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Campione!: Matsurowanu Kamigami to Kamigoroshi no Maou – Volume 1 – Capítulo 6

Redemoinho na Noite de Trevas

Parte 1


Yuri e Amakasu levaram vários minutos até finalmente conseguirem escapar da região mergulhada em completa escuridão.


Por sorte, conseguiram parar um táxi cujo motorista ainda não havia percebido a anormalidade que tomava conta da área. Graças a isso, conseguiram retornar ao Santuário Nanao, próximo ao Parque Shiba.


Dentro do terreno do santuário havia um pequeno prédio de serviço, simples e de um único andar.


Era ali que Yuri havia guardado o Gorgoneion para mantê-lo em segurança. Um dos cômodos havia sido preparado especialmente para ela, permitindo que o utilizasse livremente.


Ela deixou Amakasu aguardando no pátio antes de entrar sozinha no prédio.


Quando retornou trazendo o Gorgoneion, Amakasu estava ao telefone, relatando a situação atual. Do outro lado da linha provavelmente estava alguém do Comitê de Compilação Histórica.


— Então o artefato responsável por todo esse problema é a Representação da Serpente… que objeto problemático.


Ele comentou isso após desligar o telefone, cerca de três minutos depois.


O encontro com Kusanagi Godou, o surgimento da autoproclamada amante vinda da Itália e a aparição da Deusa Atena — Amakasu havia relatado todos esses acontecimentos recentes.


Tudo havia se desenrolado tão rapidamente que sua atitude despreocupada, do tipo “vou fazer do meu jeito”, ficava ainda mais evidente.


Ainda assim, ele era um agente do Comitê de Compilação Histórica.


Alguém que compreendia magia até certo ponto, possuía treinamento em artes marciais e detinha vasto conhecimento sobre fenômenos sobrenaturais e divindades, tanto do passado quanto do presente… era natural que fosse assim.


— Ainda acho difícil acreditar que um artefato como o Gorgoneion tenha sido escavado na África… considerando sua ligação com uma deusa grega, isso parece muito estranho.


Yuri perguntou sem muita expectativa.


Ela apenas esperava encontrar algum indício que pudesse levá-la a uma resposta.


— Ah, não é estranho coisa nenhuma. Platão¹ escreveu certa vez, em um de seus diálogos, que “a deusa grega Atena e a deusa líbia Neith eram, na verdade, a mesma divindade.”


— Nos diálogos de Platão?


Ao ouvir Amakasu responder com tanta naturalidade, Yuri não pôde deixar de vê-lo sob uma nova perspectiva.


Como era de se esperar de alguém do Comitê de Compilação Histórica, seu conhecimento superava em muito o dela.


— Isso mesmo. Se não me engano, foi no Timeu². Na Grécia Antiga, essa história era bastante conhecida. Até Heródoto³ escreveu algo parecido, afirmando que “muitos dos deuses gregos haviam sido adotados de terras estrangeiras.”


Yuri ouviu tudo com admiração.


Como miko, ela havia recebido alguma educação sobre culturas ocidentais. Mesmo assim, apesar de saber mais do que a maioria das garotas de sua idade, seu conhecimento sobre a Grécia clássica ainda era limitado.


— Muitos dos deuses do panteão grego foram reunidos a partir de diferentes partes do mundo antigo. Suas origens incluem o Egito, a Líbia, a Babilônia, a Síria e vários outros lugares. Foi resultado da fusão de inúmeros deuses regionais e étnicos dentro de uma mesma mitologia.


— Então foi assim… eu realmente não fazia ideia.


— Não se preocupe. Na verdade, isso é algo comum entre os japoneses. Como sempre fomos um país insular relativamente fechado, tendemos a não perceber facilmente as mudanças culturais trazidas pela migração de povos. Por exemplo, até mesmo o deus que Kusanagi derrotou — Verethragna — tem raízes que remontam à Bíblia.


— Eh!? Sério!?


O deus persa da guerra, que possuía dez formas.


Como algo assim poderia ter relação com o livro mais famoso do mundo?


— Estritamente falando, seria um ancestral desse deus. Já mencionei antes que Verethragna foi associado a Héracles⁴ como um deus da vitória. Mas Héracles foi uma divindade criada pela unificação de vários deuses diferentes. E sua origem mais antiga remonta a Baal⁵, o deus das tempestades e divindade suprema de Canaã⁶.


— Então você quer dizer que a deusa africana Neith acabou sendo chamada de Atena mais tarde… algo assim?


Diante da pergunta de Yuri, Amakasu apenas deu um sorriso vago.


— Bem… quem sabe? Sobre esse tipo de coisa, acho melhor não dar opiniões quando sou apenas um leigo. Para ser sincero, essa é uma das partes mais complicadas quando falamos de Atena. A deusa tem ligações profundas não apenas com Neith… mas também com Medusa.


— Eu me lembro… quem derrotou Medusa foi Perseu, o herói que recebeu proteção divina de Atena.


Yuri recordou a famosa história da mitologia grega.


Com serpentes no lugar de cabelos e o poder de transformar qualquer um em pedra com seu olhar, Medusa encontrou seu fim quando Perseu lhe cortou a cabeça e a ofereceu a Atena.


— Esse mito revelou a relação entre Medusa e Atena. Você sabia que, depois de receber a cabeça de Medusa como oferenda, Atena passou a carregá-la consigo o tempo todo? Desde a antiguidade, o escudo de Atena⁷ quase sempre era representado com o rosto de Medusa.


Desde então, Medusa permaneceu ao lado da deusa dessa forma.


Não seria correto chamá-las de parceiras.


Era mais como se um forte laço de destino as unisse.


— Aliás, se você rastrear a origem de Medusa, vai descobrir que ela era originalmente uma deusa da terra vinda da África. Ela não era um monstro de verdade.


Divindades de outras culturas muitas vezes eram transformadas em monstros malignos na mitologia dominante, para diminuir sua importância.


Naturalmente, nesses mitos, esses “monstros” sempre acabavam derrotados.


Histórias sobre derrotar o mal e subjugar monstros eram comuns em inúmeras mitologias.


— Além disso, Atena também possui ligações com muitas outras deusas além de Medusa. Há simplesmente deusas demais com papéis semelhantes.


— Papéis semelhantes?


Yuri perguntou, percebendo que Amakasu — normalmente preguiçoso para explicar — estava surpreendentemente falante.


A conversa já havia se afastado completamente do assunto original.


Mesmo assim, ela sentia que aquilo era extremamente importante.


Não por curiosidade.


Mas porque seus instintos de miko estavam lhe dando um alerta.


— Deusas com nomes semelhantes ao de Atena aparecem em várias regiões: sul da Europa, norte da África e até no Oriente Próximo, nas áreas próximas ao Mediterrâneo como Turquia e Síria. O número de divindades com nomes parecidos é anormalmente alto.


— Atena, Atana, Atona, Anata, Asherat, Aset, Ath-enna… e por aí vai.


— Até o Baal que mencionei agora tinha uma irmã deusa da guerra chamada Anat. O nome também é parecido.


— Deusa da guerra… irmã…


Os pensamentos de Yuri giravam sem parar.


A irmã, filha e esposa do soberano do panteão.


A deusa da guerra.


A deusa serpente.


A deusa da vida.


— Esses nomes semelhantes em pronúncia e linguística não podem ser ignorados. Mesmo que originalmente fossem o mesmo nome, ele continuou circulando entre diferentes culturas, ganhando novos significados a cada vez… é assim que devemos encará-los.


Um sorriso amargo surgiu no rosto de Amakasu — talvez ele próprio percebesse o quanto haviam se afastado do assunto principal.


— Alguns dizem que Atena é uma deusa associada às corujas. Provavelmente é por isso que essa escuridão está se espalhando. Durante minha ligação agora há pouco, pedi um relatório de investigação do local.


— Do local… quer dizer, daquela zona de escuridão?


— Isso. Neste momento, Atena está se movendo pela região de Chiba em direção às vias expressas do centro de Tóquio. O objetivo dela deve ser esse Gorgoneion. Enquanto se move, está espalhando sua escuridão e convocando bandos de corujas…


Ele deu de ombros.


— Vai ser como um tufão.


Logo após Amakasu fazer essa observação despreocupada —


A escuridão engoliu completamente o Santuário Nanao.


Embora o santuário fosse cercado por árvores, ele ainda estava localizado no coração da cidade, e os arranha-céus ao redor sempre iluminavam o local.


Além dos postes, havia também os letreiros de neon brilhantes das lojas e prédios comerciais.


Mesmo no meio da madrugada, aquele lugar costumava ser bem iluminado.


Mas agora…


A escuridão que envolvia o lugar parecia profunda demais.


Densa demais.


Impenetrável.


A única luz restante no céu vinha de uma meia-lua, que iluminava fracamente o chão.


— Ah… então até aqui já caiu sob a influência da deusa…


Dentro do santuário coberto pela escuridão, Amakasu murmurou para si mesmo.


— Se as coisas chegaram a esse ponto… só resta torcer para que o rei demônio apareça logo.


— Caso contrário… isso vai sair completamente do controle.


Parte 2


— Esta é a presença do deus da escuridão… e o Gorgoneion, marcado com o selo da serpente, é um artefato ligado à terra. Então a deusa que governa tanto a terra quanto as trevas…


Yuri ergueu o olhar para o céu acima do santuário.


A noite diante dela era mais escura do que pérolas negras.


— As corujas são mensageiras de Atena. São aves da noite, associadas ao mau agouro e à desgraça. Mas, ao mesmo tempo, também são consideradas sagradas — símbolos da sabedoria. Desde tempos antigos representam tanto santidade quanto calamidade. Agora, juntando “serpente” com “coruja”… como devemos interpretar isso?


Amakasu murmurou, claramente incomodado.


Embora sua silhueta fosse invisível na escuridão, Yuri podia ouvir sua voz e sentir sua respiração bem próximas.


Outras pessoas também haviam se reunido dentro do santuário depois de perceberem que algo estava errado.


Talvez parecessem pouco confiáveis naquele momento, mas não havia muito o que fazer.


Em todo o país, eram raríssimas as pessoas capazes de enfrentar um Deus Herético.


Mesmo estando ali juntos, ninguém sabia o que fazer.


Yuri não conseguiu evitar um leve tremor.


Desde tempos antigos, os humanos sempre temeram a noite.


Com o surgimento da iluminação elétrica, esse medo havia sido em grande parte esquecido — mas não desaparecido.


Era um instinto profundamente enraizado.


Pouco antes, enquanto fugiam da zona de escuridão, eles haviam sentido isso com clareza.


Caminhar apenas sob a fraca luz da lua, guiando-se pelo toque em muros e corrimões… até o caminho mais comum se tornava inquietante.


Na escuridão da noite, as pessoas naturalmente se aproximavam umas das outras, independentemente de quem fossem.


— Viu? Enquanto ainda houver um pouco de luz, ainda podemos fazer alguma coisa.


De repente, uma chama alaranjada iluminou o ar.


Amakasu havia acendido um isqueiro.


Mas a chama se apagou imediatamente.


— Então… qualquer coisa que produza luz perde a força?


— Exatamente. Um atributo de escuridão assustadoramente poderoso… como esperado de um Deus Herético.


Não importa a época ou o país — os humanos sempre deram nomes e histórias aos deuses.


Deuses poderosos não apenas ameaçavam os homens… eles também os humilhavam.


Nos tempos pré-históricos, esses deuses ainda não tinham nomes.


Mas, com o tempo, a humanidade começou a perceber a presença deles entre céu e terra.


Furacões e inundações eram vistos como a ira dos deuses.


Bestas ferozes e perigosas eram veneradas como suas encarnações.


Com o passar das eras, as pessoas passaram a nomear essas divindades — e a tecer mitos ao seu redor.


Por exemplo, Eru, o criador da terra.


Ogmios, deus da guerra.


Artemis, deusa das florestas selvagens.


Ou ainda Ogoun, deus da batalha e da forja.


Tezcatlipoca, o deus destruidor que enlouquecia os guerreiros.


Também havia Susanoo, o errante celestial.


E Vishnu, o deus das doze encarnações.


Eles eram tão numerosos quanto as estrelas no céu.


E, de certa forma, todos haviam nascido das mãos humanas.


Pode-se dizer que isso era um ritual criado pela humanidade — uma forma de conter o poder esmagador dos deuses.


Quando recebiam nomes e mitologias, os deuses não deveriam ultrapassar certos limites.


Seja ao conceder bênçãos ou ao impor punições, suas ações deveriam permanecer dentro do domínio de suas histórias.


Assim, os humanos poderiam lidar com suas ameaças e seus milagres.


Mas… e se um deus decidisse ultrapassar os limites do próprio nome?


Se abandonasse o significado de sua mitologia…


E retornasse à sua forma original — aquela que existia antes de ser limitada pelos mitos?


Um deus assim era chamado de Deus Herético.


Esses deuses rejeitavam as histórias criadas pelos homens e desciam novamente ao mundo.


Alguns vagavam pelas terras que haviam criado seus nomes.


Outros viajavam para lugares distantes.


Mas, de uma forma ou de outra…


Os Deuses Heréticos sempre traziam calamidade à humanidade.


Se um deus do sol descesse, o mundo seria consumido por um calor insuportável.


Se um deus do mar descesse, os oceanos engoliriam a terra.


Se um deus do submundo descesse, pestes se espalhariam e a morte visitaria cada cidade.


Se um deus do julgamento descesse, punições cairiam sobre todos os povos.


Apenas por caminharem pelo mundo, eles traziam desequilíbrio e mudança.


Agindo de acordo com seus próprios caprichos, buscando afirmar sua própria existência…


Esses eram os Deuses Heréticos.


— Mas aquela escuridão não apagou apenas a luz… ela também fez os veículos pararem. Como isso aconteceu? Ainda bem que não houve grandes desastres, mas…


Yuri voltou à pergunta que havia feito antes.


Carros viajando por vias expressas que de repente perdessem toda iluminação inevitavelmente causariam acidentes.


E se todos os lugares por onde Atena passasse acabassem assim…


Só de imaginar já era assustador.


— Uma sorte no meio do azar — respondeu Amakasu. — A escuridão baniu tanto a luz quanto o fogo. Tudo que dependia desses dois simplesmente parou de funcionar. O poder de Atena desligou não só as luzes, mas também os motores dos veículos. Alguns acidentes são inevitáveis… mas, felizmente, nada catastrófico.


Ele continuou listando tudo o que havia parado de funcionar.


Não apenas a iluminação elétrica — equipamentos que usavam gás ou óleo também haviam sido afetados.


Por outro lado, telefones, rádios e aparelhos como ar-condicionado ainda funcionavam normalmente.


A escuridão já havia engolido entre um terço e metade dos distritos de Edogawa, Koto e Chūō, avançando agora em direção à área portuária.


Sob essa influência, o metrô da região leste de Tóquio também havia parado.


— …Mesmo sendo algo esperado, isso não é um pouco exagerado?


— Atena não é uma deusa cruel ou maligna. Mesmo causando problemas, ela não provocará uma destruição total. Com o poder dela, devastar tudo seria fácil… então é apenas uma questão de quanto tempo isso vai durar.


As preocupações de Amakasu eram perfeitamente justificadas.


Eles precisavam resolver aquilo o quanto antes.


Mas as dúvidas dentro de Yuri só cresciam.


Algumas horas antes, Kusanagi Godou havia partido para encontrar Atena.


E ainda não havia retornado.


Em vez disso…


Atena havia chegado a Tóquio.


Não apenas apareceu — como estava causando caos por toda parte.


Seu comportamento parecia descuidado demais.


E se houvesse um matador de deuses por perto?


Ela não deveria ser mais cautelosa?


— A menos que… Kusanagi-san já tenha sido derrotado por Atena…


Yuri sentiu um aperto no peito.


E se algo assim realmente tivesse acontecido?


Mesmo possuindo o poder de um rei demônio…


Godou não parecia confiável.


Aos olhos dela, ele parecia apenas um estudante comum, da mesma idade.


Antes de conhecê-lo melhor, Yuri havia sentido medo.


Ansiedade.


Até vontade de fugir.


Mas depois…


Em vez de medo, ela sentiu alívio.


E acabou até repreendendo-o por agir de forma imprudente.


Nunca havia falado assim com ninguém.


Nem com homens.


Nem com mulheres.


Quando estava com Godou, suas emoções pareciam estranhamente relaxadas… e isso a tornava descuidada.


Talvez houvesse algo em comum entre os dois.


Graças ao seu sexto sentido, Yuri geralmente conseguia perceber, logo no primeiro encontro, se conseguiria se dar bem com alguém.


Assim que percebeu esse pensamento…


Ela balançou a cabeça.


Afinal, aquele sujeito já tinha uma amante tão vulgar.


Ela definitivamente não deveria se aproximar dele.


Sim.


Definitivamente.


Nem que o mundo virasse de cabeça para baixo.


— P-primeiro precisamos entrar em contato com ele. Amakasu-san… pode me emprestar seu celular?


— Claro, fique à vontade. Se puder, peça para ele nos ajudar a derrotar Atena. Afinal… não temos outra opção.


Sem esperar resposta, Amakasu colocou o celular nas mãos de Yuri.


Talvez fosse efeito da influência de Atena, mas a tela parecia mais apagada do que o normal.


Ainda assim, segundo Amakasu, o aparelho deveria funcionar.


Quando se separaram, Godou havia anotado seu número em um pedaço de papel e entregado a Yuri.


Ela já havia memorizado.


A ligação foi rápida.


Depois de alguns toques…


Alguém atendeu.


— Eh~~?


— Sou eu, Mariya. Kusanagi-san? Onde você está agora!?


Yuri falou imediatamente ao ouvir aquela voz familiar.


— Ah… estou perto da área de Kasai Arakawa. Todos os carros e o metrô pararam. Ah, e preciso te avisar: Atena está se movendo em direção ao Gorgoneion. Por onde ela passa, luz e fogo deixam de funcionar. Tome cuidado.


— Eu já sei disso! O que você está fazendo agora? Atena já chegou à área portuária!?


Houve uma breve pausa.


— …Infelizmente, Atena levou a melhor contra mim. Acabei de voltar das portas da morte.


— Das portas da morte!? Você está bem!? Se não consegue se mover, eu vou até—


Yuri entrou em pânico.


Sua intuição dizia que aquilo não era brincadeira.


Godou não era o tipo de pessoa que faria piadas numa situação dessas.


— Ah, estou bem. Não se preocupe. Sabia que meu corpo é absurdamente resistente? Não morreria tão fácil assim… embora talvez eu pudesse usar isso para mentir para as pessoas.


— Mentir!? Pare de dizer coisas absurdas! Depois de um ferimento desses você ainda fica correndo por aí? Isso é completamente irresponsável!


Yuri não conseguiu evitar a bronca.


Deixar aquele sujeito sozinho parecia pedir problemas.


Mas o que Godou disse em seguida acalmou um pouco suas preocupações.


— Está tudo bem. Eu não sou um humano comum. Mas preciso da sua ajuda. Você pode recusar… mas, por favor, me escute primeiro.


— …O que é? É algo que eu possa fazer?


— Sim. Na verdade… só posso contar com você para isso. É perigoso, então você pode recusar… mas eu gostaria que você esperasse aí… e preparasse uma emboscada contra Atena.


— Uma emboscada!?


Emboscar Atena, um Deus Herético.


Isso era praticamente suicídio.


— Quando Atena chegar perto de você, chame meu nome. Assim… eu devo conseguir voar até onde você está.


— Voar…? Esse é outro poder seu?


— Acho que sim. Se alguém que me conhece me chamar pelo nome… posso voar até essa pessoa. Pelo menos… acho que é assim que funciona.


— …Você não para de dizer “acho” e “deve”. Eu ouvi errado?


— Bem… na verdade ainda não tenho certeza. As condições precisam ser confirmadas. Talvez nem funcione sempre. Mas parece que precisamos conhecer o rosto um do outro, perceber que o outro está em perigo… e estar ao ar livre. Se essas condições forem atendidas… acho que consigo usar.


— Você tem certeza disso?


— Acho que sim… não sei exatamente o quanto de perigo é necessário, mas enfrentar um deus deve ser suficiente.


— Quem concordaria com algo tão perigoso e incerto!?


— Pois é… eu pensei o mesmo. Desculpe por pedir algo assim. Não parece que conseguiremos alcançar Atena a tempo… então tentei pensar em outro jeito. Você está em perigo? Esqueça o Gorgoneion. Saia daí e deixe Atena comigo.


As palavras diretas de Godou fizeram Yuri hesitar.


Ele também não queria pedir aquilo.


Mas…


Sem esse plano, ele não conseguiria alcançar Atena.


E se aquilo precisava ser feito…


E se apenas ela podia fazê-lo…


Então…


— Eu entendo. Vou esperar aqui com o Gorgoneion até Atena chegar… e vou chamar seu nome. Então venha. Eu realmente não quero morrer num lugar desses.


Aquilo não era exagero.


Diante de um Deus Herético tão poderoso, qualquer coisa poderia acontecer.


Apenas encontrar o olhar de Atena poderia fazê-la perder a sanidade.


Essa era a diferença entre humanos e deuses.


— …Tem certeza, Mariya-san? Mesmo eu tendo pedido isso… não tome uma decisão precipitada.


— Não há outro jeito, certo? Se houvesse, você não teria pedido isso. Você é uma pessoa irritante… mas não é do tipo que faria uma piada cruel dessas.


— Fico feliz em ouvir isso… mas nós só nos conhecemos hoje. Tem certeza de que pode confiar em mim?


— Afinal, eu sou uma hime-miko de Musashino. Eu consigo perceber essas coisas. Vou ajudá-lo apenas desta vez… então trate de chegar logo.


Yuri encerrou a ligação antes que ele pudesse responder.


Se continuasse ouvindo seus argumentos…


Sua determinação poderia vacilar.


Ela levantou a cabeça.


Só então percebeu que Amakasu e todos os presentes no santuário estavam reunidos ao seu redor.


— …Yuri-san, desde quando você ficou tão próxima de Kusanagi Godou?


— Amakasu-san, não diga coisas assim. Em que parte daquela conversa parecemos “próximos”? De qualquer forma… preciso levar o Gorgoneion para fora do santuário.


Ela respondeu calmamente ao Amakasu surpreso.


— Kusanagi-san tem o poder de voltar para cá… mas preciso servir como guia. Porém não podemos atrair Atena para este lugar. Precisamos levá-la para algum lugar com menos pessoas… então, por favor, cuidem do resto depois.


Com toda a dignidade de uma hime-miko, Yuri deu a ordem.


Embora falasse de forma educada…


Ainda era uma ordem.


E não havia espaço para recusas.


— Isso é perigoso demais. Deixe que eu atraia Atena.


Amakasu sugeriu.


Todos permaneceram em silêncio diante do olhar firme de Yuri.


Todos, exceto ele.


— Não, Amakasu-san. Você não pode chamar Kusanagi-san até aqui. Apenas eu posso cumprir essa condição. Por isso… eu devo ir sozinha.


Contra Atena, levar mais pessoas não faria diferença.


Pelo menos, indo sozinha, ela evitaria vítimas desnecessárias.


Yuri sorriu suavemente, tentando tranquilizar Amakasu.


— Vai ficar tudo bem. Kusanagi-san prometeu que virá. Quando a situação é assim… ele sempre cumpre suas promessas.


— Pelo menos… foi o que minha intuição disse.


Parte 3

Yuri apressava os passos pelas ruas envoltas em escuridão.


Agora ela só podia confiar na luz da lua, no brilho das estrelas e em seus próprios olhos — que finalmente haviam se acostumado à escuridão.


Normalmente, mesmo à noite, aquele lugar ainda estaria iluminado.


Nas ruas comerciais, a luz sempre escapava pelas janelas dos prédios altos, e inúmeros postes iluminavam o caminho.


Mas agora… não havia nenhuma luz criada pelo homem.


Uma escuridão absoluta havia engolido toda a região.


Ao olhar para o relógio de pulso, Yuri percebeu que já passava das 11 da noite.


Não havia ninguém por perto.


Sem trabalhadores do turno da madrugada, o número de pessoas que costumava circular pelas ruas comerciais tarde da noite já era naturalmente menor do que durante o dia. Ainda assim, havia moradores que viviam na região — e certamente também deveria haver pessoas voltando para casa depois de trabalhar até tarde.


Mas o lugar parecia completamente morto.


Silencioso.


Desolado.


Todos haviam se refugiado dentro de suas casas ou locais de trabalho, aguardando a chegada da manhã.


Afinal, se saíssem…


A única coisa que encontrariam seria um abismo infinito de escuridão.


Em um ambiente onde nem mesmo lanternas funcionavam, a única pessoa que ousava caminhar pelas ruas era Yuri.


Aquelas ruas deveriam ser familiares para ela.


Em circunstâncias normais, seria impossível se perder ali.


Mas aquela noite era diferente.


Yuri mantinha as mãos tocando paredes, grades e corrimãos enquanto avançava, tentando entender o ambiente ao seu redor. Caminhava sem sequer saber o que havia poucos metros à frente.


Nessas condições, seu senso de direção simplesmente não funcionava.


Já não era mais possível dizer exatamente onde estava.


Yuri continuava caminhando como um inseto cego.


Seu destino era um lugar ainda mais vazio que a rua comercial — a Baía de Tóquio.


Dentro da bolsa que carregava estava o [Gorgoneion].


Apenas carregar aquele objeto já tornava impossível fugir daquela cidade mergulhada em trevas — uma cidade que já havia caído completamente sob o domínio de Atena.


Mesmo assim, Yuri queria conduzir o confronto entre Kusanagi Godou e a deusa para uma área com menos pessoas.


Ela se concentrava apenas nisso.


Era esse único pensamento que a fazia continuar avançando sozinha por aquelas ruas escuras.


Yuri ainda vestia suas roupas de miko, e em uma noite comum muitas pessoas certamente a olhariam com curiosidade.


Mas agora…


Não havia um único olhar sobre ela.


De repente, uma inexplicável sensação de solidão tomou conta de Yuri.


Foi então que ela estava prestes a atravessar a rua.


Como todos haviam abandonado seus carros e fugido, não havia motivo para se preocupar com trânsito.


Ainda assim—


Uma voz a chamou por trás.


E a fez parar.


— ...Tu, miko que serves aos deuses desconhecidos. Entrega o relicário da [Serpent].


A noite permanecia silenciosa.


Um silêncio estranho, antinatural, envolvia tudo ao redor.


A voz soava como o vento noturno — suave, sem perturbar a quietude da escuridão.


— Athena é o meu nome. Filha de Zeus, viajante que caminha pelas sombras. Venho recuperar a [Serpent] que repousa em tuas mãos. Pela insolência de servires deuses estrangeiros… deves pedir perdão agora.


Uma presença divina esmagadora se aproximava passo após passo.


Yuri olhou ao redor.


Bastou um único olhar para entender.


A garota que caminhava lentamente em sua direção…


Era Atena.


Banheira pela luz da lua, a deusa parecia frágil e delicada.


Mas a força que emanava dela era esmagadora.


Seus cabelos ondulavam ao vento da noite, espalhando uma sensação de presságio.


Fios e mais fios de cabelos prateados cintilavam sob a lua.


Aos olhos de Yuri…


Pareciam incontáveis serpentes.


— Antiga [Serpent]… finalmente encontrada. Com isto, poderei retornar à antiga Atena. À Atena rebelde. Miko, leva esta história — a história das três deusas que despertam em uma só — e transmite-a às gerações futuras.


Atena apenas estendeu a pequena palma de sua mão.


Só isso.


A bolsa nas mãos de Yuri se abriu de repente.


O [Gorgoneion] saltou para fora e voou diretamente para as mãos da deusa.


— Assim é a antiga [Serpent]… finalmente recuperei meu passado.


Um leve sorriso surgiu no rosto de Atena.


Mesmo na escuridão profunda, Yuri podia sentir claramente sua alegria.


Então—


A deusa ergueu a voz para o céu.


E começou a cantar.


— Eu canto o cântico da deusa trina.

Que une céu, terra e escuridão; renascimento e sabedoria.


— Eu canto a melodia da deusa deposta.

Nascida rainha, mas tratada como serpente proibida — eis o lamento da rainha.


— Eu canto a balada da deusa ferida.

Humilhada pelo pai venerado, caída na desonra como mãe.


— Aquela chamada Athena.

Filha de Zeus.

Protetora de Atenas.

Donzela eterna.


— No passado, fui a mãe da terra que nutre todas as coisas!


— No passado, fui a senhora das trevas do submundo!


— No passado, fui a deusa iluminada que espalhava a sabedoria celestial!


— Eu declaro…


— Athena em breve retornará à Athena de sua origem!

Como um hino, como uma oração, como um louvor.


À medida que o canto continuava, a figura de Athena começou a mudar.


Sua altura aumentou.


Seus membros se alongaram.


A aparência de uma garota delicada deu lugar à de uma mulher de majestade divina.


Toda a imaturidade desapareceu de seu rosto.


A julgar apenas pela aparência, agora parecia ter cerca de dezessete ou dezoito anos. As roupas modernas que usava haviam se transformado em antigas vestes brancas.


— Atena… a Desafiadora…!


Ao ver Athena tão de perto, os instintos de Yuri compreenderam sua verdadeira natureza.


Ali estava a descendente da Mãe Terra.


Ali estava a soberana que governava a morte e as trevas.


Ali estava a deusa solitária que dominava os céus, a terra e a escuridão.


Mesmo assim… ela precisava resistir.


Afinal, aquela rua não pertencia aos deuses.


Era um lugar construído pelas mãos humanas — uma cidade para a humanidade.


— Athena! Pare de brincar! Você ainda tem um oponente aqui!


Ignorando o tremor em seu corpo — provocado pelo medo de desafiar um deus — Yuri gritou com toda a força.


— Ó miko… tuas palavras me divertem. Então pronuncia o nome dele, pois também desejo ouvi-lo.


— Quem vai lutar contra você é aquele que personifica a matança de deuses, reconhecido como o rei dos magos — Kusanagi Godou!

Até derrotá-lo, pare de causar problemas como bem entender!


Diante da Athena que a observava com diversão, Yuri respondeu enquanto reprimia o medo.


Desde pequena, Yuri havia recebido o treinamento especial de uma hime-miko.


Por isso, compreendia o poder divino mais do que qualquer outra pessoa.


Mesmo assim, continuou falando sem recuar.


— Não…


Ela percebeu algo.


O tremor em seu corpo não era causado pelo medo.


Sua temperatura corporal estava caindo.


Porque ela estava próxima de Athena, que agora carregava o [Gorgoneion].


O frio do submundo que emanava da deusa envolvia seu corpo.


A vida de Yuri estava lentamente se esvaindo.


— Ah… minhas desculpas. Embora tenha recuperado o poder de outrora, ainda não retomei o controle completo.


A voz de Athena carregava um tom de divertimento.


Comparadas às palavras de antes, agora elas continham um poder espiritual incomparavelmente maior.


— Ainda assim… este batismo pelo sopro da morte não foi recebido apenas por ti. Kusanagi Godou já o experimentou.

Se ele conseguir escapar do abismo da morte e se colocar diante de mim… talvez eu conceda teu desejo.


— Então não há problema!


Yuri respondeu imediatamente.


— Ele ainda está vivo!

E por mim… para me proteger… ele certamente virá!

Espere e veja!


Suas pernas tremiam tanto que mal conseguia permanecer em pé.


Mesmo assim, Yuri reuniu todas as suas forças para continuar de pé.


Ela não havia recebido resposta de Kusanagi.


Apenas lhe disse para vir rapidamente… e desligou.


Além disso, nem sequer sabia se o poder dele realmente funcionaria.


Se funcionasse, Kusanagi Godou voaria até aqui.


Se não…


Ela morreria ali mesmo.


Qual dos dois aconteceria?


Deveria confiar nele?


Ou não?


Abandonando toda dúvida, Yuri gritou com todas as forças:


— Kusanagi-san! Kusanagi Godou! Venha!

Athena e eu estamos aqui!

Depressa! Precisamos do seu poder agora!


Então—


O vento começou a soprar.


A brisa suave da noite rapidamente se transformou em um vento mais forte.


Logo…


Tornou-se um redemoinho violento.


Athena ficou surpresa.


No centro daquele turbilhão de vento surgiu uma figura.


A figura que fez a expressão da deusa mudar.


— Kusanagi Godou.


Kusanagi Godou havia chegado trazido pelo vento.


Seu olhar encontrou imediatamente os olhos afiados de Yuri.


Ao ver o rei demônio que tinha a mesma idade que ela…


As pernas de Yuri finalmente cederam.


Ela caiu de joelhos no chão.


E o mais estranho era que…


Yuri não estava nervosa.


Não importava o quão imaturo ele fosse.


Não importava o quanto fosse problemático.


Quando chegava a hora de agir…


Ele fazia o que precisava ser feito.


Proteger os mais fracos.


Salvar seus amigos do perigo.


Sem essa determinação…


Uma pessoa comum jamais poderia receber o título de Campione.


Godou certamente viria.


Foi o que sua intuição lhe disse.


E, com total confiança, Yuri apenas assentiu silenciosamente para ele.


Parte 4


Antes disso—


Godou estava na estação Nishi-Kasai.


Athena buscava o [Gorgoneion], então provavelmente estava se dirigindo ao Santuário Nanao.


Por isso, ele havia entrado novamente no carro insano de Anna, tentando retornar a Tóquio o mais rápido possível.


Mas…


A área de Kasai já havia caído sob a influência de Athena.


— Eu tiro um cochilo por um momento e isso acontece… que deusa problemática.


Godou reclamou.


Naquele distrito dominado pela escuridão, equipamentos de iluminação e veículos simplesmente não funcionavam.


Quando chegaram à borda de Kasai, Anna freou seu carro absurdamente veloz com uma parada brusca.


Mesmo tendo sobrevivido por pura sorte…


Godou ainda precisava seguir em frente.


Ao redor deles, carros se alinhavam pela estrada.


Todos estavam inutilizados.


Não passavam de caixas de metal com rodas.


— Hm… então a relação entre corujas e Athena…

como elas eram aves da sabedoria, acabaram se tornando mensageiras da deusa da sabedoria… algo assim, né?


Uma pequena sombra cruzou o céu enquanto Godou olhava pela janela.


Graças à sua excelente visão noturna, ele reconheceu imediatamente o que era.


Uma coruja.


A maioria dos japoneses só via essas aves em ilustrações ou na televisão.


Provavelmente haviam sido convocadas pela deusa de cabelos prateados.


Athena também era conhecida por um de seus epítetos:


A “Deusa Brilhante”.


Significando “aquele cujos olhos brilham com luz”.


Mas Godou finalmente havia percebido que esse epíteto na verdade queria dizer “aquele que possui os olhos de uma coruja”.


— Isso não é tudo. As corujas noturnas eram vistas pelos povos antigos como encarnações dos deuses da morte, que viajavam do submundo para o mundo dos vivos. Por isso, naturalmente se tornaram servas de Athena, que outrora também foi uma divindade do mundo inferior.


Erica respondeu com naturalidade.


…Então era assim.


Godou se sentiu como um estudante que sabia apenas metade da resposta de uma prova.


— Você não pode derrotar Athena se não souber nem algo desse nível. Temos estado tão apressados que nem tive tempo de te ensinar direito até agora.


— N-não, está tudo bem! A situação atual é desastrosa demais!


Godou se afastou rapidamente da Erica, que parecia claramente irritada.


Graças à sua parceira, Godou pelo menos havia aprendido bastante coisa sobre Athena.


As informações transmitidas para sua mente através de [Concessão] eventualmente desapareceriam, mas deveriam permanecer por pelo menos um dia.


Portanto, não havia problemas imediatos.


O problema era que as informações estavam incompletas.


Provavelmente seriam suficientes para invocar a forma [Guerreiro], mas não totalmente — e também não havia como liberar todo o potencial da [Espada].


Como o carro vinha sacudindo violentamente, havia sido impossível para ele se concentrar nos estudos.


— De qualquer forma, Anna-san, vou descer aqui. Muito obrigado.


Godou agradeceu enquanto abria a porta traseira e saía do carro.


Ele chegaria ao Santuário Nanao mesmo que tivesse que ir andando.


Era melhor do que ficar parado ali.


— Certo. Desejo boa sorte, Godou-san. Por favor, volte em segurança. Se voltar, farei novamente refeições deliciosas para você!


— Já estou ansioso por isso. Vou contar com você então.


Anna se despediu de Godou com um sorriso.


Ela realmente era uma dama que servia cavaleiros.


Mesmo em uma situação dessas, não havia lágrimas em seus olhos.


Apenas um sorriso caloroso enquanto fazia promessas para o próximo encontro.


— ...Já vou avisar agora: se quiser comer algo preparado pessoalmente pela Arianna, terá que ir sozinho. Eu não vou junto.


Erica disse isso após sair do carro e parar ao lado de Godou, com uma expressão que indicava que sua resposta era óbvia.


Seu tom sério fez Godou hesitar.


— Quer dizer… você disse antes que ela não sabia fazer legumes cozidos. É realmente tão ruim assim?


— Não. A comida da Arianna é muito boa. Mas se você deixá-la preparar um ensopado, então será perigoso. Garanto que você sentirá um nível de perigo sem precedentes. Afinal, como será uma refeição para celebrar seu retorno vitorioso, obviamente será um hot pot stew[11].


Erica, que não temia nem deuses nem demônios, estava tão cautelosa quando o assunto era a comida de Anna.


Devia ser realmente algo sério.


Mas, em vez de se preocupar com uma refeição futura, eles deveriam se preocupar com a situação atual.


Erica e Godou continuaram caminhando.


Nenhum dos dois parecia particularmente incomodado com a escuridão.


— ...De qualquer forma, parece que Athena já começou a fazer o que bem entende.


— Talvez porque ela já tenha vencido você uma vez, então não sente mais necessidade de se proteger contra você.


Eles caminharam passo a passo pelas ruas mergulhadas em completa escuridão.


Seria uma jornada entediante.


— ...Ou talvez não.


Quando Erica se aproximou mais de Godou, ele mudou de ideia.


Com aquela pessoa por perto, era impossível ficar entediado.


— Para impedir a brutalidade de Athena, precisamos nos preparar melhor com o [Guerreiro]. Então vamos voltar ao que estávamos fazendo antes.


— Não precisa! Isso já é suficiente. Veja, eu não pretendo lutar. Só vou negociar para que ela vá embora. Então só preciso de poder suficiente para fazê-la ficar cautelosa comigo.


— Você é ingênuo demais. Acha mesmo que Athena se importaria com uma arma que não pode matá-la?


— Se você realmente acredita nisso, então me conte mais sobre Athena.


— Não, muito trabalhoso. Godou, por que você não admite logo que quer meus lábios? Diga com paixão, faça meu coração bater mais rápido. Vamos, diga logo~~


— Não tem como eu dizer algo tão constrangedor! Se nosso inimigo quer causar problemas nessas ruas, podemos usar [Cavalo Branco]. De um jeito ou de outro, dá para fazer alguma coisa!


Antes, Godou havia conseguido sentir vagamente a direção do [Leste].


Era uma sensação instintiva, semelhante à das aves migratórias.


Isso tornava possível usar a terceira encarnação de Verethragna.


Mesmo assim, era um poder que ele não queria usar.


Afinal, tratava-se de uma técnica extremamente poderosa.


Por isso, Godou conseguiu rejeitar calmamente as provocações de Erica.


Mesmo que fosse melhor possuir mais armas à disposição, não havia escolha.


Aquele método de preparação era excessivamente estimulante para o gosto de Kusanagi Godou — e só poderia ser usado com uma grande preparação emocional.


Os dois continuaram conversando enquanto caminhavam.


Quando chegaram à estação Nishi-Kasai, perceberam que o lugar estava muito mais barulhento do que o normal.


Havia muito mais pessoas ali do que em qualquer outro lugar.


Como o metrô havia parado, muitas pessoas ficaram presas ali sem saber o que fazer.


Como ninguém sabia a causa da queda de energia, tanto a linha Tōzai quanto a linha Sōbu haviam sido temporariamente suspensas.


Funcionários da estação e seguranças tentavam explicar a situação usando microfones.


Pessoas que estavam voltando para casa se reuniam ao redor, ouvindo ansiosamente por alguma explicação.


— Queda de energia? Essa desculpa está forçando demais a barra.


— Esquece isso. Pelo menos rádios e telefones ainda funcionam… mas como será que explicariam uma coisa dessas se isso acontecesse na Itália ou em algum lugar da Europa?


Erica e Godou conversavam enquanto observavam a multidão se reunir.


Sempre que deuses desciam ao mundo e revelavam sua presença, fenômenos estranhos inevitavelmente surgiam. Para pessoas comuns, que nada sabiam sobre magos, aquilo nada mais seria do que um desastre.


— Eles poderiam dizer que foi um tornado, um terremoto ou até um surto viral, e ordenar que todos permanecessem dentro de casa. Mas, independentemente da explicação, as pessoas sempre sentirão que algo estava errado… mesmo depois de se acalmarem.


— Sentir?


— A Europa — especialmente o sul da Europa, o leste europeu e a Inglaterra — são lugares onde a magia é bastante difundida. Pode-se dizer que são a terra natal dos reis demônios. Se um [Deus Herético] ou um matador de deuses aparecesse, logo se tornaria conhecido, porque inúmeros acontecimentos estranhos surgiriam ao mesmo tempo.


Mesmo na Europa, os magos não ousariam expor tais acontecimentos abertamente.


Mas a maioria das cidades possuía organizações secretas semelhantes à [Cruz Negra de Cobre] de Erica. Além disso, quase todas as pessoas ligadas à magia pertenciam a algum tipo de organização.


Também havia muitas pessoas nas cidades que sabiam como entrar em contato com esses grupos.


Erica explicou que, através de rumores e lendas urbanas, essas organizações espalhavam entre a população conhecimentos sobre como reconhecer outros magos — bem como histórias sobre o medo dos deuses e dos matadores de deuses.


— Mas Tóquio não acabará se tornando como a Europa no futuro? Afinal, Godou está aqui… e agora até um [Deus Herético] apareceu.


— Eu não quero que as pessoas de Tóquio tomem conhecimento dessas coisas.


Godou respondeu distraidamente enquanto tentava pensar se havia algum atalho para o Santuário Nanao.


Sem qualquer meio de transporte disponível, ele só podia confiar no poder de Verethragna.


— ...Claro, o melhor método seria usar o poder do [Vento], mas ainda não o compreendo completamente, então prefiro não usá-lo.


Verethragna era um deus da vitória.


Mas também era um deus que dominava os reis.


Durante os antigos Impérios Parta e Sassânida[12], na antiga Pérsia, Verethragna foi amplamente venerado e se tornou uma espécie de santo protetor do povo.


Entre suas encarnações, aquela que melhor representava Verethragna era [Vento].


Ele se transformava em rajadas de vento para proteger as pessoas — especialmente os viajantes.


Dizia-se que os antigos persas frequentemente recitavam orações a Verethragna pedindo por viagens seguras, ou colocavam pequenas estátuas dele nas estradas como forma de proteção.


— Alguém pode chamar você usando o poder do [Vento]?


— Acho que só a Mariya-san pode… embora eu não queira causar problemas para ela. O que eu devo fazer…!?


Foi exatamente quando respondeu a Erica que o celular de Godou começou a tocar.


— Hã?


— Sou eu, Mariya. Kusanagi-san? Onde você está agora!?


Assim que ele falou de Mariya, a própria pessoa ligou.


Depois de explicar sua situação, Godou pensou em pedir ajuda a Mariya — mas, inesperadamente, ela aceitou.


Mesmo dependendo dela, naquele momento ele só podia aceitar o sucesso.


Fracassar não era uma opção.


O peso da responsabilidade era enorme.


— Foi aquela mulher que ligou?


Erica perguntou ao ver a expressão sombria de Godou.


— Não diga “aquela mulher”. O nome dela é Mariya Yuri. Chame-a pelo nome corretamente.


— Eu sei, eu sei… o nome dela deveria ser Isca. Nunca imaginei que aquela garota tivesse tanta coragem.


— Você chama isso de coragem… mas eu acho que é mais o senso de responsabilidade dela. Agora estou arrependido. Eu realmente não deveria ter dito nada. Se ela morrer inutilmente por causa disso… terei que carregar esse peso pelo resto da vida.


Godou conseguia imaginar Mariya Yuri suspirando profundamente enquanto assumia aquela responsabilidade — mesmo quando ninguém mais estava em posição de desempenhar um papel tão perigoso.


Porque ela era uma garota extremamente séria, com um forte senso de dever.


Mesmo tendo se conhecido há pouco tempo, Godou tinha plena certeza disso.


— Ei, Godou. Acho que devo aproveitar esta oportunidade para te dizer uma coisa. Apesar da minha aparência, eu sou uma garota bastante generosa e de mente aberta.


— O quê? Sério, eu não tenho tempo para esse tipo de conversa agora.


— Estou apenas oferecendo minha generosidade. Embora eu seja sua amante, posso fechar os olhos se você quiser ter uma segunda amante. Você ainda é jovem, então não é estranho se sentir atraído por outras garotas.


Erica disse aquilo com toda naturalidade.


Godou ficou completamente perdido.


Do que exatamente ela estava falando?


— Esqueça uma segunda amante… eu nem tenho uma esposa! Pode falar claramente?


— Então vou ser direta. Você deveria tentar fazer daquela garota Mariya sua segunda amante. Ela realmente é um talento raro, tem uma personalidade compatível com a sua e, além disso, possui muita coragem. Você deveria investir algum tempo em treiná-la.


— ...O quê?


Godou congelou, encarando Erica.


A loira demoníaca estava falando com uma expressão completamente séria.


— É raro encontrar uma vidente espiritual tão poderosa. No futuro, se tivermos que enfrentar um deus cuja origem desconhecemos, a visão espiritual daquela garota poderá ler os diferentes atributos divinos do deus. Ela é um talento valioso que tornaria sua [Espada] ainda mais eficaz. Portanto, certifique-se de não perdê-la.


— Não brinque com algo assim! Como eu poderia pedir para Mariya fazer esse tipo de coisa!?


— Estou falando sério. Caso contrário, por que faria uma piada tão sem graça? Ah, e já vou deixar claro: no máximo ela pode ser sua segunda amante. Não importa quando ou com quem, sua amante número um sempre deve ser eu — Erica Blandelli. Entendeu? Se esquecer disso, eu não vou perdoar você.


Erica continuou reclamando enquanto segurava a mão de Godou.


E, por algum motivo…


Godou sentiu como se seus sentimentos tivessem acabado de ser algemados.


— Se você esquecer… acho que definitivamente vou te matar. Então nunca, nunca mesmo, esqueça disso. Posso ser generosa, mas não sou paciente.


Erica disse isso com um sorriso suave.


Diferente de seu sorriso diabólico habitual, aquele sorriso parecia completamente inocente.


E foi justamente por isso que Godou o achou assustador demais.


Era tão inocente… que dava a impressão de que ele realmente poderia acabar correndo risco de vida.


— Ei, espera aí! Você já não tentou me matar seriamente antes!?


— Aquilo foi apenas um jogo. Se eu realmente te odiasse, esperaria o momento perfeito para te matar. Não haveria escapatória — apenas um único golpe fatal. Simples, não acha?


Enquanto falava, Erica se aproximou ainda mais.


Tomado pelo medo, Godou empurrou Erica para longe — um gesto completamente impulsivo, fruto de seu pânico.


— P-pare de dizer coisas absurdas e me dê um pouco de espaço! Vou usar o poder do [Vento] agora. Ainda não estou acostumado com essa encarnação, então preciso me concentrar.


Godou se sentou no corrimão próximo.


Fechou os olhos.


E concentrou todos os seus pensamentos.


Ele precisava tornar sua audição mais sensível do que nunca.


Não podia deixar escapar nenhum som vindo de longe.


Um homem de meia-idade reclamava furiosamente porque o metrô havia parado.


Uma criança pequena chorava.


As pessoas ao redor tentavam consolá-la.


Alguém discutia com um policial sobre algo completamente irrelevante.


Godou ignorou todas essas vozes.


Esses não eram os sons que ele precisava ouvir.


O que ele precisava…


Era uma voz distante.


A voz de alguém que ele precisava proteger.


Como posso deixar uma pessoa tão séria e gentil morrer assim?


Eu preciso salvá-la.


Preciso ouvir sua voz.


O que ele mais precisava agora era concentração.


A maior concentração possível.


Não podia deixar escapar nenhuma voz.


Ele precisava conseguir.


Desde que começou a jogar beisebol, nunca havia perdido para ninguém.


Havia muitas pessoas que batiam melhor.


E muitas outras que conseguiam mais home runs.


Mas ele quase sempre era o quarto rebatedor — aquele que decidia o jogo.


Quando chega a sua vez de bater…


Entre em campo.


Transforme o impossível em possível.


Concentre tudo em um único ponto, mesmo diante de dificuldades impossíveis de superar.


Então—


Uma voz atravessou o vento.


— Kusanagi-san! Kusanagi Godou! Venha! Athena e eu estamos aqui! Depressa — precisamos do seu poder agora! Depressa!


Finalmente.


Godou havia encontrado a voz.


Um grito vindo de muito longe.


Ele se levantou.


Todas as condições estavam completas.


A primeira encarnação de Verethragna, [Vento].


As lendas diziam que o deus da guerra havia aparecido diante do profeta Zaratustra[13] na forma de ventos furiosos e lhe disse:


"Tu és o mais forte. Tu conduzes um exército invencível no campo de batalha. És capaz de destruir qualquer humano ou demônio que ouse se opor a ti."


— Vamos, Erica! Segure firme!


Godou chamou sua parceira enquanto seu corpo se transformava na própria encarnação do [Vento].


Ventania semelhante a um tornado começou a girar sob seus pés.


Erica saltou em sua direção.


Godou segurou sua mão.


E os dois foram lançados aos céus.


Então—


— — Tu ainda estás viva… não, finalmente despertaste, Kusanagi Godou. Agora revelas teu verdadeiro poder! Agora és digno de ser meu inimigo odiado! Portador do indizível título de rei demônio!


A voz de Athena ecoou novamente, quase como uma oração.


Fazia apenas algumas horas desde a última vez que ele a ouvira.


Quando o vento finalmente se dissipou—


Godou e Erica estavam em uma rua desconhecida.


À frente deles estavam duas figuras.


Uma Yuri extremamente pálida e frágil.


E uma garota de cabelos prateados.


...[Deus Herético] Athena.


Bastou um único olhar para Godou perceber.


A Athena diante dele…


Era a Athena que havia recuperado o [Gorgoneion].

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