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Tales of Herding Gods – Capítulo 14

Andando Sobre a Água

Qin Mu corria como o vento, seu qi vital ficando cada vez mais forte. Não importava quantos quilômetros percorresse, os moradores da Vila dos Idosos Deficientes conseguiam acompanhar seu ritmo. Até mesmo o Cego se movia com facilidade, como se estivesse caminhando sobre terreno plano.


Quando Qin Mu entrou em uma certa floresta, uma figura completamente negra surgiu de repente e rugiu: “Morra, pirralho…!”


Era o macaco demoníaco! Ao ver Qin Mu invadindo novamente seu território, soltou um rugido furioso.


O Velho Ma, com um braço só, lançou um olhar para a criatura.


Era um olhar sem emoção — e isso bastou para aterrorizar a enorme besta. Ela sentiu como se pudesse morrer no instante seguinte. Sem ousar desafiar, abandonou seu território imediatamente e fugiu.


Qin Mu continuou correndo sem parar. Seu qi vital circulava vigorosamente, e o restante do caminho transcorreu sem incidentes. Só ao chegar à Vila dos Idosos Deficientes ele saiu do estado de transe e percebeu que estava coberto de sujeira. Sem notar, uma camada espessa de uma mistura de sangue escuro e gordura impura havia se acumulado por todo o seu corpo.


“Mu’er, vá até o rio se lavar,” disse a Vovó Si. “Cego, vá com ele, para que as criaturas do rio não o levem embora.”


O Cego se apoiou em sua bengala de bambu e acompanhou Qin Mu até o rio. Qin Mu imediatamente tirou a roupa e mergulhou, lavando toda a sujeira.


O Cego tocou levemente a superfície da água com sua bengala, assustando um enorme peixe verde que havia se aproximado silenciosamente de Qin Mu. A criatura saltou para fora do rio e caiu a vários metros de distância. Tinha mais de seis metros de comprimento, e seus bigodes lembravam oito tentáculos, cada um com cerca de três metros.


Depois de se lavar, Qin Mu olhou para as águas ondulantes do rio. Uma coragem repentina surgiu em seu peito, crescendo como um fogo intenso.


Seu qi vital começou a se agitar violentamente, subindo até sua garganta, até que ele soltou um grito profundo. Era como se tivesse aberto um tesouro oculto dentro de si!


O grito ecoou pelas montanhas e pela floresta, fazendo a superfície do rio tremer.


Enquanto o som reverberava, Qin Mu emergiu da água e, de repente, começou a correr sobre a superfície do rio, avançando com grandes passos!


A cada passada, a força de seus pés se fundia com o qi que fluía por suas pernas, liberando uma explosão de energia. Sempre que seus pés tocavam a água, ela explodia em todas as direções!


Antes mesmo que a água voltasse ao lugar, Qin Mu já estava vários metros à frente, correndo sobre o rio.


Tap tap tap tap tap—!


O som nítido de seus passos ecoava pelo ar. Em pouco tempo, ele já havia percorrido mais de um quilômetro sobre a superfície da água.


Qin Mu se sentia livre como um pássaro, e seus gritos se tornavam cada vez mais eufóricos. Ele corria com alegria, seus passos largos e despreocupados o levando de um lado a outro do rio. Era como se uma música celestial, tocada por imortais, descesse do céu, acompanhada pelos cantos melodiosos de um dragão e uma fênix.


Sua velocidade era impressionante. Em pouco tempo, ele já havia atravessado o rio de um lado ao outro. Uma brisa suave passou pela superfície ondulante da água enquanto ele já retornava para o ponto de partida.


O Cego, apoiado em sua bengala, permaneceu à margem. O vento vindo do rio bagunçava seus cabelos brancos. Ao ouvir os gritos de entusiasmo de Qin Mu, ele assentiu levemente, com um sorriso tranquilo.


“Enquanto o macaco chorava sem parar de uma margem do rio à outra, o vento gélido congelava suas partes íntimas!” recitou em voz alta. “Você não sente frio, correndo feliz pelo rio com tudo de fora, Mu’er?”


Splash!


Qin Mu caiu na água com um grande mergulho, e um grito surpreso ecoou do meio do rio.


Pouco depois, o jovem nadou de volta à margem e saiu da água, envergonhado, secando o corpo antes de vestir suas roupas.


Seu momento de iluminação à beira do rio o havia deixado tão empolgado que ele simplesmente esqueceu que estava nu e saiu correndo sobre a água. Ainda assim, correr daquele jeito… tinha sido surpreendentemente refrescante.


“Ainda bem que o Vovô Cego não pode ver…” pensou consigo mesmo.


Depois de se vestir, Qin Mu ainda ajustava a roupa quando levantou a cabeça — e congelou.


Velho Ma, o Mudo e os outros moradores estavam todos ali, na floresta à sua frente. Até a Vovó Si e o Chefe da Vila, que estava sendo carregado em uma maca, tinham vindo.


O rosto de Qin Mu ficou completamente vermelho.


“V-vovó! Q-quando vocês chegaram?” perguntou, gaguejando.


A Vovó Si caiu na risada. “Mu’er, todos nós já vimos seu traseiro inúmeras vezes, não tem motivo pra ficar com vergonha. Ouvimos seus gritos animados e viemos dar uma olhada.”


“Venha aqui, Mu’er,” disse o Chefe da Vila, tossindo levemente. “Você foi perseguido por cinco praticantes do Reino do Embrião Espiritual, então pode ter ferimentos que não percebeu. Deixe o Boticário te examinar.”


Qin Mu se aproximou e deixou que o Boticário examinasse cuidadosamente seu corpo.


Após terminar, o Boticário balançou a cabeça. “Nada sério. São apenas ferimentos superficiais.”


O Chefe da Vila também fez sua própria avaliação e então indicou que Qin Mu podia ir. Imediatamente, o Açougueiro o arrastou para treinar sua técnica de faca.


Insatisfeito por Qin Mu precisar de mais de cinco mil golpes para derrotar o Irmão Sênior Qu, ele decidiu submetê-lo a um treinamento impiedoso.


O Boticário observava Qin Mu treinar com vigor enquanto caminhava até a maca do Chefe da Vila.


“Descobriu alguma coisa?” perguntou.


“A velocidade com que o qi dele está evoluindo… é extraordinária!” respondeu o Chefe da Vila, sem esconder nada. “A diferença de ontem para hoje já supera minha imaginação. Aquele grito de antes só foi possível porque ele fez o qi ressoar na garganta. E mais — havia traços de divino e demoníaco nele. Ignorando o fato de que ele ainda não rompeu a Muralha do Embrião Espiritual, até mesmo um praticante desse reino não conseguiria produzir uma ressonância de deus ou demônio! Se fosse um humano comum como ele, levaria vinte anos para alcançar esse nível de qi.”


Os gritos que Qin Mu soltou enquanto corria sobre o rio eram resultado da ressonância do qi em sua garganta. Ao mesmo tempo, porém, ele havia, sem perceber, incorporado aspectos da voz demoníaca que ouvira nas ruínas.


O curioso era que, ao analisar aquela voz, ele também havia memorizado a voz coletiva das donzelas — a voz divina.


Como consequência, sem perceber, seus gritos carregavam traços tanto da voz demoníaca quanto da voz divina.


Para os outros, aquilo parecia algo comum, pois não conseguiam perceber a profundidade por trás. Mas o Chefe da Vila conseguia — e sabia que aquilo não era algo trivial.


“Ressonância de deus e demônio!?” o Boticário se assustou. “Como ele conseguiu isso? Alcançar vinte anos de cultivo em uma noite… é simplesmente absurdo. Será que foi o sangue dos quatro espíritos?”


O Chefe da Vila balançou a cabeça. “Mesmo que o sangue dos quatro espíritos melhore o corpo e o qi, não poderia elevar a esse nível.”


O Boticário refletiu por um momento e então disse: “Será que Mu’er é, na verdade, um gênio natural? Alguém que nasceu com um talento perfeito para o cultivo?”


“Por que um gênio natural teria a constituição de uma pessoa comum?” o Chefe da Vila franziu a testa. “Um verdadeiro gênio nasceria com um Corpo Espiritual. Além disso… alcançar uma ressonância de deus e demônio… que tipo de gênio conseguiria fazer isso?”


“Essa ressonância de deus e demônio nos gritos dele é algo bom ou ruim?” perguntou o Boticário.


“Eu não faço ideia,” respondeu o Chefe da Vila. “Eu ouvi tanto a ressonância divina quanto a demoníaca nos gritos dele. As duas estavam em conflito, lutando uma contra a outra. Não sei se isso é algo positivo ou negativo.”


O olhar do Boticário vacilou. “Se é assim… de onde vieram essa voz divina e essa voz demoníaca?”


“Eu não sei!”


As cabeças dos dois começaram a doer. Já fazia muito tempo desde a última vez que sentiram dor de cabeça por não conseguirem entender algo. Desde que adotaram Qin Mu — aquele bebê que havia descido flutuando pelo rio — as coisas que não conseguiam explicar só aumentavam.


A noite logo caiu, e a Vila dos Idosos Deficientes voltou a ser envolta pela escuridão. Em uma das casas de madeira, a Vovó Si dormia em seu quarto, enquanto Qin Mu dormia no dele.


No meio da noite, uma voz sombria começou a ecoar na mente do inconsciente Qin Mu. Logo em seguida, uma voz melodiosa respondeu. Eram as mesmas vozes divina e demoníaca de antes. Elas começaram a se enfrentar, ficando cada vez mais altas e intensas.


A ressonância dessas vozes evoluiu lentamente para um verdadeiro confronto entre luz e escuridão. Dentro de sua mente, Qin Mu de repente se tornou uma alma sem forma, flutuando no céu acima daquele embate, olhando para baixo, atônito.


O cenário daquela batalha era exatamente como as ruínas onde ele havia presenciado aquilo pela primeira vez. Mas ali tudo era muito maior, muito mais grandioso. A escuridão se estendia como tentáculos, perfurando a luz sem cessar, enquanto a luz contra-atacava em explosões repentinas, dissipando a escuridão.


Pouco depois, Qin Mu finalmente conseguiu enxergar o que realmente compunha aquela escuridão e aquela luz.


A escuridão… era formada por ondas intermináveis de demônios, avançando como marés furiosas em direção à luz.


A voz demoníaca não vinha de uma única entidade — era o grito de guerra de bilhões de demônios!


E a luz não era diferente.


Era um oceano de deuses, vestidos com armaduras douradas, avançando e clamando em batalha contra os demônios!


Qin Mu “pairava” muito acima daquele confronto, de modo que deuses e demônios pareciam apenas pontos minúsculos. Antes, ele achava que era apenas um embate entre luz e escuridão, pois estava longe demais para enxergar claramente.


Mas agora que via a verdade… um choque e um terror profundos tomaram conta dele.


De repente, Qin Mu abriu os olhos. Seu corpo estava encharcado de suor. As vozes estrondosas de deuses e demônios ainda ecoavam em sua mente, como se fossem partir sua cabeça ao meio.


Mas, naquele instante, o pingente de jade em seu peito começou a se elevar lentamente. Ele flutuou até o centro de sua testa e repousou ali suavemente. Uma sensação tranquila e reconfortante se espalhou por sua mente… e as vozes desapareceram.


Qin Mu se sentou de repente, respirando fundo, completamente confuso. Ele não fazia ideia do que havia acabado de acontecer.


Pouco depois, saiu de casa e caminhou pela vila, comparando o brilho de seu pingente de jade com a luz espectral das estátuas de pedra espalhadas pelo lugar.


Lá fora, tudo estava mergulhado na escuridão, e o pingente emitia um brilho igualmente etéreo. Qin Mu o encarava em silêncio, hipnotizado, seus olhos refletindo aquela luz suave, incapaz de desviar o olhar.


Sem que ele percebesse, a Vovó Si se aproximou por trás e testemunhou aquela cena quase sobrenatural.


“Mesmo tendo sido criado por nós, da Vila dos Idosos Deficientes… ele não pertence a este lugar,” pensou, com o coração apertado. “Um dia, ele vai ter que ir embora…”


Então, de repente, uma determinação firme surgiu em seus olhos.


“O mundo lá fora é muito mais perigoso do que as Grandes Ruínas… Ele ainda não é forte o suficiente. Ainda não.”

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