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Goblin Slayer - Volume 2 – Capítulo 2

O Matador de Goblins na Cidade da Água

A Cidade da Água era uma antiga metrópole situada a dois dias a leste da fronteira, atravessando a planície — uma imensa fortaleza de muralhas brancas erguida no encontro de vários rios, sob um dossel de árvores tão verdes que pareciam quase negras.


Viajantes vinham de todos os cantos para aquela cidade construída sobre uma fortaleza da Era dos Deuses. Barcos chegavam e partiam sem cessar, mercadores exibiam suas mercadorias, e línguas de todos os tipos se misturavam num caos ao mesmo tempo vibrante e belo.


Localizada no limite ocidental do interior e no extremo oriental da fronteira, a Cidade da Água era, de longe, a maior da região.


Uma carruagem sacolejava ruidosamente ao atravessar uma ponte, passando por um portão de castelo erguido no meio de um lago.


No portão estava gravado o brasão do Deus da Lei: a espada e a balança, símbolos da ordem e da justiça.


Mesmo na fronteira — onde monstros e criminosos corriam soltos — a luz da lei ainda brilhava. As pessoas conseguiam viver em paz… ainda que fosse uma paz frágil.


A carruagem avançava pelos sulcos marcados na pedra ao longo de centenas, talvez milhares de anos.


Algum tempo depois, ela parou em uma ampla área de estacionamento, e os aventureiros desceram um a um.


— Ahh… Meu traseiro tá doendo!


A Arqueira Elfa Superior se espreguiçou longamente, tentando soltar o corpo castigado pela longa e chacoalhada viagem.


O sol já estava alto no céu, prestes a alcançar o zênite. Era meio-dia.


Ao redor deles, lojas abasteciam os viajantes, e o ar era tomado por aromas de comida e bebida: carne chiando na brasa, gordura estalando… e o doce perfume de sobremesas recém-assadas.


A cidade tinha de tudo — desde pratos comuns até iguarias exóticas de terras distantes.


Os vendedores não ficavam atrás.


Ali, um anão berrava com toda a força para atrair clientes; acolá, um elfo fazia palhaçadas para chamar atenção. Uma vendedora de frutas rhea corria de um lado para o outro, vendendo maçãs numa velocidade impressionante. Humanos gritavam uns para os outros em meio ao movimento.


Mais adiante, um homem-lagarto pregava um sermão. E… era impressão ou havia um elfo negro cuidando de uma loja?


— Oh-ho! Parece um lugar encantador — comentou o Xamã Anão, fungando o ar enquanto absorvia tudo ao redor.


Ele deu um tapa na própria barriga saliente.


— Peito duro como bigorna, traseiro marcado como trilho de carroça… no fim, tudo se equilibra! O tempo desgasta qualquer coisa!


— …Parece que desgastou bastante você.


— Ho-ho-ho! Ainda assim, continuo imponente entre os anões!


A Arqueira Elfa lançou um olhar atravessado ao Xamã, que gargalhava com sua voz estrondosa de sempre.


A Sacerdotisa, atingida sem querer pelo comentário, levou a mão para trás e tentou, meio sem jeito, esconder o próprio traseiro pouco desenvolvido.


— B-bem… não deveríamos ir encontrar quem nos deu a missão?


— Sim.


Ela havia aprendido bem com seu mentor, o Matador de Goblins: mudar de assunto com firmeza.


Ele, porém, não parecia notar nada disso enquanto retirava de sua bolsa o pergaminho de pele de ovelha já todo amassado.


O papel estava cheio de vincos por ter sido enfiado de qualquer jeito, mas ele não parecia se importar.


— Ao que tudo indica, devemos encontrá-los no Templo da Lei.


— Então é por aqui!


Vendo que sua discussão não levaria a lugar nenhum, a Arqueira Elfa simplesmente a encerrou com um gesto elegante na direção do templo.


— Você sabe o caminho?


— Já estive aqui antes.


Ela abriu um largo sorriso e saiu andando com passos leves e confiantes.


Afinal, foi naquela cidade que ela ouvira pela primeira vez a canção de Orcbolg — o Matador de Goblins.


Ela caminhava pelas ruas conhecidas com um leve balanço de quadris, enquanto os outros a seguiam.


As ruas eram de pedra bem assentada, gastas pelo constante tráfego de carruagens, e rios cortavam a cidade em todas as direções, atravessados por balsas.


A cidade era impressionante, sobretudo pela forma como aproveitava as antigas ruínas quase sem modificá-las.


Havia construções por toda parte — lojas, estalagens e até pequenos apartamentos — todas adornadas com belas esculturas.


As ruas pareciam um desfile vivo, com pessoas vestindo as últimas tendências tanto da fronteira quanto do interior.


A Cidade da Água era, em essência, o retrato perfeito de uma metrópole cosmopolita.


— Mas… hum… vocês acham mesmo que existem goblins aqui?


A Sacerdotisa caminhava olhando para baixo, como se suas vestes simples a deixassem constrangida diante dos vestidos das outras jovens ao redor.


As roupas delas eram elegantes, deslumbrantes, femininas… nada parecidas com as dela, marcadas pelo uso constante nas aventuras.


Ela até deveria se envergonhar de sentir vergonha, na verdade.


— Acho que sim.


A resposta direta do Matador de Goblins não dava pistas de que ele tivesse notado seu desconforto.


Ainda assim, ela se sentia grata por isso. Ele nunca se distraía.


— Oh-ho… é mesmo? — disse o Sacerdote Lagarto, colocando a língua para fora com interesse.


— E o que o leva a pensar assim, nobre Matador de Goblins?


— Este lugar tem o mesmo ar de uma vila que já foi alvo de goblins.


— O mesmo ar…?


O Xamã Anão bufou, desconfiado.


Para ele, o ar só carregava cheiro de água, pedra… e da comida de uma loja próxima.


Nada daquela podridão característica dos covis de goblins.


— Não faço ideia do que você quer dizer.


— É porque anões são cabeça-dura.


— Como se você entendesse melhor do que eu.


A Arqueira Elfa soltou uma risadinha ao ver o Xamã de braços cruzados, com a cabeça inclinada.


Nem mesmo o olhar sério dele a intimidava; ela apenas fez um gesto displicente com a mão.


— Ora, ora… elfos vivem na floresta. Não espero entender o cheiro de cidades.


O Xamã estava prestes a responder, mas foi interrompido de repente.


Atrás da Arqueira Elfa, o Sacerdote Lagarto soltou um silvo agudo.


— Este não é o lugar para discussões no meio da rua.


— Eu sei disso. Mas, pra alguém cheio de escamas, você é bem espinhoso.


— E você é mole demais, anão — retrucou a elfa.


O Sacerdote Lagarto estalou a língua, e dessa vez os dois finalmente se calaram.


A Sacerdotisa soltou uma risadinha ao ver a cena.


Parecia que tanto a elfa quanto o anão já não tinham mais ânimo para continuar discutindo.


Eles seguiram andando devagar pela cintilante Cidade da Água, absorvendo cada detalhe ao redor.


Ali, era comum ver pessoas que falavam, mas não eram humanas — além de outros aventureiros.


Apenas o Matador de Goblins permanecia constantemente atento a tudo.


— Não entendo nada de “cheiros” e coisas assim, mas duvido muito que goblins vão simplesmente pular na nossa frente aqui no meio da cidade — disse a Arqueira Elfa, soltando um suspiro irritado.


— Você não pode ter certeza.


A resposta dele veio seca.


— Já vi isso acontecer antes.


Mesmo sem sacar a arma, ele se movia como se ainda estivesse dentro de uma caverna: passos firmes, mas surpreendentemente silenciosos.


Era o único que atraía olhares estranhos dos transeuntes — um aventureiro com armadura de couro suja e um elmo simples, andando pela cidade como se estivesse explorando uma masmorra.


Talvez alguns o confundissem com algum tipo de artista excêntrico. Não era algo que ele pudesse evitar.


E, se a Arqueira Elfa escondia o rosto de vergonha… bem, isso também não era problema dele.


De qualquer forma, era pouco provável que ele mudasse.


— E onde fica esse tal Templo? — perguntou o Sacerdote Lagarto, balançando a cauda suavemente atrás de si.


— Olha, dá pra ver daqui. Bem ali.


A Arqueira Elfa apontou com um dedo fino para um prédio do outro lado do rio.


Era um santuário deslumbrante, feito de mármore branco, sustentado por inúmeras colunas.


Mesmo quem o visse pela primeira vez saberia imediatamente: aquilo era um templo.


O Templo da Luz e da Ordem, marcado pela espada e pela balança — símbolos da lei e da justiça.


— Uau… — murmurou a Sacerdotisa, encantada.


O templo da Deusa Terra onde ela havia crescido não era nada humilde, mas…


…aquele lugar praticamente gritava que era a morada de um deus.


Seu rosto se iluminou de alegria, as bochechas levemente coradas de empolgação, e ela se virou.


— Senhor Matador de Goblins! É incrível!


— É?


A resposta não poderia ter sido mais direta.


Talvez eles simplesmente enxergassem aquilo de formas diferentes.


Para todos ali, era evidente que ele avaliava o templo como um possível ninho de goblins.


— Ah… poxa…!


A Sacerdotisa inflou as bochechas, mesmo sabendo que era um gesto infantil.


Então, de repente…


Ela percebeu que havia esquecido de perguntar o mais importante.


— Hum… Senhor Matador de Goblins?


— O quê?


— Quem é que pediu a missão…? É algum sacerdote do Deus Supremo?


— Não.


Ele respondeu como se não tivesse a menor importância, e completou:


— É o arcebispo.


Na mesma hora, o entusiasmo dela evaporou.


— O quêêê?!


Ela jamais teria imaginado que seria ela.


A Sacerdotisa apertou seu cajado com as duas mãos e deixou escapar um grito involuntário.


A responsável pela lei em toda a fronteira ocidental.


Não — mais do que isso.


Pois ela era conhecida como…


…a Donzela da Espada.


Havia muitos visitantes no Templo da Lei.


Em parte, porque não eram apenas devotos do Deus Supremo que iam até lá para rezar.


O edifício também funcionava como um tribunal, onde julgamentos eram realizados em nome de Deus.


Os casos variavam desde disputas cotidianas simples até questões de vida ou morte.


O fluxo de pessoas era constante — todos buscando submeter seus casos à implacável luz divina.


Mais ao fundo do templo, eles atravessaram uma sala de espera cheia dessas pessoas.


Passaram por salas de julgamento, corredores estreitos repletos de estantes, até alcançarem a parte mais interna — silenciosa, ladeada por colunas de mármore.


No coração do templo havia um salão de culto, onde era venerada a imagem do Deus Supremo na forma do sol.


Parecia algo saído de uma lenda.


A luz do sol escorria entre as colunas em grandes cortinas douradas.


Não havia nenhum ruído fora do lugar. O silêncio era absoluto.


Aquele era, sem dúvida, um lugar sagrado.


E, diante do altar, ajoelhava-se uma mulher, cajado em mãos, em oração.


Vestia mantos brancos sobre um corpo bem formado. Seus cabelos dourados reluziam sob a luz.


O cajado — adornado com uma espada cujo punho sustentava uma balança — simbolizava o equilíbrio entre lei e justiça.


Ela era tão radiante que só se podia pensar: se o Deus Supremo assumisse forma humana, seria como ela.


E, ainda assim, havia algo inquietante.


Seus olhos estavam cobertos por um lenço negro.


Não que isso diminuísse sua beleza — talvez até a tornasse ainda mais marcante.


— …?


De repente, ela ergueu o rosto.


O silêncio sagrado fora quebrado por passos firmes e despreocupados.


— S-Senhor Matador de Goblins! Por favor, tente fazer menos barulho…


— Este é um trabalho urgente. Se não há problema em entrarmos, não há por que esperar.


— Eu já imaginava que você fosse impaciente, Orcbolg.


— Todo mundo parece impaciente perto de um elfo!


— Esse alvoroço é inadequado. Seja qual for o deus, ainda estamos em sua casa.


Vozes altas, animadas, ásperas… cheias de vida.


Para ela, aquilo era profundamente nostálgico.


…


Os lábios dela se suavizaram em um leve sorriso, e a manga de sua veste ondulou como a superfície do mar.


Ela — Arcebispa do Deus Supremo, a Donzela da Espada — levantou-se lentamente.


— Ora… quem poderiam ser vocês…?


— Viemos matar goblins.


O Goblin Slayer respondeu sem emoção, em tom claro — e, ainda assim, com algo que soava como um leve sorriso.


Havia uma ponta de insolência em sua postura, mas não de desrespeito. Era, acima de tudo, o jeito direto de um aventureiro.


Ao lado dele, a Sacerdotisa ficou paralisada, de olhos arregalados, tentando desesperadamente descobrir como deveria cumprimentá-la.


Aqui está a Donzela da Espada.


A arcebispa amada pelo Deus Supremo.


A aventureira de rank Ouro que, dez anos antes, havia sido a responsável pela queda do Senhor dos Demônios.


Não uma heroína de lenda, mas uma existência única, surgida entre os humanos.


Ela estava em um nível muito além da Sacerdotisa, recém-promovida ao rank Obsidiana.


A diferença entre elas era como o abismo entre um goblin e um dragão.


Quando ainda era uma acólita, a Sacerdotisa provavelmente nem teria coragem de entrar em um lugar tão imponente.


— E-eu… isto é… é… é uma honra conhecê-la — disse a Sacerdotisa, com a voz tensa, fazendo uma leve reverência.


Seus olhos brilhavam, e suas bochechas estavam coradas.


— Um guerreiro tão ilustre… e uma doce, honrada sacerdotisa.


Por trás do lenço, um olhar gentil pareceu roçar o rosto da Sacerdotisa antes de se afastar — ao menos foi essa a sensação.


Ela conseguia ouvir o próprio coração batendo forte no peito. Torcia para que ninguém mais pudesse escutar.


— E esses ilustres acompanhantes são…?


— Hm. Seus companheiros — respondeu o Sacerdote Lagarto quando o olhar pousou sobre ele.


— Eu venero os mais temíveis nagas, mas asseguro que lhes oferecerei todo o meu apoio.


Seu gesto, com as palmas unidas, era solene.


Claro, não era o mesmo gesto usado pelos sacerdotes do Deus Supremo.


Mas isso não importava.


O mais importante era demonstrar respeito.


Tudo começava a partir daí.


Sem perder o sorriso, a Donzela da Espada traçou uma cruz no ar com o dedo.


— Sejam bem-vindos ao Templo da Lei. É uma honra recebê-los, ó sacerdote das escamas.


Já a Arqueira Elfa e o Xamã Anão pareciam pouco interessados na formalidade.


Fizeram pequenas reverências atrás do Sacerdote Lagarto, mas logo se inclinaram um para o outro, cochichando.


— Hmm. Nada mal, para algo feito por humanos — comentou o anão.


— É… que pintura linda — respondeu a elfa.


A admiração deles estava voltada para o alto.


No teto, pinceladas ricas formavam um mural retratando as batalhas da Era dos Deuses.


Eles já haviam visto pinturas em cavernas antes, feitas com sangue nas paredes de ruínas… mas aquilo era completamente diferente.


Ordem e caos, Ilusão e Verdade — os deuses travavam guerras com corpo, mente e alma.


Contra um campo de estrelas, milagres e magia giravam, cruzavam o céu, brilhavam, queimavam.


Por fim, os deuses estendiam as mãos para um cubo… e passavam a lançá-lo como num jogo.


O tabuleiro era este mundo.


E as peças… todos que nele viviam.


Por isso, aqueles que possuíam palavras, aqueles que rezavam, buscavam viver corretamente.


Os dois — elfa e anão —, que eram próximos dos espíritos que habitavam o mundo, não estavam tão distantes dos próprios deuses.


Ainda assim, embora os respeitassem, não os adoravam cegamente.


Os deuses estavam “com” eles — ouviam seus conselhos, mas não se tornavam seus servos.


Talvez por isso houvesse tão poucos sacerdotes entre os elfos — embora os anões ainda seguissem seu deus ferreiro.


— Ho-ho… vocês realmente têm um ar bem… aventureiro.


Um guerreiro excêntrico. Uma sacerdotisa pura. Um sacerdote estrangeiro. Um mago anão. E uma arqueira elfa.


A arcebispa lançou aos cinco um sorriso leve… e estranho.


…


A Sacerdotisa teve a impressão de que aquele sorriso carregava solidão — e saudade.


— Se é assim… então somos parecidos. Eu os recebo de coração aberto.


Foi apenas um instante.


A Donzela da Espada abriu os braços, como se fosse acolher todos eles.


O gesto lembrava o de uma mãe amorosa — mas também tinha algo de sedutor, como alguém convidando para um lugar íntimo.


Qualquer homem comum teria engolido em seco diante disso.


Mas Goblin Slayer ignorou completamente.


— Chega de elogios. Conte os detalhes da missão.


Ele nem percebeu a expressão de horror que surgiu no rosto da Sacerdotisa.


— E-espera um pouco, Goblin Slayer…!


Aquilo já era demais.


A Sacerdotisa segurou a mão dele, protegida pela manopla, e o puxou para perto.


— Você não pode falar assim com a arcebispa…


— Não me importo.


Mas a Donzela da Espada apenas balançou a cabeça suavemente.


— Fico feliz que um aventureiro tão resoluto tenha vindo até mim.


— É mesmo?


— Posso perguntar… por curiosidade pessoal — murmurou ela — se alguém da sua família se voltasse para o caos… você seria capaz de matá-lo?


— Não — respondeu Goblin Slayer, sem hesitar. — Não tenho parentes vivos.


— Entendo…


Goblin Slayer observava, de dentro do elmo, os lábios vermelhos que murmuravam.


— Então. Onde estão os goblins?


Atrás dele, os outros aventureiros suspiraram.


— Tudo começou há cerca de um mês.


A Donzela da Espada fez um gesto para que todos se sentassem, e então se acomodou com as pernas juntas, com um ar abatido.


— Numa noite, enviei uma jovem acólita para entregar uma mensagem deste templo…


— Ela foi morta? Ou sequestrada? — perguntou Goblin Slayer.


— …Ela não voltou naquela noite. No dia seguinte, encontraram seu corpo em um beco.


Uma expressão de dor passou por seu rosto.


— Hmm… — Goblin Slayer levou a mão ao queixo, pensativo.


— Segundo quem a encontrou… parece que ela foi mutilada enquanto ainda estava viva.


As palavras saíram calmas, sem hesitação.


Mas havia um leve tremor por trás delas.


Seria medo? Intimidação? Ou uma dor profunda…


A Sacerdotisa não sabia dizer.


— Isso… isso é horrível — disse ela, com pesar.


— Só o fato de haver um assassinato já é triste… ainda que aconteça às vezes…


— Enquanto ainda estava viva… — murmurou Goblin Slayer. — E nesse lugar?


— …Sim.


— Alguma parte do corpo foi devorada? Ou ela foi apenas morta? Há mais detalhes…?


— Ei, Orcbolg… até pra você isso foi insensível — disse a Arqueira Elfa, franzindo os lábios.


Ela havia percebido a expressão sombria da Donzela da Espada.


Goblin Slayer ficou em silêncio por um longo momento, então disse:


— Por favor, continue.


— Foi realmente um incidente terrível.


Sim… terrível.


O Templo da Lei estava ali, é verdade — mas aquilo ainda era a fronteira.


Não muito tempo atrás, aquela região era uma terra sem lei, dominada por monstros e bandidos.


Era natural que ainda houvesse crimes.


Por mais que a luz do Deus Supremo brilhasse intensamente, ela não alcançava todos os cantos do coração humano.


— Lei e ordem… dizem que sempre foram as mais frágeis nas disputas deste mundo…


A Donzela da Espada continuou, em voz baixa:


— O mal não venceu… mas também nunca foi completamente derrotado.


Ela uniu as mãos, oferecendo uma breve prece ao deus que servia.


Esperando que ela terminasse, o Sacerdote Lagarto esticou o pescoço, atento.


— Então… isso quer dizer que a investigação não trouxe resultados?


— …Sim. Lamento dizer, mas é a verdade…


Talvez fosse obra de um agente do caos, ou de seguidores dos Deuses Sombrios… ou algo ainda pior.


Entre inúmeras hipóteses, a guarda da cidade iniciou uma investigação imediatamente.


Mas, para uma cidade tão movimentada dia e noite, havia surpreendentemente poucas pistas.


E, sem provas, nada podia ser feito — por maior que fosse o desejo de capturar o culpado.


Enquanto isso, a criminalidade na Cidade da Água aumentava drasticamente.


— Pequenos furtos, ataques aleatórios nas ruas… violência contra mulheres, sequestros…


— Hmm… — Goblin Slayer resmungou ao ouvir o relato. — Não gosto disso.


— Você nunca gosta de nada, Barba-Cortada — comentou o Xamã Anão, já acostumado com ele, fazendo um gesto despreocupado para a Donzela da Espada, como quem diz “ignore”.


Apoiando o queixo na mão, ele acrescentou:


— Admito que é estranho. Mas não foi só por isso que nos chamou, foi?


— Exatamente. Decidimos que, se não podíamos encontrar o culpado… então o pegaríamos em flagrante.


Assim, além da guarda, aventureiros também foram mobilizados.


Eles se dividiram em grupos e passaram a patrulhar as ruas à noite, perseguindo qualquer figura suspeita.


Era um plano direto — simples, prático.


Mas funcionou.


Um dos grupos de aventureiros flagrou pequenas criaturas humanoides atacando uma mulher… e as eliminou.


À luz das lamparinas que carregavam, os pequenos corpos revelaram-se…


— …goblins. Sem dúvida.


— Hmm… — Goblin Slayer, que escutava em silêncio, reagiu com interesse. — Goblins?


— Goblins… e não eram poucos, imagino — murmurou o Xamã Anão, alisando a longa barba pensativamente.


A Sacerdotisa levou o dedo aos lábios.


— A questão é: como eles entraram na cidade… Eles não passaram simplesmente pelo portão.


— Então só pode ser por baixo da terra… ou pelos canais — disse o anão.


— E essas vítimas… esses monstros não estavam só de passagem — completou a Arqueira Elfa.


— O que você acha? — Goblin Slayer virou o elmo em direção ao Sacerdote Lagarto.


O sacerdote revirou os olhos pensativo e respondeu:


— Goblins… vivem no subsolo. Esta cidade foi construída sobre uma mais antiga… Deve haver ruínas lá embaixo…


— Então está decidido — disse Goblin Slayer. — Eles são estúpidos, mas não são idiotas. Se eu fosse eles… faria um ninho nos esgotos.


— Mais uma vez, você prova que pensa como um goblin…


Era difícil saber se a Arqueira Elfa estava impressionada ou sendo sarcástica.


— Claro — respondeu Goblin Slayer com um aceno. — Se você não entende como eles pensam, não pode derrotá-los.


A Donzela da Espada demonstrou um leve estranhamento… mas assentiu.


— Certamente foi o Deus Supremo quem guiou um aventureiro como você até mim.


Um sorriso suave surgiu em seu rosto, e sua voz soou mais leve — havia alívio ali.


— Eu mesma, após um mês refletindo, cheguei à mesma conclusão.


— Um mês?


— Sim. E, no início, ofereci a missão aos aventureiros da cidade…


— E o que aconteceu com eles…? — perguntou a Sacerdotisa em voz baixa.


A Donzela da Espada apenas balançou a cabeça.


— Entendo… — murmurou a Sacerdotisa.


Isso já era resposta suficiente.


Eles não voltaram.


Muitos aventureiros de rank Porcelana e Obsidiana tinham o mesmo destino ao enfrentar goblins — assim como dois dos três companheiros com quem ela havia entrado numa caverna pela primeira vez.


A lembrança voltou de repente.


O cheiro úmido e podre… a escuridão…


Ela fez uma careta, tentando afastar aquilo.


— Foi então que ouvi uma canção sobre Goblin Slayer… o herói da fronteira.


— Canção? — Goblin Slayer pareceu genuinamente confuso. — Do que você está falando?


— Você não sabia? Virou uma balada, Orcbolg — disse a Arqueira Elfa, desenhando um círculo no ar com o dedo. — Embora… não tenha muito a ver com você de verdade.


— Nunca ouvi falar disso.


— Ora, não me diga que não entende — disse o Sacerdote Lagarto, estreitando os olhos. — Onde há bardos… há histórias de feitos heroicos.


— E isso serve pra quê?


— Não diga que não percebe, Barba-Cortada.


O Xamã Anão bateu na própria barriga, rindo da confusão de Goblin Slayer.


— Quando suas histórias se espalham… todo mundo vai querer que você mate goblins por eles!


— Hmm…


Os olhos da Donzela da Espada, ocultos pelo tecido, encontraram o elmo de Goblin Slayer.


Ela mordeu levemente os lábios… então, com determinação, inclinou a cabeça.


— Por favor… eu imploro. Salve nossa cidade.


— Não sei se posso — respondeu Goblin Slayer, com franqueza. — Mas vou matar os goblins.


Não era exatamente a forma adequada de falar com uma arcebispa… muito menos com uma heroína lendária.


— Goblin Slayer! — disse a Sacerdotisa, puxando o braço dele, com os lábios apertados.


— Você precisa… bom… encontrar um jeito melhor de falar…


— Mas é a verdade, não é?


— Justamente por isso é importante saber como dizer.


— Hrm.


Goblin Slayer soltou um resmungo seco, mas até ele acabou ficando em silêncio.


O Sacerdote Lagarto balançou a cauda de forma animada ao ver o amigo desconcertado, embora seu tom fosse sério:


— Se eles estiverem nos esgotos, nossos truques habituais não vão funcionar.


— Pra falar a verdade, eu já estou cansada desses “truques habituais”… — disse a Arqueira Elfa, desanimada. — Eles são… estranhos.


Ela cutucou Goblin Slayer de leve com o cotovelo.


— Você entendeu o que ele quis dizer, né?


— Sim. — Goblin Slayer assentiu. — Precisamos entrar e exterminá-los. Mas a área subterrânea é extensa. Seria problemático se alguns escapassem.


— Não! — ela rebateu. — Estar nos esgotos significa que vamos estar logo abaixo de todo mundo que vive aqui. Entendeu?


Ela nem sabia por que ainda se surpreendia. Orcbolg sempre fora assim.


Incendiar fortalezas, fazer pessoas se cobrirem de entranhas, matar goblins das formas mais brutais possíveis, afogá-los, usar táticas de sacrifício…


— Nada de fogo! Nada de água! Nada de gás venenoso! Nada de vísceras!


— Já disse que não pretendo usar nada disso — respondeu ele, no mesmo tom que costumava usar para repreender a Sacerdotisa.


A Arqueira Elfa se calou na hora.


Suas longas orelhas se mexeram, irritadas, mas foi ela quem acabou cedendo.


— Tá bom…


O Sacerdote Lagarto ignorou o resmungo dela — “Mas o que há com esse cara?” — e voltou-se à Donzela da Espada:


— Mas por que a guarda da cidade ou o exército não lidam com essas criaturas?


Ele bateu a cauda no chão de pedra para reforçar a dúvida.


— Não conheço bem a situação daqui, mas isso não deveria estar sob a responsabilidade deles?


— Eles…


— …disseram que não havia necessidade de mobilizar o exército por algo tão trivial quanto goblins — completou Goblin Slayer, de forma direta, quando ela hesitou.


A Donzela da Espada abaixou levemente o rosto, e seus lábios tremeram.


Uma resposta elegante… e silenciosa.


Não era difícil entender.


Aventureiros eram chamados justamente porque a guarda e o exército não se envolviam.


Treinar e equipar guardas custava dinheiro, e eles tinham famílias na cidade. Se morressem, haveria pensões a pagar.


Com aventureiros era diferente.


Eles assumiam todos os riscos.


Além disso, a recente ressurreição do Senhor dos Demônios ainda estava fresca na memória de todos.


— Não tem jeito… — suspirou o Xamã Anão, alisando a barba branca. — Ainda tem demônio à solta na Capital. É pra isso que servem os aventureiros, afinal…


— Mrrm… duas fontes eternas de problemas: dinheiro humano e política humana — comentou o Sacerdote Lagarto.


— Lamento profundamente admitir… mas vocês estão certos — disse a Donzela da Espada, como se confessasse um pecado.


As tragédias daquele mundo eram inúmeras — e intermináveis.


Como ela mesma dissera, desde o início, lei e ordem sempre foram as mais frágeis.


Ninguém tinha o poder de mudar isso.


Nem mesmo a Deusa Terra, que oferecia salvação aos que sofriam — pois sua graça só alcançava aqueles que a buscavam, que rezavam, que desejavam ser salvos.


Por isso, monstros eram chamados de “os que não rezam”.


E ainda assim…


— Eu… não gosto disso — murmurou a Donzela da Espada, desviando o rosto.


Soava como uma jovem envergonhada por algo íntimo.


— Eu não me importo.


Goblin Slayer cortou tudo com poucas palavras.


— Como chegamos ao subterrâneo?


…


O olhar oculto da Donzela da Espada percorreu o elmo dele, como se buscasse alguma reação.


— Ei.


— Ah… sim, desculpe.


A voz dela, ao responder, soava distante — quase como se estivesse em transe.


Ela levou a mão ao decote de sua veste leve… e retirou um pedaço de papel de entre o busto.


Era um mapa antigo, dobrado — aparentemente dos esgotos.


— Creio que o melhor seja entrarem pelos esgotos através do poço no jardim dos fundos deste templo.


Seus dedos finos e brancos deslizaram pelo mapa enquanto o abria no chão.


O papel gasto farfalhou ao ser estendido.


— Durante a investigação… ofereço este templo como alojamento para vocês.


— Mm.


Goblin Slayer murmurou enquanto examinava o mapa.


Amarelado, roído por insetos — mas revelava a imensidão do sistema subterrâneo.


Talvez tivesse feito sentido para os antigos arquitetos…


Mas agora…


— Parece um labirinto… — disse a Sacerdotisa, apreensiva, espiando por cima do ombro dele.


Os goblins atravessavam aquilo tudo para atacar humanos?


Enfrentá-los ali seria muito mais difícil…


Talvez eu só esteja nervosa…


Ela desviou o olhar discretamente.


Goblin Slayer puxou o mapa mais para perto e bateu levemente com o dedo.


— Quão preciso é isso?


— São plantas antigas, da época em que o templo foi construído…


A Donzela da Espada balançou a cabeça suavemente, os cabelos ondulando com o movimento.


— Mas a água da cidade ainda passa por lá. Mesmo que algo tenha desmoronado… não deve ser muito.


— Certo.


Ele assentiu, enrolou o mapa sem cerimônia… e o lançou no ar.


O Sacerdote Lagarto estendeu o braço com agilidade e o pegou entre as garras.


— Você cuida da navegação.


— Certamente.


— Então vamos. Não há tempo a perder.


Mal terminou de falar, Goblin Slayer já começou a andar com seu passo decidido.


Os outros aventureiros trocaram olhares… e suspiraram, resignados.


— É… esse é o Orcbolg mesmo — disse a Arqueira Elfa, levantando-se com leveza.


Ela ajustou o grande arco nas costas, conferiu suas flechas… e saiu correndo atrás dele em passos leves.


Os passos de um elfo eram tão silenciosos que pareciam não ter peso algum; para o Sacerdote Lagarto, eram praticamente inaudíveis.


Ele abriu com cuidado o mapa que havia apanhado, conferiu mais uma vez, dobrou-o novamente e o guardou com atenção na bolsa.


— Parece haver ruínas mais profundas lá embaixo… mas só saberemos quando virmos com nossos próprios olhos.


— É o que eu digo. E não dá pra confiar que a orelhuda vai nos guiar direito. Já o Barba-Cortada é outra história.


O Xamã Anão alisou a barba, claramente incapaz de simplesmente deixá-los seguir para o perigo sozinhos.


Os dois bateram de leve nas costas um do outro, então se levantaram, com expressões satisfeitas.


— Bem, com licença. Já vamos indo.


— Não dá pra deixar o orelhudo e o Barba-Cortada esperando!


E assim, os dois partiram também.


A Sacerdotisa não tinha tempo para ficar olhando.


Apresada, organizou seus equipamentos, ajeitou as vestes e se colocou de pé.


— B-bem… hum… minha senhora arcebispa… e-eu também já vou.


Aham.


Ela segurou o cajado com as duas mãos e inclinou a cabeça diante da Donzela da Espada.


— Se me permite… — chamou a Donzela da Espada, quando ela já se virava para sair.


Ela estendeu uma mão delicada, como se a chamasse de volta.


— Sim? — perguntou a Sacerdotisa, olhando-a com curiosidade.


— Talvez não seja apropriado eu perguntar isso, sendo quem ofereceu a missão…


A Sacerdotisa não conseguiu decifrar a expressão da Donzela da Espada.


Era como se toda emoção tivesse desaparecido de seu belo rosto — como a maré que recua.


Dava a impressão de que ela havia colocado uma máscara.


— …Mas você não tem medo?


A pergunta veio baixa, mas clara.


A Sacerdotisa franziu levemente a testa; seu olhar vagueou pelo salão.


O que deveria dizer?


— Eu… Sim. Tenho medo. Mas…


E então, não completou a frase.


Ela nunca deixou de sentir medo.


Desde o dia em que entrou, pela primeira vez, em um covil de goblins…


E ainda assim…


Seu olhar, agora desviado, seguiu aqueles aventureiros à frente…


Um homem-lagarto imponente.


Ao lado dele, um anão atarracado.


Uma elfa esguia.


E…


Um guerreiro.


Vestindo um elmo simples, uma armadura de couro gasta, um pequeno escudo redondo… e uma espada de tamanho incomum.


— Hehe…


Sozinha ali, quase esquecida, um sorriso brotou no rosto da Sacerdotisa.


Ela era uma devota da Deusa Terra.


Mas, se fosse rezar ao Deus Supremo naquele momento, pediria apenas uma coisa:


Que nunca lhe faltasse sequer um desses companheiros.


— …Vai ficar tudo bem.


E, assim, ela fez uma pequena oração, quase em sussurro.

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