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Goblin Slayer - Volume 1 – Capítulo 9

Os Fortes

“Eu já estava achando estranho os goblins estarem quietos demais. Hoje em dia é difícil encontrar subordinados competentes…”


A boca do ogro parecia um rasgo aberto em seu rosto; sua respiração saía pesada. Sua voz ecoava como um uivo.


“Vocês não são como aquele morador da floresta que apareceu mais cedo. Vocês vieram até aqui sabendo que este é o nosso forte… vieram procurando nos atacar.”


A sede de sangue do ogro era quase palpável, hipnotizando os aventureiros. Seus olhos dourados ardiam dentro da cabeça.


Cada membro do grupo preparou sua arma, baixando o corpo em posição de combate. Das fileiras deles, Goblin Slayer falou com calma:


“Como assim? Você não é um goblin?”


“Eu sou um ogro! Não me diga que você não sabia disso?!” ele rugiu.


A Arqueira Elfa Superior aproveitou a troca de palavras para encaixar uma flecha em seu arco curto.


Um ogro.


Um devorador de homens.


Se os goblins eram movidos pelo ódio contra aqueles que possuíam palavras, os ogros existiam apenas para satisfazer sua fome de caça. Essas criaturas descrentes, que jamais rezavam, espalhavam terror no coração dos aventureiros por toda parte.


Qualquer um que tivesse encontrado um ogro e vivido para contar a história falava de sua força aterradora.


Diziam que uma cavaleira, protegida por um escudo robusto, morreu ao tentar bloquear um golpe de um ogro — apenas para descobrir, tarde demais, que o próprio escudo havia sido cravado em sua cabeça.


Diziam que um grande guerreiro desafiou um ogro para uma batalha de cem dias. No entanto, o monstro não sofreu sequer um arranhão, e após meses de combate, foi o guerreiro quem caiu exausto.


Diziam também que uma maga que dominava inúmeros feitiços tentou enfrentar um ogro em um duelo de inteligência — mas acabou queimada viva quando se revelou que o ogro conhecia ainda mais magias do que ela.


Em resumo, ogros eram adversários formidáveis até mesmo para aventureiros de rank Prata. Para alguém de rank Porcelana, poderiam esmagar como um inseto.


O medo estava estampado no rosto de todos os membros do grupo.


Os braços trêmulos da Sacerdotisa faziam seu bastão ritual tilintar em suas mãos.


Mas Goblin Slayer respondeu, profundamente exasperado:


“Não. Eu não sabia.”


Um estalo alto ecoou — o ogro estava rangendo os dentes. Ele encarou o guerreiro à sua frente, vestido com uma armadura de couro barata e um elmo de aço, como se não conseguisse acreditar no que via.


“Seu insolente! Você ousa zombar de mim?! Eu recebi um exército dos Generais do Demônio—”


“Hmm… Eu imaginava que deveria haver alguém no comando,” disse Goblin Slayer, balançando a cabeça. “Mas eu não sei nada sobre ogros, Generais do Demônio ou qualquer coisa do tipo.”


Tomado por uma fúria cega, o ogro soltou uma sequência de urros incompreensíveis.


A cada rugido, ele batia seu martelo de guerra contra as paredes, fazendo as ruínas tremerem e a pedra branca se rachar.


“Então deixe que eu lhe ensine sobre nós, ignorante!”


O monstro ergueu sua enorme e pálida mão esquerda e começou a recitar:


“Carbunculus… Crescunt…”


Uma luz fraca surgiu em sua palma, girando até se transformar em uma chama.


A chama brilhou vermelha… depois gradualmente se tornou branca… e por fim azul.


“Ele está conjurando uma Bola de Fogo!”


“…Iacta!”


O Xamã Anão gritou o aviso no exato momento em que o ogro concluiu o feitiço.


Uma esfera de fogo mortalmente quente rasgou o ar, deixando atrás de si uma cauda como a de um cometa.


“Espalhem-se!” gritou a Arqueira Elfa Superior.


Diante de um feitiço de área como aquele, o mais óbvio era se dispersar para que todo o grupo não fosse aniquilado de uma só vez.


Enquanto os membros do grupo corriam em direções diferentes, um deles avançou direto para frente.


“Ó Mãe Terra, transbordante de misericórdia, pelo poder da terra concede proteção a nós, que somos fracos…”


A Sacerdotisa permaneceu ali, pequena diante da gigantesca bola de fogo, seu bastão erguido e sua voz ecoando.


E a Mãe Terra, em sua misericórdia, ouviu sua súplica sincera.


Ela concedeu o milagre da Proteção.


A bola de fogo chocou-se contra uma parede invisível e ficou suspensa no ar, rugindo enquanto ardia.


“Hrgh…!!”


Pressão e calor atacaram a Sacerdotisa, queimando sua pele e suas mãos, chamuscando sua carne. Seu bastão quase caiu. O suor escorria por sua testa.


“Ó… ó Mãe Terra… cheia de misericórdia… pelo poder da terra concede proteção a nós, que somos fracos!”


Com os lábios secos e os pulmões ardendo, a Sacerdotisa repetiu a oração.


Mas o calor tremendo estava lentamente derretendo a barreira invisível…


“Ahhh!”


Finalmente, Proteção foi vencida por Bola de Fogo.


O calor havia sido enfraquecido pela longa disputa contra o milagre da Sacerdotisa, mas ainda assim uma rajada de vento escaldante atravessou o átrio, atingindo os aventureiros.


A umidade do ar evaporou num instante, e o sangue dos cadáveres de goblins começou a ferver.


Mesmo assim, não foi suficiente para causar ferimentos.


“Haa… ahh…”


A Sacerdotisa caiu de joelhos, a língua quase para fora enquanto lutava por ar.


Ela havia entrado em Exaustão Mágica — rezara mais vezes do que seu corpo podia suportar.


O ritual a conectava diretamente ao céu, mas apagava parte de sua própria alma. Agora seu rosto estava pálido e um frio impossível tomava seu corpo.


“E-Eu m-me d-desculpo…!”


“Não,” disse Goblin Slayer, dando um passo à frente e erguendo seu escudo.


“Você nos salvou.”


A Sacerdotisa, curvada, assentiu vigorosamente enquanto se apoiava em seu bastão.


“Bom trabalho,” disse a Arqueira Elfa Superior, segurando-a. “Você vai ficar bem. Agora deixe o resto conosco.”


“Garotinha detestável!” rosnou o ogro. “Não pense que eu vou permitir que você tenha um fim tão agradável quanto aquele elfo!”


“Acha que pode lidar conosco? Então venha buscá-la!”


A Arqueira Elfa Superior avançou para a frente da Sacerdotisa e soltou a flecha que já estava preparada em seu arco.


O ogro ergueu o martelo e soltou um poderoso grito de guerra.


“Convoque um Guerreiro Dente-de-Dragão,” disse Goblin Slayer, sem desviar a atenção enquanto mantinha o escudo levantado. “Precisamos de mais aliados.”


O elmo de aço não desviava o olhar do ogro, e a espada — curta demais, tomada de um goblin — apontava diretamente para o inimigo.


“Bem dito, milorde Goblin Slayer.”


O Sacerdote Lagarto juntou as mãos em seu estranho gesto ritual e espalhou alguns pequenos dentes pelo chão.


“Ó chifres e garras de nosso pai, Iguanodon — que teus quatro membros se tornem duas pernas para caminhar sobre a terra!”


Num instante, os dentes ergueram-se do chão, formando um guerreiro esquelético.


Sem perder tempo, o Sacerdote Lagarto entoou outra prece — a oração da Garra-Espada:


“Ó asas em foice do Velociraptor, rasgai e dilacerai — voai e caçai!”


O dente que ele segurava entre as mãos começou a crescer e a se afiar diante dos olhos de todos, até atingir o tamanho de uma cimitarra.


O homem-lagarto lançou a arma recém-criada para o guerreiro invocado e então puxou sua própria espada curta da bainha.


“O Guerreiro Dente-de-Dragão e eu avançaremos ao lado de milorde Goblin Slayer! Deem-nos cobertura!”


“Firme como pedra!” respondeu o anão, com a solidez de um martelo cravando um prego. Ele pegou um punhado de pó de argila do bolso e o lançou ao ar.


“Venham, gnomos, está na hora de trabalhar!


Não ousem fugir do dever!


Um grão de pó pode não assustar,


mas mil deles formam uma bela pedra!”


“Acha que vou deixar você fazer isso, seu pestinha?”


O ogro avançou correndo, brandindo o martelo. Talvez pretendesse romper a linha de frente e alcançar quem estava atrás. Ele tinha força para isso.


Mas foi impedido pela arqueira, que disparou flecha após flecha com ponta de galho contra ele.


“Então anões sabem aprender magia, mas não sabem mexer essas perninhas curtas, é?”


“Urraaaghh!”


Cada flecha atingiu o alvo — e um desses alvos foi o olho direito do ogro.


Ele parou, atordoado, recuando enquanto levava a mão ao rosto.


“Perdão, Vossa Majestade de Pernas Compridas! Cada um luta como os deuses o fizeram!”


Nesse momento, o pó que flutuava no ar se condensou em uma massa de pequenas pedras que voaram contra o enorme corpo do ogro.


Era o feitiço Explosão de Pedra.


“Hrrgh! Você acha que um truque desses pode me deter?”


O ogro cambaleou ligeiramente sob o impacto repetido das pedras. Mas apenas isso.


O devorador de homens varreu os projéteis com a mão e voltou a avançar sobre os aventureiros.


Goblin Slayer o enfrentou sozinho.


Avançando com o escudo erguido, ele fez um rápido corte nas pernas do monstro com sua espada.


Seu movimento foi pequeno, rápido, preciso — e tão impiedoso quanto sempre.


“Hrk…!”


Mas a lâmina ricocheteou com um som metálico.


A pele do ogro, até mesmo nas pernas, era dura como pedra.


“Que insolência!”


“Hah…?!”


O martelo de guerra subiu e golpeou o guerreiro que ainda se recuperava do ataque. A armadura amassou, e Goblin Slayer foi lançado pelos ares, caindo pesadamente no chão.


“Orcbolg!!”


“Goblin Slayer, senhor!”


A Sacerdotisa e a elfa gritaram ao mesmo tempo, ambas pálidas.


“Eu não sou um mero goblin!” berrou o ogro, arrancando a flecha de seu olho e jogando-a longe.


O olho deveria estar destruído — mas começou a borbulhar e se regenerar, até brilhar novamente com malícia.


Ou seja, os ogros não eram apenas monstruosamente fortes.


Eles também podiam se curar.


Os dentes da elfa começaram a bater.


“Você interrompeu minha magia. Destruiu meu olho. Eu cobrarei o preço por essas humilhações!”


Ele ergueu o martelo outra vez, mirando em Goblin Slayer.


“Primeiro vou arrancar seus membros. Depois me divertirei com sua elfa e sua pequena Sacerdotisa… enquanto você assiste!”


“Se fosse tão fácil assim, devorador de homens!”


A salvação de Goblin Slayer veio na forma do Guerreiro Dente-de-Dragão invocado pelo homem-lagarto.


O servo esquelético puxou Goblin Slayer para longe do golpe no último instante.


“Goblin Slayer, senhor…!!”


Com passos trêmulos, a Sacerdotisa correu até onde o guerreiro havia sido levado.


“Cuide dele, milady Sacerdotisa!”


O homem-lagarto e os outros avançaram para interceptar o ogro.


“Saia da minha frente, criatura rastejante do pântano!”


O monstro desceu o martelo, mas o homem-lagarto o desviou com um elegante golpe de cauda.


“Mestre anão, milady arqueira — preciso da ajuda de vocês!”


“Lance um feitiço, anão!”


“Já estou fazendo isso!”


Correndo sobre o chão destruído, a elfa disparou uma chuva de flechas.


Uma haste após a outra cruzava o ar, perfurando a carne pálida do ogro.


“Você é irritante como uma mosca, garota!”


“O quê—? Hein?!”


Mas era só isso.


O ogro não mostrava sinal de ferimento, esmagando a parede com seu martelo de guerra.


O chão tremeu violentamente.


A elfa perdeu o equilíbrio e foi lançada no ar.


Uma criatura sem asas fica indefesa no ar — e aquele ogro não era do tipo que desperdiça oportunidades.


Ele avançou, brandindo sua arma.


“O quê?!”


Mas a elfa também não era de desperdiçar oportunidades.


Ela curvou o corpo como uma acrobata e deslizou pelo ar, escapando por um triz do martelo.


Contudo, o movimento do ogro não tinha sido apenas para atingir a elfa.


Como se estivesse cumprindo sua promessa de vingança, o impacto fez o teto desabar.


“Hrgh!”


“Whoa!”


O homem-lagarto rastejou para fora do caminho, e o anão rolou para evitar os destroços.


Mas o Guerreiro Dente-de-Dragão, feito apenas de ossos, não conseguiu se mover rápido o bastante.


Pedras despencaram sobre ele — seguidas logo depois pelo martelo de guerra.


O guerreiro esquelético se despedaçou, voltando a ser nada além de um monte de ossos.


Ele certamente havia cumprido seu papel como alvo extra.


E ainda assim…


“Isso não vai dar certo!” gritou o homem-lagarto.


“Você achou que poderia me deter com ossos, galhos e pedras?!” rugiu o ogro, quebrando as flechas cravadas em seu corpo com um amplo golpe de martelo.


A elfa se afastou rapidamente do monte de escombros que o golpe anterior havia derrubado, determinada a não ser pega da mesma forma outra vez.


“Se continuar assim, estamos perdidos!” gritou ela, saltando pelo ar enquanto preparava e disparava outra flecha.


Ela não tinha escolha.


Mesmo que os ataques não parecessem causar dano algum… suas flechas não eram infinitas.


“Esse também é o meu último feitiço!” disse o anão, lançando mais uma Explosão de Pedra.


A rajada de pedrinhas fez o ogro recuar um pouco, mas fora isso não lhe causou dano.


“É só isso que vocês conseguem fazer, fadinhas?!”


“Hrmph! Eu sabia que devia ter aprendido Raio de Fogo!” resmungou o anão.


Ele sacudiu a mão vazia, fazendo um estalo de língua.


“Ou talvez eu devesse ter ficado com Torpor.”


“O momento para esse tipo de arrependimento já passou,” disse o homem-lagarto com leveza, revirando os olhos. “Devemos fugir?”


“Nem pensar,” respondeu o anão alegremente. “Meu avô arrancaria minha barba!”


“Concordo. Um naga não foge.”


Enquanto trocavam essas palavras, o incansável Sacerdote Lagarto empunhou sua espada curta, e o anão tirou uma funda.


“Ha-ha-ha-ha-haaa! Ficaram sem truques, aventureiros?”


A sala inteira tremeu com mais um golpe do martelo do monstro.


O impacto esmagou vários cadáveres de goblins, espalhando pedaços pelo ar.


Um fragmento de goblin caiu ao lado de Goblin Slayer, respingando nele. Ele soltou um gemido e se mexeu.


“Goblin Slayer, senhor…!”


A Sacerdotisa chamou por ele com lágrimas nos olhos, sustentando sua cabeça com as mãos. Com a ajuda dela, ele finalmente conseguiu erguer o rosto.


“Eu não consigo… enxergar direito… O que está acontecen…do…?”


“Todos ainda estão lutando…!”


“Entendo… Me dê uma poção de Cura. E também uma de Vigor,” disse Goblin Slayer calmamente, examinando rapidamente os suprimentos.


Ele se sentou com rigidez.


Parte de seu escudo e a armadura de couro sobre o peito estavam esmagadas.


Sua cabeça parecia estranha. Quando levou a mão até ela, percebeu que havia um amassado em seu elmo.


Seu corpo inteiro doía. A cada respiração, uma pontada de dor atravessava seu peito…


Mas dor era sinal de que ainda estava vivo.


Então estava tudo bem.


Ele havia sofrido ferimentos consideráveis. Ainda assim, aquela armadura barata havia salvado sua vida.


“Certo!”


“Obrigado.”


A Sacerdotisa encontrou as garrafas na bolsa, arrancou as rolhas e as entregou a ele. Goblin Slayer as pegou sem hesitar e bebeu uma, depois a outra.


Em seguida, lançou os frascos vazios ao chão.


Eles se estilhaçaram contra a pedra enegrecida, deixando novas marcas no piso.


Diferente dos milagres concedidos pelos deuses, poções tinham efeitos bem mais limitados.


A dor de Goblin Slayer diminuiu um pouco, mas seu corpo ainda parecia feito de chumbo.


Mesmo assim, ele conseguia se mover.


Era o suficiente.


“Aqui vamos nós.”


Apoiando-se em sua espada quebrada, Goblin Slayer se levantou.


“Onde… está minha bolsa?”


“Ah… aqui está…”


Os membros exaustos da Sacerdotisa tremiam tanto quanto as mãos dele. Mesmo assim, ela não reclamou.


Apenas puxou o equipamento para perto.


“…Certo.”


Goblin Slayer vasculhou o conteúdo da bolsa até finalmente encontrar um pergaminho.


A Sacerdotisa empalideceu.


Ela olhou para ele — mas sua visão estava turva pelas lágrimas.


“Você não pode…”


“Se isso vencer a luta, claro que posso.” Ele balançou a cabeça suavemente. “E se isso funcionar… as coisas não ficarão tão ruins assim.”


Ele afastou a mão dela e se levantou, dando um passo à frente.


O sangue de algum ferimento pingava no chão, deixando marcas vermelhas sob seus pés.


Desde que não o fizesse escorregar, ele não se importava.


“Orcbolg!” gritou a Arqueira Elfa Superior ao vê-lo.


“Tenho um plano. Vou executar agora.”


“Perfeito! Vai em frente!”


A elfa não perguntou qual era o plano — apenas disparou outra flecha.


“Isso mesmo, Cortador-de-Barbas! Eu confio em você!”


“Infelizmente, estamos em uma situação bastante desfavorável,” comentou o Xamã Anão.


Ele e o Sacerdote Lagarto trocaram um olhar e então recuaram da luta sob a cobertura das flechas da elfa.


Mas…


“Ah…!”


A Arqueira Elfa Superior mordeu o lábio.


Goblin Slayer caminhou para a frente deles, levantou o escudo quebrado e assumiu uma postura firme.


Seus ferimentos eram claramente graves.


Mais um golpe poderia destruí-lo.


Poderia matá-lo.


Não…


A elfa balançou a cabeça.


Ele está esperando o momento certo…


Se houver alguma coisa que possa ser feita, ele vai encontrar.


Então eu também farei minha parte…


O anão pegou pedras do chão e as lançou com sua funda.


O homem-lagarto avançou contra o ogro, atacando com suas garras.


E, claro, as flechas da elfa caíam como chuva.


“Seus insetos! Malditos insetos irritantes!”


Com flechas cravadas por todo o corpo, o ogro estava furioso.


Seu martelo de guerra girava de um lado para o outro com o rugido de uma tempestade.


Cada golpe derrubava mais destroços e fazia os cadáveres no chão saltarem.


Durante tudo isso, Goblin Slayer manteve distância.


Ele não recuou nem um passo.


O ogro olhou para baixo, encarando com desprezo o guerreiro meio morto.


Então seu rosto se torceu em um sorriso grotesco.


“Pensando bem… se não me engano… sua pequena amiga já está sem milagres…”


“…sem forças…”


Ele estendeu sua enorme mão.


“Carbunculus… Crescunt…”


A familiar esfera branca de fogo começou a se formar em sua palma enquanto ele recitava as palavras.


Alguém engoliu em seco.


“Ah… Oh!”


A Sacerdotisa tentou se levantar, mas caiu novamente no chão. Seu bastão ritual escorregou de suas mãos trêmulas.


“Não se preocupe. Se por acaso ela sobreviver a isso, prometo que não vou matá-la… imediatamente.”


A chama na mão do ogro brilhou branca… depois azul, irradiando um calor capaz de incinerar os aventureiros. Não havia como impedir aquilo.


“Além disso, comida eu já tenho. O que preciso agora é de alguém para me ajudar a reconstruir as fileiras dos meus goblins.”


Foi então que Goblin Slayer saltou — reto como uma flecha — em direção à crescente esfera de fogo.


O ogro bufou.


O que aquele guerreiro poderia fazer contra ele?


Aquele aventureiro à beira da morte?


“Que assim seja, garoto! Vou queimá-lo até não restar nem cinzas!”


As últimas palavras de poder — palavras capazes de alterar a própria ordem do mundo — escaparam de seus lábios e mergulharam na chama turbulenta.


“Iacta!”


A bola de fogo disparou da palma do ogro.


Parecia incendiar o próprio ar.


A morte avançava em direção a eles.


A Sacerdotisa — ou talvez a Arqueira Elfa Superior — gritou.


O Sacerdote Lagarto e o Xamã Anão se moveram para proteger as duas.


E então—


“Idiota.”


Uma única palavra.


Calma.


Fria.


A voz de um homem encarando seu inimigo.


Um rugido.


Um clarão.


E, por fim…


Silêncio.


“Hmm… Hrr?”


O ogro não conseguia entender o que havia acontecido.


Ele sentia seu corpo flutuando.


E então seu enorme corpo foi arremessado contra um monte de escombros.


Talvez tivesse tornado a bola de fogo poderosa demais e sofrido o impacto do recuo.


Ou talvez fosse algum truque daqueles pequenos oponentes.


Na verdade…


Não era nenhuma das duas coisas.


“Hrg…?!”


O ogro perdeu o ar ao atingir o chão.


Ele conseguia ver suas próprias pernas.


Só que…


Elas não estavam mais ligadas ao resto do corpo.


Goblin Slayer caminhava em sua direção, fumaça subindo de sua armadura.


Foi só então que o ogro percebeu:


ele havia sido cortado ao meio.


“Grr… Hrrrghh!”


Quando tentou falar, começou imediatamente a vomitar sangue.


Ao mesmo tempo, seu nariz se encheu com o cheiro de ferro… e outro odor estranho.


Sal.


A câmara estava sendo inundada por água do mar.


A água ficava vermelha com o sangue — o sangue do ogro… e o de Goblin Slayer.


Por quê?! O que aconteceu?! O que… o que você fez comigo?!


Enquanto o ogro se contorcia de dor, suas entranhas expostas ao ar, uma voz fria respondeu:


“O pergaminho continha o feitiço Portal.”


Goblin Slayer desfez o nó e mostrou o pergaminho mágico, que estava sendo consumido por uma chama sobrenatural.


Mesmo com a água inundando o local, o fogo continuou devorando o papel até que, por fim, o pergaminho desapareceu completamente.


“Ele se abre no fundo do mar.”


Enquanto Goblin Slayer explicava, a elfa — na verdade, todos ali — ficaram sem palavras.


Pergaminhos mágicos costumavam ser caros.


Mas, de vez em quando, algum aventureiro se recusava a vendê-los.


Aquele era um artefato antigo, contendo o feitiço perdido chamado Portal.


Se o destino fosse escrito nele com as palavras de poder, abriria uma passagem para aquele lugar.


Para um aventureiro, poderia ser uma arma devastadora… ou uma rota de fuga capaz de salvar vidas.


Mas a chance de algo assim aparecer em um mercado era praticamente nula.


Se alguém quisesse um pergaminho desses, precisava explorar masmorras profundas e ruínas antigas por conta própria…


…e mesmo assim, era preciso ter rank Platina ou uma sorte absurda para encontrar um.


Goblin Slayer usou o pergaminho sem hesitar.


E não para fugir.


Mas para atacar.


Antes disso, ele havia pago uma bela quantia à Bruxa da Guilda dos Aventureiros para conectar o pergaminho ao fundo do mar.


A água do oceano, comprimida pela pressão colossal das profundezas, irrompeu para fora com força devastadora.


Instantaneamente apagou a bola de fogo…


E cortou o ogro ao meio.


“Hrg! Yarr! Graaaa!!”


O ogro observava estupidamente suas próprias pernas caírem no chão.


Ele se debatia na água, tossindo sangue.


Não havia sinal de que seu corpo estivesse se regenerando.


Ogres possuem grande capacidade de regeneração.


Mas nem mesmo eles podem retornar do limiar da morte.


Eu vou… morrer?


Eu?


Morrer?!


“Grrrrawwwwooooohhhh!!”


Talvez fosse a falta de sangue chegando ao cérebro.


Talvez fosse puro terror.


O ogro soltou um grito patético.


Ele simplesmente não conseguia compreender.


“Agora… o que foi mesmo que você disse que era?”


O homem caminhou até ele e parou acima de seu corpo mutilado.


Não era um goblin… certo?


As palavras ecoaram na mente do ogro.


Então isso significava…


Isso significava…


Que aquele homem havia preparado aquele feitiço…


apenas para matar alguns goblins.


“Esqueça. Isso não importa.”


O ogro tentou falar.


Talvez para implorar por sua vida.


Talvez para lançar um último insulto.


Nem ele sabia.


Mas suas últimas palavras nunca chegaram a sair.


Goblin Slayer esmagou a garganta do ogro sob o calcanhar.


O monstro soltou um último suspiro silencioso, encarando o elmo de aço implacável acima dele.


“Você não chega nem perto de ser tão assustador…”


O homem ergueu sua espada.


Era o fim.


Dentro da escuridão do elmo, o ogro viu olhos frios brilhando.


“…quanto os goblins que já enfrentei.”


A consciência do ogro se encheu de dor e humilhação, medo e desespero.


Então foi engolida pela escuridão.


E desapareceu.


Quando deixaram as ruínas, encontraram uma carruagem élfica esperando por eles.


O Guerreiro Dente-de-Dragão havia conseguido escoltar a prisioneira de volta para casa, e seu povo enviara às pressas um grupo até as ruínas.


Os guerreiros que acompanhavam a carruagem carregavam equipamentos impecáveis — perfeitos aos olhos de um elfo.


Tudo feito apenas com os presentes da natureza:


madeira, couro e pedra.


“Saudações! O que há nestas ruínas? Os goblins—?”


Mas os aventureiros simplesmente subiram na carruagem.


Até mesmo o anão — que normalmente teria algumas palavras afiadas para os elfos — permaneceu em silêncio. Todos estavam completamente exaustos.


“…De qualquer forma, nós faremos uma busca lá dentro,” disse um dos guerreiros com voz áspera. “Tenham uma boa viagem de volta à cidade.”


Com isso, desapareceram nas ruínas.


O cocheiro gritou para os cavalos, e a carruagem começou a andar, as ferraduras ecoando pela estrada.


O sol se pôs sem que o grupo sequer percebesse. As luas cruzaram o céu em silêncio.


Logo o sol começou a nascer outra vez.


A luz do amanhecer espalhou-se pelo céu pálido no horizonte.


Devia ter levado a noite inteira para chegar à cidade.


Os companheiros de viagem deixaram suas armas embrulhadas em panos. Cada um estava largado em seu lugar, imóvel.


Bem… quase todos.


A Arqueira Elfa Superior se inclinou lentamente até aproximar os lábios da orelha da Sacerdotisa.


“Ei…”, sussurrou.


“Sim…?”


A Sacerdotisa ergueu os olhos sem muita força. Estava exausta até os ossos, drenada pelas orações que haviam consumido sua própria alma — e ainda assim mantinha um pequeno sorriso corajoso.


“Ele é sempre assim?” perguntou a elfa. “Quer dizer… ele sempre faz essas loucuras?”


A elfa não parecia em estado muito melhor. Estava coberta de sangue seco e sujeira, mal conseguindo manter os olhos abertos.


Ela indicou Goblin Slayer, encostado contra uma caixa de madeira.


Ele ainda usava a armadura amassada e segurava a espada rachada…


…mas finalmente havia adormecido.


Todos os vestígios de seus ferimentos haviam desaparecido graças ao feitiço Revigorar do Sacerdote Lagarto.


Não era surpreendente que fosse muito mais poderoso do que o Cura Menor da Sacerdotisa.


Era simplesmente a diferença entre um aventureiro Rank Porcelana e um Rank Prata.


O problema…, pensou o homem-lagarto, balançando lentamente a cauda,


é o acúmulo de fadiga.


Depois de derrotar o ogro, Goblin Slayer ainda quis vasculhar as ruínas em busca de goblins sobreviventes.


Mesmo sendo evidente que ele era o mais exausto de todo o grupo.


E ainda por cima se esforçava tanto para não demonstrar isso…


“Sim…”, disse a Sacerdotisa com uma expressão cansada. “Ele é sempre assim.”


“Hmm…”


“Mas você ficaria… surpresa com o quanto ele se importa com as pessoas ao redor.”


Ela estendeu um dedo fino e tocou a armadura dele.


Goblin Slayer não se mexeu.


Ela acariciou suavemente o couro sujo.


“Ele não precisa nos ajudar. Nem nos ensinar. Mas ele faz isso.”


“Hmm…”, murmurou a elfa novamente.


Ela estava irritada.


Não conseguia aceitar o que tinha acontecido.


Aquilo não era uma aventura.


Como alguém poderia chamar aquilo de aventura?


“Não tem jeito… Eu não suporto o Orcbolg.”


E era isso.


Eu pensei que aventuras deveriam ser divertidas.


Aquilo não era uma aventura.


Não tinha a empolgação de descobrir coisas novas.


Nem a alegria de explorar o desconhecido.


Tudo o que restava era um cansaço vazio.


Então existiam pessoas que passavam a vida inteira caçando goblins…


…sem encontrar nenhuma alegria em suas “aventuras”.


Para ela, aquilo era imperdoável.


Ela era uma aventureira.


Ela havia deixado a floresta justamente porque amava aventuras.


A elfa assentiu com convicção.


Sim.


Um dia ela mostraria a ele.


Talvez não imediatamente…


Mas um dia.


“Eu vou mostrar a ele o que é uma aventura de verdade.”


Porque, se não fizesse isso…


Ele — e talvez todos eles —


acabariam se perdendo.

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