A Record of a Mortal's Journey – Capítulo 22
Desvio de Qigong
Observando as costas de Li Feiyu se afastarem pouco a pouco até desaparecerem ao longe, Han Li permaneceu parado onde estava, mergulhado em pensamentos.
Depois de combinarem de se encontrar ao meio-dia do dia seguinte, o Irmão Sênior Li tomou a iniciativa de se despedir. Disse que precisava meditar para curar completamente os ferimentos.
Apesar de terem conversado por bastante tempo, Han Li não perguntou por que Li Feiyu havia tomado aquela pílula. Ele sabia que, mesmo que perguntasse, seria inútil — o que já aconteceu não pode ser desfeito.
Pelo que havia observado, Li Feiyu estava disposto a abrir mão do próprio futuro em troca de apenas dez anos de fama e glória. Isso provavelmente significava que havia algum motivo por trás de sua decisão, algo que o deixara sem escolha. Ninguém decide se suicidar voluntariamente; se Han Li realmente insistisse nessa pergunta, seria como jogar sal em uma ferida aberta.
Claramente, a atitude de Han Li foi a correta. Antes de partir, quando Li Feiyu percebeu que ele não havia questionado o motivo de ter tomado a Pílula de Extração de Essência, sentiu-se grato pela consideração de Han Li. Embora não tivesse dito nada em voz alta, Han Li sabia que Li Feiyu agora se sentia em dívida com ele.
Han Li já estava preparado para cumprir sua promessa ao Irmão Sênior Li. Não apenas manteria o segredo, como também prepararia o remédio para aliviar a dor.
O motivo era simples.
Como o Irmão Sênior Li não era uma pessoa vil — e claramente não desejava realmente matá-lo — Han Li pensou que poderia aproveitar a oportunidade para aumentar ainda mais o favor que Li Feiyu lhe devia. Assim, no futuro, seria difícil para ele recusar qualquer pedido.
Nos próximos anos, as habilidades marciais de Li Feiyu só cresceriam cada vez mais, à medida que a Pílula de Extração de Essência consumisse sua força vital. Alguém como ele poderia ser de ajuda imensurável para Han Li no futuro. Mesmo que esse favor nunca fosse necessário, ainda assim não haveria prejuízo algum. Além disso, poder ajudar alguém como o Irmão Sênior Li também deixava Han Li satisfeito.
Embora Li Feiyu talvez não fosse exatamente uma boa pessoa, Han Li sabia que, depois do que havia acontecido naquele dia, ele não voltaria a ameaçá-lo.
Han Li revisou mentalmente toda a sequência de acontecimentos daquele dia mais uma vez. Só depois de ter certeza de que não havia esquecido nenhum detalhe é que retornou ao Vale da Mão Divina.
Quando finalmente voltou ao vale em um passo tranquilo, começou a preparar o remédio para aliviar a dor de Li Feiyu.
Para Han Li, preparar aquele medicamento era relativamente simples. Todos os ingredientes necessários podiam ser encontrados no jardim de ervas medicinais ali perto. A única parte um pouco mais complicada era o processo de preparo — era preciso total concentração, caso contrário a chance de falha seria alta.
Depois de uma tarde inteira de trabalho, Han Li preparou uma quantidade suficiente do remédio para um ano inteiro.
Ele deliberadamente não fez mais do que isso. Seu plano era que, quando o medicamento acabasse, Li Feiyu precisaria procurá-lo novamente. Dessa forma, sua importância aos olhos do Irmão Sênior Li aumentaria, tornando ainda mais difícil que ele esquecesse o favor recebido.
No meio da noite, Han Li foi subitamente tomado por uma sensação de solidão. Ele ergueu a cabeça e ficou olhando para as estrelas no céu escuro, enquanto se perdia em lembranças.
Estava pensando em sua família, lá na pequena vila onde havia crescido.
Já fazia quatro anos desde que deixara o vilarejo. Desde que chegara à montanha, dedicava-se diariamente ao cultivo da fórmula oracular sem nome, sem jamais encontrar tempo para visitar a família.
A única coisa que fazia para aliviar a saudade era enviar, todo mês, alguns taéis de prata para casa, na esperança de que sua família estivesse vivendo melhor.
Ele guardava com grande carinho as cartas que seus pais lhe enviavam. Embora nelas não houvesse muitas palavras — geralmente apenas dizendo que tudo estava bem, que seu Segundo Irmão havia se casado e que a vida estava melhor graças à prata que ele mandava — aquelas cartas sempre conseguiam trazer algum conforto ao seu coração.
No entanto, ao longo dos anos, Han Li começou a perceber algo estranho.
O tom das cartas estava ficando cada vez mais educado… quase formal. Como se estivessem escrevendo para um estranho.
No começo, isso despertou um medo profundo em seu coração, pois ele não sabia como lidar com aquela situação. Mas, com o passar do tempo, aquela sensação de medo foi se tornando entorpecida, enquanto a imagem de sua família em sua mente começava a se tornar cada vez mais vaga.
Recordando as memórias do passado, lembrando da sensação calorosa dos dias em que ainda vivia na vila, uma súbita melancolia tomou conta de seu coração.
Aquela sensação de calor e proximidade era extremamente preciosa para ele — e sabia que nunca mais poderia experimentá-la novamente.
Han Li levou a mão ao peito e segurou o amuleto da sorte guardado no pequeno saco de couro pendurado em seu pescoço.
Sempre que se sentia frustrado, bastava segurar aquele amuleto para que seu coração se acalmasse.
Mas naquela noite, mesmo segurando-o, seu coração apenas ficava cada vez mais agitado. Ele não conseguia se acalmar.
Incapaz de controlar as emoções, um peso crescente começou a oprimir seu peito, desencadeando reações estranhas em seu corpo. Seu sangue começou a ferver, enquanto o Qi dentro dele se agitava descontroladamente.
“Desvio de Qigong!”
Essas duas palavras surgiram imediatamente em sua mente.
Han Li se levantou de um salto e puxou uma profunda respiração, tentando à força suprimir o caos dentro de si enquanto dizia a si mesmo para se acalmar. Agora que o Doutor Mo estava ausente, ele só podia contar consigo mesmo para superar aquela crise.
Ele não sabia por que estava sofrendo um desvio de Qigong, e sua mente começou a trabalhar freneticamente.
Mesmo sabendo que aquele não era o melhor momento para investigar a causa, ele ainda tentou encontrar a origem do problema. Cortar o mal pela raiz era a melhor forma de se recuperar de um desvio de Qigong.
Han Li virou a cabeça e examinou o ambiente ao redor.
Mas nada parecia fora do comum.
Ele levou a mão direita ao queixo pensativo — e, nesse movimento, sua mão acabou batendo em algo pendurado em seu peito.
“Saco de couro… amuleto da sorte.”
Os nomes daqueles dois objetos surgiram em sua mente.
“Será que foi o amuleto que causou essa reação?”
Han Li não tinha certeza. Mas não havia mais tempo para hesitar. A condição de seu corpo estava piorando rapidamente, e havia sinais claros de que em breve ele perderia o controle do Qi turbulento dentro de si.
Sem pensar duas vezes, Han Li arrancou o saco de couro do pescoço e o lançou para longe.
— Não… tem algo errado… Estou me sentindo ainda pior. O fluxo do meu Qi e do meu sangue está ficando ainda mais violento!
Han Li reprimiu à força o Qi em ebulição dentro de seu corpo enquanto encarava o saco de couro com os olhos vermelhos, tentando descobrir por que seu estado havia piorado depois que o lançou para longe.