Campione!: Matsurowanu Kamigami to Kamigoroshi no Maou – Volume 1 – Capítulo 7
A Deusa Herege Athena
Parte 1
Embora a visão noturna de Godou não fosse ruim, ela nem se comparava à clareza que tinha durante o dia.
Ainda assim, ele percebeu de imediato que havia algo de errado com a expressão de Yuri.
— Mariya-san, você está bem? O que a Athena fez com você?
— Não é que ela tenha feito algo diretamente… quando Athena recuperou o Gorgonieon, eu estava por perto… e acabei sendo afetada. Por favor, tome cuidado… Athena não é mais a mesma de antes…
Yuri não parava de tossir.
Era uma tosse pesada, preocupante só de ouvir.
Godou correu até ela e começou a acariciar suavemente suas costas, mas não parecia surtir efeito algum.
— Ah, permita-me esclarecer — disse Athena, em um tom indiferente —. A sacerdotisa estava próxima quando renasci, por isso recebeu uma grande quantidade do meu espírito de morte. Se nada for feito… ela morrerá, assim como tu morreste.
Athena olhava para Yuri como se aquilo não tivesse absolutamente nada a ver com ela.
A frieza em sua voz irritou Godou.
Afinal, sua oponente era uma deusa.
Mesmo com aparência humana, sua mentalidade e seus valores eram completamente diferentes.
Godou já havia entendido há muito tempo que não fazia sentido compará-los aos dos humanos.
— …Erica, você consegue curar isso?
— Não sou tão milagrosa assim. Use a [Espada]. Com ela, você deve conseguir cortar a maldição de Athena.
A resposta de Erica, logo atrás dele, não deixava dúvidas.
Godou pousou as mãos sobre os ombros de Yuri.
Tão frágeis…
Erica também era baixa e esguia, mas era uma cavaleira de elite, com uma força que não podia ser medida pelos sentidos comuns.
Já Yuri… parecia exatamente o que aparentava: uma garota delicada.
Fora suas habilidades como hime-miko, ela era apenas uma garota comum. Ainda assim, carregava um fardo tão pesado…
Era natural que Godou sentisse raiva — tanto de si mesmo quanto de Athena.
— Kusanagi-san… o que você pretende fazer?
Godou apertou levemente os ombros de Yuri, tentando aliviar um pouco a angústia em seu olhar.
Visualizando a espada dourada cintilante, começou a entoar:
— Atendei ao poder das minhas palavras. Que a justiça se revele. Sob a força e a eloquência deste encantamento… pois a força sempre prevalece, pois a força é a resposta para tudo.
As palavras do feitiço da espada.
Com um único golpe da lâmina dourada, o poder divino de Athena que havia invadido Yuri foi cortado.
Agora, não havia mais com o que se preocupar.
— Hm?
A deusa, que até então observava tudo com olhar entediado, franziu levemente a testa.
Godou a encarou, fitando sua beleza quase irritante, e disse com firmeza:
— Ei. Vou perguntar só mais uma vez. Se você for embora sem causar mais problemas, posso deixar isso por aqui. O que acha?
— Não digas algo tão decepcionante. Acabei de recuperar o antigo poder da trindade… ao menos entretenha-me um pouco neste jogo.
Era como ouvir uma criança mimada fazendo birra.
O desprezo dela pelos humanos era absoluto.
Naquele momento, Godou já havia se decidido.
Muito bem… então eu vou entrar nesse jogo.
— Não compreendo bem… mas pareces irritado — disse Athena, com leve curiosidade. — Que tal isto, Kusanagi Godou? Não me concederias um pouco de prazer? Já te superei uma vez antes… desta vez, lutaremos apenas com força marcial.
Depois de quase matar Yuri, ela ainda o desafiava como se estivesse diante de um brinquedo.
Para Athena, vidas humanas eram como formigas sob seus pés.
Viver ou morrer… não fazia diferença alguma para ela.
— Godou-san…
Ao ouvir a voz fraca de Yuri, Godou apertou um pouco mais suas mãos sobre os ombros dela.
Por causa dele, ela havia passado por tudo aquilo.
Essa dívida… ele cobraria de Athena — com juros.
— Descanse, Mariya-san. Deixe essa deusa comigo.
— Certo… desculpe. Acho que subestimei você, Godou-san. Sempre achei que, mesmo sendo um matador de deuses… você era meio irresponsável e leviano—
— Não, você está certa. Não errou em nada.
— Não…
Com um leve sorriso surgindo, Yuri balançou a cabeça.
Era a primeira vez que Godou via aquele sorriso gentil.
Como flores de cerejeira desabrochando… era uma expressão encantadora, capaz de fazer seu coração falhar uma batida.
— Quando estive em perigo… você veio correndo até mim. Claro, essa deusa destrutiva também foi chamada por você… mas o fato de você vir resolver tudo pessoalmente fez com que eu mudasse minha opinião sobre você… de verdade.
— …Falando assim, nem parece que sua opinião mudou tanto.
— É mesmo? Então depois eu te elogio melhor. Mas agora… por favor, use toda a sua força, certo?
Diante do sorriso suave de Yuri, Godou se levantou.
Então disse para Erica, que estava atrás dele:
— Vou deixar a Mariya-san com você. Pela sua honra… proteja essa garota.
— Seu desejo é uma ordem, meu rei — respondeu Erica, compreendendo suas intenções. — Finalmente deixou de lado esse seu falso pacifismo teimoso.
Como esperado da Diavolo Rosso.
Se Kusanagi Godou era o rei no tabuleiro, então ela era a peça que avançava sem ser detida — seja o cavalo ou a rainha.
— Não chama de “falso”. Eu sou mesmo um pacifista… mas não vou ficar parado vendo meus companheiros se ferirem. Agora… tudo que eu quero é derrotar Athena e fazer com que ela pague por tudo o que fez à Mariya-san.
— Esse é o meu Godou. E aqui está a minha bênção para a sua vitória.
De repente, Erica se aproximou dele.
Segurando o rosto de Godou com ambas as mãos, encostou seus lábios nos dele. Foi rápido — mas intenso, profundo… um beijo carregado de emoção.
Conhecimento sobre Athena inundou sua mente.
Sobre a deusa da guerra e da sabedoria… agora ele compreendia sua ligação com serpentes, corujas e com a própria Terra-mãe. Naquele instante, a [Espada] adormecida dentro de Godou havia atingido seu potencial máximo.
— Vou rezar pela sua vitória, então vá… derrote a Deusa Herege Athena!
Por que você faz essas coisas do nada?!
Embora quisesse reclamar, o rosto de Godou acabou revelando, sem querer, um sorriso tenso.
Afinal… aquele era o melhor presente que ele poderia receber.
Agora, podia lutar contra Athena usando cem por cento de sua força.
Afinal, ela mesma se dizia a deusa mais poderosa de toda a Europa, África e Oriente Médio!
Com a mente agora serena, Godou gritou para Athena:
— Eu aceito suas condições! Vou te expulsar deste país à força. Quando perder para mim… corra e fuja com todas as suas forças!
— Excelente! Veremos então quem é mais forte, matador de deuses!
Athena respondeu com entusiasmo, rugindo de satisfação enquanto erguia o braço.
Num instante, dezenas de corujas surgiram da escuridão.
Ao mesmo tempo, dezenas de serpentes avançaram rastejando.
As corujas, como aves de rapina, vinham com garras afiadas e bicos mortais. Já as serpentes — cada uma com cinco, seis metros de comprimento — exibiam escamas coloridas que denunciavam seu veneno letal.
Ele precisava mudar o campo de batalha.
Percebendo isso imediatamente, Godou disparou em corrida, tentando abrir distância entre ele e Athena.
O leve cheiro de água salgada.
Os prédios ao redor.
Graças a isso, ele teve uma noção aproximada de onde estava.
Consultando o mapa em sua mente, encontrou um local adequado e passou a correr em direção a ele.
As hordas de serpentes e aves o seguiram, mudando de direção junto com ele — e até mesmo a própria deusa avançava atrás, em passos tranquilos.
— Você foi muito bem, Mariya Yuri. Graças a você, aquele homem idiota finalmente vai lutar a sério.
Erica, que havia ficado para trás, sorriu levemente para a garota vestida como sacerdotisa.
Ela tirou o próprio casaco vermelho e o colocou sobre os ombros de Yuri.
Mas Yuri não parecia nada tranquila — olhava para Erica com uma expressão perturbada.
— O-o que foi aquilo que você fez?! Que coisa vergonhosa… indecente…!
A expressão serena que antes mostrava para Godou desapareceu completamente, dando lugar à irritação.
Ela reclamava, indignada com o que acabara de acontecer.
Sem entender o motivo da revolta, Erica inclinou levemente a cabeça.
— Indecente?
— Aquilo! Aquilo… o be… eh…! Quando você se despediu do Kusanagi-san, fez algo imoral! Algo que definitivamente não se faz na frente dos outros!
— Ah, você está falando do beijo? Bom, eu até queria que tivesse durado mais… mas não dava. Não havia tempo — e fazia tanto tempo que eu não via o Godou tão sério assim.
Erica interpretou errado a indignação de Yuri e respondeu com total naturalidade.
— Pode observar… quando o Godou fica daquele jeito, ele não se importa com os meios. Vai usar qualquer estratégia para vencer. Ele com certeza derrotará Athena.
Sem compreender a raiva de Yuri, Erica continuou sorrindo para ela.
No fim das contas, quando se tratava de capacidade física… tudo ainda se resumia a correr.
Enquanto fugia da perseguição das corujas e serpentes, a mente de Godou trabalhava sem parar.
Ele já havia enfrentado inúmeras situações de perigo, mas, comparado às autoridades de Verethragna, suas armas mais confiáveis sempre foram… as próprias pernas.
Seja para lutar ou para fugir, não havia como começar sem correr primeiro.
Convencido disso, ele continuou correndo todos os dias — mesmo depois de ter parado de jogar beisebol.
Não gostava de admitir, mas não tinha escolha senão manter uma rotina rigorosa de treino, já que vivia se metendo nesses problemas absurdos. Na verdade, se não fosse por esse preparo diário, ele jamais conseguiria correr por tanto tempo assim.
Ainda assim…
Ele não possuía velocidade sobre-humana para escapar das corujas que mergulhavam do céu… nem das serpentes que avançavam como relâmpagos.
Sem falar que o número de inimigos aumentava sem que ele sequer percebesse.
De onde vinham tantas corujas e serpentes, ele não fazia ideia — mas já passavam de uma centena.
— Tudo o que é maligno, tema-me! Seres injustos de poder não podem me derrotar! — pois eu sou o mais forte, aquele que quebra todas as barreiras!
Enquanto entoava as palavras do feitiço, um brilho dourado rasgou o ar.
Já que chegara a esse ponto… restava apenas decapitar as criaturas invocadas por Athena, reduzindo-as ao nada.
Elas não eram seres normais — não deixavam sequer vestígios ao serem destruídas.
— Heh… escondias uma arma formidável. Não apenas corta… mas também despedaça… deve ser uma espada. Palavras de feitiço de uma espada… tens bom gosto.
A voz relaxada de Athena veio logo atrás.
Parecia que ela havia percebido imediatamente o perigo representado pela arma.
— Então… permitas que eu também me divirta contigo. Ainda que meu poder não possa se manifestar plenamente nesta floresta de concreto… é mais do que suficiente para lidar com truques como esse. Receba!
— …Mas o quê?!
Godou ficou completamente atônito ao se virar de repente.
Aos pés de Athena—
O que antes era o duro asfalto de concreto havia se transformado em uma onda gigantesca. A deusa estava de pé sobre ela, e a crista da onda começava a se moldar… como uma lâmina curva.
O material frio e sólido, antes apenas uma mistura de areia e pedra, agora se erguia como a cabeça de uma serpente, observando tudo lá de cima.
No instante em que ele percebeu, a serpente de concreto já estava completamente formada — tudo em poucos segundos.
Seu comprimento chegava facilmente a vinte… talvez trinta metros.
Athena, com seus cabelos prateados esvoaçantes, permanecia ereta sobre a cabeça da criatura.
Aquilo também era poder divino? Ou apenas um equilíbrio absurdo, fora de qualquer lógica?
Mesmo em uma posição tão instável, ela continuava olhando para baixo com uma elegância impecável.
— Erguei-vos, minhas garras. Esmagai o matador de deuses até virar pó!
A cabeça da serpente onde Athena estava era mais alta até mesmo que o viaduto da via expressa da capital.
— Droga… que bagunça absurda!
As ruas que haviam dado origem àquela serpente gigantesca estavam completamente destruídas pelo poder divino de Athena.
O concreto havia sido arrancado como se fosse água sugada de um rio, deixando para trás apenas uma enorme cratera.
Para restaurar aquela estrada… seriam necessários tempo e dinheiro em quantidades absurdas.
Godou resmungava enquanto continuava correndo.
Já estava perto.
Muito perto.
Eles estavam prestes a chegar a uma área praticamente deserta.
Ainda havia alguns apartamentos e hotéis por perto, então, se fossem lutar ali, ele teria que tomar cuidado para não devastar tudo ao redor.
Assim que passou pelo distrito de Shiodome, surgiu à frente uma densa área de árvores gigantes—
Uma visão completamente deslocada de uma cidade, mas ali estava: uma floresta verde se estendendo à sua direita.
Aquele era o destino de Godou.
— Jardins Hamarikyu[1].
Como o horário de visitação já havia terminado há muito tempo, não havia ninguém por ali.
Em um parque tão amplo, mesmo que ele lutasse com tudo contra Athena, não deveria envolver mais ninguém.
Além disso, os muros ao redor eram baixos.
Qualquer pessoa ágil conseguiria atravessá-los com facilidade.
Saltando a barricada que bloqueava a estrada no portão dos fundos, Godou se apoiou no muro baixo e conseguiu entrar ilegalmente no local.
Do alto do muro, ele observou a serpente colossal que o perseguia.
A criatura avançava sem parar, esmagando carros estacionados, postes elétricos e cercas ao longo da calçada.
Depois de revelar sua posição, Godou entrou de vez no parque.
Parte 2
Os Jardins Hamarikyu ficavam à beira da Baía de Tóquio.
A água dentro do parque era puxada diretamente do mar.
Vizinho ao distrito de Tsukiji[2], também havia por perto um mercado de peixes e outro de produtos agrícolas.
Seguindo pela muralha externa, Godou continuava correndo rapidamente pela densa área arborizada do parque.
Ele estava cercado por árvores — algumas com mais de cem anos — e o ar carregava o cheiro de terra e vegetação. Ainda assim, era um parque artificial; após apenas cinco minutos de corrida, ele já havia saído da mata.
À sua frente, uma grande lagoa preenchida com água do mar.
Godou chegou a uma ampla área aberta.
Ali, ficou parado… aguardando silenciosamente a chegada de Athena.
Ele já havia compreendido todas as informações sobre a deusa. Mas, se fosse possível vencê-la apenas com conhecimento, não precisaria se esforçar tanto assim.
Mais importante do que isso… era entender sua personalidade — e o ambiente ao redor.
Capturar a oportunidade de vitória… e então avançar para derrotar o inimigo.
Quando ainda jogava beisebol, Godou era conhecido como um catcher de liderança firme e coragem, e, no ataque, como um rebatedor poderoso capaz de analisar a situação com calma e escolher o momento certo para agir.
Observar o inimigo com atenção… adaptar-se conforme a situação exigia.
Isso já fazia parte de quem ele era.
Vitória ou derrota dependiam da capacidade de adaptação.
Não importava o quão perfeito fosse um plano de batalha — a vitória nunca era garantida.
Não importava o quão grande fosse o poder — a vitória nunca era garantida.
Não são os fortes ou os justos que vencem… são os vencedores que passam a ser chamados de fortes e justos.
Talvez… fosse justamente essa convicção que o levou a ser eleito MVP tantas vezes.
— Então escolheste este campo de batalha… um parque tão insignificante. Os humanos realmente apreciam esses pequenos truques — especialmente os desta ilha. Já visitei muitas nações, mas raramente encontrei pessoas que cobrem tanta terra com pedra… negando a escuridão a tal ponto.
Deslizando sobre os escombros, a serpente e Athena finalmente o alcançaram.
A criatura atravessou os muros — que se romperam como papel diante de sua altura — e esmagou as árvores sob seu corpo.
— Guarde suas críticas sobre outras civilizações para outro lugar. Se gosta tanto de viver sem preocupações, volte logo para as montanhas profundas da Europa. Eu gosto de ler à noite, então preciso de luz. E, para produzir alimentos regularmente, precisamos de pesticidas. Não tenho tempo para acompanhar sua “venerável” vontade de fazer tudo do seu jeito.
— Eis a arrogância humana. Acordar ao amanhecer, dormir à noite, ser abençoado pela terra com colheitas abundantes… desfrutar do luxo da vida… apenas para, no fim, morrer de fome e adentrar os portões do submundo. Acreditas realmente que isso é o melhor?
— Como esperado de uma deusa entre deusas… consegue ser pior até que Maria Antonieta. [3]
Diante daquele discurso absurdo, Godou não conseguiu deixar de resmungar.
Ainda assim, até aquela famosa frase — “Se não têm pão, que comam bolo” [4] — acabou sendo reinterpretada de formas criativas pelas gerações seguintes…
— Chega de conversa. Quando nos encontramos… lutamos. Vamos comparar nossa força marcial.
Athena declarou com sua voz elegante.
Como um sinal…
A gigantesca serpente de concreto avançou contra o muito menor Godou.
Parecia que pretendia esmagá-lo sob seu corpo colossal.
Mesmo sendo um matador de deuses, se fosse esmagado por algo daquele tamanho… não haveria como se regenerar.
Godou correu imediatamente.
Se não resolvesse aquilo rápido… morreria ali mesmo.
A espada dourada — a arma pertencente apenas à encarnação do [Guerreiro]. Uma lâmina capaz de matar deuses.
— Serpente… esse é o símbolo da sua força. Ou melhor… da sua essência.
Godou começou a entoar suavemente.
Essa era a espada… a espada da sabedoria que mata deuses.
— Você sempre foi uma deusa ligada às serpentes. E também às corujas… com fortes laços com as aves.
— Oh? Kusanagi Godou… investigaste a minha origem?
— Só porque preciso disso. Neste momento, já entendo oitenta… noventa por cento do tipo de deusa que você é. E, para resumir sua essência… ela é a [Serpente].
Luzes douradas começaram a cintilar ao redor de Godou.
Pontos brilhantes surgiam como estrelas… piscando incessantemente.
— Falar de serpentes leva inevitavelmente a Medusa. Athena e Medusa já foram, um dia, a mesma deusa. Duas divindades estrangeiras… que se espalharam do Norte da África até a Grécia.
Guiada por Athena, a serpente gigante arrancou a grama e a terra ao redor… arremessando tudo contra Godou.
Seu corpo ondulante parecia um rio correndo pela terra.
— Se voltarmos à origem… você é um monstro serpente. Não… uma deusa serpente. E mais — a mãe de Athena na mitologia grega, a deusa da sabedoria Métis… essa deusa é você.
No exato momento em que Godou estava prestes a ser esmagado—
A serpente gigante… parou.
Mas não foi por vontade própria.
Em vez disso, a luz dourada que envolvia Godou bloqueou o corpo da serpente gigante — e a empurrou para trás.
Toda escama que tocava aquela luz era cortada, como se tivesse encostado em uma lâmina afiada.
— Isso… são as palavras de feitiço da espada?! Aquela arma de agora?!
— Você não é uma deusa da Grécia. Sua origem está no Norte da África — adorada como deusa da terra por todo o Mediterrâneo. Possui inúmeros nomes e formas. Métis, Medusa, Neite, Anata, Atana, Atona, Asherat… todos são reflexos daquela que se autodenomina Athena — suas irmãs, por assim dizer.
Finalmente, Godou puxou completamente a [Espada].
No instante em que a desembainhou, um feixe de luz se lançou adiante — e, num piscar de olhos, a gigantesca serpente de concreto foi cortada ao meio.
Cascalho e areia — tudo que formava metade do corpo da criatura — desabaram com um estrondo.
O corpo leve de Athena começou a descer lentamente.
— Que repugnante, Kusanagi Godou! Ousas ameaçar-me com a [Espada]? Pretendes fazer-me recordar tais passados proibidos?!
Apesar do pouso perfeito, o rosto de Athena agora estava tomado pela ira.
A décima encarnação de Verethragna, o [Guerreiro].
O poder aterrador dessa forma — a única capaz de usar a [Espada] — finalmente se revelava diante dela.
— Você… assim como as predecessoras de Ísis, do Egito, e Ishtar, da Babilônia… são descendentes da deusa-mãe. Você não é apenas a deusa da terra — mas também a divindade sombria do submundo, além de deusa da sabedoria celestial. [5]
Cada frase que Godou pronunciava se transformava em palavras de feitiço — e logo se convertia em luz dourada.
A luz assumia a forma de lâminas afiadas… capazes de cortar até uma deusa.
Tomada pela raiva, Athena já não exibia mais aquela elegância despreocupada de antes.
— Sempre acompanhada por três aspectos… assim surgiu a deusa da trindade. Essa é a essência de Athena. O aspecto de deusa da guerra é apenas uma extensão adquirida ao longo das eras — governando a morte do submundo nas maiores calamidades, conectando-se à guerra e tornando-se uma deusa do conflito… tudo isso é perfeitamente lógico.
— Falas demais!
De repente, um arco e flechas surgiram nas mãos de Athena.
Puxando a corda com força, ela disparou.
Como esperado de uma deusa da guerra, a flecha voou direto para a testa de Godou.
Mas, com um lampejo da [Espada], o ataque foi desviado.
— Então… a chave para o seu renascimento como trindade é a [Serpente]!
— Não digas mais nada! Meu passado não será maculado por alguém como tu!
Desta vez, quatro flechas surgiram na mão direita de Athena.
Ela as posicionou todas no arco… e disparou de uma só vez.
Uma técnica incomum — mas extremamente poderosa.
Ainda assim, todas foram repelidas pela [Espada], espalhando-se pelo chão.
— Embora [Vacas], [Ovelhas] e [Porcos] simbolizem as terras férteis… na verdade, você também é a deusa da terra na forma de uma vaca. Mas sua essência verdadeira é a [Serpente] — essa é a chave mais antiga de Athena.
Mesmo naquele momento, Godou continuava entoando.
Uma luz infinita emanava de seu corpo.
Quando as características do deus oponente eram completamente compreendidas…
A encarnação do [Guerreiro] revelava seu verdadeiro poder.
Transformando palavras de feitiço em luz dourada — o poder da [Espada], capaz de cortar tanto o corpo quanto a divindade de um deus.
Essa era sua maior arma… tanto ofensiva quanto defensiva.
— No fim das contas… você não é apenas a deusa que concede a graça da terra. Você representa o nascimento da vida, o crescimento, a maturidade, o envelhecimento… e, por fim, a morte — assim como as quatro estações. Nascer e crescer na primavera, florescer no verão, colher no outono… e definhar no inverno.
A inquietação tomou conta de Athena.
Ela avançou, empunhando sua lâmina e atacando.
Mesmo ferida pela luz da [Espada], continuava avançando com determinação.
Seu golpe, forte e afiado—
Foi facilmente evitado por Godou.
Sem perceber, ele já havia compreendido completamente os movimentos da deusa.
Esse também era um poder da forma [Guerreiro].
— Ainda assim… os povos antigos nem sempre recebiam as bênçãos da terra. Devido a desastres naturais e fenômenos inesperados, mais da metade das colheitas era perdida. Por isso, a deusa-mãe não apenas concedia bênçãos — mas também tomava vidas durante o inverno… trazendo calamidades quando de mau humor, como uma divindade destrutiva. Sem isso… nada faria sentido.
Segurando a [Espada], Godou avançou contra Athena.
A luz brilhou — uma vez, duas, três… e continuou.
— O…!
Para escapar das lâminas de luz, Athena foi forçada a recuar.
— Assim… foi a [Serpente], através de suas sucessivas trocas de pele, alternando entre hibernação e despertar… que se tornou o símbolo do ciclo entre morte e renascimento — das estações que se sucedem. Comparada à [Vaca], símbolo da colheita e da benevolência… é a serpente, portadora tanto da vida quanto da morte, que verdadeiramente merece o título de divindade.
Para os povos antigos, era extremamente raro encontrar uma criatura tão misteriosa e singular quanto a serpente.
Ela abandonava sua forma antiga ao trocar de pele…
Permanecia adormecida durante longos períodos no inverno…
E então despertava na primavera — como se tivesse retornado da morte.
Transcendendo com facilidade a fronteira entre inverno e primavera…
Era, de fato… um ser digno de ser chamado de imortal.
Inverno — o deus que trazia a morte… mas também o deus da natureza selvagem e do submundo.
Era essa a relação entre Athena e a [Serpente], e também o motivo pelo qual ela era, ao mesmo tempo, deusa da terra e do mundo inferior.
Ainda assim, o submundo imaginado pelos antigos sempre existia sob a terra escura.
Um mundo de inverno… envolto em trevas.
Da mesma forma, o tempo dominado pela escuridão — a noite — também era temido como uma extensão do submundo.
Por isso, Athena também era a deusa da escuridão.
— Ouça o poder das minhas palavras, que a justiça se revele! Pois este encantamento é poderoso e eloquente. A espada da sabedoria que invoca a vitória — Athena… o que acha agora? Esta espada foi criada especialmente para eliminar você. Seu uso garante minha vitória.
Godou entoava as palavras de feitiço enquanto se movia ao redor dela.
Agora que havia revelado sua carta final… como Athena reagiria?
A situação esmagadora havia retornado ao equilíbrio.
Mas, em termos de força pura, a deusa ainda tinha vantagem.
Se a batalha continuasse daquele jeito… ela acabaria encontrando uma brecha para contra-atacar.
— Kusanagi Godou… eu te subestimei.
Athena falou com calma, mas com seriedade.
Como esperado da deusa da sabedoria… ela recuperava a compostura com uma rapidez assustadora.
Não havia o que fazer.
Nunca existia vitória fácil contra um deus.
— Ainda és jovem… imaturo. Mas és um rei demônio… aquele que roubou poder de nós, deuses. Pelas palavras que acabaste de proferir… eu compreendi.
Athena lançou um olhar penetrante sobre Godou.
— Verethragna. O deus que mataste foi Verethragna! Um deus da conquista, intimamente ligado ao meu aliado Héracles e a Indra[6], do distante oriente. Um [Deus Rebelde][7], servo de um novo rei divino, aquele que derrubou os deuses antigos com sua lança.
Um arrepio percorreu o corpo de Godou.
Se Athena parasse de subestimá-lo…
Então ela se tornaria um inimigo verdadeiramente aterrador.
…Mas será que isso era mesmo verdade?
Ela realmente conseguiria lutar seriamente contra um simples humano?
Essa resposta definiria vitória ou derrota.
— Aquele deus da guerra era o cruzado dos deuses antigos. Se foste capaz de derrotar Verethragna… então é natural que possuas a espada que mata deuses… mas será que é só isso?
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Athena enquanto seus olhos afiados fixavam Godou.
— Verethragna não é apenas o deus da vitória… mas também o guardião do povo e da realeza. Ele serve como guarda pessoal do deus persa Mithra[8]. Mithra é a encarnação do sol… logo, Verethragna também está ligado ao sol.
Ela enxergou através dele.
Athena já havia percebido a última carta que Godou escondia.
Seria esse o poder da deusa da sabedoria?
Compreender instantaneamente até mesmo as características de deuses estrangeiros…
Isso era praticamente injusto.
A situação começava a ficar perigosa.
— Não sei quantos poderes de Verethragna controlas… mas certamente possuis uma Autoridade do sol. Para dissipar minha escuridão… nada é mais eficaz do que a luz solar.
Os olhos de Athena se estreitaram.
Eram negros como o vazio — como se a própria escuridão tivesse tomado forma neles.
Pareciam envolver tudo dentro de seu campo de visão… enxergando através de Godou com frieza absoluta.
…Olhos místicos?
— Uma [Espada] tão impura e temível… mas teu uso é previsível demais. Tentaste provocar-me… para encontrar uma brecha, não foi? Já percebi teu plano.
Petrificação.
Petrificação. Petrificação. Petrificação. Petrificação. Petrificação. Petrificação. Petrificação.
Tudo que entrava no campo de visão de Athena começava a se transformar em pedra.
O chão sob seus pés endureceu.
A grama que balançava ao vento… as pétalas delicadas das flores… tudo virou pedra.
As árvores exuberantes também se tornaram estátuas.
Até mesmo a lagoa de água do mar… solidificou-se em pedra.
Athena agora utilizava os olhos místicos de Medusa — capazes de petrificar tudo o que contemplavam.
— Mortes temporárias… caixões de pedra… esse também era o poder da antiga deusa-mãe… Oh, como esperado de um matador de deuses… conseguiste resistir. Parece que as palavras de feitiço precisam ser injetadas diretamente em teu corpo… que incômodo.
As pernas de Godou — dos pés até os joelhos — já haviam sido completamente petrificadas.
Ainda assim, comparado ao resto do cenário… ele estava em melhor situação.
Provavelmente, Athena pretendia transformar tudo ao seu redor em pedra.
Com um poder desses… transformar toda Tóquio em uma cidade de pedra seria algo trivial.
Godou sentiu medo.
Se não detivesse aquela deusa…
Uma tragédia irreversível aconteceria.
— Os olhos místicos da deusa [Serpente], Medusa… são a maior prova da sua ligação com as [Aves].
Godou infundiu novas palavras de feitiço na [Espada], acelerando o poder da Autoridade para purificar a petrificação.
A espada dourada começou a dançar selvagemente.
Onde quer que a luz tocasse…
A pedra se desfazia — retornando à sua forma original.
— As três irmãs Górgonas — incluindo Medusa — não possuíam apenas cabelos de serpente… mas também asas douradas nas costas. A segunda irmã, Euríale, significa “aquela que voa ao longe”… e a mais jovem, Medusa, foi a mãe do alado Pégaso.[9]
A imagem de Medusa havia se espalhado por todo o Mediterrâneo.
Nessa representação, a deusa segurava serpentes em ambas as mãos, enquanto uma ave repousava sobre sua cabeça — um símbolo claro da ligação entre serpentes e pássaros.
— A conexão entre você e as aves vem da terra e do submundo… você é uma deusa que domina dois mundos, enquanto as aves possuem o poder de transitar entre o mundo dos vivos e o além. Desde os tempos antigos, nossos ancestrais acreditavam nisso. As almas dos mortos se transformariam em pássaros que voam para os céus… ou seriam guiadas por aves até o submundo.
As pernas petrificadas de Godou voltaram ao normal.
A circulação de seu sangue também retornou.
— Para transitar entre a terra e o submundo, era natural que Athena e as aves se tornassem uma só. Sua essência é a [Serpente]… mas também a [Serpente Alada]!
— Tentais ferir-me e envergonhar-me… esperando que eu perca a compostura. Não serei enganada por tais artifícios!
A cada uso da [Espada], o olhar místico de Athena se intensificava.
O solo petrificado era restaurado pela luz dourada… apenas para ser transformado novamente em pedra pelos olhos negros da deusa.
Enquanto os dois se enfrentavam, o ambiente ao redor já havia repetido esse ciclo várias vezes — alternando entre pedra cinzenta e terra verde.
— Originalmente, você era uma serpente alada. Antes de fazer parte do panteão, era uma deusa da vida e da morte, adorada pelos povos antigos. Com o passar dos tempos, sua imagem foi corrompida… e assim surgiu a Deusa Herege Athena.
— Cale-se! Tais truques são inúteis!
Mesmo sem choque direto de armas…
A batalha se tornava cada vez mais intensa.
Ainda assim, Godou foi forçado a interromper suas palavras.
Era extremamente difícil descobrir a fraqueza de Athena.
Se aquela luta de desgaste continuasse… o imenso poder divino da deusa acabaria prevalecendo.
Inicialmente, Godou pretendia decidir tudo com um contra-ataque.
Contra um inimigo mais forte, o ideal era permitir que ele atacasse, esgotá-lo… e então golpear no momento em que revelasse uma brecha.
Ele havia guardado um trunfo exatamente para isso.
Com as palavras de feitiço da [Espada], poderia romper até mesmo uma defesa impenetrável — garantindo boas chances de vitória.
Mas Athena já havia percebido isso.
Por isso, usava seus olhos místicos para mantê-lo sob pressão.
Não havia escolha.
Quem não arrisca, não ganha.
Godou respirou fundo.
Era hora de liberar o poder da [Espada].
— Domínio da terra e do submundo… deusa serpente que governa a sabedoria dos céus… sem dúvida, uma das maiores existências entre os deuses. Incomparável… uma deusa entre deuses. Portadora da autoridade suprema… rainha do panteão.
A forma [Guerreiro], utilizando a [Espada] tanto para ataque quanto defesa, era a encarnação mais poderosa contra deuses.
Mas… suas limitações eram severas.
As palavras de feitiço da [Espada] não podiam ser usadas indefinidamente.
Quanto mais eram usadas… mais a lâmina perdia o fio, até se tornar cega — exatamente como uma espada real.
E, assim como qualquer Autoridade de Verethragna, uma encarnação não podia ser usada continuamente.
Sem um dia de descanso, era impossível reutilizá-la.
Enquanto essa limitação existisse… Godou não poderia simplesmente vencer pela força bruta.
— No passado, você era uma mulher que detinha o poder supremo — comandando os humanos em nome dos deuses. A líder dos deuses… era uma deusa. A deusa da serpente alada. Mas você foi derrubada do trono pela força dos homens rebeldes… e assim terminou a era do matriarcado.
Godou continuava entoando.
Forjando… refinando a mais poderosa [Espada].
Usando todas as palavras de feitiço de uma só vez…
Para causar danos decisivos ao poder divino de Athena.
Para imobilizá-la…
E abrir o caminho para a vitória.
Mesmo o plano mais detalhado podia ruir diante das circunstâncias.
Por isso, o mais importante era se adaptar.
— A era da rainha chegou ao fim… e começou a era do rei. O poder supremo e a sabedoria da mãe foram substituídos pela autoridade rígida do patriarcado. E assim, de Zeus, nasceram os reis dos deuses.
Diante de seus olhos…
Estava a antiga rainha do Mediterrâneo.
Sim.
Uma rainha deposta.
Uma soberana forçada a se submeter.
Essas palavras — que revelavam o passado de Athena — eram também a lâmina mais afiada contra ela.
— A Athena mais antiga foi fragmentada… rebaixada a esposa, irmã ou filha do rei dos deuses… perdendo toda sua antiga glória. Assim, a mitologia foi reescrita.
— …Cale-se.
O murmúrio de Athena transbordava uma fúria silenciosa.
— Athena tornou-se filha do rei. Métis foi desonrada e privada de sua sabedoria. Medusa foi reduzida a um monstro. E mais — Hera e Afrodite, da mitologia grega[10], também são antigas deusas-mãe derrotadas… divindades que, assim como você, governavam a vida e a morte.
— Já te disse para calar a boca! Essas palavras… são repugnantes além de qualquer limite!
Athena estava furiosa.
Isso era um bom sinal… mas ela ainda não havia perdido a compostura.
Então, Godou decidiu seguir o plano — precisava acertá-la ao menos uma vez.
— A deusa-mãe derrotada… retratada na mitologia como a serpente alada, o dragão alado — que, no fim, também se tornou o dragão. Os dragões malignos que aparecem em inúmeras lendas e mitos, derrotados por heróis e deuses… são a forma final da deusa-mãe, vencida e pisoteada!
Eles não foram caçados por serem monstros malignos.
Mas porque os vencedores precisavam justificar sua vitória.
Transformaram os derrotados em monstros… e então espalharam histórias de como haviam derrotado o mal.
Por causa disso, a serpente alada deixou de ser um ser sagrado…
E passou a ser vista como uma criatura monstruosa.
A própria essência da deusa-mãe foi negada.
E assim, aquelas palavras de feitiço se tornaram uma poderosa [Espada] — capaz até mesmo de dilacerar Athena.
Uma luz dourada começou a se reunir na mão direita de Godou.
Ele condensou aquela luz… formando uma espada longa.
O brilho intenso irradiava de seu corpo enquanto avançava.
Do outro lado—
Athena ergueu sua arma para interceptá-lo.
Uma foice negra.
A foice da morte… capaz de absorver toda a luz em sua escuridão afiada.
Então—
A espada de luz e a foice das trevas colidiram.
E, finalmente, Godou e Athena entraram em confronto direto… com uma ferocidade esmagadora.
Parte 3
A espada dourada colidiu com a foice negra como o breu.
Ao mesmo tempo, a escuridão continuava a se expandir a partir de Athena.
Frio.
A temperatura despencava à medida que aquela treva se espalhava.
Um gelo que parecia cortar a pele — como se o inverno tivesse chegado de repente.
“Não serás atingido por mim. Posso ser imortal, mas não posso suportar teus golpes que cortam a própria fonte da divindade. Assim, derrotar-te-ei com a escuridão proibida!”
Athena canalizou seu poder para o pulso que empunhava a foice negra.
Para conter completamente a espada dourada, ela também estava usando toda a sua força.
Antes que percebessem, a escuridão já havia engolido todo o céu, apagando a luz da lua e das estrelas. Tudo ao redor mergulhou em um caos de trevas absolutas.
Exceto pela espada dourada, não havia sequer um único raio de luz capaz de atravessar aquela escuridão.
Mesmo assim, os olhos de Godou enxergavam perfeitamente dentro daquele abismo — e isso o surpreendeu.
As flores ao seu redor murcharam em um instante.
As árvores também perderam seu vigor.
Toda a vegetação começou a definhar, uma após a outra. Os frutos viraram pó em segundos. Os galhos secaram, encolhendo até parecerem gravetos mortos.
Até o som dos insetos desapareceu da noite.
Aquilo era a [Morte].
Empunhando o poder divino que governava a morte e a ruína, Athena infundiu sua foice com sua força mais perigosa.
“Invoco o inverno, soberano da vida e da morte, emissário do submundo gélido, a rainha astuta que tudo reivindica. Eu ordeno: Kusanagi Godou, torna-te um rei morto — apodrece e converte-te em cadáver!”
Athena declarou, ao mesmo tempo em que empurrava a espada dourada para trás com sua foice.
Suas palavras ecoaram pelos ouvidos de Godou, infiltrando-se em seu corpo — que começou a esfriar lentamente.
Isso só pode ser brincadeira.
Eu não posso perder aqui!
Mantendo sua postura para conter a foice, Godou forçou a mente a imaginar o próximo instante.
Ele pretendia derrubar Athena com um golpe — mas fora bloqueado pela foice negra. Ainda assim, aquela foice também era parte dela. Nesse caso… a [Espada] ainda poderia cortar tudo?
Aquela espada existia unicamente para derrotar Athena —
uma [Espada] criada para vencê-la… e matá-la com certeza.
Cortar.
Godou atravessou, de uma só vez, tanto a foice negra quanto a própria Athena.
O poder divino que compunha a deusa transmitiu sensações diretamente através do fio das palavras mágicas.
Terra, escuridão, sabedoria, serpentes, aves, vacas, rainha, esposa, mulher temível, mulher renascida, imortalidade—
Godou desferiu um golpe que rasgou tudo aquilo que ela era.
Ao mesmo tempo, ele também foi atingido pelas palavras de [Morte].
Ele não sabia quanto tempo perdeu a consciência.
Talvez alguns segundos… ou minutos.
Quando voltou a si, tanto ele quanto Athena estavam caídos no chão.
Forçando cada músculo, Godou tentou desesperadamente se levantar.
Mesmo tendo caído junto com ela, Athena não seria derrotada tão facilmente — ele sabia disso melhor do que ninguém.
Então… lentamente, Athena se ergueu.
Não havia sequer um arranhão em seu corpo. Ainda assim, os danos internos não deveriam ter se recuperado tão rápido.
“Como esperado… não seria tão fácil vencer. Ainda assim, teria sido ótimo se tudo tivesse acabado ali.”
“Tolice. Chamar-me de deusa serpente e ainda assim ignorar isto? Nem serpentes, nem mulheres morrem tão facilmente. Mesmo que pereçam, renascem.”
Serpentes trocam de pele para renascer.
Mulheres resistem mesmo à perda profunda de sangue.
Ambas são símbolos de imortalidade.
Ainda assim, apesar de suas palavras firmes, o rosto de Athena estava pálido.
E Godou também não estava em melhor estado.
Sem ferimentos visíveis, ele ainda sentia sua vitalidade drenada pelas palavras da morte — como se sua força vital tivesse sido reduzida drasticamente.
O resultado…
Ambos continuavam de pé — mas à beira do colapso.
“Com isso, tua [Espada] não poderá mais ser usada. Tenho certeza disso.”
Athena revelou esse fato incômodo.
E ela estava certa.
A [Espada] dourada já havia desaparecido, tendo consumido todo o seu poder.
Godou agora não possuía mais nenhuma arma capaz de atacar ou defender.
“Em outras palavras… desejas recorrer ao poder do sol… Entre as encarnações de Verethragna, aquela mais próxima de sua origem solar é o [Garanhão].”
Ter sua força completamente compreendida pelo inimigo… lutar contra a deusa da sabedoria era realmente exaustivo.
Godou quase soltou um suspiro.
Mas nem isso lhe foi permitido.
Athena avançou em silêncio — atacando novamente com sua foice negra.
Godou mal conseguiu se esquivar.
Veio o segundo golpe.
A lâmina rasgou a pele de seu ombro.
O terceiro.
Seus tornozelos quase foram decepados.
Mesmo sem o poder da espada, ele ainda estava na encarnação de [Guerreiro] — o suficiente para manter parte de sua força, ler as intenções de Athena e prever seus movimentos.
Por isso, conseguia ao menos evitar golpes fatais.
Mas continuar apenas se defendendo significava derrota inevitável.
Ele não conseguia acompanhar a pressão ofensiva dela.
Athena não precisava sequer se preocupar com defesa — não havia risco de contra-ataque.
Bastava continuar pressionando… até levá-lo à ruína.
A foice descia, cortava, dilacerava — sem parar.
Esquivar. Abaixar. Desviar.
Diante dos ataques incessantes de Athena, tudo o que Godou podia fazer era continuar se esquivando.
“O que houve, Kusanagi Godou? Por que não usas o poder do [Garanhão]? Não é ele a única arma capaz de me derrotar?”
A voz de Athena vinha carregada de escárnio.
Depois de deixar isso tão claro assim, por que eu usaria isso contra você? Você já deve ter preparado alguma forma de contra-atacar.
Godou praguejou mentalmente, enquanto buscava desesperadamente uma maneira de vencer.
Se continuasse lutando corpo a corpo contra Athena, não teria a menor chance.
Disso, ele tinha plena certeza.
Se fosse beisebol ou futebol de salão, talvez ainda houvesse alguma possibilidade. Mas Kusanagi Godou não tinha qualquer experiência em combate — não havia como derrotá-la apenas com força bruta.
Nesse momento, ele desejou mais do que tudo que sua parceira confiável aparecesse.
Ela surgiria empunhando sua espada mágica, com aquele ar imponente, vestida em vermelho e preto — avançando com toda a grandiosidade de sempre.
Mas… ela não estava ali.
Com uma oportunidade dessas, como alguém tão egocêntrica não apareceria?
Será que não conseguiu encontrá-lo? Não… ela não era tão incompetente assim.
Godou apenas torcia para que o motivo fosse exatamente o que ele imaginava.
……Enquanto ainda pensava nisso, a foice de Athena surgiu diante de seus olhos.
Ele saltou para trás às pressas, protegendo seus pontos vitais.
Mas não conseguiu escapar completamente.
Seu peito foi atingido — o sangue espirrou no ar. Não era um ferimento fatal, mas era profundo o suficiente para fazê-lo cambalear.
E então, Godou teve certeza de uma coisa.
Mesmo diante de uma situação dessas… ela ainda não apareceu para ajudá-lo.
Ou seja—
Sua parceira pensava exatamente como ele e estava esperando o momento certo para agir.
Se ele conseguisse resistir… ainda havia uma chance de vitória…!
“Surpreendente conseguires desviar! Agarrar-se à vida de forma tão miserável é algo vergonhoso, Kusanagi Godou!”
O ataque contínuo da foice o obrigou a rolar pelo chão para escapar.
Seu corpo inteiro já estava coberto de ferimentos.
Ainda assim, ele conseguia proteger os pontos vitais.
Ensanguentado e coberto de terra, rolava pelo chão — uma cena humilhante, sem dúvida.
Mas isso não importava.
Desde que continuasse vivo, já era o bastante.
Finalmente, Godou parou de fugir.
Ergueu-se, com as pernas trêmulas.
Convencido de sua aposta, decidiu arriscar tudo: Erica com certeza faria algo — algo em que ele podia confiar!
“Como você mesma disse… eu ainda tenho a encarnação que representa o sol.”
Godou falou, apontando para o céu a leste.
Em sua mente, visualizou um cavalo branco sob o brilho do sol — seu corpo majestoso envolto em uma luz pura e radiante.
“Pela vitória, venha até mim! Sol imortal, conceda-me o corcel resplandecente! Cavalo divino da glória, traga à tona a roda de luz que simboliza o soberano!”
A terceira encarnação de Verethragna — o [Garanhão Branco].
Desde os tempos antigos, o [Garanhão] mantinha uma ligação profunda com o deus do sol.
O deus solar que atravessava os céus, de leste a oeste, conduzindo sua carruagem — essa imagem era comum em inúmeras civilizações.
Oriente, Índia, Escandinávia, China, Babilônia… nenhuma era exceção.
Apolo, na Grécia, também era descrito assim.
Assim como ele, havia também o deus persa da luz, Mithra — cujos mitos se espalharam amplamente entre os povos.
E para o Garanhão Branco de Verethragna, que outrora servira a Mithra, até mesmo carregar o próprio sol era algo natural!
“Oh… então veio mesmo. Esse cavalo irritante.”
Athena murmurou, olhando para o leste.
E ela estava certa.
Mesmo com a escuridão encobrindo tudo, o céu oriental começou a arder.
O sol estava nascendo.
A luz da alvorada tingia o horizonte de vermelho.
Ainda era meia-noite — faltavam cinco horas para o amanhecer.
E ainda assim… o céu já brilhava intensamente.
Era o poder da encarnação do [Garanhão Branco], capaz de invocar a força do sol.
“Sinceramente… essa encarnação é a mais difícil de usar. Mas você passou dos limites desta vez… então consegui invocá-la. Afinal, ela só pode ser usada contra um [pecador que causa sofrimento às pessoas].”
Athena, que havia criado aquele mundo de trevas… preenchia perfeitamente essa condição.
……Embora, para ser sincero, ele sempre sentisse que poderia usá-la contra si mesmo também. Mas desta vez, decidiu ignorar isso.
“Veja bem, Athena! Quero ver você provar das chamas do sol — aquelas que destroem a escuridão!”
Do céu, algo desceu.
Talvez uma flecha de luz… ou uma lança do deus solar.
Uma área de dezenas de metros ao redor de Athena foi engolida por uma luz branca intensa.
Era o fogo sagrado que consumia os pecadores.
No distante horizonte oriental, chamas abrasadoras desciam sobre a terra.
“AAAAAAAAAAAAAH!!”
Mesmo alguém do nível de Athena não pôde conter o grito de dor.
O deus do sol — aquele que substitui os senhores do submundo — e suas chamas que expulsam a noite…
eram o pior inimigo dessa deusa.
Mas…
“Hahahahaha! Não me subestime, Kusanagi Godou! Já deixei isso perfeitamente claro. Há muito tempo conheço a tua carta final! Isso não passa de um último suspiro antes da morte.”
Ao redor de Athena, uma encantação negra se ergueu.
Uma barreira de escuridão esmagadora, capaz de repelir toda e qualquer luz.
As chamas brancas foram bloqueadas.
Para chegar a esse ponto, ela provavelmente vinha acumulando o poder das trevas desde o início — aguardando apenas o momento ideal para usá-lo.
Se Athena permanecesse protegida assim até o fogo se dissipar…
Godou não teria mais nenhuma encarnação capaz de derrotar a deusa-mãe da escuridão.
E, quando as chamas se extinguissem, o poder do [Garanhão Branco] também desapareceria — deixando Kusanagi Godou completamente sem autoridade alguma.
Mas Godou apenas balançou a cabeça.
“Você está errada. Quem subestimou foi você. Não a mim… mas sim— os humanos.”
Um feixe de luz atravessou a escuridão, vindo em direção a ele.
Uma luz prateada.
Brilhante… fria… afiada como o fio de uma lâmina.
Cuore di Leone.
A espada leonina empunhada pela garota que lutava ao seu lado.
A lâmina prateada cravou-se no chão diante de Godou.
“Quando lutamos antes… você esqueceu da existência da Erica? Eu estaria perdido sem ela aqui — mas, infelizmente pra você, não foi assim que aconteceu.”
Godou segurou o cabo de Cuore di Leone e a puxou do chão.
“Athena… você foi ingênua demais! Aquela espada é especial. Ela carrega palavras de desespero — um poder capaz até de derrotar deuses. Normalmente, você conseguiria se defender completamente… mas e agora? Enquanto está ocupada bloqueando o sol com tudo o que tem?”
As chamas brancas continuavam sendo contidas pela barreira de escuridão, incapazes de alcançar o corpo divino da deusa.
Mas, desta vez…
O rosto de Athena revelou inquietação.
Se Erica tivesse surgido no momento em que a foice de Athena encurralou Godou, sua presença teria sido percebida imediatamente — e Athena teria ajustado sua estratégia.
Por isso, mesmo vendo Godou à beira da derrota, Erica não apareceu para salvá-lo.
E, ao perceber o plano dela, Godou apostou tudo nessa única oportunidade.
Tudo havia sido preparado… para transformar Cuore di Leone em seu novo trunfo.
“Essa luta em equipe não foi planejada… mas, felizmente, funcionou. Aquela garota… realmente sabe escolher o momento perfeito para agir.”
Arremessar sua espada através daquela escuridão absoluta…
Era exatamente o tipo de coisa que se esperava de sua parceira.
Godou avançou lentamente em direção a Athena.
Mas atacar de perto significaria ser consumido pelas próprias chamas.
Esperar o fogo se apagar…?
Enquanto pensava nisso—
Cuore di Leone mudou de forma.
Transformou-se em uma lança.
Provavelmente… Erica estava manipulando-a com magia.
Claro… se fosse um ataque à distância, ele não precisaria se aproximar.
A lança prateada começou a brilhar intensamente—
e então se transformou em um meteoro de luz.
Godou sorriu.
Que apoio confiável.
“Este é o golpe final… receba, Athena!”
Com toda a sua força—
ele arremessou.
A lança prateada rasgou o ar como um cometa—
e atravessou o peito de Athena.
Tanto a deusa quanto o dardo prateado foram consumidos pelas chamas.
Mas isso não importava.
Aquela espada fora forjada de um aço indestrutível. Mesmo que se derretesse no fogo, ainda assim renasceria — como uma fênix.
“Kusanagi Godou, ousas atacar furtivamente a deusa rebelde Athena! Maldito sejas — jamais imaginei que alguém que carrega o título odioso de rei demônio fosse tão desprezível!”
“Pare de culpar os outros! Foi por subestimar a humanidade que você cavou a própria ruína!”
Após ser atingida pelo golpe prateado e cair de joelhos, Athena foi engolida pelas chamas brancas.
Parte 4
Após vários minutos, as chamas brancas finalmente se extinguiram, e a luz do amanhecer a leste também desapareceu.
A noite negra retornou.
Sim, agora inúmeros postes de luz iluminavam as ruas e avenidas, e a luz dos arranha-céus vazava pelas janelas — tudo havia voltado àquela habitual penumbra urbana.
Godou soltou o ar que vinha prendendo e ergueu o olhar para o céu noturno.
A lua crescente e inúmeras estrelas cintilavam suavemente.
Mesmo ignorando seus verdadeiros sentimentos, ele não poderia chamar o céu noturno de Tóquio de bonito. Talvez os anos o tivessem acostumado, mas… do jeito que estava agora, também não era ruim.
De qualquer forma, o duelo havia terminado.
Primeiro, deveria voltar para casa, tomar um banho e dormir tranquilamente. O resto podia esperar.
“Então, Godou? Aquela luta agora… acho que mereço até um prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante, não acha?”
Duas garotas entraram no que antes fora um campo de batalha feroz.
Uma era uma elegante italiana loira; a outra, uma japonesa vestida como miko, com uma expressão estranhamente séria.
“Se isso for possível, pode pegar quantos prêmios quiser. Até uma cerimônia inteira, se quiser.”
Godou respondeu, sentando-se de pernas cruzadas sobre a grama murcha.
Até ele estava completamente exausto.
E ainda assim… mesmo com o corpo coberto de ferimentos e teoricamente tomado pela dor, ele não sentia nada disso. Até o grave ferimento em seu peito já começava a se curar.
A capacidade de recuperação de um godslayer continuava sendo absurdamente desumana.
Mas…
A destruição naquele jardim — metade dela fora causada por ele.
Quantas pessoas ainda reconheceriam aquilo como o Jardim Hamarikyu?
Em algum momento, uma enorme cratera havia surgido no chão.
O bosque de pinheiros que existia desde o período Edo, as inúmeras flores coloridas — tudo fora arruinado pela batalha entre ele e Athena.
Godou refletiu profundamente. Mais uma vez… ele havia exagerado.
“Então… o que vamos fazer com essa deusa problemática? Acho melhor acabar logo com isso e dar o golpe final.”
“……Concordo. Se deixarmos Athena assim, ela certamente se tornará a origem de novos desastres no futuro. O mais sensato seria tomar medidas preventivas.”
Erica sugeriu, quase provocando. Yuri, embora hesitante, acabou concordando.
As duas olhavam para Athena.
Ela agora parecia apenas uma garotinha, sentada no chão como alguém que acabara de fazer birra.
Talvez por ter sido consumida pelas chamas do [Garanhão Branco], ou por ter esgotado demais seu poder divino… a deusa-mãe da escuridão havia encolhido, voltando à forma infantil de horas atrás.
Ela realmente era uma deusa com o atributo divino da imortalidade.
Mesmo tendo sido envolvida por aquelas chamas… já havia renascido.
Na verdade, nem o próprio Godou acreditava que aquele ataque fosse suficiente para matá-la.
Embora estivesse sem capacidade de lutar, sua vitalidade ainda era assustadora.
“Mariya-san… aquilo que você disse agora… veio do seu poder habitual? Intuição de miko, ou algo assim?”
“Não… foi só o pensamento de uma pessoa comum… numa situação dessas, mesmo quem não é miko pensaria assim.”
A resposta de Yuri aliviou um pouco o peso no coração de Godou.
Mesmo que ele chegasse à mesma conclusão por um pressentimento ruim… ainda assim, se sentiu aliviado.
“Então… vamos encerrar por aqui… Athena, está ouvindo? Essas duas querem acabar com você. É melhor ir embora deste país enquanto pode.”
“— Por que não me dás o golpe final? Ao matar-me, poderias usurpar novos poderes e tornar-te um godslayer ainda mais poderoso. Por que abandonarias uma oportunidade tão valiosa?”
Diante da pergunta irritada de Athena, Godou respondeu com um suspiro cansado:
“Eu não quero esses poderes estranhos. Os que eu já tenho já dão trabalho suficiente. Além disso… não é porque eu ganhei uma luta que vou sair matando alguém. Eu sou um cara civilizado, sabia?”
“O quê?”
“Eu disse: não sou um deus da Idade do Bronze ou do Ferro. Estamos no século XXI. Não temos o costume de tirar a vida de alguém só porque vencemos um duelo. Não venha impor esses costumes antigos pra cima de mim.”
Após conter Erica e Yuri apenas com o olhar, Godou continuou:
“Mesmo nas competições que venci, nunca pensei em matar o oponente derrotado. Mas se isso não te convence… então vamos assim: dizem que o vencedor leva tudo, e o derrotado deve obedecer. Você aceita isso?”
Godou perguntou à Athena encolhida.
A deusa permaneceu em silêncio por um longo tempo antes de finalmente responder:
“……Muito bem. O derrotado deve obedecer ao vencedor. Não sei se voltaremos a nos enfrentar… cuide-se. Se o destino permitir, nos encontraremos novamente um dia.”
Athena levantou-se, seus cabelos prateados balançando suavemente.
“O homem que me derrotou… jamais esquecerei teu nome — adeus, Kusanagi Godou!”
Virando as costas para o grupo, Athena partiu lentamente.
Quando sua pequena silhueta desapareceu de vista, Erica suspirou de propósito:
“Godou… você sabe que, mesmo derrotando um [Deus Herético], seus poderes não aumentam se você não o mata, certo?”
“Não fale de matar com tanta facilidade. Além disso, mesmo que derrotemos esses deuses, eles simplesmente ressuscitam como se nada tivesse acontecido. Não é algo tão simples assim.”
Godou respondeu seriamente, refutando a explicação simplista de sua parceira.
Para aquelas pessoas, ressurreição e renascimento eram algo cotidiano — eram todos monstros imortais. Com uma dádiva assim, ele podia lutar sem reservas, sem precisar se preocupar em ferir o oponente.
“Mesmo dizendo isso… você nunca realmente pensou em matá-la, pensou? Sinceramente, eu pretendia ajudar o Godou a se tornar independente rapidamente, mas se continuar assim… nosso futuro não parece muito promissor.”
“Eu não quero me tornar ainda mais um monstro, então não tome decisões por mim com tanta frieza… aliás, Mariya-san está bem? Ela ainda parece muito abatida.”
Godou perguntou sobre Yuri, que ainda o encarava com olhos frios.
Quando ele a deixou, ela ainda era gentil — por que agora parecia uma bomba prestes a explodir?
Ela devia estar se sentindo mal. Era natural, considerando o quanto ele havia exigido dela antes.
Godou fixou o olhar no rosto de Yuri.
“Meu corpo realmente não tem nenhum problema; sou muito grata por Kusanagi-san ter vindo me salvar naquele momento.”
Um tom gelado.
Por trás das palavras educadas, havia uma expressão fria.
……Ela estava mesmo com raiva?
Então ele precisava se desculpar o quanto antes. Mesmo sendo constrangedor, era uma questão de sobrevivência.
“Mariya-san, me desculpe mesmo por todo o incômodo que causei neste incidente.”
Godou abaixou a cabeça — percebendo que até sua cintura havia se curvado profundamente.
Que desastre.
Será que isso bastava? Ele ainda seria repreendido?
A inquietação tomou conta dele.
Mas Yuri não parecia nem um pouco interessada nisso — em vez disso, começou a repreendê-lo por algo completamente inesperado.
“Não, isso não me incomoda; foi por causa de Kusanagi-san que acabei passando por aquela situação extrema, mas você também me salvou, então não me importo. Mas… há outra coisa que gostaria de perguntar.”
Ela exibiu um sorriso sombrio, igual ao de algumas horas atrás.
Ver aquela expressão surgir novamente no rosto delicado de Yuri… era assustador.
“Você é, de fato, um rei demônio — alguém que possui a autoridade de um verdadeiro godslayer. Mas esses poderes não são para serem usados como bem entender. O que você pensa sobre isso?”
“Ah… sobre isso… eu acho que você está completamente certa.”
“Então por que você não presta mais atenção ao seu redor?! Esses jardins estão destruídos — e o que pretende fazer com aquilo ali?!”
Yuri apontou com firmeza para a frente.
Godou olhou na direção indicada — e congelou ao ver a cena no céu noturno.
“Uhh…”
Nos topos de vários arranha-céus que se erguiam até o céu—
Dois terços dos telhados haviam sido simplesmente cortados, como se fossem blocos de manteiga fatiados por uma faca.
Além disso, o mesmo havia acontecido com as vias elevadas da via expressa.
Trechos inteiros da estrada haviam desaparecido, como gelo derretido por um maçarico — simplesmente sumiram, sem deixar vestígios.
As chamas do [Garanhão Branco], que haviam descido dos céus… provavelmente foram a causa disso.
Por causa da temperatura absurda, as bordas das estruturas destruídas pareciam derretidas.
Mas aquilo não era doce, nem creme, nem gelo—
Era concreto armado.
“Se for assim… não dá pra simplesmente consertar as partes derretidas?”
“Quem sabe? Mesmo que dê, vai ser extremamente difícil… só montar andaimes no topo desses prédios já seria um problema enorme.”
Erica e Godou conversavam como se fosse algo trivial.
Para ela, aquilo não parecia um problema tão sério.
Para ele… era só uma forma de fugir da realidade.
“Eu não te disse isso hoje de manhã? Você não presta atenção ao seu redor. Nem passou um dia e você já fez tudo isso.”
Como a única pessoa ali com bom senso e responsabilidade, Yuri falou friamente:
“E além disso, você é vulgar, indecente… um completo pervertido! Alguém tão imoral, lascivo e imprudente como você possuir o poder de um rei demônio… sinceramente, começo a duvidar do futuro deste mundo! Eu realmente me enganei com você. Achei que fosse alguém confiável e honesto… mas fui ingênua. Que decepção.”
“I-Isso, Mariya-san… essas coisas indecentes… isso não parece certo—”
Diante daquela miko estranhamente exaltada, Godou respondeu com cautela.
Mas foi interrompido por um olhar afiado como uma lâmina.
“Sério, Kusanagi-san, você já esqueceu o que estava fazendo tão rápido assim? Erica-san é italiana, então não vou comentar… mas você é um homem japonês! Como pôde fazer algo tão vulgar, tão indecente? Você deveria refletir melhor sobre o que é vergonha!”
“Hã? Do que você está falando? Eu… fiz alguma coisa estranha?”
“Você esqueceu mesmo? Aquilo tão… intenso — a-aquele beijo quente… fazer algo tão vergonhoso assim!”
Só então Godou finalmente entendeu o motivo da fúria de Yuri.
Mas, ao mesmo tempo… isso só o deixou ainda mais confuso.
Ele não era bom em se explicar, e seria muito difícil esclarecer que aquilo era uma magia necessária para derrotar Athena; o melhor seria deixar isso nas mãos de sua parceira, muito mais carismática.
Ele implorou com o olhar para Erica — apenas para perceber, tarde demais, que isso era como cavar a própria cova.
“Hehe, então a Yuri não gostou daquilo. Você realmente amadureceu tarde demais… No começo, o Godou também não se sentia muito diferente~~”
Mas o que ela estava dizendo?! Esse “no começo” era completamente desnecessário!
“Desde os tempos antigos, o beijo de uma garota não era a melhor bênção para guerreiros que partem para a batalha? Então eu lhe dei força dessa forma. O Godou ficou envergonhado no início, mas agora… ele nem consegue mais lutar sem isso — é realmente preocupante.”
Enquanto ouvia a explicação de Erica, Godou percebeu o gosto do verdadeiro desespero.
Não era exatamente uma mentira… mas a forma maliciosa como ela explicou distorcia completamente os fatos e escondia deliberadamente a verdade.
“N-Não é assim, Mariya-san, na verdade—”
“Se for uma desculpa, não é necessário; eu já entendi o que está acontecendo.”
“Quando você diz que entendeu—”
“Sendo seduzido dessa forma pela Erica-san, o Kusanagi-san deve ter obedecido a tudo, não é? Eu entendo muito bem essas coisas. Afinal, você também é um homem; quando sua amada te envolve assim, você acaba fazendo tudo o que ela quer.”
Não havia espaço para explicações.
Yuri sorria enquanto dizia aquilo — um sorriso belo, porém gelado, acompanhado por uma frieza sem emoção.
“Já está tarde hoje, então não direi mais nada. Mas amanhã, por favor, venha ao Santuário Nanao. Não precisarei me preocupar com o horário, então vou te educar adequadamente — porque preciso te ensinar isso com seriedade, então venha sozinho. Definitivamente não traga sua amante.”
Com uma voz firme e impiedosa, ela deu seu veredito final.
Diante daquela pressão esmagadora, Godou não teve escolha senão concordar.
Capítulo 7 – Referências
Jardins Hamarikyu: um parque público localizado na foz do rio Sumida, cercado por um fosso de água do mar e construído a partir do que antes era uma vila da família Tokugawa.
Distrito de Tsukiji: tsukiji significa literalmente “terra recuperada”; embora várias cidades japonesas possuam áreas com esse nome, nenhuma é tão famosa quanto a de Tóquio.
Maria Antonieta: rainha da França executada durante a Revolução Francesa, conhecida por seu estilo de vida extravagante, egoísta e ostensivo, além de sua incapacidade de compreender o povo comum.
“Que comam bolo”: frase famosa supostamente dita por Maria Antonieta em resposta àqueles que reclamavam da falta de pão, embora historiadores acreditem que isso seja fruto de dramatizações jornalísticas.
Ísis e Ishtar: Ísis é a deusa egípcia da compaixão, da natureza e da magia, frequentemente vista como a mãe e esposa ideal, além de protetora dos oprimidos, pecadores e escravos; Ishtar é a deusa assíria e babilônica da fertilidade, da guerra, do amor e do sexo, conhecida por seu temperamento volúvel e por ter enviado o Touro Celestial contra Gilgamesh após ter seu amor rejeitado na Epopéia de Gilgamesh.
Indra: rei dos deuses e divindade das tempestades, da chuva e da guerra na mitologia hindu, também associado a Vajrapani, o principal protetor do Buda.
Deus Rebelde: também chamado de Deus Herético (escrito como “Deus Desobediente” no original); porém, como os próprios heréticos não se referem a si mesmos dessa forma, o uso de “Herético” por Athena é adaptado para “Rebelde”.
Mitra (Mithra): deus zoroastrista dos pactos e juramentos, uma divindade do julgamento e guardião onisciente da verdade, além de protetor do gado, das colheitas e das águas.
Pégaso: o cavalo alado; segundo a mitologia grega, Medusa foi fecundada por Poseidon, e quando o herói Perseu a decapitou, Pégaso e Crisaor — um gigante portador de uma espada dourada — emergiram de seu corpo.
Hera, Afrodite: Hera era irmã de Zeus e deusa das mulheres e do casamento; Afrodite era a deusa grega do amor, do prazer e da beleza.
Apolo: deus grego do sol, da verdade e da profecia, da cura e da peste, além de patrono das artes; filho de Zeus e Leto, é uma das divindades mais importantes e idealizadas da Grécia.