaram.”
“……”
“…Eu gostaria que você não fosse um deles, Bell. O-ho, acho que no fim das contas esse presente é para mim mesma.”
Eina ri baixinho, mas não tira os olhos de mim.
Aqueles olhos tranquilos.
“Isso é ruim?” ela pergunta.
Olho para o chão.
Meu rosto vermelho fica escondido atrás do cabelo.
Depois de ouvir isso, eu não tenho coragem de recusar o presente.
“…E Bell, você disse que me amava.”
Meu rosto fica completamente vermelho. Meu pescoço se move de repente e levanto a cabeça para encarar os olhos dela.
Parece que ela também está corando bastante.
“A-aquilo foi… bem… eu só estava muito feliz por você estar me encorajando…!”
“Eu também fiquei feliz quando você disse que me amava. Eu sei que você não quis dizer nesse sentido.”
Os dois estamos corando como loucos.
“Não é só por causa disso, mas eu quero te dar força. Você tem se esforçado tanto, e eu quero te ajudar. Você aceita, por favor?”
Sniff.
Meu nariz começa a escorrer.
Eu limpo com a manga e balanço a cabeça em concordância.
“Obrigado…muito mesmo……”
“De nada.”
Consigo sentir um calor suave vindo do protetor verde-esmeralda no meu braço.
“Já está ficando bem tarde…”
O céu está ficando vermelho. O fim da tarde já chegou.
Acompanhei Eina até a casa dela depois de terminarmos as compras, e agora estou perto da minha.
Corro pela West Main e encontro a ruela de sempre que leva à antiga igreja.
Quem diria que eu ficaria tão nervoso perto da Eina… Isso não é bom.
Consigo até imaginar Aiz Wallenstein olhando para mim com decepção e gritando um monte de coisas. Claro, isso está tudo na minha cabeça.
Eu não quero pensar que poderia estar interessado em outra pessoa…
Ainda agora há pouco eu estava pensando em como seria incrível ter um harém.
Ha-ha-ha… dou uma risada curta, tentando fugir desse fato.
A pessoa certa para mim é a senhorita Wallenstein; a única pessoa para mim é a senhorita Wallenstein…
“…Passos?”
Eu paro de correr.
Tum, tum, tum. O som de alguém correndo vem da outra ponta da ruela. Não… são duas pessoas — uma maior e uma menor. Dá para perceber pelos ecos dos passos.
“De onde…?”
Acabei de sair da West Main. Olhando para trás, ainda consigo ver pessoas se movendo na rua cheia. Os passos estão ficando mais altos, e estão vindo para cá.
Eles ainda estão um pouco distantes, mas não gosto da ideia de acontecer algum problema tão perto da minha casa.
Sendo o mais cuidadoso possível, espio timidamente pela esquina da minha rota habitual.
“Ai!”
“Hã?!”
Uma sombra que passa diante do meu rosto de repente cai no chão. Deve ter tropeçado no meu pé quando tentou virar a esquina.
Tentando conter meu próprio grito, eu me viro para olhar melhor.
…Um prum?
A pessoa é um pouco mais baixa que a deusa, com membros tão finos que parecem que quebrariam se eu tocasse. Ao ver como todas as partes do corpo são pequenas, o nome de uma certa raça de semi-humanos me vem à mente.
Eles são conhecidos por amar boa comida, dança e alegria.
“Com licença, você está bem?”
“Eh…h.”
O prum gaguejante se levanta do chão.
É uma garota. Seu cabelo castanho, bagunçado, é longo o bastante para esconder o pescoço.
Ela parece uma criança. Isso explicaria seu tamanho pequeno. Seus olhos grandes e redondos causam uma forte impressão.
“Te achei, sua prumzinha desgraçada!”
Estou prestes a estender a mão para ajudar a garota a levantar quando um humano aparece na outra ponta da rua. A voz cheia de raiva faz a garota tremer de medo. Coitada.
Os olhos do homem brilham de fúria, e ele parece ser um aventureiro também.
Ele deve ter… talvez uns vinte anos? Tem uma espada relativamente grande presa nas costas e parece muito mais experiente do que eu.
“Cê não vai escapar…!”
O homem parece um demônio soltando fogo do inferno enquanto olha para sua presa.
Ele nem está olhando diretamente para mim, e mesmo assim eu recuo um pouco de medo. Esse cara é assustador…
—O que ele pretende fazer com essa garota prum?
Meu corpo se move sozinho assim que esse pensamento passa pela minha cabeça.
Dou um passo à frente, ficando no caminho dele e escondendo a garota atrás de mim.
“…Que diabos?! Garoto, você tá no caminho! Cai fora!”
O homem estava tão focado na garota que só agora percebeu que eu estava aqui.
Minhas bochechas tremem. Já encarei centenas de monstros, mas não estou acostumado com essa sensação.
Enfrentando a aura opressiva do homem, firmo minha postura e travo as pernas no lugar.
“É… O que você pretende fazer com essa garota?”
“Cala a boca, pirralho! Se não sumir agora mesmo, eu te corto junto com esse pedaço de lixo atrás de você!”
—Não… não consigo sair do lugar.
Meus olhos ficam um pouco marejados, mas já tomei minha decisão.
Não sei os detalhes, mas esse homem está prestes a fazer algo muito cruel com a garota atrás de mim.
Tiro minha mochila dos ombros e a jogo de leve contra a parede do prédio mais próximo.
Claro que o homem fica surpreso, mas consigo ver uma expressão de choque também no rosto da garota atrás de mim.
O olhar vazio nos olhos do homem desaparece quando uma nova onda de raiva vermelha toma conta dele.
“Garoto…! Tá querendo morrer?!”
“E-espera… só um minuto. Se você puder se acalmar…!”
“Cala a boca!! Que diabos há de errado com você?! Aquela tampinha aí é sua amiga ou algo assim?!”
“N-nunca vi ela na minha vida.”
“Então por que diabos você tá protegendo esse pedaço de lixo?!”
“…P-porque ela é uma garota.”
“Que diabos você tá dizendo…?!”
Sério… o que é que eu estou dizendo…? Mas acho que não tenho escolha.
Esse realmente é o motivo. É isso que homens de verdade fazem, não é? É normal ajudar uma garota em perigo.
Eu preciso de mais algum motivo além disso?!
“Tá bom… então vou cortar sua garganta primeiro, pirralho…!”
O homem leva a mão para trás das costas e puxa sua espada.
Consigo sentir a intenção de matar dele por todo o meu corpo. Em resposta, saco a Faca Divina.
Ah… ouço alguém puxar o ar atrás de mim.
Dando uma rápida olhada, vejo que a garota está com os olhos fixos em mim.
Não… em mim não… na Faca Divina?
O homem fica surpreso por um instante, mas logo assume uma postura de combate e me encara com puro ódio.
—Isso é ruim.
Essa é a primeira vez que enfrento outro humano… Minhas pernas não param de tremer. Será que eu… consigo lutar?
Eu já estou nervoso, e a energia assassina dele está começando a me deixar em pânico.
O suor escorre pelo meu rosto. Engulo a saliva repetidas vezes.
Um sorriso feroz surge nos lábios do homem quando ele vê minha coragem patética diante do perigo. Ele provavelmente percebeu que o oponente dele não está preparado para isso.
Ele dá alguns passos à frente.
Eu gostaria muito de recuar alguns passos… mas reprimo esse impulso apenas com força de vontade.
Não consigo imaginar isso terminando bem para mim.
Mas eu não posso recuar.
Preciso reunir toda a minha força só para erguer os olhos e encará-lo.
No instante seguinte, o homem salta diretamente na minha direção.
“Pare aí mesmo.”
O homem nunca chega a baixar sua lâmina.
Uma voz firme ecoa pelo lugar.
Tanto eu quanto ele olhamos para a origem da voz.
Uma garota élfica, segurando um grande saco de papel, está a poucos passos de distância.
Assim como Eina, seus olhos e nariz são bem definidos. A principal diferença entre ela e a meio-elfa é que as orelhas dessa garota terminam em pontas bem afiadas.
Olhos azul-celeste em forma de amêndoa atravessam o aventureiro como lâminas.
Espera… ela não é… Lyu? Uma das garçonetes que trabalham no The Benevolent Mistress?
“De onde esses ratos continuam aparecendo…?! Qual é o seu problema?!”
“Aquele que você pretende matar… está destinado a se tornar companheiro de alguém insubstituível para mim. Não permitirei que você o machuque.”
O que ela acabou de dizer…?
“Que diabos tem de errado com as pessoas hoje?! Vocês querem tanto assim morrer?!”
“Silêncio!”
—O próprio ar parece congelar.
O homem, que estava gritando a plenos pulmões, engole as palavras.
Lyu está diante de nós, os olhos estreitos como lâminas.
A pressão da presença dela é intensa.
Um olhar de pânico começa a surgir no rosto do homem.
Não tenho moral nenhuma para criticá-lo; eu também estou tremendo.
“…—…?!”
“Eu não desejo cruzar lâminas com você. Tenho o mau hábito de ir longe demais.”
A voz de Lyu soa distante, quase entediada. Ela está banhada pela luz vermelha do pôr do sol que entra pela rua West Main atrás dela.
Eu aposto—sim, tenho certeza.
Isso tem que ser verdade; consigo perceber o quão forte ela é apenas pela postura.
O aventureiro começa a mexer os lábios, como se estivesse prestes a fazer uma última ameaça.
Ouço um som metálico seco — shing — e de repente há um estilete na mão livre de Lyu.
N-nem consegui ver quando ela sacou…
“M-MALDIÇÃO!”
O rosto do homem fica levemente pálido antes de ele bater em retirada às pressas.
“……”
“Você está bem?”
A garota à minha frente acabou de fazer um aventureiro recuar… sem sequer precisar dar um golpe.
Agora estou mais do que um pouco assustado com ela.
Limpo o suor acumulado sob o queixo.
Não sei se estou suando tanto por ter encarado aquele homem… ou por causa da demonstração de poder de Lyu.
Será que Lyu também é uma aventureira…?
“M-muito obrigado. Eu estava numa situação complicada…”
“Não, eu que peço desculpas por me intrometer. Tenho certeza de que você conseguiria lidar com essa situação sozinho.”
“Não tenho tanta certeza…”
Eu estava completamente paralisado. Não consigo me imaginar saindo daquela vivo.
Coço o queixo e evito olhar para ela.
“Hum, Lyu… por que você está aqui?”
“Eu estava comprando suprimentos para esta noite. Diferente da tarde, os aventureiros visitam nosso estabelecimento à noite. Então, se não estivermos bem abastecidos, muitos problemas podem ocorrer. Por acaso vi você no meio do meu trajeto… e você já sabe o resto.”
Faz sentido. O The Benevolent Mistress é um bar bastante popular, então eles devem acabar com os ingredientes e o vinho bem rápido.
Por outro lado, “você já sabe o resto”… Nós nem nos conhecemos tão bem assim. Talvez Lyu apenas tenha um forte senso de justiça?
“E você? Por que está aqui?”
“Bem, veja… essa garota aqui… Hã?”
Eu me viro rapidamente procurando pela garota prum, mas ela não está mais lá.
Ela simplesmente desapareceu.
“Alguém estava aqui?”
“S-sim. Pelo menos… eu achei que estava…”
Ela deve ter ficado assustada e fugido.
Não tem jeito; até eu estava morrendo de medo.
Mas ainda assim… isso parece um pouco estranho.
“Se me der licença, eu vou me retirar agora.”
“Certo,” digo. “E realmente, muito obrigado.”
Trocamos uma rápida reverência e seguimos nossos caminhos.
“Tudo certo…”
Bell, agora completamente equipado com a nova armadura que comprou no dia anterior, se observa no espelho.
Ela combinava muito bem com suas roupas internas e calças pretas. A nova armadura era tão leve que ele mal conseguia senti-la. Em combate, poderia se mover com total liberdade.
O novo protetor verde-esmeralda em seu braço esquerdo brilhava levemente.
Bell passa os dedos pela borda externa do presente de Eina, com um sorriso no rosto.
“Deusa, estou saindo!”
“Tá bom… Tenha um bom dia…”
Ele fez uma pequena careta ao ver sua deusa exausta, afundando cada vez mais no meio da cama. Bell estendeu a mão para a porta.
Ele já tinha desistido de tentar conseguir uma explicação sobre o motivo de a deusa estar trabalhando na Familia Hephaistos.
Bell deu uma última olhada no espelho.
Agora que não precisava mais usar o equipamento fornecido pela Guilda, ele realmente parecia um aventureiro de verdade.
Bell sorriu para o próprio reflexo e fez um leve aceno de aprovação.
Ele deixou o quarto escondido sob a única igreja, com a adaga e a Faca Divina guardadas na armadura atrás da parte inferior das costas.
Que tempo bom hoje…
O céu que se abria diante dele estava azul e completamente limpo.
Um sorriso surgiu em seus lábios enquanto ele observava o céu. Sentia como se algo bom fosse acontecer naquele dia.
Seguiu pelas ruas laterais até a Rua Principal Oeste, e depois até o Parque Central.
Bell se juntou às ondas de aventureiros que se reuniam diante da Torre de Babel.
Aproveite o dia… murmurou para si mesmo, pensando em certa garota de cabelos loiros e olhos dourados.
“Moço, moço. Moço de cabelo branco.”
Bell parou no meio do caminho, tentando entender se aquela voz estava falando com ele.
“Hã?”
Ele se virou na direção de onde a voz vinha, mas tudo o que viu foram outros aventureiros indo e vindo, todos evitando contato visual.
Nenhum deles parecia ser o dono da voz.
“Moço, aqui embaixo… aqui embaixo.”
A voz de uma garotinha chegou aos seus ouvidos.
Ao baixar o queixo, ele finalmente a viu.
A garota tinha cerca de 100 celch de altura e vestia um simples manto cor de creme. Um capuz cobria quase todo o seu rosto, deixando apenas um pouco de cabelo castanho à mostra.
Nas pequenas costas dela estava preso um enorme mochilão — pelo menos duas… não, três vezes maior que ela — grande o suficiente para surpreender Bell.
Os olhos de Bell se arregalaram ao sentir uma forte sensação de déjà-vu.
As memórias do acontecimento no beco no dia anterior voltaram de repente à sua mente.
“V-você não é…?”
“Prazer em conhecê-lo, moço! Se não se importar de eu perguntar, você está procurando um supporter?”
Interrompendo as palavras de Bell, a garota apontou um dedinho quase de bebê para as costas do rapaz.
Ela estava apontando para a mochila dele.
Qualquer um poderia imaginar que um aventureiro andando sozinho com uma mochila estava indo sozinho para a Dungeon — talvez até pensando se ao menos eu tivesse um supporter…
Então a garota veio confirmar e perguntou diretamente.
“O… o quê…?”
“Está confuso? A situação é bem simples, sabe. Uma pobre supporter veio até você, um aventureiro, para oferecer seus serviços na Dungeon.”
Em contraste com a expressão confusa e de olhos arregalados de Bell, a garota estreitou os olhos e abriu um enorme sorriso.
“Não, quer dizer… mas… você não é… de ontem…?”
“……? Moço, você já encontrou a Lilly antes? A Lilly não se lembra.”
Vários aventureiros que passavam por ali lançavam olhares irritados para os dois, perguntando-se o que estavam fazendo parados no meio da rua.
“Tem certeza?”
“Então, moço, você quer um supporter?”
“Bem… se eu pudesse encontrar um… Sim, eu gostaria.”
“Sério? Então por favor leve a Lilly com você, moço!”
A garota parecia muito feliz e inocente, seus olhos redondos brilhando sob a franja que escapava debaixo do capuz.
Esses grandes olhos então se voltaram para a faca presa na cintura de Bell.
“Acho que… tudo bem.”
“Ah! Nomes! Desculpe, a Lilly não se apresentou.”
A garota deu alguns passos para trás e sorriu alegremente para Bell.
“O nome da Lilly é Lilliluka Erde. Qual é o seu nome, moço?”
Os olhos que olhavam para Bell cintilavam de forma suspeita sob o capuz.