My Happy Marriege – Volume 1 – Capítulo 1
Do Nosso Encontro e das Minhas Lágrimas
Assim como em qualquer outra família nobre, o dia na casa dos Saimori começava com um café da manhã tranquilo na sala de estar de sua ampla residência tradicional japonesa, na capital. Ou pelo menos seria tranquilo, não fosse por uma voz estridente que cortou o ar fresco da manhã.
“O que é isso que você me trouxe?!”
Um líquido escaldante foi arremessado contra o rosto e o peito de Miyo. Mesmo assim, ela não soltou um único gemido, permanecendo curvada no chão. A bela jovem que segurava a xícara ergueu as sobrancelhas, indignada, enquanto a irmã mais velha — vestida com roupas gastas de criada — se inclinava em um pedido de desculpas humilhado. Como de costume, os empregados presentes desviaram o olhar.
“Esse chá está amargo demais, impossível de beber!”
“Sinto muito…”
“Faça outro agora mesmo!”
Apesar de ter preparado o chá exatamente como sempre fazia, Miyo aceitou o pedido da meia-irmã com docilidade, como se fosse apenas uma serviçal, e se apressou em direção à cozinha, a cabeça baixa.
“Francamente, nem um simples chá ela sabe fazer direito. Não tem um pingo de vergonha?”
“De fato. Que vergonha para a família.”
Miyo fingiu não ouvir as risadinhas maldosas da meia-irmã e da madrasta enquanto saía do cômodo. Poderia se imaginar que seu pai interviria, que impediria que zombassem da própria filha — mas ele continuou a refeição como se nada tivesse acontecido. Já fazia anos que ele não a defendia, e, a essa altura, Miyo já não nutria mais esperança de que isso algum dia mudasse.
Desde tempos imemoriais, criaturas sobrenaturais assolavam aquele país. Algumas lembravam humanos ou animais; outras eram tão distorcidas que desafiavam qualquer descrição; e havia ainda aquelas que mudavam de forma constantemente, recusando-se a manter uma aparência fixa. Essas entidades de outro mundo, também chamadas de demônios ou espíritos, eram hostis aos humanos.
A responsabilidade de enfrentá-las recaía sobre os Dotados — descendentes de linhagens que possuíam poderes sobrenaturais. Apenas eles eram capazes de enxergar as chamadas Aberrações por meio da Visão Espiritual e derrotá-las com ataques igualmente sobrenaturais, sua única fraqueza. Essenciais para o império, os Dotados gozavam de grande prestígio social.
Os Saimori eram uma antiga família nobre, uma das linhagens que haviam alcançado destaque ao proteger o país dessas criaturas. Miyo era a filha mais velha de sua geração. O casamento de seus pais fora puramente estratégico: ambos possuíam o Dom, e suas famílias haviam arranjado a união para fortalecer a linhagem. Embora seu pai fosse contra, suas objeções foram ignoradas. No fim, ele rompeu com sua amante e, relutante, aceitou se casar com a mulher que viria a ser a mãe de Miyo.
Dessa união sem amor nasceu Miyo. Diziam que, nos primeiros anos de vida, ela fora muito querida. Suas lembranças dessa época eram vagas, mas ouvira que o pai a mimava e que era o maior tesouro da mãe.
Tudo mudou, porém, quando sua mãe morreu de doença, quando Miyo tinha apenas dois anos, e seu pai se casou com a antiga amante.
Sua madrasta passou a odiá-la por ser filha da mulher que a havia separado do homem que amava. Já seu pai, consumido pela culpa em relação à nova esposa, passou a ceder a tudo o que ela queria. Para piorar, perdeu completamente o interesse por Miyo após o nascimento da meia-irmã — afinal, aquela era a filha da mulher que realmente amava.
Kaya, a irmã mais nova, não era apenas mais bonita, mas também sabia manipular as pessoas com facilidade. Como se não bastasse, possuía a Visão Espiritual, algo que Miyo não tinha. Não demorou para que a menina começasse a tratar a própria irmã com o mesmo desprezo da mãe.
E então Miyo completou dezenove anos — idade em que moças de boas famílias costumavam se casar. Mas, sendo tratada como inferior até mesmo aos criados da casa, não recebeu sequer uma proposta. Além disso, não tinha dinheiro algum, pois sua família nunca lhe concedera uma mesada, o que a impedia até mesmo de sair dali.
“Aqui está o seu chá.” Miyo colocou uma nova chaleira, recém-preparada, na bandeja de Kaya. Sua madrasta bufou, mas não disse nada.
Miyo já estava convencida de que passaria o resto da vida como escrava delas.
E, a essa altura, já havia desistido de esperar por qualquer mudança.
Os pais e a irmã terminaram o café da manhã. Miyo ajudou os empregados a recolher a mesa e, em seguida, saiu para varrer a entrada da casa. Raramente limpava o interior, preferindo manter distância da madrasta e da irmã, que estavam sempre prontas para reclamar de qualquer coisa e lhe impor ainda mais tarefas.
Os empregados sabiam bem disso e, no fundo, ela suspeitava que sentiam certa compaixão por sua situação, pois acabavam deixando para ela apenas os serviços de lavanderia e as tarefas do lado de fora. Assim, Miyo conseguia um pequeno alívio nos dias em que a madrasta e a irmã permaneciam em casa.
“Olá.”
Miyo trabalhava em silêncio até quase o meio-dia, quando um visitante chegou.
“Ah… olá, Kouji.” Ela se curvou diante do recém-chegado, que lhe retribuiu com um sorriso gentil.
O homem, de semblante agradável e belo, vestia um elegante terno de três peças perfeitamente ajustado. Era Kouji Tatsuishi, o segundo filho de outra família distinta que também possuía o Dom. Sua propriedade ficava nas proximidades, e ele conhecia tanto Miyo quanto Kaya desde a infância. Mais importante ainda, ele a reconhecia como uma legítima filha dos Saimori — e era, de fato, um verdadeiro amigo para ela.
“Belo dia, não acha? Está bem quente.”
“Sim, está mesmo. Assim a roupa seca mais rápido.” Era raro ter alguém com quem pudesse trocar palavras simples como aquelas.
Kouji já havia tentado, muitas vezes, fazer algo para melhorar a situação de Miyo, desde que sua família começara a tratá-la como uma criada. No entanto, seu pai, chefe da família, o repreendera severamente e o proibira de se intrometer nos assuntos de outra casa. Desde então, Kouji não podia mais defendê-la abertamente — mas, ainda assim, Miyo o considerava um aliado.
“Ah, a propósito… trouxe uma coisinha para você”, disse ele.
“...Trouxe doces?”
Ele lhe entregou uma caixa embrulhada em um belo papel japonês.
“Trouxe sim. Espero que não se importe por não ser daqueles bolos ocidentais da moda. Ouvi dizer que eles costumam chegar todos amassados.”
“Obrigada. Vou dividir com os empregados.”
“Por favor, faça isso.”
Foi então que algo ocorreu a Miyo.
“Mas… o que o trouxe aqui hoje?”
Embora sempre se vestisse bem ao visitá-los, naquele dia sua roupa estava mais formal do que o habitual — e era raro vê-lo usando trajes ocidentais. Diante da pergunta, a expressão de Kouji se fechou por um instante, e ele desviou o olhar, como se estivesse constrangido.
“Bem… veja… eu tenho… um assunto importante para tratar. Com seu pai.”
Ele parecia hesitar nas palavras. Apesar de ser naturalmente reservado, Kouji não costumava agir de forma tão evasiva. Confusa, Miyo inclinou levemente a cabeça, perguntando-se o que poderia estar acontecendo. Mas ele apenas disse “até mais tarde” e entrou rapidamente na casa.
Curiosa sobre o motivo de sua visita, Miyo tentou afastar aqueles pensamentos, lembrando a si mesma de que aquilo não lhe dizia respeito, e voltou a empunhar a vassoura.
Ela era a filha mais velha da família Saimori e estava devidamente registrada como tal. Na prática, porém, não passava de uma jovem comum e pobre — sem talento, sem instrução e sem qualquer destaque em sua aparência. Percebeu, então, que ela e Kouji agora pertenciam a mundos completamente diferentes. De repente, seu coração se tornou pesado. Para se distrair, concentrou-se no trabalho até que uma das empregadas saiu da casa para chamá-la.
“Seu pai deseja vê-la, senhorita.”
“Hã?”
“Ele pediu que venha imediatamente.”
“Ah… já estou indo…”
Miyo teve um mau pressentimento. Para sua família, ela pouco mais era que uma criada, então não fazia sentido que seu pai a chamasse justamente enquanto recebia um visitante. Algo fora do comum estava acontecendo — e isso a enchia de medo. Mesmo lutando para conter o tremor nas pernas, ela seguiu até a sala de recepção.
“Com licença… sou eu, Miyo”, anunciou, diante da porta de correr.
“Entre”, respondeu o pai, de forma seca. O tom duro daquela ordem só aumentou sua ansiedade, e as pontas de seus dedos, apoiadas na porta, pareciam geladas.
Lá dentro estavam não apenas seu pai e Kouji, mas também sua madrasta e Kaya. Embora pressentisse que tinham algo desagradável a lhe dizer, Miyo manteve o rosto inexpressivo. Sentou-se perto da entrada, mantendo distância da madrasta e da meia-irmã, cujas expressões eram carregadas de desprezo.
Sem sequer olhar para ela, seu pai começou a falar, em um tom distante:
“Quero tratar da questão do casamento em relação ao futuro desta família. Miyo, achei melhor que você também estivesse presente.”
Casamento? Ao ouvir aquela palavra, seu coração deu um salto. A ideia de que o casamento poderia mudar sua vida despertou nela tanto medo quanto inquietação — mas também reacendeu uma pequena centelha de esperança.
Talvez… pudesse ser uma mudança para melhor.
Logo em seguida, porém, repreendeu a si mesma por alimentar tais ilusões. Milagres simplesmente não aconteciam — pelo menos, não com ela.
Mais uma vez, a voz firme de seu pai quebrou o silêncio.
“Kouji será adotado pela nossa família para dar continuidade ao nosso nome. Sendo assim, ele precisará de uma esposa que o apoie. Kaya, você será a noiva dele.”
Claro… só podia ser ela.
Embora Miyo devesse esperar por isso, ainda assim sentiu como se um abismo tivesse se aberto sob seus pés. Por um instante, tudo escureceu — medo, ou talvez desespero, tomou conta dela. O sorriso presunçoso de Kaya sequer chegou a ser registrado em sua mente. Miyo já sabia dos planos do pai de adotar Kouji, o segundo filho da família Tatsuishi, mas, em algum momento, uma tênue chama de esperança havia se infiltrado em seu coração sem que ela percebesse.
A esperança de poder se casar com o único homem em quem confiava. De se tornar a senhora da casa Saimori. De ver Kaya partir após o casamento, deixando de viver sob sua sombra. De, quem sabe, um dia voltar a conversar livremente com seu pai, como faziam no passado.
Tudo aquilo… era uma tolice.
Ela deveria saber que o destino jamais estaria ao seu lado.
“Miyo, você será prometida ao herdeiro da família Kudou, Kiyoka Kudou.”
Ela sequer conseguiu erguer o rosto. Com a cabeça baixa, respondeu com a voz trêmula:
“Como desejar, pai.”
“O quê? Não está feliz por se casar com alguém da família Kudou?” acrescentou Kaya, com uma animação claramente falsa.
A família Kudou também possuía o Dom. Muitos de seus membros eram abençoados com poderes sobrenaturais excepcionais, e o clã havia se destacado ao longo do tempo por inúmeros feitos de bravura — alguns dignos de lenda. Seu prestígio, fama e riqueza estavam muito acima das demais famílias.
Por outro lado, Kiyoka tinha fama de ser frio e impiedoso. Entre todas as jovens de boas famílias oferecidas a ele como possíveis noivas, nenhuma conseguira permanecer ao seu lado por mais de três dias antes de fugir de volta para casa. Era o que Miyo ouvira nos cochichos dos empregados. Se aquilo fosse verdade, então ele devia ser, de fato, um homem terrível.
E agora seu pai ordenava que ela se casasse com ele — provavelmente com a intenção de nunca mais deixá-la voltar a esta casa. Miyo não tinha educação formal. Seu pai certamente sabia que não havia a menor chance de esse arranjo dar certo.
“É realmente um desperdício oferecer uma oportunidade tão boa a alguém como você, que não tem nenhuma qualidade. Naturalmente, você nem está em posição de recusar algo assim.”
Sua madrasta parecia animada com a perspectiva de finalmente se livrar da enteada que tanto desprezava.
“Exato. Você não tem escolha a não ser aceitar. Arrume suas coisas e, assim que terminar, mandaremos você para a casa do senhor Kudou.”
Miyo empalideceu, incapaz de responder. Antes, ela sonhava em deixar a casa dos Saimori — mas, tendo como destino a residência dos Kudou, seria como sair de uma situação ruim para outra ainda pior. Em sua mente, só conseguia imaginar dois desfechos possíveis: ou aquele homem cruel a expulsaria imediatamente, ou ela o irritaria e seria eliminada ali mesmo.
Sua única esperança era que ele a tratasse como uma simples criada — exatamente como sua própria família fazia.
Era comum que uma possível noiva passasse um tempo na casa do homem com quem poderia se casar, aprendendo as regras do lar e avaliando se eram compatíveis antes de oficializar o noivado. No caso de Kiyoka, essa prática fazia sentido, considerando sua fama difícil. Mas, para Miyo, aquilo tinha outro significado: sua família queria se livrar dela o mais rápido possível.
Seu mundo escureceu novamente.
Depois de sair da sala de recepção, mergulhada em pensamentos sombrios, ouviu Kouji chamá-la.
“Sim, Kouji?”
Ela se virou. O rosto dele estava tomado por angústia e vergonha — algo que ela nunca tinha visto antes.
“Miyo, me desculpe. Eu sou inútil… Não consegui fazer nada por você, e nem sei o que dizer agora.”
“Não precisa se desculpar, Kouji. É o destino. Apenas não estava ao meu favor.”
Miyo tentou sorrir, na tentativa de aliviar o clima, mas foi difícil — como se seu rosto tivesse se tornado rígido demais para isso. Pensando bem… fazia quanto tempo que ela não sorria de verdade?
“Não, você não pode simplesmente chamar isso de destino!”
“Está tudo bem, Kouji. Eu não me importo com a decisão do meu pai. Quem sabe… eu até encontre felicidade nessa nova vida.”
Ela não acreditava de fato nisso — mas disse com firmeza, como se quisesse convencer a si mesma.
“…Você me odeia agora?”
Kouji parecia à beira das lágrimas. Era evidente que ele queria que ela descontasse nele sua frustração por não ter conseguido defendê-la. Isso estava claro em seus olhos. Mas Miyo estava exausta demais para lidar com os sentimentos dele naquele momento, então decidiu encerrar a conversa ali.
“Não… não odeio. Faz muito tempo que me afastei desse tipo de sentimento.”
“Sinto muito… sinto muito mesmo. Eu queria ter conseguido salvá-la, para que pudéssemos voltar a rir juntos, como antes. Eu queria—”
“Kouji!”
Kaya surgiu, chamando-o em voz alta ao sair do cômodo atrás deles. Havia algo inquietante, quase distorcido, escondido sob seu sorriso deslumbrante.
“O que vocês dois estavam conversando?”
“…”
O futuro marido de Kaya mordeu os lábios, engolindo as palavras que não conseguiu dizer.
“N-nada importante.”
Kouji vinha de uma família respeitada, era dotado de habilidades sobrenaturais e ainda possuía uma aparência agradável — mas tinha uma falha. Era covarde. Preocupava-se demais em não desagradar ninguém. Tomar partido significaria ferir Miyo ou Kaya, e, por isso, ele preferia se calar. Miyo não sabia o que ele estava prestes a dizer antes da interrupção da irmã, mas, naquele momento, já não importava.
Ainda assim, era verdade que Kouji, com sua gentileza, já a havia ajudado muitas vezes no passado.
“Kouji.”
“Sim…?”
“Obrigada… por tudo.”
Era tudo o que conseguia dizer. Estava completamente exausta.
Kaya observou a cena com um sorriso encantador enquanto Miyo se curvava profundamente e se afastava, sem olhar para trás.
—
Naquela noite, o sono não veio.
O quarto de Miyo — um pequeno aposento de criada com pouco mais de cinco metros quadrados — já era simples por natureza. Agora, depois de guardar seus poucos pertences, parecia ainda mais vazio. Sua madrasta e meia-irmã haviam jogado fora ou tomado para si os quimonos que herdara da mãe. O mesmo destino tivera qualquer outro objeto de valor que um dia possuíra.
No fim, tudo o que restava como verdadeiramente seu, além do próprio corpo, era o uniforme de criada, algumas roupas simples herdadas de outros empregados e alguns itens básicos de higiene.
Ainda naquele mesmo dia, porém, seu pai lhe entregara um conjunto de roupas finas — não por consideração, mas para que ela não envergonhasse a família Kudou ao chegar vestida em trapos. Aquilo finalmente fez com que Miyo percebesse algo com clareza dolorosa: seu pai sempre soubera que ela não tinha roupas dignas… e simplesmente nunca se importara.
Deitada sob o cobertor fino ao qual fora obrigada a se acostumar, ela lutava para adormecer, enquanto lembranças surgiam em sua mente como imagens fragmentadas de um caleidoscópio. As felizes eram distantes; as mais recentes, cheias de dor e sofrimento.
Nada iria melhorar no dia seguinte.
Ela fechou os olhos desejando apenas que sua vida chegasse logo ao fim.
Um desejo simples.
Era como se estivesse à beira de um abismo, entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Exaurida emocionalmente, já não conseguia nem mesmo esboçar um sorriso amargo diante desses pensamentos.
—
A família Kudou era especialmente distinta, mesmo entre as demais linhagens nobres que possuíam o Dom. A maioria dessas famílias havia conquistado seu prestígio há muitas gerações, consolidando-se na aristocracia — mas os Kudou estavam acima da grande parte delas.
Além de um título na corte, possuíam vastas extensões de terra. Diziam que, com propriedades espalhadas por diversas regiões do país, podiam gerar riqueza praticamente à vontade, apenas arrendando suas terras.
O atual chefe da família era Kiyoka Kudou, de vinte e sete anos. Após se formar na universidade, ele havia passado no rigoroso exame de admissão militar e agora servia como major, comandando sua própria unidade. Pela juventude, influência e imensa riqueza, Miyo imaginava que ele levava uma vida extremamente luxuosa.
Na manhã seguinte ao anúncio de seu pai, Miyo deixou a casa vestindo roupas elegantes que, em seu corpo magro, pareciam não se ajustar bem. Segurando um pequeno embrulho com seus poucos pertences, partiu em direção à residência dos Kudou. Depois de algumas viagens de bonde — uma novidade para ela — acreditou ter chegado perto do endereço indicado, mas se viu nos arredores da cidade, sem nenhum sinal de uma mansão grandiosa.
Será que o chefe da família Kudou realmente mora por aqui?, perguntou-se.
Embora ficasse a poucos passos da cidade, a paisagem era composta principalmente por florestas, plantações e campos, com apenas algumas casas espalhadas. Pensou que, à noite, aquele lugar devia mergulhar em uma escuridão total, tão diferente da cidade. Ninguém fora enviado para recebê-la, e tampouco havia intermediários ou casamenteiros envolvidos no arranjo. O criado dos Saimori que a acompanhara até os limites da cidade já havia retornado, deixando-a seguir sozinha por um caminho de terra.
Depois de algum tempo, chegou a uma casa no meio da mata, que poderia facilmente ser confundida com um retiro isolado se fosse um pouco menor. Embora custasse a acreditar que aquela residência simples fosse o destino correto, o automóvel estacionado do lado de fora denunciava a riqueza de seu proprietário. Carros importados estavam muito além do alcance de pessoas comuns. Aquela só podia ser a casa de Kiyoka Kudou.
“Com licença…”
Ela bateu à porta com hesitação, e logo foi atendida.
“Um instante… poderia me dizer seu nome?”
Uma senhora idosa, de baixa estatura e expressão gentil, apareceu à porta. Pelo modo como se vestia, devia ser uma criada.
“Meu nome é Miyo Saimori. Fui instruída a vir até aqui para me encontrar com o senhor Kiyoka Kudou, a respeito de uma proposta de casamento…”
“Ah, sim, senhorita Saimori. Estávamos esperando por você.”
Pela reputação de Kiyoka, Miyo imaginara que seus empregados seriam frios, quase sem emoção — mais próximos de bonecos do que de pessoas. Por isso, o sorriso acolhedor e o tom gentil daquela senhora a deixaram momentaneamente surpresa.
“Por favor, entre. Vou levá-la até o escritório, onde o jovem mestre está.”
Ao receber o convite, Miyo atravessou a entrada da casa. Comparada à residência de sua família, aquela era até modesta. Parecia ter sido construída recentemente, a julgar pelo aspecto ainda impecável da madeira. Por dentro, também era mais aconchegante do que ela esperava.
Enquanto caminhavam por um curto corredor de piso de madeira, a mulher se apresentou como Yurie. Ela realmente era uma criada e trabalhava ali desde os tempos em que havia sido a ama de Kiyoka.
“Eu sei que circulam muitos boatos desagradáveis sobre o jovem mestre, mas ele é, na verdade, uma pessoa de bom coração. Não precisa ficar com tanto medo.”
Yurie falava em tom tranquilizador, interpretando o silêncio de Miyo como nervosismo. Mas Miyo não estava calada por medo — e sim por hábito. Aprendera, ao longo da vida, a não falar mais do que o necessário. Sempre que ousava se expressar em casa, era punida por sua suposta insolência.
“Obrigada… fico aliviada em ouvir isso.”
Na verdade, não fazia diferença para ela se ele fosse gentil ou não. O que realmente importava era que, no momento em que fosse rejeitada, estaria condenada a morrer nas ruas. Talvez fosse melhor aceitar essa possibilidade. A morte podia ser dolorosa, mas ao menos encerraria todo o sofrimento.
Ela estaria livre.
Yurie abriu a porta do escritório de Kiyoka. Miyo entrou, ajoelhou-se no chão e fez uma profunda reverência.
“É um prazer conhecê-lo. Meu nome é Miyo Saimori.”
“…”
Absorvido pelo que fazia à mesa, Kiyoka Kudou não se virou para olhá-la. Miyo fora treinada para permanecer imóvel e em silêncio até receber permissão para agir, então manteve a posição, aguardando.
“Por quanto tempo pretende continuar assim?”, perguntou ele, por fim, em voz baixa.
Ainda bem… ele me ouviu, pensou, aliviada.
Para ela, o simples fato de ser reconhecida já era, de certo modo, um gesto de bondade. Ergueu levemente a cabeça, apenas para se curvar outra vez.
“Peço perdão…”
“Não pedi desculpas”, disse ele, soltando um suspiro.
Então, finalmente, ela se endireitou. Iluminado pela suave luz da primavera que entrava pela janela, Kiyoka parecia tão belo que Miyo precisou desviar o olhar.
Ele é… bonito.
Miyo achava que sabia o que significava aquela palavra. Sua madrasta e sua meia-irmã eram muito bonitas, e a família Tatsuishi — Kouji incluído — também fora abençoada com uma aparência acima da média. Mas Kiyoka estava em outro nível. Ele reunia dignidade masculina e graça feminina; seus traços eram delicados, quase perfeitos. Qualquer pessoa, fosse jovem ou idosa, homem ou mulher, concordaria que ele não era apenas bonito — era radiante.
“Você é a mais recente candidata a noiva?”
Ela assentiu em silêncio. Ele fez uma careta.
“Então escute bem. Você deve obedecer a todas as minhas ordens. Se eu disser para ir embora, vá. Se eu disser para morrer, morra. Não quero ouvir reclamações nem objeções.”
Disse isso de forma ríspida, voltando-lhe as costas em seguida.
Miyo ficou imóvel, atônita. Tinha vindo preparada para humilhações e palavras duras… mas era só isso?
“Entendido.”
“Hmm?”
“Há mais alguma coisa…?”
“…”
“Então, com licença…”
Ele se virou para ela com uma expressão estranha. Como não parecia ter mais nada a dizer, Miyo deixou o cômodo.
—
“Sumiu… sumiu tudo! O que aconteceu?!”
Ao ouvir aquela voz infantil, trêmula e desesperada — a sua própria voz — Miyo percebeu que estava sonhando.
Era um sonho sobre o pior dia de sua vida, gravado em sua memória como uma cicatriz que jamais desapareceria. Naquela época, ela ainda frequentava a escola. Um dia, ao voltar para casa após as aulas, encontrou seu quarto completamente vazio.
“Onde estão minhas coisas?!”
Tudo havia desaparecido — inclusive as lembranças preciosas de sua mãe: quimonos, faixas, adornos. Até o espelho de maquiagem e o batom de sua mãe tinham sumido. Miyo logo concluiu quem era a responsável.
“Senhorita Miyo! O que aconteceu?!”
Hana, a criada, correu ao ouvir seus gritos. Ela cuidava de Miyo desde que nascera — era, para ela, como uma mãe.
“Sumiu tudo! Até as coisas da mamãe!”
“Meu Deus!” Hana exclamou, chocada. “Como isso pôde acontecer?”
Hana havia saído para fazer compras e não notara nada. Começou a se desculpar repetidamente, contendo as lágrimas. Miyo mordeu o lábio.
“Foi minha madrasta… eu tenho certeza.”
Miyo tinha apenas dois anos quando perdeu a mãe. Seu pai não demorara a se casar novamente, e Kanoko, sua madrasta, passara a odiá-la desde o primeiro dia. Já Kaya, filha de Kanoko, era três anos mais nova, mas desde cedo demonstrava grande talento. Herdara a beleza extraordinária da mãe e aprendia com facilidade. Além disso, já manifestara a habilidade característica dos Dotados — a Visão Espiritual, que permitia enxergar as Aberrações.
Nada disso podia ser dito sobre Miyo.
O casamento de seus pais existira apenas para transmitir poderes sobrenaturais aos descendentes — e, ainda assim, fora Kaya, e não Miyo, quem nascera com o Dom. E o mais irônico: a mãe de Kaya vinha de uma família comum, sem habilidades especiais. Pensando bem, seu pai não tinha ganhado nada ao abandonar seu grande amor, Kanoko, para se casar com a mãe de Miyo. Essa realidade só alimentava ainda mais o ódio da madrasta.
Miyo ainda era apenas uma criança naquela época — mas entendia tudo isso perfeitamente. Sua madrasta fazia questão de que entendesse, repetindo sempre coisas como: “Se você não tivesse nascido, tudo seria melhor” ou “sua mãe era uma ladra sem vergonha”.
Mas compreender alguém não significava concordar com ele.
“Eu vou falar com a madrasta.”
Perder tudo aquilo que tinha de mais precioso não era algo que pudesse simplesmente aceitar. Ela precisava recuperar ao menos as lembranças de sua mãe — eram o que a mantinham firme naquele lar hostil.
“Você vai sozinha? Senhorita Miyo, por favor, pense melhor…”
“Não se preocupe, Hana. Se ela não me ouvir, eu conto tudo ao meu pai.”
Naquela época, ela ainda acreditava que o pai ficaria ao seu lado. Ele já começava a se afastar, é verdade, mas Miyo acreditava que, se implorasse e mostrasse o quanto era maltratada, ele ao menos repreenderia a esposa.
Ela estava completamente enganada.
“N-não! Me soltem! Por favor, me deixem sair!”
Quando foi até os aposentos da madrasta para perguntar sobre o desaparecimento de seus pertences, Kanoko explodiu em fúria. Como punição por ter insinuado que ela era uma ladra, trancou Miyo em um depósito nos fundos da casa.
“Você não vai a lugar nenhum até refletir muito bem sobre seu comportamento vergonhoso. Já era de se esperar isso da filha daquela destruidora de lares. Me chamar de ladra… você é podre até o fundo. Ainda bem que minha filha não é nada parecida com você.”
“Madrasta, por favor! Por favor, me deixe sair!”
A porta, trancada pelo lado de fora, não cedia por mais que ela empurrasse ou golpeasse com os punhos. Miyo se lançou contra ela, gritando o mais alto que conseguia, tomada pelo medo. Sua madrasta apenas riu, achando aquilo patético, e foi embora. Mesmo anos depois, aquela lembrança ainda fazia seu corpo tremer.
Havia apenas uma pequena janela no alto da parede oposta, deixando entrar tão pouca luz que o depósito permanecia em penumbra, apesar de o sol estar a pino. A umidade fria e o vazio daquele espaço abandonado tornavam tudo ainda mais assustador.
Aprisionada ali por um tempo que parecia não ter fim, a pequena Miyo estava completamente apavorada.
“P-por favor… me deixem sair… alguém, por favor…”
Ela chorava, pedia desculpas, implorava por ajuda ou perdão — mas ninguém veio. Quando finalmente a soltaram, já era madrugada; ela estivera presa desde pouco depois do meio-dia. Seu pai, em quem confiava para socorrê-la, não apareceu.
Mas o pior daquele dia ainda não havia terminado.
Enquanto ela estava trancada no depósito, Hana foi demitida e expulsa da casa sob um pretexto inventado. E, como golpe final, Miyo foi despojada de qualquer posição dentro da família — dali em diante, seria tratada pior do que uma criada.
—
Miyo acordou cedo, como de costume. Enxugando as lágrimas do rosto, levantou-se da cama.
No dia anterior, Kiyoka lhe dissera: “Você deve obedecer a todas as minhas ordens. Se eu disser para ir embora, vá. Se eu disser para morrer, morra.”
Como aquelas eram regras às quais já estava acostumada desde a infância, não lhe pareceram nada fora do comum — por isso, aceitou sem hesitar.
Quando saiu do escritório, mantendo-se serena, Yurie pareceu visivelmente aliviada. Em seguida, mostrou-lhe seu novo quarto. Era simples, mobiliado apenas com o essencial: um futon, uma escrivaninha, uma cômoda e um relógio. Ainda assim, era mais espaçoso que o pequeno quarto de criada que Miyo tinha antes. Até a roupa de cama, macia e confortável, era de qualidade muito superior.
Ela quase não tinha bagagem para desfazer. Guardou suas poucas roupas, dispensou o jantar e foi direto dormir. E assim terminou seu primeiro dia ali.
Ao despertar, sentindo-se surpreendentemente descansada — talvez graças ao futon confortável —, Miyo ficou parada no quarto, inclinando levemente a cabeça, sem saber o que fazer.
O que devo fazer agora…?
Como sempre, acordara antes do nascer do sol. Mas isso já não seria necessário agora que estava na casa de Kiyoka Kudou, chefe da família. Sua madrasta jamais se levantava tão cedo.
Miyo não deveria viver como uma plebeia, mas como a esposa de um nobre de prestígio — e esposas de nobres não cozinham nem limpam.
Mas… eu não sei fazer outra coisa.
Ela havia estudado arranjos florais, cerimônia do chá, dança tradicional e koto, até que sua madrasta a impedira de continuar. Já fazia tanto tempo que mal se lembrava do que aprendera. Mesmo que lembrasse, dificilmente aquilo teria alguma utilidade agora. As chances de uma jovem praticamente sem instrução se tornar a esposa de Kiyoka Kudou eram quase inexistentes.
Ainda assim, não podia simplesmente ficar parada no quarto.
Depois de pensar um pouco, decidiu ajudar no preparo do café da manhã. Talvez não fosse apropriado para a futura esposa de Kiyoka assumir esse tipo de tarefa, mas, afinal, sua própria presença ali já era algo fora do lugar.
Por mais que tentasse, Miyo sabia que jamais conseguiria se comportar como uma típica dama rica — sentada, elegante, vestida com belas roupas, distribuindo sorrisos encantadores.
Se seria rejeitada de qualquer forma… então, ao menos, faria o que estivesse ao seu alcance enquanto ainda estivesse ali.
Além disso, ela queria ajudar Yurie, que nem sequer morava na casa. Mesmo já idosa, ela vinha todos os dias para preparar o café da manhã antes que o patrão acordasse. Aquilo devia ser cansativo. Se Miyo pudesse aliviar um pouco esse fardo, já seria uma ajuda. Esperava que isso bastasse como justificativa, caso sua atitude fosse vista como inadequada.
A despensa está bem abastecida… posso fazer arroz, sopa de missô… tem peixe seco também, posso grelhar. Agora preciso pensar nos acompanhamentos de legumes…
Enquanto organizava mentalmente o que faria, abriu os armários para ver onde ficavam os utensílios. Para sua surpresa, aquela casa isolada no meio da mata tinha seu próprio sistema de água. Miyo acendeu o fogo e começou a cozinhar.
Apesar de sua família contar com um cozinheiro, Miyo era bastante habilidosa na cozinha. Se não tivesse aprendido a preparar sua própria comida, simplesmente não teria comido. Tecnicamente, ela não era nem uma criada de verdade nem uma integrante da família — o que significava que não tinha direito às refeições fartas do pai, da madrasta e da irmã, nem mesmo às porções destinadas aos empregados. Muitas vezes, precisava se virar com sobras. E, se naquele dia não restasse nada depois que o cozinheiro terminava, ficava sem comer.
Ela já estava adiantada com o preparo quando a porta da cozinha se abriu devagar e Yurie espiou.
“…Senhorita?”
“Bom dia, Yurie. Ah… me desculpe por usar a cozinha sem pedir antes.”
“Bom dia, senhorita Saimori. Não precisa se desculpar. Você é a noiva do jovem mestre, pode fazer o que quiser.”
Yurie sorriu com leveza, afastando qualquer preocupação com um gesto de mão. Em vez de repreendê-la, parecia até constrangida por ter feito Miyo se dar ao trabalho.
Talvez eu não devesse ter feito isso…
Na tentativa de ajudar, Miyo acabou deixando a senhora desconfortável. Sentindo-se um pouco abatida, baixou o olhar — mas logo se surpreendeu quando Yurie pousou suavemente uma mão quente em suas costas.
“Como pode ver, sou apenas uma velha cheia de rugas. Sou muito grata pela sua ajuda.”
“N-não foi nada…”
O sorriso sincero da pequena senhora a comoveu tanto que as palavras quase não saíram.
“Bem, o jovem mestre ainda vai demorar a acordar. Vou cuidar de outras tarefas, se não se importar em terminar tudo aqui sozinha.”
“Claro, não tem problema.”
Yurie assentiu, satisfeita, colocou rapidamente o avental e saiu apressada da cozinha. Ainda um pouco melancólica, Miyo voltou sua atenção ao que estava fazendo. Yurie vinha de vez em quando ver como ela estava e avisou quando Kiyoka estava prestes a acordar.
Miyo então organizou os pratos: arroz branco fumegante, sopa de missô com wakame e tofu frito, legumes cozidos — preparados com antecedência para absorver bem o tempero —, carapau seco grelhado, cujo aroma era delicioso, espinafre escaldado com caldo dashi e, por fim, picles.
Não era uma refeição digna de um chef profissional, mas, ainda assim, ela se sentiu discretamente orgulhosa.
Acompanhada por Yurie, levou a bandeja até a sala de estar. Lá encontraram Kiyoka, sentado de pernas cruzadas, lendo o jornal. Era a primeira vez que Miyo o via em uniforme militar. Mesmo com a gola da camisa aberta de maneira relaxada, ele tinha uma presença marcante.
Yurie explicara que naquela casa era costume servir as refeições em bandejas com pés, por isso não havia mesa de jantar. Miyo notou algumas cadeiras de madeira encostadas em um canto.
“Bom dia, jovem mestre. O café da manhã está pronto.”
“Bom dia. Yurie, não me chame assim na frente dos outros.”
Mesmo emburrado, Kiyoka era impressionante. Tanto que Miyo precisou desviar o olhar, quase sem perceber.
“Jovem mestre, foi a senhorita Saimori quem preparou seu café hoje.”
Só então ele pareceu notar a presença dela. Dobrou o jornal e a observou com um olhar atento. Miyo estava tão acostumada a ser ignorada que, no fundo, teria preferido passar despercebida. A atenção repentina a deixou desconfortável.
“…Foi ela?”
“Sim. E com tanta habilidade que eu a deixei cuidar de tudo sozinha.”
Miyo se preparou para a fúria dele — para ouvir que a futura esposa não deveria se rebaixar a esse tipo de tarefa. Mas, como logo descobriria, as preocupações de Kiyoka eram bem diferentes do que ela imaginava.
“Sente-se ali”, ordenou ele, com o olhar tão frio quanto o tom de voz.
Ela se sentou diante da bandeja de café da manhã que acabara de colocar à sua frente. Kiyoka, porém, não tocava nos hashis.
“Prove primeiro.”
“C-como…?”
Ela jamais poderia começar a comer antes do chefe da casa. Fora ensinada desde pequena que os superiores sempre comiam primeiro, e, por isso, hesitou em atender ao pedido. Por insistência de Yurie, trouxera também sua própria bandeja, mas sequer passara pela sua cabeça que ele sugeriria que comessem juntos. Não achava que tinha esse direito.
Ao perceber que Miyo não se mexia, a expressão de Kiyoka se tornou ainda mais severa.
“Você não vai comer?”
O rosnado grave em sua voz a fez estremecer — o que ele imediatamente interpretou da pior forma.
“Eu… é que…”
“Hmph. Você envenenou, não foi? Estava óbvio.”
“O quê…?”
“Veneno?!”
Kiyoka ignorou a exclamação de Yurie. Levantou-se do chão.
“Não como comida que pode ter sido adulterada. Leve isso daqui. Da próxima vez, terá que se esforçar mais.”
Dito isso, saiu da sala. Yurie, aflita, correu atrás dele, deixando Miyo sozinha.
Ela empalideceu ao perceber, enfim, o que havia acontecido. Kiyoka suspeitava que ela tentara envenená-lo. Ele não comeria nada preparado por alguém em quem não confiasse…
Naquele momento, lembrou-se de que seu próprio pai também vivia em constante vigilância. Pessoas em posição de poder estavam sempre expostas ao risco de assassinato. Kiyoka, sem dúvida, já devia ter sido alvo de inúmeras ameaças — e, para homens como ele, o veneno era o método mais temido.
Como pude ser tão ingênua?
Ela acabara de chegar e, ainda assim, insistira em cozinhar. Qualquer um acharia suspeito que uma jovem de família nobre se oferecesse para aquilo — e, mais ainda, que o fizesse com habilidade. Talvez Miyo não tivesse percebido isso porque estava desesperada para se mostrar útil, para evitar ser expulsa e abandonada à própria sorte.
Falhara. E cometera um erro grave logo no início.
Se ao menos tivesse permanecido quieta…
Ainda assim, devia se considerar sortuda por ele não ter reagido de forma ainda mais severa.
Com as mãos trêmulas, pegou os hashis e levou um pouco de arroz à boca. Já estava frio e um pouco ressecado. Comer sozinha não era novidade para ela — mas, naquele momento, cada garfada parecia pesar como pedra.
—
A Unidade Especial de Combate às Aberrações era uma tropa de elite dentro do Exército Imperial, criada para lidar com ocorrências sobrenaturais. Todos os seus membros possuíam Visão Espiritual e, muitas vezes, outras habilidades além disso.
No entanto, qualquer tipo de poder sobrenatural era extremamente raro, e aqueles que possuíam o Dom quase sempre pertenciam à nobreza. Como poucos aristocratas estavam dispostos a arriscar a própria vida no serviço militar, os integrantes dessa unidade tendiam a ser… peculiares.
E, por atuar em uma área tão específica, a unidade sofria constantemente com a falta de pessoal — além de ser pouco conhecida pela maioria das pessoas.
O comandante dessa unidade, Kiyoka Kudou, estava completamente soterrado por uma montanha de papéis. Embora fosse necessário possuir habilidades excepcionais para alcançar um cargo de liderança, o trabalho em si era, em grande parte, burocrático — o que significava que ele raramente participava das missões em campo. Ainda assim, em casos especialmente difíceis ou quando solicitado diretamente por seus superiores, ele intervinha pessoalmente. No momento, porém, sua prioridade era simplesmente dar conta de toda aquela papelada acumulada.
Mas, naquele dia, sua concentração não estava como de costume.
Ele sabia bem o motivo.
Seus pensamentos insistiam em voltar ao que acontecera naquela manhã — e, por mais que tentasse, não conseguia afastá-los.
“Não como comida que pode ter sido adulterada.”
Depois de dizer aquilo, deixara a nova candidata sozinha com suas palavras e voltara para o quarto para se preparar. Yurie o seguira, visivelmente desaprovadora.
“Não foi maneira de falar com uma dama. A senhorita Saimori se esforçou de verdade para preparar aquele café da manhã. E, se minha experiência serve de algo, ela não é do tipo que envenena ninguém!”
Kiyoka sempre tivera dificuldade em contrariar Yurie, que o criara como uma mãe. Mas, desta vez, estava decidido a manter sua posição. Não comeria algo feito por alguém que acabara de conhecer, alguém em quem ainda não confiava. Era uma precaução necessária.
Ainda mais considerando que ela era uma Saimori.
As duas famílias estavam em níveis sociais próximos — e isso, por si só, já tornava plausível a ideia de uma conspiração. Não seria impossível que tentassem eliminá-lo para ganhar vantagem. Ser cauteloso era apenas sensato.
Mas, se sua atitude fora lógica… então por que aquela sensação incômoda permanecia?
Mesmo antes de Yurie o repreender, ele já se sentia desconfortável.
“Jovem mestre, posso lhe dizer uma coisa?”
“Diga.”
Yurie insistiu que Miyo Saimori era diferente das outras.
Kiyoka já havia recebido inúmeras propostas de casamento — mais de duas dezenas. Mas nenhuma das candidatas parecera adequada.
Algumas torceram o nariz assim que viram sua casa simples. Outras reclamaram abertamente, dizendo que era absurdo um homem de sua posição viver em um lugar tão modesto. Houve também aquelas que se mostravam gentis com ele, mas tratavam Yurie com desdém quando ele não estava por perto. E ainda as que viviam cheias de exigências — criticavam a comida, pediam quartos diferentes, reclamavam de tudo.
Kiyoka sabia que sua escolha de moradia não era convencional, isso ele não negava. Mas estava cansado de mulheres que sequer tentavam compreender o homem com quem poderiam se casar, preferindo julgá-lo de imediato.
Era orgulhoso, sim — tinha plena consciência de sua posição. Mas não se considerava arrogante nem autoritário. E, justamente por isso, não tolerava essas atitudes nos outros.
Esse sempre fora o ponto de ruptura.
“Eu gosto dela”, disse Yurie. “Ela é atenciosa, prestativa… diferente de todas as outras.”
“…Hmph.”
Ao sair da sala mais cedo, Kiyoka lançara um último olhar para Miyo. Sua expressão era impassível — mas, de alguma forma, parecia que ela estava prestes a chorar.
Agora que Yurie mencionava… talvez ela realmente fosse diferente.
—
Ao sair para o trabalho, encontrou Miyo parada junto à porta, tão inexpressiva quanto antes.
“Tenha um bom dia.”
Ela se curvou de forma automática. Desta vez, não havia sinal de lágrimas.
“Até mais tarde.”
Com a cabeça tão baixa, ela lembrava mais uma criada do que uma futura esposa.
Que tipo de vida ela levou para agir assim?
Alguém de sua posição normalmente não demonstraria tamanha submissão.
Ainda é cedo para decidir qualquer coisa, concluiu ele, já diante de seus documentos.
Não pretendia mantê-la por muito tempo. Ainda assim… apesar de estranha, ela não lhe causava antipatia.
E havia também o fato de que aquela proposta de casamento era, em muitos aspectos, vantajosa demais para ser ignorada.
O que está acontecendo comigo…? Não consigo parar de pensar em uma mulher enquanto trabalho? Estou perdendo o jeito…
Ele suspirou e forçou a mente a se concentrar nos papéis à sua frente.
—
Kiyoka voltou para casa já depois do anoitecer.
Miyo saiu para recebê-lo e, mais uma vez, curvou-se profundamente à entrada.
“Bem-vindo de volta.”
“…Obrigado.”
“Com licença… se me permite…” disse ela, hesitante, enquanto ele retirava as botas. Como sempre, seu rosto não revelava nada, e seu olhar permanecia fixo no chão.
“O que foi?”
“…Peço desculpas pelas minhas atitudes imprudentes e impensadas esta manhã. É natural que alguém de sua posição recuse comida preparada por quem ainda não confia. Eu deveria ter percebido isso.”
“…”
“Yurie preparou todo o jantar desta noite, e eu apenas vou servi-lo. Juro pela minha honra que não há nada envenenado. Por favor…”
Ela implorava por perdão, curvada no chão. Ele teria entendido se ela estivesse irritada — mas aquele pedido de desculpas o deixou profundamente desconfortável. Ainda mais pela forma como ela se diminuía.
Seu comportamento o fazia sentir-se culpado, como se tivesse forçado aquela submissão. Como se estivesse oprimindo aquela garota frágil, que tremia levemente diante dele.
“Eu não achei, de fato, que você tivesse envenenado a comida”, disse ele. “Só estava sendo cauteloso… e não escolhi bem as palavras.”
“N-não, de forma alguma! O erro foi meu.”
Ela se encolheu ainda mais, como se estivesse com medo. Kiyoka não tinha intenção de intimidá-la — e, no entanto, ela parecia apavorada.
Ele a observou com atenção, reforçando a impressão que tivera antes: ela não se parecia em nada com uma jovem de alta linhagem. O quimono que usava não era apenas gasto — era claramente velho e desgastado. Seu pescoço fino e os pulsos delicados denunciavam má alimentação. Os longos cabelos negros, presos de forma simples, pareciam sem vida. E suas mãos… ásperas, marcadas, como as de alguém acostumado a limpar e lavar todos os dias.
Hoje em dia, até mesmo garotas comuns da cidade se apresentavam melhor do que ela.
“Você já comeu?”
Ela mal ergueu a cabeça para responder.
“Ah… eu… bem…”
Kiyoka não entendeu por que ela hesitou. Caminhou até a sala e percebeu que havia apenas uma bandeja posta.
Se já tivesse comido, ela poderia simplesmente ter dito. Pelo visto, mentir não era algo que ela fazia bem.
“Então você não comeu? Por que não há uma bandeja para você?”
O modo como seus olhos se moviam nervosamente o deixou inquieto. Ele sempre considerara natural que as pessoas de uma mesma casa comessem juntas — mas talvez estivesse enganado. Ou talvez aquela garota simplesmente não compreendesse seu próprio lugar.
Ele suspirou.
—
A ansiedade consumia Miyo por completo naquele dia.
Ela havia cometido um erro ao cozinhar para um homem que temia ser envenenado. Como resultado, não apenas desperdiçara a refeição, como também fizera Kiyoka passar a manhã sem comer. Se ele fosse realmente tão cruel quanto diziam, já a teria expulsado naquele mesmo instante.
De qualquer forma… era só questão de tempo até que ele a mandasse embora, como fizera com todas as outras.
Yurie dissera para que ela não se preocupasse — como se isso fosse possível.
Miyo não tinha para onde voltar.
Talvez devesse começar a procurar algum lugar onde pudesse trabalhar como criada em troca de moradia.
Será que sou amaldiçoada…? pensou. Será que estou destinada a causar problemas onde quer que vá?
Quando, poucos minutos após chegar do trabalho, Kiyoka soltou um suspiro impaciente, o medo atravessou seu peito como uma lâmina. Ela mordeu o lábio.
“Yurie não preparou comida para você?”, perguntou ele.
Não… não devo duvidar da Yurie, pensou Kiyoka.
Miyo, porém, não percebeu a ausência de hostilidade em seu olhar nem o tom neutro de sua voz. Entrou em pânico.
“N-não foi culpa dela…”
Miyo havia dito a Yurie para não preparar jantar para ela. Planejava comer o que sobrara do café da manhã. No almoço, havia comido um pouco — e entregado o restante a um coletor de restos de comida de uma vila próxima. Não porque não quisesse comer… mas porque seu estômago já estava acostumado a pouco. Anos vivendo com apenas uma refeição por dia tinham diminuído seu apetite. Além disso, o incidente daquela manhã havia tirado completamente sua vontade de comer.
Mas ela jamais diria isso a Kiyoka.
Se dissesse, ele perguntaria por quê — e acabaria descobrindo como ela era tratada em casa. Era algo que preferia esconder.
“Eu… não estava com fome. Pedi à Yurie que não preparasse nada para mim.”
“Entendo… Você não está se sentindo bem?”
“Não… é só que… às vezes eu não sinto vontade de comer.”
Percebendo que ele começava a perder a paciência, respondeu de forma evasiva. Na verdade, o problema não era falta de apetite — era simplesmente o fato de que, em casa, muitas vezes ela nem tinha o que comer.
“Se você diz.”
Ele parecia cansado.
Miyo sentiu um leve alívio. O fato de ele se preocupar, ainda que minimamente, com seu estado significava que, ao menos por enquanto, não estava pensando em expulsá-la.
Ele suspirou novamente, disse que iria se trocar e seguiu para o escritório, que também servia como seu quarto.
Ele… não parece uma pessoa cruel.
As palavras de Yurie vieram à sua mente:
“Eu sei que há muitos boatos ruins sobre o jovem mestre… mas, na verdade, ele é uma pessoa bondosa. Você não precisa ter tanto medo.”
Mesmo assim, ela ainda sentia medo dele. Kiyoka raramente sorria, e seus olhos e sua voz naquela manhã haviam sido tão frios que só de lembrar, Miyo já sentia o corpo tremer. De certa forma, sua beleza extraordinária o tornava ainda mais intimidador.
Ainda assim… o pedido de desculpas dele a surpreendera. E ele também perguntara se ela estava se sentindo mal.
Aos poucos, Miyo começava a perceber que Kiyoka talvez não fosse tão cruel quanto imaginara.
“Está frio”, resmungou ele depois de provar o jantar.
Yurie havia preparado a refeição e a servido com elegância mais cedo, sem aquecê-la novamente, de modo que agora tudo estava apenas morno. Como já terminara seu trabalho, ela havia ido embora — Kiyoka permitia que saísse mais cedo, já que não morava na casa.
“Me desculpe…”
“Isso não é sua culpa. Por que você se desculpa por tudo?”
Miyo estava sentada discretamente junto à parede, pronta para atendê-lo caso ele precisasse de algo. Ele lançou-lhe um olhar rápido, e ela baixou a cabeça.
Pedir desculpas o tempo todo era um hábito que trouxera de casa.
Sempre que irritava a madrasta ou a irmã — o que acontecia com frequência —, era alvo de insultos. Sua única defesa era se desculpar imediatamente. Se demorasse, o castigo só piorava. Com o tempo, aquilo se tornara automático.
Mas não podia contar isso a Kiyoka.
Assim, permaneceu em silêncio, olhando para o chão.
“Não vai responder?”
“Descul—”
“Não peça desculpas”, interrompeu ele.
A voz era baixa, mas carregava uma autoridade que não deixava espaço para desobediência.
“Se fizer isso o tempo todo, perde o sentido.”
Ele provavelmente tinha razão. Ainda assim, ela não sabia se conseguiria abandonar aquele reflexo tão enraizado.
“Obrigado pela refeição.”
Kiyoka pousou os hashis — já havia terminado de comer sem que ela percebesse. Sua aparência impecável contrastava com a aura fria e intimidadora. Miyo ainda conseguia acreditar nos rumores de que ele era impiedoso e capaz de matar sem hesitar — mas, ao mesmo tempo, seus gestos eram refinados, elegantes, sem qualquer traço de grosseria.
Sua delicadeza lembrava mais a de uma jovem criada em um lar nobre do que a de um militar.
Será que… ele realmente tem um lado gentil, como Yurie disse?
“E-eu vou… aquecer a água do banho para o senhor agora—”
Ele balançou a cabeça antes que ela terminasse.
“Eu cuido disso.”
“Mas…”
“Sempre fiz isso sozinho. O banho daqui não é como o de outras casas. É difícil de operar para qualquer pessoa além de mim.”
“Como assim?”
“Ele usa poderes sobrenaturais para aquecer a água. Nem Yurie consegue usá-lo.”
Miyo já ouvira dizer que um dos dons de Kiyoka era o controle do fogo — mas nunca imaginara que isso pudesse ser usado até mesmo para aquecer a água do banho.
Eu realmente não entendo nada disso…
Apesar de ambos os seus pais possuírem o Dom, ela nascera sem sequer ter a Visão Espiritual. Mais um motivo — pensou — pelo qual não era digna de se tornar esposa de alguém como Kiyoka, um aristocrata dotado de habilidades extraordinárias.
“Há… algo errado?”
“N-não, não é nada.”
Miyo concluiu que ele não sabia sobre sua falta de habilidades especiais. Embora não parecesse muito interessado no que as possíveis noivas tinham a oferecer, era natural supor que ele esperasse ao menos a Visão Espiritual de alguém de sua linhagem.
Eu não deveria ser a pessoa a me casar com ele.
Ela não era adequada para alguém como Kiyoka Kudou. Ele merecia alguém melhor. Uma mulher como Kaya — perfeita em todos os aspectos — combinaria muito mais com ele.
—
Mais tarde, enquanto Miyo limpava a cozinha com cuidado após o jantar, Kiyoka apareceu para falar com ela. Ele vestia roupas leves de dormir e acabara de sair do banho. Miyo inclinou levemente a cabeça, surpresa, e ele explicou que queria que ela preparasse o café da manhã novamente no dia seguinte.
“Desculpe por não ter comido o que você fez hoje cedo. Pode preparar o café de amanhã.”
Depois do banho, Kiyoka parecia mais relaxado, sua presença menos intimidadora. Embora ainda tivesse uma leve tensão na expressão, como se aquilo não fosse fácil de dizer, havia algo mais jovem em seu semblante.
Miyo costumava aceitar prontamente qualquer tarefa que lhe pedissem, mas o ocorrido daquela manhã ainda estava fresco em sua mente.
“O senhor… tem certeza de que quer isso?”
“Tenho. Mas, se envenenar a comida, não terei piedade.”
“Eu jamais faria uma coisa dessas!”
Ela balançou a cabeça, horrorizada. Não apenas não sabia como envenenar alguém, como também jamais seria escolhida para algo assim. Se seu pai quisesse Kiyoka morto, teria enviado um assassino de verdade. Tudo o que sua família esperava dela era rejeição… e esquecimento.
“Então não teremos problemas.”
Ele se virou para sair, com uma expressão neutra — ou talvez até satisfeita.
“S-sim, senhor…”, murmurou ela, ainda confusa.
—
À luz do sol, a casa de Kiyoka parecia acolhedora. O canto dos pássaros ecoava do lado de fora.
Mas, para Miyo, aquele lugar ainda não era um refúgio.
—
“Excelente. Kaya, você possui a Visão Espiritual. Kanoko, fez bem em me dar uma filha Dotada”, disse seu pai.
Miyo lembrava-se perfeitamente daquele dia.
Percebeu que estava sonhando novamente — desta vez, com o momento em que descobriram que Kaya possuía o Dom.
“Era de se esperar da minha filha.”
Sua madrasta brilhava de orgulho. Seu pai assentia, satisfeito. Kaya ria alegremente.
Formavam o retrato perfeito de uma família feliz.
Mas não havia lugar para Miyo ali.
Ela nunca fora considerada parte daquela família.
Sua exclusão começara muito antes de passarem a tratá-la como uma criada. Por mais que se esforçasse para agradá-los, nunca lhe era permitido entrar naquele círculo de afeto.
“Você soube? Descobriram que Kaya tem Visão Espiritual.”
“E ela tem só três anos! Impressionante.”
“Já Miyo… nada até agora.”
“Pelo visto, as chances de ela ter o Dom são bem pequenas.”
“E pensar que os dois pais têm…”
“Coitada… simplesmente não nasceu com isso.”
Os cochichos ecoavam em sua mente.
Pouco a pouco, seu valor diminuía.
Ela perdia, aos poucos, qualquer lugar onde pudesse pertencer.
Sentia a mudança no ambiente — todos passaram a idolatrar Kaya, enquanto a atenção que recebia diminuía cada vez mais. Olhando agora, foi também quando o comportamento da irmã mudou, dando lugar ao desprezo.
Miyo odiava essa lembrança.
Quando começaram a tratá-la como criada, o sofrimento físico foi grande — mas, antes disso, já havia sido dilacerada por dentro.
Ainda criança, sua mente frágil já estava sendo destruída.
“Eles não me querem…”
Ela se lembrava perfeitamente do dia em que sussurrou aquilo para si mesma.
Não tinha nem dez anos quando compreendeu que a família Saimori não a queria — uma menina sem habilidades sobrenaturais, sem sequer a Visão Espiritual, sem nada de especial.
Naquele dia, Hana chorou.
Disse que era cruel demais uma criança crescer sem o amor dos próprios pais.
E agora… como estaria Hana?
Desde que fora demitida abruptamente — naquele mesmo dia em que Miyo ficou presa no depósito —, nunca mais a viu.
Hana ainda era jovem naquela época.
Miyo só podia esperar que ela tivesse encontrado alguém bondoso… e que estivesse vivendo, em algum lugar, uma vida feliz.
Mais uma vez, Miyo despertou com lágrimas escorrendo pelo rosto. Já eram duas noites seguidas de pesadelos — a sorte realmente não estava ao seu lado. Talvez fossem um aviso, um lembrete para que nunca esquecesse o quão inútil era.
Eu sei disso.
Ela tinha plena consciência de que era comum em todos os aspectos — tão comum que ninguém via utilidade nela.
Houve um tempo em que desejou ter nascido em outra família. Não se importaria se fossem pessoas simples ou até se enfrentassem dificuldades, desde que a amassem. Hana… não deveria vê-la assim. Sua antiga criada ficaria profundamente triste ao ver no que ela havia se tornado.
Levantando-se em silêncio, Miyo dobrou o futon, trocou o yukata em que dormira por suas roupas do dia e então percebeu algo: um de seus quimonos estava rasgado.
Era um simples quimono de algodão azul-escuro, já bastante gasto pelo uso. Não serve mais… pensou. A costura nas costas havia se aberto — o tecido, já desgastado por tantos consertos anteriores, não suportara mais. Ao examinar melhor, viu que outras partes também estavam prestes a ceder. A peça fora um presente de uma das criadas, já antiga quando chegou às mãos de Miyo. Era apenas questão de tempo até se desfazer.
Ainda assim, aquilo era um problema. Ela tinha tão poucas roupas que logo poderia não ter o que vestir. O quimono novo que seu pai lhe dera ao mandá-la embora era para ocasiões especiais — precisava mantê-lo limpo. Além disso, era chamativo demais para o dia a dia.
Decidiu que tentaria consertá-lo mesmo assim, caso Yurie pudesse lhe emprestar um kit de costura.
Terminou de se arrumar e foi procurar a senhora, começando pela cozinha. Era mais ou menos o horário em que começara a cozinhar no dia anterior — mas, dessa vez, Yurie já estava lá.
“Bom dia, senhorita Saimori.”
“Bom dia, Yurie.”
Por que ela veio tão cedo hoje? A dúvida deve ter aparecido em seu rosto, pois Yurie logo sorriu e explicou apressadamente:
“Fiquei um pouco preocupada com o que aconteceu ontem, então achei melhor vir mais cedo. O que faremos sobre o café da manhã?”
“Ah… sobre isso…”
Yurie havia vindo cedo para supervisionar, caso Miyo quisesse cozinhar novamente — assim poderia garantir a segurança da comida e tranquilizar Kiyoka. Mas não havia mais necessidade disso. Miyo contou o que ele dissera na noite anterior.
“Típico do jovem mestre… orgulhoso demais para admitir que quer provar sua comida.”
“Não acho que seja isso…”
“Hehe… senhorita, me permite ajudá-la?”
“S-sim, claro.”
O cardápio daquela manhã incluía tofu frito em fatias grossas, omelete enrolada, bardana refogada com cenoura e folhas escaldadas com molho de gergelim, além do tradicional arroz branco e sopa de missô.
Embora esses pratos fossem comuns na casa dos Saimori, o modo como Yurie os preparava era um pouco diferente. Ela não se preocupava em cortar os ingredientes de forma perfeitamente uniforme, nem em dourar tudo com precisão milimétrica. Temperava tudo “no olho”, sem medir, e não dava tanta importância à apresentação dos pratos.
Talvez fosse assim que a comida caseira deveria ser.
Cozinheiros profissionais seguiam um padrão completamente diferente — algo que pessoas comuns dificilmente conseguiriam reproduzir.
Como ninguém jamais ensinara Miyo a cozinhar de verdade, ela aprendia muito observando Yurie. A senhora começou cortando cenouras e bardana em tiras finas, depois escaldou as folhas em água fervente. Para a omelete, temperou os ovos com caldo, molho de soja e açúcar. O tofu firme, feito na própria casa, foi frito até dourar nas laterais.
“A senhorita acorda cedo, não é?”
“Sim… sempre foi assim.”
Yurie assentiu, impressionada.
“Yurie… eu queria lhe pedir uma coisa…”
“Sim?”
“Há… algum kit de costura aqui que eu possa usar?”
“Há sim. Posso levar até o seu quarto depois.”
“Muito obrigada.”
Miyo soltou um suspiro discreto de alívio. Até mesmo moças de famílias nobres costumavam saber costurar, então seu pedido não parecia estranho.
Ainda assim… a maioria delas não precisaria pedir emprestado um kit de costura a uma criada.
Elas conversaram enquanto terminavam de preparar a refeição. Quando a cozinha se encheu do aroma do tofu recém-frito, misturado ao cheiro irresistível agridoce da bardana com cenoura refogada, tudo já estava pronto.
Como no dia anterior, arrumaram as bandejas e as levaram até a sala de estar, justamente quando Kiyoka apareceu.
“Bom dia.”
“Bom dia.”
Ao vê-lo de uniforme, Miyo voltou a ficar tensa. Sua beleza só a fazia se sentir ainda mais deslocada. Era difícil acreditar que alguém como ela pudesse se tornar esposa de um homem tão imponente.
A sala não era muito grande, então eles se sentaram um de frente para o outro. Miyo tentou afastar um pouco sua bandeja, mas ele a deteve com um olhar firme.
“Vamos comer?”
“S-sim.”
Ainda assim, ela não se moveu para pegar os hashis, o que lhe rendeu outro olhar desconfiado.
“Você também precisa comer.”
“E-eu… sim.”
Sem graça, pegou os hashis e começou a comer quase ao mesmo tempo que ele. A comida estava boa — mas Miyo temia que não estivesse à altura de alguém acostumado a refeições refinadas.
Ela aguardava, tensa, o veredito, enquanto ele provava um pouco dos acompanhamentos e tomava um gole da sopa de missô.
“…Está bom.”
“!”
“Você tempera de um jeito diferente da Yurie, mas não é ruim.”
Ele disse aquilo com tanta naturalidade que não havia dúvida de que estava sendo sincero.
Mesmo assim… Miyo mal conseguiu acreditar.
Ele gostou.
O esforço de tantos anos, aprendendo sozinha, finalmente fora reconhecido. Já fazia tanto tempo desde a última vez que alguém elogiara algo que ela fizera…
Um sentimento estranho apertou seu peito.
“I-isso… isso é muito gentil da sua parte”, conseguiu dizer, com a voz trêmula.
“……Por que você está chorando?”
As lágrimas começaram a cair sem que ela percebesse.
—
Depois que conseguiu se recompor, o restante do café da manhã transcorreu em silêncio, mas sem tensão. Ao terminar, Kiyoka voltou para seu quarto — e não conseguia parar de pensar nela.
A imagem daqueles olhos escuros se enchendo de lágrimas ficara gravada em sua mente.
No início, ele pensou que a tivesse ofendido. Talvez comparar sua comida com a de Yurie não tivesse sido apropriado. Sentiu um leve arrependimento por sua falta de tato.
Mas, ainda assim… ele realmente gostara da comida.
Era diferente da de Yurie, mas, justamente por isso, tinha algo especial. Ele simplesmente dissera o que pensava — sem imaginar que aquilo poderia fazê-la chorar.
E agora… não sabia o que fazer.
Nunca tivera que consolar uma mulher antes.
“…P-por favor… me… me perdoe…”
Ela ainda tentava se desculpar, entrecortando as palavras.
“…Eu já disse para parar de pedir desculpas.”
Ele estava confuso. Ela chorava e, ainda assim, pedia perdão.
As mulheres que vieram antes costumavam fazer escândalo quando contrariadas — e ele nunca hesitara em mandá-las embora.
Mas agora… era diferente.
“E-eu sinto muito… por ter chorado assim. Eu… fiquei tão feliz… que não consegui segurar as lágrimas…”
Aos poucos, ela se acalmou, claramente constrangida.
Kiyoka franziu levemente a testa enquanto a escutava com atenção.
Ela disse, com timidez, que era a primeira vez que alguém elogiava sua comida.
Mas… ele tinha a impressão de que não era só isso.
Ela era um mistério.
Como teria sido sua vida até ali?
Em que tipo de ambiente crescera?
Que tipo de pessoas a cercavam?
Normalmente, bastava conversar um pouco para entender alguém.
Mas com ela… não era assim.
Talvez fosse porque ela não se parecia em nada com as outras mulheres que conhecera.
Ele ajeitou a gola da camisa e fechou os olhos, tentando afastar a imagem dela chorando.
“Yurie… me diga uma coisa”, disse ele, enquanto ela o ajudava a se arrumar. “Você acha que essa garota… foi criada de forma diferente das outras mulheres nobres?”
Desde o dia anterior, essa sensação não o deixava.
Chegou a pensar que a humildade dela fosse apenas uma encenação — uma tentativa de parecer uma boa esposa.
Mas aquelas lágrimas…
Aquelas lágrimas eram reais.
Um simples elogio… e ela chorou de felicidade.
— Imagino que sim — respondeu Yurie, com uma expressão séria no rosto. Ao que tudo indicava, ela já tinha suas próprias suspeitas.
— Acha que ela falaria, se eu tocasse no assunto?
— Duvido...
Ele poderia perguntar diretamente a Miyo sobre sua vida na casa dos Saimori, mas tinha a impressão de que ela não gostava de falar de si mesma.
— Yurie.
— Sim, jovem mestre?
— Quero que você fique de olho nela, de perto… mas com discrição. Eu mesmo vou tentar descobrir algo sobre a família dela por outros meios.
Ele não podia se casar com alguém sobre quem nada sabia. Independentemente de decidir ficar com ela ou não, não havia mal algum em investigar suas origens o quanto antes. Yurie assentiu, compreendendo, mas logo ergueu o olhar para ele com um sorriso travesso.
— Farei como o senhor deseja. Mas devo dizer… é bastante incomum vê-lo tão interessado em uma noiva, jovem mestre.
— …Não preciso que você aponte isso.
Ele tinha de admitir: nenhuma candidata anterior havia despertado sua atenção como Miyo. Nenhuma outra dama de família nobre esperaria pacientemente por sua permissão para erguer os olhos, depois de ter sido ignorada ao se curvar em cumprimento. Hoje em dia, nem mesmo os criados se rebaixavam tanto — a não ser que trabalhassem para patrões realmente severos.
— Não precisa ficar com vergonha.
— Não estou com vergonha. E o meu interesse por ela não é desse tipo que você está insinuando.
— Bem, só estou dizendo que, com essa atitude, o senhor vai acabar solteiro para sempre.
— …
No momento em que se preparava para repreendê-la por tamanha ousadia, lembranças de mulheres que haviam fugido dali em poucos dias — chorando ou gritando de raiva — voltaram à sua mente. Ele não se arrependia de tê-las afastado, mas não podia negar que aquilo o fazia questionar se realmente tinha vocação para marido. Talvez fosse exigente demais… mas, com certeza, não queria se casar com alguém como sua própria mãe, uma típica jovem rica e estereotipada.
— Pessoalmente, acho que Miyo seria uma esposa adorável para o senhor.
— Então você já decidiu que é ela?
— Sim.
— Com tanta convicção, parece até que quem manda aqui é você.
Era apenas o terceiro dia de Miyo na casa de Kiyoka, mas Yurie já havia se afeiçoado a ela.
— Bom, você já sabe o que fazer — acrescentou ele.
— Sim, pode deixar comigo, jovem mestre. Vou me certificar de exaltar todas as suas qualidades para ela.
— Não se empolgue demais.
Embora ainda se sentisse um pouco inquieto com toda aquela situação, aquela parecia ser a melhor maneira de lidar com as coisas. Ele podia confiar no bom senso de Yurie.
Décadas haviam se passado desde que a capital fora transferida do oeste para o leste. A cidade agora abrigava um número impressionante de casas influentes — fossem famílias militares, aristocratas de nascimento ou pessoas que haviam recebido títulos de nobreza em reconhecimento por seus serviços. Havia também aqueles que, mesmo sem posição na corte, eram considerados parte da alta sociedade graças à sua riqueza ou talento artístico.
A educação de Kiyoka fora rígida e completa, mas nem mesmo ele era capaz de listar todos esses nomes ilustres. Sabia que os Saimori eram uma família dotada, conhecia seu status e o nome do chefe da casa — mas nada além disso. Precisaria investigar por conta própria.
Espero não encontrar nenhum segredo vergonhoso.
Famílias com o Dom eram raras. Ele suspirou, perguntando-se se sua investigação poderia acabar revelando algo que manchasse a reputação deles.
Enquanto isso, na residência dos Saimori, dois homens de meia-idade estavam sentados frente a frente, conversando. Apesar das roupas informais, a tensão entre eles era tão densa que parecia possível cortá-la com uma faca.
Um deles era Minoru Tatsuishi, chefe da família Tatsuishi e pai de Kouji. Ele não fazia questão de esconder sua irritação e desagrado ao acusar o outro homem, Shinichi Saimori, de ter quebrado uma promessa.
O que exatamente você quer dizer com isso?
Shinichi fingia não entender, embora sua postura deixasse claro que suspeitava do que Minoru estava insinuando. A expressão neutra em seu rosto comum apenas aumentava ainda mais a irritação do outro.
Não me tome por idiota. Por que ofereceu Miyo ao Kudou? Eu disse que a queria para o meu filho.
Ah… então é isso que está te deixando tão alterado?
Shinichi recostou-se na cadeira, como se aliviado por ver que o assunto era tão trivial.
Embora famílias com o Dom fossem raras, ainda havia um número considerável delas na antiga capital, de modo que não faltavam noivas adequadas para o segundo filho de Minoru. Para ser sincero, ele não entendia por que Kouji insistia em uma garota que sequer possuía Visão Espiritual — mas cada um com suas preferências.
Entre o seu filho e o Kudou, ele era, sem dúvida, a melhor escolha.
A família Kudou estava em uma posição superior à dos Tatsuishi. Era improvável que aceitassem Miyo, mas, caso isso acontecesse por algum golpe de sorte, os Saimori passariam a ter laços valiosos com uma casa poderosa. Minoru sabia que Shinichi não tinha grandes expectativas em relação à filha mais velha e pouco se importava com o destino dela — mas, se houvesse qualquer vantagem em oferecê-la aos Kudou, ele não hesitaria em tentar.
As relações entre as famílias Tatsuishi e Saimori vinham de longa data, então Minoru compreendia bem as motivações de Shinichi. Ainda assim, não seria tão fácil apaziguá-lo quando estava claro que havia sido feito de tolo.
A mãe de Miyo vem da linhagem Usuba. Eu queria esse Dom para os meus descendentes.
Mas Miyo não herdou o Dom dos Usuba.
Minoru fervia de raiva, enquanto Shinichi permanecia impassível, sem demonstrar o menor sinal de culpa.
Por volta dos cinco anos de idade, já era possível saber se alguém possuía o Dom. Se a pessoa desenvolvesse Visão Espiritual até então, poderia também manifestar outros poderes latentes. Miyo, aos dezenove anos, ainda não possuía essa habilidade — o que a tornava, aos olhos deles, uma causa perdida. Ela não traria qualquer benefício à família, pelo menos não de forma direta.
Ela pode ter filhos que herdem essa habilidade.
Você está tão desesperado assim pelo Dom dos Usuba?
Eu estaria mentindo se dissesse que não me interessa o poder de manipular a mente das pessoas! A família Kudou já é formidável como é, e ainda assim você parece disposto a torná-la ainda mais forte. O que será de gente como nós?
Se Kudou a devolver, já que ela é inútil, fique à vontade para ficar com ela. Provavelmente ela até chorará de gratidão.
Minoru não conseguiu conter um leve estalar de língua, tomado pelo desgosto. A família Kudou era tão poderosa que o Dom dos Usuba não seria algo particularmente desejável para eles, e esse tal de Kiyoka Kudou era conhecido por ser extremamente exigente quanto à futura esposa — não se interessaria por uma garota comum como Miyo. Como Shinichi dissera, era quase certo que ela seria devolvida.
Ainda assim, Minoru desprezava profundamente essa forma de pensar. O chefe da família Saimori idolatrava tanto a filha mais nova que se tornava cego para o valor da primogênita. Não apenas estava descartando uma verdadeira galinha dos ovos de ouro, como também atrapalhava os planos de Minoru.
Então você está dizendo que já não considera mais Miyo sob sua responsabilidade?
Exatamente. Estou a deserdando. Se ela viver ou morrer… sinceramente, pouco me importa.
Entendo.
Minoru não permitiria que os Kudou lhe tomassem aquilo que considerava seu. Em silêncio, fez um juramento: garantiria que seu filho fosse o homem a se casar com Miyo.