Hige wo Soru. Soshite Joshikousei wo Hirou. - Volume 1 – Capítulo 9
Celular
— Ei.
Mishima estava no fim do meu olhar frio.
— Ah, Sr. Yoshida. Quer ir almoçar?
— Não, sua tonta. Seu dia não fica completo enquanto você não faz alguma besteira?
Ela inclinou a cabeça, confusa.
A expressão dela era tão genuinamente perdida que parecia que havia um ponto de interrogação flutuando acima da cabeça. Aquela atitude me irritava profundamente. Eu já sabia muito bem que, apesar do desempenho medíocre, ela era tecnicamente capaz.
— Conserta isso. Agora.
— C-consertar o quê?
— Você sabe muito bem, não sabe?
Aproximei-me de Mishima. Uma veia na minha testa pulsava visivelmente de raiva, e os olhos dela começaram a vagar pelo escritório de forma frenética.
Então ela aproximou os lábios do meu ouvido e sussurrou:
— Eu te disse ontem, não disse? Eu só trabalho o tanto que acho necessário…
Não fiquei nada impressionado. Passei o braço pelos ombros dela e a puxei para mais perto do meu rosto, de modo que eu pudesse falar sem que mais ninguém ouvisse.
— Escuta aqui. Ontem eu não disse nada porque a gente estava bebendo, mas não vou deixar você passar o dia inteiro trabalhando desse jeito. Não se engane.
— Mas! Isso quer dizer que você vai me fazer trabalhar até cair?!
— E por que não faria? Todo mundo aqui já está se matando de trabalhar.
— Ugh…
Ela murchou na mesma hora.
Levantei os olhos por um instante e, naquele momento, meu olhar encontrou o da Srta. Gotou. Ela estava sentada à mesa dela do outro lado do escritório.
Nossos olhos se cruzaram.
Soltei o ombro de Mishima meio atrapalhado e pigarreei, constrangido.
— Enfim… termina isso antes do almoço.
— O quê? Mas falta menos de uma hora pro intervalo! — retrucou Mishima.
Abri um grande sorriso para ela.
— Dá um jeito.
— Ugh…
Eu sabia que ela era capaz, então faria ela trabalhar. Não queria explorá-la até o limite, mas se ela não se esforçasse ao menos um pouco, isso acabaria virando problema para mim.
Fiquei de olho nela enquanto, a contragosto, começava a trabalhar, e então voltei para minha mesa.
Mas então…
— Ei, Yoshida! Tem um minuto?
Ouvi alguém me chamar do outro lado do escritório.
Surpreso, me virei — e vi que quem tinha falado era a Srta. Gotou.
— Eu?
Apontei para mim mesmo, inclinando a cabeça.
A Srta. Gotou assentiu e fez um gesto para eu me aproximar.
Hã? Sobre o que será que ela quer falar? Será que eu fiz alguma coisa errada?
Um suor frio começou a escorrer pela minha testa.
Ser rejeitado recentemente pela Srta. Gotou já era desconfortável por si só… mas ela também era minha chefe.
Ultimamente ela andava ocupada com tarefas do setor de recursos humanos e quase não falava comigo, então ser chamado de repente assim realmente me deixou nervoso.
Com esses pensamentos na cabeça, caminhei até a mesa dela.
Ela sorriu docemente para mim enquanto continuava digitando no teclado.
Então apontou para o monitor e sorriu outra vez.
Ela queria que eu olhasse alguma coisa?
Presumindo que fosse isso, espiando com cautela para onde ela apontava.
Na tela havia um documento do Word com apenas uma frase:
Você pode me dedicar um tempo depois do trabalho amanhã?
— Hã? Amanhã?
Acabei respondendo em voz alta, e a Srta. Gotou imediatamente levou o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio.
— Depois a gente conversa.
Ela disse isso em voz baixa e breve, e voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido.
Hã? O que foi isso?
Não parecia que ela estava simplesmente me convidando para beber.
Um encontro? Não… isso não fazia sentido.
Ela tinha acabado de me rejeitar.
Fiquei ali parado, perdido em pensamentos, até que a Srta. Gotou me lançou um olhar de canto.
— Ei. Já pode ir.
— Ah, claro! Desculpa!
Ela estava claramente me mandando voltar logo para minha mesa. Eu me virei e obedeci.
Pelo visto, não tinha escolha: teria que ir encontrar a Srta. Gotou depois do trabalho amanhã.
Eu não sabia se aquilo me deixava feliz ou não. Talvez um pouco dos dois.
No caminho de volta para minha mesa, senti de repente que alguém estava me observando.
Olhei ao redor do escritório e meu olhar encontrou o de Mishima.
Ela rapidamente desviou os olhos e fingiu estar ocupada digitando no teclado.
Para de ficar me encarando! Vai trabalhar!
Reclamei mentalmente com ela, mas meus pensamentos logo voltaram para a Srta. Gotou.
Por que ela queria se encontrar comigo?
Eu sabia que não conseguiria relaxar até descobrir.
— Hã? A Srta. Gotou te chamou pra jantar?
Sayu espetou o ensopado de carne com batatas que havia preparado e piscou surpresa.
Depois que terminei o trabalho, mandei uma mensagem para a Srta. Gotou no trem confirmando que iria.
Logo depois, recebi a resposta dela:
Desculpa por mais cedo. Que tal jantarmos juntos depois do trabalho amanhã?
— Você deve estar bem feliz.
— Nada disso… O que será que ela quer? Por que tem que ser durante um jantar?
— Ela só perguntou se você quer sair pra comer. Não é grande coisa.
— Você está errada! Tem alguma coisa por trás disso!
Sayu ignorou minhas objeções com um meio sorriso.
Uma criança não entenderia… mas, no mundo dos adultos, jantar e beber juntos podem carregar muitos significados implícitos.
Por exemplo, pode ser que te avisem sobre uma possível promoção… ou pode ser exatamente o contrário.
Quando eu tinha acabado de entrar na empresa, houve vezes em que meus chefes me davam broncas de forma “gentil” enquanto estávamos bebendo em algum bar.
— Você realmente pisou feio dessa vez — eles diziam.
Ser convidado para sair por um chefe com quem você não tinha muita intimidade era algo que deixava qualquer um nervoso.
— Não se preocupe com isso. Come seu ensopado antes que esfrie.
— Ah, é… Valeu pela comida.
Seguindo o conselho de Sayu, comecei a comer o prato que ainda soltava pequenas nuvens de vapor.
Peguei uma batata macia, de cor marrom-clara, com os hashis e a levei à boca.
— Oh. Isso está ótimo.
— Sério? Que bom!
Sayu assentiu, satisfeita, e deu uma mordida na própria batata.
— Mm!
— Você cozinha bem, sabia?
Ela sorriu timidamente, um pouco envergonhada.
— Continue me elogiando.
— Você é a melhor chef do Japão!
— Exagero!
Sayu caiu na gargalhada e então misturou um pedaço de carne com arroz branco antes de levar mais uma garfada à boca.
A comida da Sayu realmente era deliciosa.
Só podia imaginar que ela também cozinhava em casa.
…Será que os pais dela tinham ensinado?
Balancei a cabeça para afastar aquele pensamento.
Eu precisava parar de pensar nessas coisas.
Não ia me levar a lugar nenhum.
— O que foi?
— Nada.
Sayu inclinou a cabeça de lado, e eu enfiei um pouco de arroz na boca como se nada tivesse acontecido.
— Então? Você vai?
— Hm?
— Jantar com a Srta. Gotou.
Sayu pousou os hashis e ficou me encarando.
Eu assenti.
— Bem… não dá exatamente para recusar, né?
— Por quê? Porque você gosta dela?
— Porque ela é minha chefe.
Sayu franziu a testa. Estava claro que ela não acreditava nisso.
— Mas na verdade é porque você gosta dela, não é?
— Claro que não.
— Então não gosta?
— Isso… é outra questão completamente diferente.
Sayu soltou um bufar diante da minha tentativa óbvia de fugir da pergunta.
— Você não admite, mas ainda tem uma queda por ela.
— …Não é como se eu pudesse simplesmente parar. Eu fui apaixonado por ela por cinco anos inteiros.
Havia um toque de dor nas minhas palavras, e Sayu virou o rosto. A expressão dela parecia dizer: Droga, falei demais.
— Desculpa — ela disse.
— Tá tudo bem, não se preocupa com isso. Só pense em mim como um velho miserável.
— Mas você não é. — Sayu balançou a cabeça. — Sr. Yoshida, você é um cara legal. Acho que a Srta. Gotou não teria te rejeitado se já não tivesse namorado.
— Ha-ha. Não precisa tentar me agradar.
— Eu estou falando sério!
Quanto mais ela tentava consertar a situação, pior eu me sentia.
Soltei uma risada seca.
— Bem, de qualquer forma eu vou amanhã. Ela é minha chefe… e eu ainda gosto dela, então não posso recusar.
— Entendi. Então você não precisa que eu faça jantar para você amanhã? — perguntou Sayu, assentindo.
É mesmo. A comida que ela tinha preparado na noite anterior acabou sendo desperdiçada porque eu saí para beber com Mishima.
Ela não estava apenas perguntando se eu ia aceitar o convite da Srta. Gotou — ela estava confirmando se eu precisava de jantar.
Fazia sentido. Assenti.
— É. Não precisa cozinhar pra mim.
— Entendido.
Nesse ponto da conversa, outro pensamento me ocorreu.
— Ah, é mesmo. Você tem celular?
— Hã… celular…?
Sayu forçou um sorriso e balançou a cabeça.
— Não. Não tenho.
Aquilo foi um choque.
Hoje em dia até crianças do ensino fundamental andavam com smartphones. A ideia de que uma garota do ensino médio como ela não tivesse um sequer nem tinha passado pela minha cabeça.
— Você deixou ele na sua casa?
Sayu balançou a cabeça novamente.
— Quando eu estava morando na região de Chiba, uma amiga… quer dizer, uma colega de Hokkaido ficava me ligando o tempo todo, e isso começou a ficar irritante, então…
Sayu deu uma risadinha, tentando disfarçar.
— Acabei jogando ele no oceano.
— Você não pode simplesmente jogar lixo no oceano!
Sayu realmente era algo fora do comum. A atitude dela foi totalmente exagerada, e eu definitivamente não fiquei impressionado com a parte de poluir o mar.
— Então você está sem celular desde então?
— Isso mesmo.
— Não acredito…
— Não é tão ruim assim, sabia?
Bem, ela tinha um ponto. Para alguém como ela, que tinha deixado para trás as pessoas do passado, provavelmente não parecia uma perda tão grande.
— Por que você perguntou?
Sayu inclinou a cabeça, curiosa.
— Bem… eu percebi que, se acontecer alguma coisa e eu não conseguir voltar para casa, não tenho como te avisar. Se eu não conseguir entrar em contato, você pode acabar perdendo tempo cozinhando pra mim.
— Ah, entendi…
Sayu assentiu, como se tivesse acabado de perceber algo, e então, parecendo um pouco envergonhada, começou a desviar o olhar pelo quarto.
— O quê?
— É que… — murmurou ela baixinho. — Essa conversa parece coisa de recém-casados.
— Hã…?
— F-foi só uma piada! Não faz essa cara assustadora!
Eu mantive a expressão mais séria que consegui, e Sayu começou a agitar as mãos na minha frente, em pânico.
— Quer dizer, mesmo que eu prepare alguma coisa, você pode simplesmente comer no café da manhã do dia seguinte. Não é grande coisa!
— Mas seria mais conveniente pra você ter um celular, não acha?
Sayu balançou a cabeça com força.
— Não, eu não preciso! Sério, não preciso!
— Não precisa reagir com tanta resistência assim.
— Estou dizendo que é desnecessário. Provavelmente eu nem conseguiria fazer um contrato de celular mesmo!
Agora que ela mencionou isso… era verdade.
Estudantes do ensino médio não podiam fazer contrato de celular sozinhos — pelo menos, era o que eu sempre tinha entendido. Para piorar, eu nem sequer tinha tido celular quando estava no ensino médio, então não fazia ideia de como funcionava o processo.
— Mesmo assim, seria bom termos alguma forma de entrar em contato — murmurei.
Mas Sayu continuou recusando com teimosia.
— Vai ficar tudo bem, não se preocupa! — insistiu ela.
Ela ainda tinha o hábito de se conter, mesmo quando era algo que provavelmente queria.
Olhei para Sayu de canto de olho e dei um sorriso torto.
Aquilo não era apenas um problema para ela — era para mim também.
Ter uma estudante do ensino médio morando no meu apartamento e não ter nenhum jeito de falar com ela quando eu estivesse fora era, para ser sincero, meio inquietante.
Se alguma coisa acontecesse, eu queria poder entrar em contato com ela.
Um celular, hein…
Será que não havia nenhum jeito de conseguir um?
Acabei pegando no sono pensando nisso.
— Hã? Por que você simplesmente não faz outro contrato de celular no seu nome e dá o aparelho pra Sayu?
— Ah… é mesmo…
Na manhã seguinte, antes de começarmos o trabalho, pedi conselho ao Hashimoto, e ele apresentou uma solução quase imediatamente.
Ele tinha razão. Eu podia simplesmente fazer o contrato no meu nome.
Nem tinha pensado nisso.
— Hmm… acho que vou fazer isso na minha próxima folga — murmurei para mim mesmo enquanto ligava o computador do trabalho.
Eu podia continuar pensando na questão do celular depois.
Primeiro, eu precisava sobreviver a esta noite.
A Srta. Gotou ainda não tinha chegado ao trabalho, e eu fiquei encarando a mesa vazia dela enquanto sentia o suor escorrer pelas minhas costas.