Hige wo Soru. Soshite Joshikousei wo Hirou. - Volume 1 – Capítulo 2
Aluguel
"Ela te deu um fora, Sr. Yoshida? Coitado de você!"
Sayu tomou um gole de sopa de missô como se nada tivesse a ver com ela.
Bem, eu acho que não tinha.
Eu tinha intenção de mandar ela embora o quanto antes, mas por algum motivo, ela continuava perguntando sobre o que aconteceu ontem, e eu não conseguia evitar de responder.
"Eu não acho que você sinta pena de mim."
"Eu sinto! Eu realmente sinto! Levar um fora é horrível. Quer dizer, nunca aconteceu comigo, mas..."
"Sério...?"
Nossa conversa continuou sem rumo enquanto eu bebia da minha tigela.
Fazia tanto tempo desde a última vez que comi sopa de missô que não fosse de pacote, e estava deliciosa. Estava na medida certa de sal, e o fato de ser caseira deu um toque a mais.
Ahhh, como eu gostaria de ter a sopa de missô feita pela Senhora Gotou.
"Tá boa?"
Sayu trouxe meus pensamentos de volta da Senhora Gotou.
"S-Sim... Bem, não está ruim."
"Então tá boa?"
"Sim, está boa. Dentro dos padrões da sopa de missô."
"Dentro dos padrões da sopa de missô, né...?" Sayu riu, com um olhar travesso. "Gotou... era isso? Aposto que você estava só pensando em quanto gostaria de provar a sopa de missô dela, né?"
"...Nada disso."
Me incomodava o quanto Sayu conseguia ler minha mente com facilidade. Eu rapidamente virei o olhar, e ela riu, se divertindo.
"Acertando em cheio, né? Você é muito fácil de ler."
"Você é uma estudante do ensino médio insuportável, sabia?"
Franzi a testa para ela, e ela deu uma risadinha de novo, os ombros tremendo.
Parece que até minha cara feia era engraçada para ela.
Conversar com ela assim me dava uma sensação nauseante e irritante no fundo do estômago. Era difícil de descrever.
Novamente, ela tinha tomado as rédeas da conversa, e eu não estava muito confortável com uma garota comandando tudo.
"Ei, Sr. Yoshida." De repente, Sayu sussurrou diretamente no meu ouvido.
"O quê—?!" Eu dei um pulo, meu corpo se tensionando.
Antes que eu percebesse, o rosto dela estava bem ao lado do meu, e ela foi se aproximando lentamente.
"Quer que eu te faça sentir melhor?" ela perguntou com a voz ofegante.
Arrepios subiram pelo meu corpo.
"Eu não te disse para parar com esse tipo de coisa?!"
Eu empurrei Sayu para longe, e os lábios dela se curvaram para baixo em um biquinho.
"Ah, vai. Sei que você não fala sério."
"Ei, idiota. Eu não sou tão miserável a ponto de precisar de uma colegial com peito raso para me consolar."
Ela fez um barulho de surpresa e inclinou a cabeça. Então, de repente, começou a abrir os botões do seu blazer e o jogou de lado.
"Eu acho que tenho um peitão bem legal, viu," ela disse, apertando os seios juntos.
O peito dela estava claramente visível através da camisa, e eu não consegui evitar de olhar. Que homem conseguiria tirar os olhos de uma exibição como aquela?
"Eu—Eu quer dizer, talvez eles sejam grandes para uma garota do ensino médio... Mas a Senhora Gotou é ainda mais impressionante."
"Há ha! Ela é, né?" Sayu riu, então se jogou de volta na sua postura ligeiramente encurvada. "Qual o tamanho dela?"
A forma como ela fez a pergunta de forma tão casual me pegou de surpresa.
T-Tamanho dela...? Eu não tinha ideia.
"Q-Que eu sei? Provavelmente um F, no mínimo."
"Ah, então ela tem o mesmo tamanho que eu."
"Hã?! Você é um F?!"
"Sim. Se os dela parecem maiores que os meus, então ela seria um G ou até um H."
Um H...? Eu não tinha ideia de quão grande era um H.
Minha cabeça girou imaginando os tipos de tamanhos de busto que você veria em modelos de revistas masculinas. Ah, como eu queria me colocar entre um par de Hs. Não vou dizer em qual parte de mim.
"Mas sabe...," Sayu começou. "Você não acha que um par de Fs que você pode tocar é melhor do que Hs que você não pode?"
Ela inclinou a cabeça para o lado e apertou os seios novamente.
Suspirei quase inconscientemente.
"O que você está esperando de mim, me provocando assim? O que você faria se eu realmente tentasse algo?"
"Hã? Eu iria junto. Você não é feio, então não me importaria."
"...Você quer dormir comigo?"
Sayu piscou várias vezes.
"Não, não é bem isso que eu quis dizer."
"Então o que você quer dizer?!"
Quando percebi, já estava de pé. Ela continuava se contradizendo, e eu estava lutando para acompanhar.
"Se você não quer fazer isso, então não me pressione! Tem caras por aí que te agrediriam sem pensar duas vezes!"
Sayu franziu a testa e inclinou a cabeça.
"Deixa eu te perguntar uma coisa," ela disse.
"O quê?"
"Você tem uma garota bem na sua frente dizendo para ir em frente, então por que não vai?"
"Hã...?"
Soltei mais um suspiro, meio desabafo e meio pergunta. Percebi que a diferença de idade não era a única razão pela qual estávamos em total sintonia.
Olhei para Sayu como se ela fosse algum tipo de alienígena, e ela me deu um sorriso irônico em resposta.
"Que cara é essa?" ela disse. "Você é quem está agindo de forma estranha, Sr. Yoshida. Até agora, ninguém foi legal comigo e me deixou ficar sem pedir nada em troca."
"......"
Eu não sabia como responder a isso. Eu tinha assumido que Sayu era uma típica estudante do ensino médio que fugira de casa por impulso, mas pelo jeito que ela falava, parecia que ela estava sozinha há meses.
E o pior, eu tinha a sensação ruim de saber exatamente como ela vinha encontrando lugares para ficar nesse tempo.
"...Você é burra?" murmurei. Me agachei para ficar no nível dos olhos dela. "De onde você veio? Me mostra sua carteira de estudante."
Por um segundo, o rosto de Sayu se fechou.
No entanto, ela logo se iluminou de novo e sorriu. Colocou a mão no bolso da saia e tirou uma carteira dobrável pequena. Sua carteira de estudante estava lá dentro. Eu peguei e olhei.
"Asahikawa..."
Minha mandíbula caiu.
As palavras "Escola Secundária do 6º Distrito de Asahikawa, 2º Ano" estavam escritas no pequeno cartão.
"Você veio até Tóquio de Hokkaido? Sozinha?" perguntei.
"Sim."
"Quando você saiu?"
"Mais ou menos seis meses atrás."
Ela não tinha voltado para casa por meio ano?
Nós estávamos bem no centro de Tóquio. Isso era muito longe para uma estudante viajar sozinha.
"Você contou para os seus pais?"
"Não."
"O quê? Nesse caso, você precisa voltar para casa agora..."
Eu parei de falar.
A expressão despreocupada de Sayu havia se transformado em uma óbvia preocupação.
"Tá tudo bem. Eles devem estar aliviados por eu ter ido embora." Enquanto falava, parecia que ela estava olhando para longe.
"Você não pode ter certeza disso."
"Eu posso."
Tristeza e resignação preencheram os olhos de Sayu.
Isso partiu um pouco meu coração.
"Eu não tenho mais dinheiro," ela disse. "Tenho que fazer o que for possível para as pessoas me deixarem ficar com elas. É minha única opção."
"O que você quer dizer com 'fazer o que for possível'?"
"Bem..." Sayu gaguejou.
Senti raiva crescer dentro de mim, embora não soubesse bem quem culpar.
"Para de brincadeira."
As palavras saíram de mim antes que eu pudesse impedir.
"Eu não sei sobre os canalhas que você conheceu até agora, mas eu não..."
"Então..."
"Se você não quer voltar para casa e não pode ir para a escola, o que pretende fazer da vida?"
As sobrancelhas de Sayu se franziram.
"Como eu estava dizendo, estou procurando alguém que me deixe ficar com eles..."
"O que você vai fazer se eu te mandar embora?"
"Eu... Eu vou encontrar outra pessoa, de alguma forma."
"De alguma forma? Você tem um plano?"
"Hum..." Sayu murmurou algo vago. Ela estava claramente aflita.
Por que você não entende?
Eu não conseguia imaginar uma pessoa normal decidindo que a melhor opção era tentar seduzir homens na rua. Dito isso, nesse ponto, normal já estava perdendo o significado para mim.
Meu coração doía, mas eu não sabia se o que estava sentindo era raiva ou tristeza. De qualquer forma, deixei a sensação afundar por um momento. Então, como se quisesse afastá-la, falei com decisão.
"Você precisa trabalhar."
"Trabalhar?"
"Isso mesmo. Até quem largou a escola tem que trabalhar para viver."
"Mas..." A voz de Sayu ficou mais tímida, e sua atitude confiante e composta de antes sumiu. "Um trabalho de meio período não vai nem cobrir o aluguel!"
Ela tinha razão. Você teria que trabalhar por uns meses para juntar o suficiente para alugar um lugar, e viver na rua esse tempo todo não era uma opção.
"Você pode ficar aqui."
"Hã?"
"Eu disse que você pode ficar aqui!"
Sayu piscou algumas vezes, parecendo não acreditar no que eu acabara de dizer.
"Mas eu não te dei nada, Sr. Yoshida!"
"Você não tem nada que eu queira, então esquece isso."
Franzi a testa e continuei falando.
"Então você não tem dinheiro! Não tem lugar para morar! E você acha que a coisa mais lógica é seduzir homens?! Isso é o cúmulo da idiotice! Vou te fazer usar esse cérebro aí."
"Por que você continua me chamando de burra?"
"Você é burra! E mimada. Não entende o valor das coisas."
Sayu engoliu o que ia dizer.
Olhei para ela de frente e percebi que ela era incrivelmente fofa.
Por que? Aquela única palavra ficava rodando na minha cabeça.
Por que ela não podia ter vivido a adolescência e se apaixonado como qualquer outra pessoa? Por que não podia viver uma vida normal?
"Você não tem onde ficar, né?"
"Não."
"Então fica aqui."
"...Ok."
"Você vai fazer todo o trabalho doméstico. Esse vai ser o seu trabalho a partir de agora."
Os olhos de Sayu se arregalaram de surpresa.
"Eu pensei que você queria que eu arrumasse um trabalho."
"Vamos chegar lá. Mas primeiro, temos que resolver como vamos morar juntos. Não vai ser assim, do jeito que você quer."
A boca de Sayu abriu e fechou algumas vezes, mas nenhuma palavra saiu. Parecia que ela queria dizer algo, então eu esperei por ela.
"No final," ela finalmente disse, "me parece que você está ok com a ideia de eu ficar aqui para sempre."
"Não para sempre. Só até você enjoar de fugir."
"...Eu posso ficar esse tempo todo?"
Eu não sabia como responder a isso.
Com os poucos minutos de conversa que tivemos, eu já começava a perceber o quanto ela realmente era mimada.
Sayu tinha andado de lugar em lugar, seduzindo qualquer homem que a aceitasse. Deve haver uma forma mais segura de viver, mesmo que fosse mais difícil.
Eu teria pensado que seria muito mais difícil tentar atrair homens de quem você não gostava do que passar por dificuldades físicas, mas parecia que Sayu já tinha superado qualquer tipo de hesitação há muito tempo.
Eu percebi que, se eu dissesse a ela que poderia ficar o tempo que quisesse, ela poderia não sair por anos. Então, escolhi minhas palavras muito cuidadosamente.
"Você pode viver aqui até a gente curar esse seu comportamento mimado."
Sayu parecia um pouco confusa, mas assentiu. "C-Certo..."
Suspirei e me sentei no chão.
Era incomum para mim ficar tão agitado. Eu definitivamente não estava bem ajustado o suficiente para ter o direito de dar lições em alguém...
Peguei a tigela e dei outro gole.