Goblin Slayer - Volume 1 – Capítulo 2
O Dia da Vaqueira
Ela teve um sonho familiar.
Sonhou com um dia de verão, quando ainda era pequena. Talvez tivesse oito anos. Tinha vindo sozinha até a fazenda do tio para ajudar a fazer o parto de uma vaca.
Com sua idade ingênua, não sabia que aquilo não passava de uma desculpa para deixá-la brincar.
Ela ia ajudar em um nascimento. Isso era um trabalho importante.
E, melhor ainda, ela ia sair da vila e ir até a cidade—sozinha!
Claro que ela se gabou disso para ele. Lembrou do olhar emburrado que apareceu no rosto dele. Ele tinha dois anos a mais que ela, mas não sabia nada sobre a vida fora da vila. Mal conseguia imaginar uma cidade, quanto mais a Capital.
É verdade que ela era igual a ele nesse sentido, mas ainda assim...
Ela não conseguia se lembrar do que havia causado a briga.
Ele ficou bravo, eles discutiram, e os dois acabaram em lágrimas. Olhando para trás, ela achou que talvez tivesse exagerado, achando que poderia dizer qualquer coisa só porque ele era menino.
Disse demais, feriu-o o suficiente para que ficasse realmente bravo. Não tinha pensado que aquilo poderia acontecer. Afinal, ela era jovem.
Eventualmente, a irmã mais velha dele apareceu para buscá-lo e levou-o para casa, segurando sua mão.
A verdade é que ela queria convidá-lo para ir com ela.
No carroção, a caminho da cidade vizinha, ela olhou para trás, pela cortina da janela, e viu sua vila se afastando.
Seus pais tinham ido se despedir dela. Ele não estava em lugar nenhum, enquanto ela acenava para seus pais.
Enquanto o carroção balançava, ela sentiu uma pontada de arrependimento.
Não teve chance de pedir desculpas.
Quando voltasse, teria que se reconectar com ele...
O dia da vaqueira começou cedo.
Isso porque ele acordava cedo, até antes do galo cantar.
A primeira coisa que fazia ao acordar era dar uma volta pela fazenda. Ele nunca negligenciava isso.
Quando ela lhe perguntou uma vez, ele disse que estava procurando por pegadas. “Os goblins se movem à noite,” ele disse. “Eles voltam para os seus ninhos ao amanhecer, mas sempre fazem uma missão de reconhecimento antes de atacar.” Então, ele lhe explicou que estava verificando por pegadas para garantir que não deixasse passar nenhum sinal de goblins.
Quando terminou a primeira inspeção, fez outra. Dessa vez, estava procurando por danos na cerca. E se encontrasse algo, ele mesmo pegava estacas e tábuas para consertar.
Cow Girl acordou com o som dos passos dele passando pela janela.
Finalmente, o galo começou o seu canto matinal.
Ouvindo aquele andar casual e confiante, ela deslizou seu corpo nu da cama de palha, esticou-se profundamente e deu um grande bocejo. Depois, colocou uma peça íntima sobre sua forma voluptuosa antes de abrir a janela.
O vento fresco e revigorante da manhã entrou.
“Bom dia! Acordou cedo como sempre, vejo!” vaqueira descansou seus vastos seios na moldura da janela e se inclinou para fora, chamando-o enquanto ele observava a cerca.
“É,” ele disse, virando-se.
Ele usava uma armadura suja, de couro e placas, e um capacete de aço; um escudo estava preso ao braço esquerdo e uma espada pendia em sua cintura.
Como sempre. Olhando para o sol, vaqueira disse:
“Hoje o tempo está bom. O Sol está tão brilhante!”
“Está.”
“Tio já acordou?”
“Nem ideia.”
“Hmm. Bem, tenho certeza de que ele vai acordar logo.”
“Será?”
“Você deve estar com fome. Vamos tomar o café da manhã. Eu já preparo em um minuto.”
“Certo.”
Ele assentiu lentamente.
Ele ainda era um homem de poucas palavras, pensou vaqueira com um sorriso.
Ele não era assim quando eram pequenos. Pelo menos, não deveria ser. Apenas os detalhes do clima mudando, eles tinham a mesma conversa toda manhã.
Mas ele era um aventureiro, e ir em aventuras era uma coisa arriscada. Se ela estava conversando com ele pela manhã, isso significava que ele havia sobrevivido mais um dia, então ela não se importava com quantas palavras eles trocassem.
Ainda sorrindo, a vaqueira se encaixou nas suas roupas de trabalho e seguiu leve em direção à cozinha.
Eles deviam se revezar na preparação das refeições, mas era vaqueira quem realmente cozinhava. Em todos os anos que viveram juntos, ele quase nunca cozinhou.
Talvez duas, três vezes? Quando eu tive aquele resfriado, tenho certeza...
Ela não contou para ele que a sopa que ele fez estava rala e aguada com medo de que ele ficasse chateado.
Ela pensava, às vezes, que já que ele acordava cedo de qualquer maneira, talvez pudesse preparar o café da manhã de vez em quando. Mas os aventureiros levavam uma vida imprevisível. Não havia muito o que ele pudesse fazer, então ela não o importunava com isso.
“Bom dia, tio! O café vai sair logo, tá?”
“Sim, bom dia. Está com um cheiro bom hoje. Meu estômago está roncando.” Seu tio, o dono da fazenda, acordou justamente quando ele voltou da inspeção.
“Bom dia, senhor.”
“Mm-hm... bom dia.” Seu tio respondeu com uma palavra curta e um aceno de cabeça seco para o cumprimento dele.
Na mesa estavam queijo, pão e uma sopa cremosa, tudo feito ali mesmo na fazenda.
Ele empurrou a comida para dentro da abertura do visor. A vaqueira o observava encantada.
“Aqui está o pagamento deste mês,” disse ele, como se de repente lembrasse de algo. Ele tirou uma bolsa de couro da bolsa que carregava na cintura e a colocou na mesa. A bolsa fez um som pesado ao ser colocada, e pela boca aberta, moedas de ouro brilhavam.
“…”
O tio dela olhou para a bolsa em silêncio, como se relutasse em pegá-la.
Não dava para culpá-lo. O homem de armadura não precisava estar alugando um espaço no estábulo de uma fazenda simples. Ele poderia estar ficando na Suíte Real em algum lugar.
Finalmente, o tio dela deu um pequeno suspiro de rendição e puxou a bolsa em direção a si.
“Ser aventureiro é bastante lucrativo, hein?”
“O negócio tem ido bem ultimamente.”
“É mesmo? Então, você... Você vai...?” O tio dela, normalmente tão bom com as pessoas, ficava sem palavras quando estava perto desse homem. A vaqueira simplesmente não conseguia entender...
Com uma mistura de medo e resignação, o tio dela finalmente continuou:
“…Vai sair de novo hoje?”
“Sim, senhor,” respondeu ele calmamente. Sempre com aquele mesmo aceno de cabeça lento. “Vou à Guilda. Trabalho demais para não ir.”
“Entendi.” O tio dela fez uma pausa. “Não se empolgue, viu?”
“Não, senhor.”
O tio parecia desconcertado com a voz calma do homem, enquanto dava um gole no leite morno de seu copo.
As conversas matinais deles sempre terminavam assim. A vaqueira tentou aliviar o clima dizendo, com um sorriso forçado: “Bom, eu preciso fazer umas entregas, então podemos ir juntos!”
“Certo.” Ele assentiu, mas, com isso, a expressão do tio dela ficou ainda mais severa.
“…Quer dizer, nesse caso, eu posso pegar o carrinho,” o aventureiro rapidamente corrigiu.
“Oh, o tio é só uma galinha protetora,” disse a vaqueira. “Eu vou ficar bem. Sou bem mais forte do que pareço, sabia?” Ela subiu a manga e flexionou o bíceps para mostrar a ele.
De fato, seus braços eram maiores que os de uma menina da cidade da sua idade, mas ela não era o que se chamaria de musculosa.
“Tudo bem.” Foi tudo o que ele disse ao terminar o café. Ele se levantou da mesa sem nem agradecer pela refeição.
“H-hey, espera aí, vai devagar!” ela disse. “Eu também tenho que me preparar! Espera!”
Mas, assim como sempre, era assim que as coisas aconteciam. A vaqueira devorou o resto do café da manhã de uma forma nada feminina.
Ela lavou a imensa refeição—que ela precisava por causa de todo o trabalho que fazia—com leite e então levou os pratos para a pia.
“Tá bom, tio, estamos indo!”
“Voltem logo. E com segurança. Por favor.”
“Vai dar tudo certo, tio. Vamos ficar juntos.”
Ainda sentado à mesa, o tio dela usava um olhar desolado, como se dissesse:
É disso que eu estou preocupado. O tio da vaqueira era um bom homem, de coração gentil, como ela bem sabia. Só não parecia se dar bem com o aventureiro. Ou melhor… o tio parecia ter medo dele. Mesmo não havendo motivo para ter medo…
…Ela estava bem certa disso.
Quando saiu, ele já estava caminhando pela estrada além da cerca. Ela foi até onde o carrinho estava guardado atrás da casa, apressada, mas sem correr.
Ela tinha carregado os produtos no dia anterior, então só precisou pegar a barra do carrinho e empurrar. À medida que as rodas rangiam, os produtos e o vinho chacoalhavam no carrinho.
Ele caminhava pela estrada ladeada de árvores até a cidade, a vaqueira o seguindo atrás, puxando o carrinho. Cada vez que a carga balançava sobre as pedras, o peito dela balançava junto.
Este trabalho não era difícil o suficiente para ser cansativo, mas, à medida que iam avançando, ela começou a suar um pouco e a respirar com mais dificuldade.
“……”
De repente, sem uma palavra, ele diminuiu o ritmo. Ele não parou, é claro, mas foi mais devagar. Ao mesmo tempo, a vaqueira, em um impulso de energia, acelerou até ficar ao lado dele.
“Obrigada.”
“…Nada disso.” Ele balançou a cabeça enquanto dizia as poucas palavras. Talvez tenha sido o capacete dele que fez o gesto parecer estranhamente largo.
“Troca?”
“Não, eu estou bem.”
“Entendi.”
A Guilda dos Aventureiros também tinha uma pousada e uma taverna, e era lá que a vaqueira entregaria os produtos—essa era sua função. Era também lá que ele iria para pegar a missão do dia—essa era a dele.
Ela não podia ajudar no trabalho dele, então se sentia mal de alguma forma em pedir ajuda para o dele.
“Como tem sido?” ela perguntou sobre o barulho do carrinho, olhando de lado para ele.
Não que houvesse muito o que ver. Ele usava o capacete desde o momento em que acordava todos os dias. Qualquer expressão que ele tivesse, ela não conseguia ver.
“Mais goblins ultimamente.”
As respostas dele eram sempre curtas. Curtas e, ainda assim, de alguma forma, suficientes. A vaqueira acenou com um sorriso radiante.
“Sério?”
“Mais que o normal.”
“Então você está ocupado?”
“Estou.”
“É, você anda fora o tempo todo esses dias.”
“É.”
“É bom ter muito trabalho, né?”
“Não,” ele disse, balançando a cabeça quieto. “Não é.”
“Por que não?” ela perguntou, e ele respondeu:
“Eu preferiria não ter goblins.”
“É...,” ela disse, assentindo.
As coisas seriam melhores sem goblins.
A estrada foi melhorando gradualmente, e eles já conseguiam distinguir os edifícios no horizonte enquanto o burburinho da cidade chegava aos seus ouvidos. Aqui, como na maioria das cidades, o prédio da Guilda ficava logo após o portão. Era também o maior prédio da cidade, imponente sobre o entorno, até maior do que o Templo da Mãe Terra com sua enfermaria anexada. Supostamente, isso acontecia porque muitas pessoas de fora vinham para o prédio da Guilda e precisavam encontrá-lo com facilidade.
A vaqueira, pelo menos, estava contente por ser fácil de encontrar.
A Guilda também dizia que queria poder pegar rapidamente qualquer malfeitor que estivesse por aí se passando por aventureiro.
Por outro lado, era difícil distinguir a maioria dos aventureiros de simples marginais à primeira vista.
Ela observou todos os tipos de armaduras extravagantes usadas pelas pessoas que andavam pelas ruas e ele com seu capacete de aço, mesmo no centro da cidade, e sorriu com ironia.
“Espera aí, tá? Eu só vou entregar a mercadoria.”
“Certo.”
A vaqueira rapidamente deixou os produtos na entrada de serviço nos fundos do prédio, então suspirou enquanto limpava o suor da testa. Ela tocou a campainha para chamar o cozinheiro, mostrou a ele a lista de itens para confirmar que tinha trazido tudo conforme o pedido e pegou sua assinatura. Agora, tudo o que precisava era da assinatura da Guilda Girl, e a entrega estaria finalizada.
“Desculpe pela espera.”
“Imagina.”
Ele ainda estava lá quando ela saiu novamente na frente, como ela soubera que estaria.
Quando passaram pela porta balançante da Guilda juntos, o alívio momentâneo do sol foi logo dissipado pelo calor coletivo de todos os corpos dentro do prédio. O Hall da Guilda estava animado como sempre.
“Vou lá pegar essa assinatura.”
“Certo.”
Fora, ele tinha esperado por ela, mas dentro, eles se separariam.
Ele seguiu para uma fileira de cadeiras ao longo da parede e se acomodou em uma com autoridade, como se fosse reservada para ele. A vaqueira acenou levemente para ele, depois se dirigiu à recepção, onde uma fila de visitantes aguardava.
Havia aventureiros, pessoas registrando missões e seguidores de todos os tipos.
Comerciantes de ferreiros a peões, de mercadores a vendedores de remédios. A vaqueira percebeu que ser aventureiro tinha mais custos do que parecia.
“Então, ei. Esse troll vem na minha direção, certo? Mas eu fico tipo, Hoje não!”
“Puxa, isso soa bem cansativo. Talvez você devesse tentar uma poção de Stamina.”
A vaqueira viu um aventureiro empunhando uma lança, relatando animadamente seus feitos para a garota da recepção. Seu corpo incrivelmente esguio, quase composto inteiramente por músculos, indicava sua força. A etiqueta ao redor do seu pescoço mostrava que ele era um aventureiro de classe Prata.
A vaqueira sabia que essa era a terceira classificação mais alta na hierarquia da Guilda.
Ela sabia porque também era a classificação dele.
“Poção de Stamina? Quem precisa disso? Querida, eu enfrentei um troll com nada além da minha lança nas mãos. O que acha disso?”
“Oh, eu ouvi falar de como os trolls são temíveis…” Enquanto começava a se sentir incomodada, procurando palavras, os olhos da Guilda Girl caíram sobre ele, sentado na parede.
“Ah!” O rosto dela instantaneamente se iluminou.
“Ugh. Goblin Slayer.” O Lanceiro fez um som de desdém ao seguir o olhar da Guilda Girl.
Talvez ele tivesse falado um pouco alto demais. O burburinho na Guilda aumentou à medida que um visitante, depois outro, olhavam na direção dele.
“Não acredito que ele também é de classe Prata.” Uma cavaleira elegante balançava a cabeça com desgosto. As cicatrizes em sua armadura de platina falavam de muitas batalhas e a tornavam ainda mais imponente. “Quem sabe se ele consegue enfrentar algo maior que um goblin? Um ‘especialista’? Heh! Dão uma classificação Prata para qualquer um hoje em dia!”
“Deixa ele pra lá. Ele nunca tem nada a ver com o resto de nós, de qualquer forma. Quem se importa com o que ele faz?”
Um grande guerreiro, tipo tanque, fez um gesto desdenhoso com a mão para a Cavaleira.
Seria tolice ou bravura o que o fazia parecer tão à vontade em sua armadura com aparência de vilão? Ambos ele e a Cavaleira usavam etiquetas prateadas, então não eram novatos em missões também.
Dois meninos, no entanto, estavam conversando com armaduras de couro fino. Cada um tinha uma adaga, um bastão e uma capa.
“Olha ele!” disse um. “Nunca vi uma armadura tão suja!”
“É, os dois de nós temos equipamentos melhores que ele…”
O equipamento deles era tão barato quanto o dele, mas “melhor” porque não havia um único arranhão.
“Cala a boca,” disse uma paladina da mesma idade dos meninos, reprovando-os.
“E se ele ouvir? Tenho certeza de que ele é um novato, assim como nós.” O escárnio nas vozes deles estava tingido de alívio ao encontrar alguém tão patético quanto eles. Não pareciam perceber a etiqueta prateada ao redor do pescoço dele.
“Heh-heh-heh…” Uma maga com chapéu pontudo e uma capa escandalosa parecia estar se divertindo com a troca. Ela era chamada de bruxa e era uma usuária de magia de classe Prata. Ela abraçava seu bastão de forma sedutora e se afastava, observando com indiferença a agitação.
Os sussurros se espalhavam pela sala. Aqueles que o conheciam e aqueles que não conheciam, todos murmurando juntos.
E no meio de tudo isso, ele sentava quieto em seu banco, como se não se importasse.
Ele não liga. Não está atuando—ele realmente não se importa. Então acho que não adianta ficar bravo por ele…
A vaqueira se conteve, mas não estava feliz.
Nesse momento, com uma expressão franzida ainda no rosto, ela encontrou os olhos da Garota da Guilda. Por trás do sorriso permanente dela, havia o mesmo olhar da vaqueira.
Resignação. Raiva. Desgosto. E… o reconhecimento de que não havia nada que ela pudesse fazer.
Eu sei como você se sente.
Guilda Girl fechou os olhos por um segundo e suspirou.
“Com licença, por favor. Já volto.”
“Sim, er, ahem, por favor, fique à vontade… Eu ainda não terminei de contar sobre minhas corajosas façanhas—er, fazendo meu relatório!”
“Sim, entendi.” Garota da Guilda desapareceu para um escritório nos fundos.
Momentos depois, ela apareceu de novo na sala. Estava carregando uma pilha de papéis pesados com ambos os braços. Entre muitos suspiros, ela os levou até o quadro de avisos na parede.
“Certo, pessoal! Hora de colocar as missões da manhã!” A voz da Garota da Guilda ecoou pela sala, silenciando os murmúrios. Suas tranças balançavam alegremente enquanto ela acenava para chamar a atenção da multidão.
“Finalmente!” Olhos brilhando, os aventureiros se aglomeraram ao redor da Garota da Guilda, derrubando cadeiras na pressa. Afinal, se não pegassem uma missão, não comeriam naquele dia. Essa era a vida de um aventureiro. A natureza da missão, bem como a recompensa oferecida, influenciava a reputação dos aventureiros. E quanto mais bem eles contribuíam para o mundo—um valor conhecido entre o povo comum como “pontos de experiência”—determinaria sua classificação. E todo mundo queria subir de classificação.
A classificação de um aventureiro lhe daria confiança, afinal. Ninguém confiaria uma missão importante para um aventureiro de classe Porcelana ou Obsidiana, não importa o quanto fossem habilidosos.
Com Guilda Girl observando, os aventureiros que estavam ali brigavam ao puxar as missões do quadro. “Missões de classe Porcelana são tão…baratas. Não quero passar minha vida toda expulsando ratos dos esgotos.”
“Bem, não tem muito o que fazer. Ei, que tal essa aqui?”
“Matar goblins? Legal. De fato, parece uma missão para iniciantes.”
“Oooh, essa é boa. Quero matar uns goblins…”
“Não! Ouviu a Garota da Guilda—temos que começar pelos esgotos!”
“E dragões? Algum dragão? Algo mais marcial!”
“Ah, para com isso, você não tem equipamento para isso. Fica com os bandidos mesmo. O pagamento não é ruim.”
“Ei, eu estava olhando para essa missão!”
“Bem, eu peguei primeiro. Acho que você vai ter que encontrar outra.”
O Lanceiro de antes chegou atrasado para a disputa, e se viu empurrado pela multidão até cair de bunda no chão. Ele se levantou e, com um rugido, voltou para a confusão.
“Ok, pessoal, não há necessidade de brigar,” disse a Garota da Guilda, tentando acalmar a situação, com o sorriso ainda fixado no rosto.
“Hmph.” Por fim, a vaqueira se afastou da Garota da Guilda. Não queria se envolver nisso, e não parecia que conseguiria pegar a assinatura tão cedo.
Entediada, a vaqueira deixou seu olhar se desviar para a parede. Ele ainda estava sentado lá.
Uma vez, ela dissera: “É melhor apressarmos, ou todo o trabalho vai acabar,” mas ele respondeu: “Matar goblins não é popular.” Os fazendeiros postavam as missões, então as recompensas eram pequenas, e como eram vistas como missões de baixo nível, os aventureiros mais experientes não as pegavam.
Então, ele esperava a área de recepção esvaziar. Não havia pressa.
E… ele nunca disse isso, mas a vaqueira achava que ele estava esperando para que os novos aventureiros pudessem pegar as missões primeiro. Não que ela fosse sugerir isso para ele. Ele só diria: “É assim?” como sempre fazia.
“Hmm…” Se ela ia ficar presa ali de qualquer maneira, talvez devesse esperar com ele?
Ela não deveria ter hesitado.
“Ah…” Alguém mais se aproximou dele antes que ela pudesse.
Uma jovem aventureira. Ela usava vestes de sacerdotisa sobre seu corpo delicado, com o símbolo da Mãe Terra pendurado em seu bastão sonoro.
“…Oi,” disse ela brevemente, ficando na frente dele. Ela parecia desconfortável enquanto fazia uma pequena reverência.
“Sim.” Foi tudo o que ele disse. O que quer que estivesse pensando, estava escondido dentro daquele capacete. Ele não parecia perceber que a Sacerdotisa estava ainda mais atrapalhada por sua incapacidade de provocar uma resposta adequada dele.
“Comprei um equipamento. Como você me disse.” Ela subiu as mangas de suas vestes. Um conjunto de cota de malha novinha estava preso ao corpo esguio dela, os elos de corrente brilhando suavemente.
“Não está ruim.”
Quem não entendesse poderia interpretar a cena de forma equivocada, mas as palavras dele não tinham nenhum tom insinuante.
Ele finalmente se virou para a Sacerdotisa, a olhou de cima a baixo e acenou com a cabeça.
“As argolas estão um pouco largas, mas serão suficientes para parar as lâminas deles.”
“A Madre Superiora ficou muito desapontada comigo. Ela queria saber que tipo de serva da Mãe Terra usaria armadura.”
“Ela provavelmente não sabe muito sobre goblins.”
“Não é isso. É uma violação dos Preceitos…”
“Se isso atrapalhar seus milagres, talvez você devesse mudar de fé.”
“Minhas orações chegarão à Mãe Terra!”
“Então não há problema.”
A Sacerdotisa bufou de raiva. Ambos ficaram em silêncio por um momento.
“Não vai se sentar?”
“Ah, eu—eu vou! Eu vou me sentar!”
Corada, ela se apressou a se acomodar na cadeira ao lado dele. Seu pequeno traseiro fez um barulhinho fofo quando ela se sentou.
A Sacerdotisa colocou seu bastão sobre os joelhos e entrelaçou as mãos, como se quisesse encolher-se na cadeira. Aparentemente, ela estava bem nervosa.
“Hmph.” A vaqueira soltou um suspiro inconsciente, mas não era como se ele nunca tivesse mencionado essa garota. Ela era uma aventureira com quem ele havia feito parceria por cerca de um mês. Ele não disse diretamente que a havia encontrado em sua primeira aventura e a acolhido, mas a vaqueira juntou isso a partir das migalhas que ele deixou escapar.
Por um lado, ela sempre se preocupou com ele sozinho por aí, então estava feliz por ele ter alguém com ele agora. Por outro lado… será que ela precisava ser tão jovem?
A vaqueira ia todos os dias com ele até o Hall da Guilda, mas essa foi a primeira vez que viu a Sacerdotisa pessoalmente. Ela era tão magra que parecia que um abraço forte a quebraria ao meio. A vaqueira olhou para seu próprio corpo volumoso e soltou um pequeno suspiro.
A Sacerdotisa nunca percebeu a vaqueira observando-a. Em vez disso, ainda corada até a raiz dos cabelos, mas parecendo ter reunido coragem, abriu a boca.
“S-sobre aquele dia...”
A voz dela estava alta e apressada, com certeza devido ao nervosismo.
“Eu... eu acho que destruir a caverna toda com aquela mistura de fogo foi... foi demais!”
“Por que você acha isso?” Ele continuou a falar como se nada disso o surpreendesse.
“Nós mal podemos deixar os goblins lá sozinhos.”
“S-sim, mas e... e as consequências? E se a montanha inteira desabar?”
“Eu estou mais preocupada com os goblins.”
“Eu sei! Eu estou tentando te dizer que a falta de visão é o problema!”
“...Entendi.”
“E outra coisa! Eu acho que a forma como você se livra... do cheiro deveria ser um pouco... um pouco mais...!” Ela começou a se inclinar da cadeira enquanto falava.
O tom dele sugeria que ele estava ficando irritado. “Então, você aprendeu os horários para atacar?”
A Sacerdotisa engoliu em seco, pega de surpresa pela mudança repentina de assunto.
A vaqueira, inocentemente ouvindo a conversa, deu uma risadinha para si mesma.
Ele não mudou nada desde quando éramos pequenos.
“É... de manhã cedo ou à noite,” a Sacerdotisa respondeu, tentando mostrar com a expressão que não estava deixando ele se livrar tão fácil.
“Por quê?”
“P-porque esses são os períodos da manhã e da noite para os goblins, respectivamente.”
“Correto. O meio-dia deles é à meia-noite. A guarda deles é mais rigorosa nesse horário.
Próxima pergunta: Como atacar um ninho?”
“Bem... se possível, você faz um fogo para fumá-los. Porque... é... é perigoso... dentro do ninho.”
“Certo. Só entre quando não houver tempo ou nenhuma outra escolha. Ou quando você quiser ter certeza de que matou todos eles.”
Ele a interrogou enquanto ela lutava para encontrar respostas. “Itens?”
“P-principalmente poções e tochas.”
“Só isso?”
“E... corda. Sempre há um uso para corda... eu acho.”
“Não se esqueça. Feitiços e milagres.”
“Os seus itens muitas vezes podem substituir feitiços e milagres, então você deve guardar sua magia para quando precisar.”
“Armas.”
“Bem, você deveria ter...”
“Não, você não deveria. Pegue delas do inimigo. Eles têm espadas, lanças, machados, clavas, arcos. Eu não preciso de ferramentas especiais. Eu sou um guerreiro.”
“...Sim, senhor.” Ela acenou com a cabeça como uma criança que havia sido repreendida pelo professor.
“Mude suas armas, mude suas táticas. Fazer a mesma coisa repetidamente é uma boa maneira de se matar.”
“Hum, eu posso... anotar isso?”
“Não. Se pegarem suas anotações, vão aprender com elas. Você tem que saber tudo de cor.” Ele falou calmamente enquanto a Sacerdotisa se esforçava para gravar suas palavras na memória. Parecia verdadeiramente um diálogo entre mestre e aluno.
Será que ele sempre falava tanto? A vaqueira se mexeu desconfortavelmente enquanto essa pergunta surgia em sua mente.
Ela não entendia por que aquilo a deixava tão inquieta. Queria pegar aquela assinatura o quanto antes e ir para casa.
“Tudo bem,” ele disse, levantando-se de repente. Olhando ao redor, ela percebeu que a multidão de aventureiros estava apenas indo em direção aos seus afazeres. Havia muito o que fazer—preparar equipamentos, estocar comida e suprimentos, reunir informações.
A Sacerdotisa se apressou para acompanhá-lo enquanto ele caminhava em direção à Garota da Guilda, sem nem olhar para os aventureiros que partiam.
“Ah...” A vaqueira perdeu sua chance novamente. Sua voz, assim como sua mão estendida, ficou no ar.
“Oh, Sr. Goblin Slayer! Bom dia! Que bom vê-lo novamente hoje!” A voz e o sorriso da Garota da Guilda carregavam todo o brilho que faltava na vaqueira.
“Alguns goblins?”
“Ah, sim! Não muitos hoje, infelizmente, mas há três missões envolvendo goblins.” Enquanto ele permanecia calmo, a Garota da Guilda pegou alguns papéis com uma mão prática. Ela parecia tê-los preparado com antecedência.
“A vila nas montanhas a oeste tem um ninho de tamanho médio. A vila ao norte, perto do rio, tem um ninho pequeno. E há um ninho pequeno nas florestas do sul.”
“Vilas novamente?”
“Sim. São todos fazendeiros, como de costume. Será que os goblins estão mirando neles?”
“Talvez.” Ele havia levado suas palavras de brincadeira a sério. “Alguém já pegou alguma dessas missões?”
“Sim. Um grupo de novatos está nas florestas do sul. Essa é uma solicitação de uma vila perto da floresta.”
“Novatos,” murmurou ele. “Quem estava no grupo deles?”
“Deixa eu ver...,” disse a Garota da Guilda. Ela lambeu o polegar e começou a folhear uma pilha de papéis.
“Um guerreiro, um mago e um paladino. Todos de classe Porcelana.”
“Hmm. Bem equilibrado.”
“Eles estavam aqui mais cedo... Só três pessoas? Eles nunca vão sobreviver!”
O grito de pânico da Sacerdotisa contrastou fortemente com a avaliação comedida dele. “Quero dizer, nós éramos quatro, e...”
Ela ficou pálida e tremeu levemente. Apertou seu bastão sonoro com força.
A vaqueira desviou o olhar, sentindo o desconforto crescer dentro de si.
Por que ela não percebeu isso antes?
Ele encontra uma aventureira em sua primeira missão... uma aventureira...
Ela deveria ter entendido o que isso significava.
“Eu tentei explicar para eles... Eu realmente tentei. Mas eles insistiram que ficariam bem,” disse a Garota da Guilda, desconfortável. Ela obviamente sabia da história da Sacerdotisa.
Mas, no final das contas, os aventureiros eram responsáveis por si mesmos.
A Sacerdotisa olhou para ele, implorando.
“Não podemos deixá-los! Se não ajudarmos...”
A resposta dele foi imediata. “Vá se quiser.”
“O quê...?”
“Eu vou cuidar do ninho nas montanhas. Pelo menos, um hob ou um xamã deve estar lá.” A Sacerdotisa o olhou com uma expressão vazia. Não havia como adivinhar a expressão escondida atrás do capacete dele. “Com o tempo, esse ninho vai crescer, e as coisas vão piorar. Eu tenho que cortar o mal pela raiz.”
“Então... então você vai simplesmente abandoná-los?!”
“Eu não sei o que você pensa que eu faço,” ele respondeu com uma sacudida calma da cabeça, “mas esse ninho precisa ser tratado. Como eu disse, você pode ir para a floresta se quiser.”
“Mas aí você vai enfrentar o ninho das montanhas sozinho, não vai?!”
“Eu já fiz isso antes.”
“Ahhhh!” A Sacerdotisa disse, mordendo com força o lábio.
Mesmo de onde estava, a vaqueira podia ver a Sacerdotisa tremendo. Mas seu rosto não sugeria medo.
“Você é impossível!”
“Vai vir?”
“Claro que vou!”
“Ouviu ela.”
“Oh, muito obrigada a ambos!” A Garota da Guilda disse, fazendo uma reverência em gratidão. “Nenhum outro aventureiro experiente pega missões de goblins...”
“Experiente, que nada,” a Sacerdotisa murmurou, olhando para sua etiqueta de Porcelana. Ela parecia uma criança fazendo beicinho.
“Ha-ha-ha... Bem, vocês dois vão mesmo?”
“Sim,” a Sacerdotisa disse com um aceno relutante. “Contra a minha vontade!”
Ele estava sempre preparado, então, com o trabalho administrativo feito, estavam prontos para partir imediatamente.
Eles passariam pela vaqueira a caminho da porta. Não havia outra saída do prédio. O que ela deveria—ou não deveria—dizer? Confusa, várias vezes ela abriu a boca como se fosse dizer algo.
Mas, no final, não disse nada.
“Estou indo.” Foi ele quem, como sempre, parou diretamente na frente dela.
“O quê? Ah... Sim.” Ela deu um aceno seguro. Houve uma longa pausa antes de conseguir soltar mais duas palavras: “Se cuida.”
“Você também, no caminho de volta.”
A Sacerdotisa acenou com a cabeça enquanto passava, e a vaqueira respondeu com um sorriso ambiguamente caloroso.
Ele nunca olhou para trás.
A vaqueira voltou para a fazenda sozinha, puxando o carrinho vazio, e cuidou dos animais sem dizer uma palavra.
À medida que o sol subia devagar, mas com certeza, no céu, ela almoçou um sanduíche no pasto. E quando o sol já havia se afastado em direção ao horizonte, ela jantou à mesa com seu tio. Ela não conseguia sentir o gosto da comida.
Depois do jantar, ela saiu. Um vento fresco vindo da noite roçou suas bochechas. Quando olhou para cima, pôde ver o vasto céu, com suas muitas estrelas e duas luas.
Ela não sabia muito sobre aventureiros ou goblins. Não estava em sua vila quando os goblins atacaram dez anos atrás.
Ela estava na fazenda do tio, ajudando no parto de um bezerro. Na sua tenra idade, não percebia que aquilo era apenas uma desculpa para deixá-la brincar.
Foi pura sorte que ela tenha escapado da catástrofe. Apenas sorte.
Ela não sabia o que aconteceu com seus pais. Lembrava de ter enterrado dois caixões vazios. Lembrava do padre dizendo algo, mas tudo o que sabia naquele momento era que sua mãe e seu pai haviam partido.
Ela se lembrava de ter se sentido sozinha no começo, mas não sentia mais isso.
E sempre havia o "se". Se ela não tivesse brigado com ele naquele dia. Se tivesse pedido para ele ir com ela...
Talvez as coisas tivessem sido diferentes. Talvez.
“Se ficar acordada até tarde, vai ter um dia difícil amanhã de manhã,” uma voz áspera disse por cima do som dos passos na vegetação.
Ela se virou e viu seu tio, com a mesma expressão preocupada que ele tinha naquela manhã. “Eu sei. Vou para a cama daqui a pouco,” ela prometeu,
mas seu tio balançou a cabeça com uma expressão de desagrado.
“Ele tem que se cuidar, mas você também. Eu deixei ele ficar aqui porque ele me paga, mas seria melhor se você se afastasse dele.”
Ela ficou em silêncio.
“Eu sei que vocês são velhos amigos, mas às vezes o passado é só o passado,” ele disse. “Ele não é mais o mesmo. Ele está fora de controle.”
Você deveria saber disso.
A vaqueira apenas sorriu para a repreensão dele. “Talvez. Mas ainda assim...” Ela olhou para o céu. Para as duas luas e a estrada que se estendia abaixo delas. Ainda não havia sinal dele.
“Vou esperar um pouco mais.”
Ele não voltou naquela noite.
Foi ao meio-dia do dia seguinte que ele retornou. Então, dormiu até o amanhecer.
No dia seguinte, sem mostrar sinal de cansaço, ele se juntou à Sacerdotisa para se aventurar nas florestas do sul. A vaqueira soube depois que os novatos nunca voltaram da floresta.
Naquela noite, ela teve aquele sonho familiar novamente.
Ela nunca havia pedido desculpas.