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Campione!: Matsurowanu Kamigami to Kamigoroshi no Maou – Volume 1 – Capítulo 4

Um Inimigo de Longe

Parte 1


No instante em que Godou desceu na Estação Shobakouen, a primeira coisa que fez foi procurar um mapa. Daqueles mapas com um grande “VOCÊ ESTÁ AQUI” que normalmente ficam logo na entrada das estações.


Depois da ligação telefônica de ontem, ele finalmente descobrira o local do encontro — um santuário xintoísta que talvez fosse um dos mais obscuros que existiam. Pelo menos, ele nunca tinha ouvido falar dele.


Embora já tivesse verificado qual era o ponto de ônibus mais próximo e o caminho a pé, ainda assim provavelmente levaria um bom tempo até chegar ao santuário. O lugar era realmente afastado.


Após confirmar mais uma vez o destino no grande mapa, Godou seguiu caminho novamente.


————————————


— Por que um santuário? Existem tantos lugares melhores para se encontrar… E, já que estudamos na mesma escola, ela não poderia simplesmente me encontrar lá?


— Agora que você falou nisso, eu me lembro de alguém dizendo que ela trabalha como miko em algum santuário. E que não faz isso por dinheiro, mas para ganhar um pouco de experiência de vida no “mundo real”. Então… talvez seja por isso que ela goste tanto de santuários?


Na noite anterior, os dois irmãos discutiam aquele pedido estranho.


Depois de ouvir aquilo de Shizuka, as preocupações de Godou aumentaram exponencialmente.


— Certo então, vamos decidir o que você vai fazer amanhã. Onii-chan, quando você pretende ir visitá-la? Que tal logo depois da aula?


— …Por que você está organizando minha agenda? Eu posso decidir isso sozinho, obrigado.


— Porque o onii-chan é um garoto grosseiro e sem sensibilidade. Eu não posso simplesmente deixar você ir encontrar uma ojou-sama ingênua e pura sozinho, posso? Então eu vou junto.


— Já chega, Shizuka. Eu não sou mais uma criança do ensino fundamental. Não preciso de acompanhante.


— Hmm… E qual é o problema de eu ir junto? Então você pretende mesmo fazer coisas suspeitas com a Mariya-sempai, é isso mesmo——


Depois de uma longa e exaustiva discussão, Godou finalmente conseguiu convencer a teimosa Shizuka a não ir junto.


————————————


No fim das contas, Godou decidiu primeiro voltar para casa, trocar de roupa e vestir algo mais casual, e então ir sozinho ao local combinado. Claro, ele também levou o Gorgoneion dentro de uma bolsa.


Talvez aquele objeto fosse ainda mais perigoso do que ele imaginava.


Talvez o motivo de Mariya querer conversar fora da escola fosse justamente para evitar que outros alunos se envolvessem por acidente… definitivamente não era apenas paranoia da parte dele.


Pensando nisso, Godou acabou se sentindo justificado.


Ele nunca deveria ter deixado Erica enfiar aquela maldita coisa em suas mãos!


Enquanto caminhava, sentiu mais uma vez uma forte onda de arrependimento.


Depois de algum tempo, finalmente chegou à entrada do santuário.


A longa e cansativa escadaria de pedra era o último obstáculo.


Já um pouco cansado, começou a subir os degraus, e finalmente alcançou seu destino — o Santuário Nanao.


Ao passar pelo torii, entrou no terreno do santuário.


A pessoa que saiu para recebê-lo era uma garota vestida com trajes de miko.


— Estamos profundamente honrados com sua visita a este humilde santuário, Kusanagi Godou-sama. Sua presença por si só já é uma grande honra para nós. Peço que perdoe minha ousadia por convidar um nobre e respeitado Campione como o senhor a colocar os pés neste lugar.


A miko fez uma profunda reverência.


O contraste marcante entre o hakama escarlate e o furisode, usados sobre o kosode branco, quase o deixou atordoado. Quando ela ergueu a cabeça, Godou finalmente entendeu por que Shizuka vivia descrevendo aquela garota como “incrível”.


— Meu nome é Mariya Yuri. Em relação à ligação telefônica que fiz ontem à noite, peço sinceras desculpas por ter incomodado sua ilustre pessoa.


Seus cabelos castanho-escuros balançaram suavemente enquanto ela se movia.


Mariya Yuri — de fato, ela era tão bonita quanto diziam os rumores. E não era apenas beleza; seu rosto transmitia uma elegância refinada, e seus olhos brilhavam com uma inteligência límpida.


Entre todas as pessoas que Godou conhecia, Erica Blandelli era, sem dúvida, a mais deslumbrante em aparência.


Ainda assim, a donzela Mariya diante dele certamente estava à altura.


Se Erica podia ser comparada a uma grande camélia em flor, então essa impecável ojou-sama seria como uma delicada flor de cerejeira desabrochando, naturalmente atraindo o carinho de todos ao redor.


— Você também é uma dessas feiticeiras, não é? Igual às que existem na Europa. Mas tenho que dizer que é a primeira vez que encontro gente como vocês no Japão.


— Está correto… Embora eu prefira que não nos compare diretamente a eles, não existe uma diferença tão grande entre nós. Estou designada a este santuário como miko responsável por proteger Musashino. E, ainda que seja apenas um conhecimento superficial, conheço um pouco de magia.


Ou seja, ela realmente trabalhava naquele santuário.


Godou assentiu e olhou ao redor.


— Hã… Mariya-san é a única pessoa aqui? Não tem mais ninguém?


Se fosse possível, ele realmente preferiria que houvesse outras pessoas por perto.


Para Godou, ficar sozinho com uma garota tão bonita era difícil demais.


— Sua percepção é admirável. No momento, sou a única pessoa presente neste lugar. Da mesma forma, caso eu ofenda sua ilustre pessoa de alguma maneira, serei a única responsável por isso. Peço humildemente que perdoe as falhas do meu serviço, e que toda a sua temível ira recaia apenas sobre mim—


— …Hã, Mariya-san? De alguma forma, o que você acabou de dizer parece meio estranho.


— Meu único desejo é que um tirano como o senhor possa apaziguar sua ira com a minha morte. Suplico que não torture nem execute cidadãos inocentes ao seu bel-prazer. Demonstrar compaixão e tolerância é a verdadeira virtude de um governante nobre. Quaisquer que tenham sido os erros cometidos antes, estou disposta a suportar sozinha toda a punição.


Yuri declarou isso com toda a seriedade.


…Aquilo era algum tipo de conselho?


Não parecia exatamente aquelas cenas de dramas históricos, em que um ministro leal está disposto a morrer para convencer um rei tirano ou confuso?


Godou percebeu de repente que as coisas estavam tomando um rumo muito estranho, e rapidamente tentou corrigir Yuri.


— Existem muitas coisas erradas no que você acabou de dizer, mas vamos começar pela primeira: que tipo de pessoa você acha que eu sou? Eu não sou Nero, nem Dong Zhuo, e definitivamente não sou Oda Nobunaga. Eu não vou matar ninguém!


— …Então o senhor quer dizer que simplesmente matar não seria suficiente para satisfazê-lo?


A bela hime-miko disse mais uma coisa completamente absurda, mantendo uma expressão perfeitamente séria.


Como diabos as coisas tinham chegado a esse ponto?


Aquela garota parecia calma e inteligente, mas não parecia entender uma única palavra do que Godou dizia. Realmente era uma dama da alta sociedade — seu modo de pensar era completamente diferente do das pessoas comuns.


— Não foi isso que eu quis dizer. Escute com atenção: eu sou uma pessoa civilizada e não sinto prazer em fazer esse tipo de coisa tirânica. Espero que você entenda o que estou dizendo.


— …Sim, compreendo perfeitamente. Seja qual for a forma como desejar brincar comigo ou me violar, estou disposta a aceitar a vontade de meu senhor. O que quis dizer é que não me concederá uma morte rápida, correto?


— Você não entendeu nada! Eu realmente não tenho nenhum fetiche estranho de torturar garotas!


De repente, Godou percebeu que havia algo estranho na situação.


Mesmo que ela fosse uma feiticeira, muito poucas pessoas sabiam que ele era um Campione.


Os grandes mestres que ele conheceu alguns dias antes, em Roma, eram prova disso. Até ele duelar com Erica e demonstrar sua força, todos tinham duvidado seriamente de suas palavras.


— Como você sabe que eu sou um Campione?


— Por causa da minha habilidade. Estes meus olhos possuem clarividência, capazes de enxergar os segredos do plano espiritual. Há muito tempo, tive o destino de encontrar um compatriota seu, o Marquês Voban. Por isso, jamais confundiria um Campione — um Rakshasa Raja.


As palavras de Yuri estavam cheias de confiança.


Godou finalmente entendeu.


Então aquela garota já tinha encontrado o lendário Rei Demônio do Leste Europeu!


— É… é mesmo? Eu também já ouvi falar dele. Pelo que dizem, ele tem uma atitude antiquada e tirânica, além de ser um velho teimoso e temperamental, não é? Acho que ele é o único Campione que age desse jeito, então por favor não me trate da mesma forma.


O próprio Godou conhecia outro Campione.


E ele era um caso perdido.


Por fora, parecia um cavaleiro latino despreocupado e de mente aberta. Mas era perfeitamente capaz de abrir um grande sorriso enquanto tentava seriamente te cortar com uma espada. Definitivamente não era alguém normal… ainda assim, precisava admitir que ele sabia lidar muito bem com as pessoas.


— O senhor é humilde demais. Estou muito bem informada sobre seus feitos em Sicília, Milão e Roma, realizados em meio à sua ira. Todas aquelas cenas de destruição só poderiam ter sido obra de um Campione. Verdadeiramente aterrador…


— N-não foi nada disso! Eu não fiz aquilo porque fiquei com raiva! Enfim, Mariya-san, você poderia parar de falar tão formalmente? Nós somos colegas de escola, então pode falar comigo normalmente. Eu também vou fazer o mesmo.


Ser tratado com tanta reverência por uma garota durante tanto tempo deixava Godou extremamente desconfortável.


Mas Mariya pareceu completamente confusa com a sugestão.


— Peço imensas desculpas. Parece que minha forma de falar não expressa corretamente o que quero dizer. Sinto muitíssimo… No entanto, o que significa exatamente “falar normalmente”?


…O quê?


Será que, no mundo de princesas e jovens damas da alta sociedade, simplesmente não existia uma maneira “normal” de conversar?


Godou percebeu o quão diferentes eram suas vidas e seus mundos.


— Quero dizer… pare de usar esse tom tão respeitoso. Eu posso simplesmente te chamar de Mariya, e você pode me chamar pelo meu nome. Tanto faz se for Kusanagi ou Godou… pode até inventar um apelido se quiser. Qualquer coisa serve.


— Eu… eu não posso. Sinto muito, mas não consigo fazer isso. Afinal, a posição do senhor e a minha são muito diferentes… além disso, eu nunca chamei diretamente um rapaz pelo nome.


Corando levemente, Yuri recusou.


Nesse momento, Godou ficou ainda mais convencido de que os dois provavelmente pareciam vir de mundos completamente diferentes.


— “Posição”? Quem é que usa essa palavra hoje em dia? E eu também não sou nenhuma pessoa extraordinária. Esquece… se você não se sente à vontade, não vou te forçar. Mas pelo menos tente relaxar um pouco quando estiver falando. E, por favor, por favor mesmo, pare de me chamar de “senhor”.


— Sim… eu vou me esforçar… Kusanagi…-san.


Observando Yuri escolher cuidadosamente cada palavra, Godou assentiu.


Aquilo já era cem vezes melhor do que ver uma garota da mesma idade chamando-o de “senhor”.


— Há algo que eu gostaria de lhe pedir, Kusanagi… san. Poderia, por gentileza, me emprestar o objeto divino que trouxe de Roma para que eu possa examiná-lo?


Recuperando seu ar sério, Yuri fez o pedido.


— Não tenho problema com isso, mas… como você sabe sobre aquilo?


— Kusanagi-san, o senhor é humilde demais. Alguém que pode ser um Campione viajou até a terra de origem de toda a feitiçaria — a Europa. Para os colegas japoneses, mais do que curiosidade sobre o que o senhor trouxe de lá, seria mais correto dizer que eles estavam preocupados. E isso, naturalmente, é algo compreensível.


— Preocupados…? Eu tenho sido observado esse tempo todo?


Godou ficou genuinamente inquieto.


Ele nunca imaginou que existisse um grupo assim.


— Não sei dizer se estavam seguindo seus passos diretamente, mas posso confirmar que investigadores japoneses foram enviados a Roma. De acordo com os relatórios, depois que descobriram que os magos italianos colocaram um certo objeto em suas mãos, eles enviaram os documentos para nós.


— E quem enviou esses investigadores?


— Naturalmente, o Comitê de Compilação da História… o senhor não os conhece?


Um título extremamente longo saiu dos lábios de Yuri.


Ainda assim, Godou teve a impressão de já ter ouvido aquele nome antes.


Ele buscou na parte mais nebulosa de sua memória.


Erica já havia mencionado, certa vez, que todos os magos da Europa viviam nas sombras. Na época, aquilo pareceu completamente absurdo para ele, mas também despertou uma certa admiração.


Ela também havia dito que o Japão certamente possuía sua própria organização de magos.


A diferença era que, ao contrário da Europa, no Japão os magos eram organizados, monitorados e até dirigidos de perto pelo governo — por isso, as pessoas comuns sequer sabiam que eles existiam.


O nome dessa organização, se ele se lembrava corretamente, era…


— O Comitê de Compilação da História, sim… já ouvi falar deles.


— Trata-se de uma organização secreta que controla e manipula as informações coletadas por meio de magos e espiritualistas. Ela envolve instituições como o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia, a Biblioteca Nacional da Dieta, a Agência da Casa Imperial, a Agência de Assuntos Religiosos, o Departamento de Polícia Metropolitana, entre outras organizações influentes. Pessoas como eu — miko com habilidades espirituais ou intermediárias dos deuses — acabam sendo convocadas para ajudar em seus trabalhos.


Magia, feitiçaria, auxílio divino — um número infinito de poderes estranhos e habilidades difíceis de compreender.


No Japão, tudo isso não é considerado parte da “história oficial”.


O Comitê foi criado justamente para preservar essa visão desejada entre a população, e por isso recebeu o nome de Comitê de Compilação da História. Pelo menos, foi assim que Erica explicou.


— Também foi por ordem do Comitê que me encontrei com você aqui hoje, Kusanagi-san. Para confirmar se você realmente é um Campione. Além disso, nós estudamos na mesma escola… e eu também sou amiga próxima da Shizuka.


— Então você também é uma vítima, hein…


Depois de ouvir aquilo, Godou começou a sentir certa simpatia por Yuri.


Talvez fosse por causa da impressão que tinha dos magos latinos, sempre tão despreocupados; mas, comparada a eles, Yuri parecia quase digna de pena, presa a tantas formalidades.


Ao menos por esse motivo, ele decidiu que seria melhor manter uma relação amigável com o Comitê.


Tomada essa decisão, Godou tirou o Gorgoneion de dentro da bolsa.


Era um brasão entalhado em uma pedra negra opaca. A gravura mostrava o rosto de uma mulher com serpentes no lugar dos cabelos.


No instante em que Yuri o viu, ficou tão atônita que não conseguiu dizer nada.


— Então isso aqui é realmente perigoso, não é?


— Receio que sim… há nele um selo muito, muito antigo de uma divindade. Um deus-serpente, o sinal da grande serpente… Não, provavelmente possui uma origem ainda mais antiga. O selo helicoidal da Mãe Terra que envolve o mundo—


Yuri disse isso de olhos fechados.


— Embora seja apenas minha intuição, acredito que esse selo veio do Norte da África. Egito… Numídia… Não tenho certeza do motivo, mas meu coração me diz que esses lugares são os mais prováveis.


— Seu coração diz isso? Um amigo meu chama isso de Gorgoneion. Você sabe algo sobre ele, Mariya?


— Não. Sei quase nada sobre os deuses da Europa ou da África. Apenas usei minha clarividência e minha intuição para “sentir” um pouco do objeto, e então disse o que percebi.


Mas o que ela acabara de dizer era exatamente o mesmo que Erica havia explicado.


Godou ficou profundamente impressionado.


Seja como fosse, a habilidade espiritual de Mariya era, sem dúvida, uma intuição extremamente precisa.


Claro, ela poderia simplesmente estar inventando uma grande mentira… mas Godou não conseguia desconfiar daquela garota, que falava com tanta seriedade e com um olhar tão sincero.


— Ainda assim, a menção à África era realmente surpreendente.


As Górgonas, Medusa e tudo mais… não eram mitos gregos?


Bem, o herói Perseu havia salvado uma bela chamada Andrômeda, que era descrita como uma princesa da Etiópia.


Pensando assim… o que Yuri disse até fazia sentido.


— Kusanagi-san, gostaria de lhe fazer uma pergunta.


Godou, que estava mergulhado em pensamentos, foi puxado de volta à realidade pela voz repentina de Yuri.


— Este objeto é claramente uma ferramenta de um Deus Herege. Sendo um Campione, não há como você não ter percebido isso, estou correta?


— Bem… você está certa. Sim… essa coisa realmente é problemática…


— Se sabia disso, então por que trouxe isso para cá?! Quer atrair algum deus apocalíptico para Tóquio?! O que pensa que é a segurança dos cidadãos deste país?!


De repente, sua voz ecoou forte.


No momento em que ele assentiu com a cabeça, aquela declaração caiu sobre ele como um trovão.


Godou olhou novamente para Yuri com atenção.


Até poucos instantes atrás, ela parecia uma jovem impecável, elegante e perfeitamente composta — mas agora havia um brilho ousado e impressionante em sua expressão.


Ela era intimidante.


Instintivamente, Godou deu um passo para trás.


— Bem… e-eu também fiquei preocupado com isso, mas acho que não vai haver problema, certo? A deusa que quer essa coisa está lá longe. Para ela, provavelmente o lugar chamado Japão nem existe no mapa.


— “Não vai haver problema”…? Por favor, não crie perigos desnecessários para nós. Depois de ler seu relatório de investigação, percebi imediatamente que Kusanagi-san é extremamente descuidado com as pessoas e com as propriedades delas.


Yuri o encarava com um olhar gelado, e Godou recuou mais dois passos.


Isso era ruim.


Qualquer discussão com ela provavelmente terminaria muito mal para ele.


Por puro instinto, Godou percebeu que suas personalidades eram completamente incompatíveis. Para ele, Yuri era um tipo de “chefão final” totalmente diferente de Erica!


E Yuri talvez tivesse percebido a mesma coisa…


Agora, o que antes parecia apenas um “conselho” estava se transformando em um ataque completo.


— Grandes poderes trazem grandes responsabilidades. Sendo assim, não acha que está sendo extremamente irresponsável, Kusanagi-san? Incapaz de recusar o pedido de sua amante, você trouxe este objeto desconhecido e perigoso para o Japão—


— Amante? O qu—De quem você está falando?


— Não adianta se fazer de desentendido. Este dossiê de investigação deixa isso bem claro.


Yuri disse isso enquanto tirava um enorme arquivo de dentro da pasta.


— Erica Blandelli, membro da organização de magos Cruz Negra de Cobre, 16 anos. Altura: 164 centímetros. Medidas: 86, 57, 88. Amante de Kusanagi Godou.


Ao ouvir aquela leitura detalhada de informações tão pessoais, Godou foi tomado por um profundo sentimento de desespero.


— Mariya, essas coisas horríveis que estão dizendo sobre mim não são verdadeiras. São invenções, relatórios falsos! Pelo menos escute minha explicação, por favor!


— Não entendo por que o senhor chama isso de “invenções”. Ainda pretende me enganar quando os fatos estão todos aqui? Usar o poder de um tirano para fazer o que quiser com mulheres… o senhor não tem vergonha?


— O que você quer dizer com “fazer o que eu quiser”?! É exatamente o contrário! Sou eu quem está sendo manipulado!


— Oh! Então Kusanagi-san é do tipo de pessoa que joga toda a culpa nas mulheres. Estou começando a entender ainda melhor o quão desprezível o senhor é——pare de tentar mentir o tempo todo!


O rosto de Yuri se iluminou com um sorriso.


Mas era apenas superficial.


“Ela é uma raksha.” — Godou teve absoluta certeza disso naquele momento.


Se realmente existissem rakshas femininas, todas certamente teriam sorrisos como o de Yuri. Aquela beleza fria, aquele sorriso rígido como uma máscara.


Diante do poder indescritível que emanava dela, Godou acabou sendo completamente pressionado e não teve escolha senão recuar.


…E então ele viu.


Passos rápidos se aproximavam, trazendo consigo uma silhueta extremamente familiar.


Espere, espere, espere — por que você está aqui?!


— Se você pretende continuar intimidando o meu Godou, posso pedir que pare? A única pessoa que pode amá-lo, atormentá-lo ou tratá-lo como um brinquedo sou eu, a Diavolo Rosso. Esse é um direito que pertence apenas a mim. Ele não é alguém com quem você possa brincar quando bem entender, sabia?


Essa mulher não deveria estar naquele lugar.


E muito menos deveria ser possível ouvir sua voz ali naquele momento.


Diante dos olhos do atônito Godou, a garota de quem eles haviam acabado de falar apareceu—


Erica Blandelli.


Parte 2


Vestida com roupas em tons de vermelho e com seus longos cabelos dourados, ela era de uma beleza sedutora; a aparência de Erica transmitia uma impressão de realeza opulenta.


Mas não era apenas isso que chamava a atenção.


O mais marcante nela provavelmente era a aura elegante que emanava de cada parte de seu corpo.


Uma garota que dizia atrair naturalmente todos os olhares e que não podia ser domada agora estava diante de outra que possuía um forte senso de dignidade. As duas estavam perfeitamente equilibradas, e o rosto de Erica se abriu em um sorriso cheio de agressividade.


— O que foi, Godou? Por que está com essa cara de quem acabou de encarar a Medusa?


Erica falou com tanta doçura que sua voz parecia capaz de derreter ouro.


Mas, diante de algo que deveria agradar qualquer homem, Godou apenas soltou um suspiro.


— É porque alguém que eu tinha certeza que não poderia aparecer simplesmente apareceu. Francamente… isso aqui é Tóquio, não Milão. Você obviamente não veio só para bater papo, então por que está aqui?


— Por quê? Às vezes você pode ser tão cabeça-dura, Godou. Se uma garota de um país distante fez uma viagem longa e cansativa até aqui, só pode ser para encontrar seu amante, não é?


Erica se aproximou dele.


Ela usava uma blusa preta sem mangas, por cima um suéter de lã escarlate, combinado com um par de jeans.


Aquela jovem vestida com roupas modernas, típicas do novo século, parecia deslocada em um antigo santuário.


Em teoria, as duas coisas não deveriam combinar, mas curiosamente não havia qualquer sensação de estranheza. Talvez porque, onde quer que Erica estivesse, ela sempre acabava se tornando o centro das atenções.


— Venha mais perto, Godou. Em qualquer lugar, a qualquer momento, o único lugar onde você pode estar é ao meu lado.


Erica falou enquanto entrelaçava sua mão com a de Godou e o puxava para si.


— O-o que você está fazendo? Aparecer assim de repente e ainda fazer algo tão sem vergonha…


— E daí? Você sabe muito bem qual é a relação entre nós dois, não sabe? Interromper o reencontro de amantes é algo que apenas uma garota insensível faria.


Diante da furiosa Yuri, Erica respondeu de forma despreocupada.


“Ei, pare de dizer coisas que vão causar mal-entendidos!” — era o que Godou gostaria de dizer.


Mas, de repente, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O sorriso rígido de Yuri era o tipo de coisa que faria qualquer pessoa sentir medo.


— Este é um santuário sagrado onde se reverenciam os deuses. Posso pedir que ambos respeitem a santidade deste lugar e se abstenham de atos tão vergonhosos e indecorosos — Erica-sama e Godou-san? Estão me ouvindo?


— S-sim, isso mesmo! Erica, vamos ouvir a Mariya e fazer o que ela pediu. Nem você sairia brincando dentro de um templo, certo?


Mas os costumes dos dois adolescentes japoneses foram ignorados com um simples sorriso de Erica.


— “Brincar”, é? Mas tanto no Japão quanto na Itália, quando um casal reconhece seu amor em um lugar sagrado, não é praticamente o mesmo que realizar um casamento?


— Isso não é uma cerimônia de casamento! Para de falar bobagem!


Mais importante ainda: toda aquela conversa estava acontecendo em japonês.


A gramática e a pronúncia de Erica eram impecáveis.


Provavelmente Erica — e outros feiticeiros talentosos — aprendiam idiomas da mesma forma que Godou aprendera italiano. Com magia, eles conseguiam dominar várias línguas em pouco tempo.


Mais importante ainda, como Godou e Erica estavam falando em japonês, Yuri também entendia perfeitamente o que diziam.


— Na verdade, não… mesmo que estivessem falando outro idioma, o resultado teria sido o mesmo.


Os olhos de Yuri eram assustadores.


Seu olhar estava gelado como gelo, e parecia que uma intenção assassina emanava deles.


Mais especificamente, sua atenção estava fixada no braço esquerdo de Godou — a parte do corpo que uma certa jovem italiana estava abraçando com força, pressionando-o suavemente contra o peito.


— Godou-san, poderia se retirar deste santuário? Já compreendi completamente a profundidade de sua lascívia e não tenho mais nada a dizer ao senhor.


— Espere, espere um minuto, Mariya! Me dê um segundo para calar essa pessoa.


Godou virou-se com seriedade para encarar a intrusa inesperada e falou:


— Erica, se você continuar com essas brincadeiras, eu realmente vou ficar bravo. Tente falar sério, por favor.


— Ahh, finalmente você ficou sério. Tão diferente daquela expressão de cachorrinho que estava fazendo antes… sim, agora sim, esse é o meu Godou.


Sorrindo, Erica soltou Godou.


Aquela encrenqueira provavelmente tinha vindo ajudá-lo… mas, mesmo assim, Godou desejava que ela tivesse escolhido outro jeito de fazer isso.


Provavelmente era pedir demais, mas ele ainda assim reclamava internamente.


— Eu estava justamente contando para a Mariya como você me deu o Gorgoneion. Você veio ao Japão por causa disso?


— Garoto esperto! Por isso, vou te dar um “A”. Mas, na verdade, eu vim atrás da pessoa que chegou aqui antes de mim… então acabei voando até o Japão.


— A pessoa que chegou antes… quem é?


— Nem preciso perguntar. Essa resposta com certeza não vai ser boa.


Embora sua intuição já dissesse isso, Godou ainda perguntou com certa cautela.


O rosto pálido de Yuri, sem uma gota de cor, o deixava preocupado. Será que sua sensibilidade espiritual também estava pressentindo algo ruim?


— Claro que é um [Deus Herege]!


— Claro…!


Enquanto Erica falava, Yuri também suspirou e disse a mesma coisa.


O mau pressentimento de Godou havia se confirmado, e seu humor piorou ainda mais.


— Como ela conseguiu seguir o rastro do Gorgoneion desde Roma? Eu nunca disse para onde estava indo.


Diante da pergunta, Erica apenas deu de ombros.


Algo como “os métodos dos deuses estão além da compreensão humana” parecia ser o que ela queria dizer.


— Para ser sincera, provavelmente a culpa foi minha. Fui otimista demais. Para os deuses, atravessar mares e oceanos é tão fácil quanto conversar… Enfim, agora que ela já está aqui, o melhor é pensar em como fazê-la recuar.


— Não fale como se não fosse problema seu. Você é a principal cúmplice em trazer esse deus até aqui.


— Hum… onde está o Deus Herege agora? E qual é o nome dele? Qual é o nome dessa divindade exaltada?


Erica assentiu para Godou, com uma expressão que parecia dizer “tá, tá, já entendi”, e então voltou-se para Yuri.


— Ouvi a conversa de vocês agora há pouco. Você parece possuir visão espiritual. Isso é perfeito para a situação atual. Por favor, tente descobrir o nome da divindade que está se aproximando.


— Descobrir? Quer dizer… uma profecia oracular? Isso é realmente possível?


— Provavelmente. Nós temos o Gorgoneion em mãos, e alguém que encontrou pessoalmente a deusa — o Godou — também está aqui. Desde que a pessoa que faça a divinação seja uma Sibila de verdade, isso deve ser possível.


Fazia uma enorme diferença saber o verdadeiro nome da divindade que estavam prestes a enfrentar.


Mesmo sem ter muita experiência nesse tipo de assunto, Godou já havia aprendido o quanto conhecer o nome de um deus era importante.


— …Então é isso. Você poderia nos ajudar? Ah, claro, toda essa confusão é culpa nossa. Eu sei que é muito injusto pedir sua ajuda depois disso… mas, mesmo assim, por favor, nos ajude.


As palavras de Godou eram completamente sinceras, e ele se curvou ao falar.


Naturalmente, aquele gesto era direcionado à hime-miko Yuri.


Surpresa, ela pareceu prestes a dizer algo, mas no fim apenas soltou um longo suspiro.


— Não parece que eu tenha escolha, não é? Vou tentar. Por favor, me entregue essa pedra… e Godou-san, estenda a mão. Você já encontrou essa Deusa Herege antes. Qual foi a impressão que teve dela?


Yuri segurou o Gorgoneion com a mão esquerda e a mão de Godou com a direita, murmurando algo em voz baixa.


Então fechou os olhos e começou a falar de forma extremamente solene.


A atmosfera no local tornou-se tão séria e pesada que Godou, naturalmente, ficou nervoso. Seu corpo inteiro ficou rígido enquanto aguardava o resultado.


— Eu acredito… que seja a noite. Não tenho certeza de que tipo de deusa ela é exatamente, mas sinto que é uma divindade da noite.


Uma deusa-mãe. Uma serpente. Um Gorgoneion. Medusa.


Até agora, tudo o que Godou ouvira eram palavras-chave que pareciam descrevê-la.


Nenhuma delas havia provocado uma reação instintiva nele. Ainda assim, a deusa que encontrara em Roma certamente possuía algo relacionado à noite — disso ele tinha quase certeza.


— A noite… olhos como obsidiana… uma deusa jovem de cabelos prateados… não, não jovem… mas uma deusa que teve sua idade e sua posição divina arrancadas… por isso ela parece jovem… por isso é herege…


Yuri murmurava detalhes sobre a deusa que ninguém havia contado a ela.


Então esse era o poder da percepção espiritual…


Godou ficou profundamente impressionado. Aquilo era quase como onisciência.


— E o seu nome divino é… isto é, o nome da [Deusa Herege] é —— eh!?


De repente, Yuri abriu os olhos, claramente chocada.


Mas permaneceu em silêncio.


Godou e Erica trocaram um olhar. Se ela estava tão surpresa assim, então talvez alguém de proporções realmente apocalípticas tivesse aparecido.


— O que você viu? Quem é? É um nome que até você conhece?


— S-sim… Mas deve haver algum engano. Porque… bem… essa deusa deveria ser inimiga das Górgonas… de todas as divindades serpentinas. Até eu sei disso.


— Uma divindade que até uma miko japonesa conhece… então qual é o nome dela?


Erica insistiu.


Seu olhar penetrante já não tinha mais nenhum traço da leveza de antes.


— É Athena. A deusa que Kusanagi-san encontrou… a deusa que chegou ao Japão… o nome dela é Athena. Mas isso é impossível… não é?


Medusa — o demônio de cabelos de serpente cujo olhar transforma pessoas em pedra.


O herói que a derrotou foi Perseu.


E quem o protegeu e o guiou foi a deusa da sabedoria e da guerra — Athena. Pelo menos era assim que os mitos gregos contavam.


Por que uma deusa tão perigosa havia aparecido ali…


Era algo que Godou simplesmente não conseguia compreender.


Parte 3


Poseidon, o governante dos mares e das tempestades, era seu inimigo mortal.


Pelo menos, era assim que as histórias gregas contavam.


Na verdade, essa Athena não odiava o mar. Tanto os mares quanto as terras eram partes essenciais das qualidades que lhe haviam sido arrancadas — e também a própria fonte de sua existência.


O que ela realmente odiava era o sol.


Seus raios ardentes, o brilho ofuscante de seu trono etéreo — aquilo sim era o verdadeiro incômodo para a rainha da noite.


Ainda assim, era apenas um incômodo. Nada que representasse uma ameaça real.


O sol também era a chama do espírito, um elemento essencial tanto para a vida quanto para a morte. Suportar com graça aquele brilho também fazia parte do papel de uma rainha.


—— Não.


Esse modo de pensar estava errado. Errado em princípio, e ainda mais errado em essência.


Porque ela ainda era a [Deusa Herege] Athena. Porque ainda não havia recuperado sua posição como a rainha tripla.


Flutuando entre os fragmentos de sua memória vinham os suspiros da mãe, as repreensões da rainha e a sabedoria da anciã.


Dentro daquele corpo despedaçado, que outrora fora glorioso, restava apenas um único pensamento:


Golpear seu pai — o rei dos céus, governante do sol, Zeus.


Só mais um pouco de tempo.


Tudo o que precisava era recuperar o antigo símbolo da [Serpente], o Gorgoneion.


Quando isso acontecesse, ela finalmente voltaria a ser verdadeiramente Athena.


Erguendo-se acima do vento e das ondas, ela buscava qualquer vestígio do [Serpent]. Onde estava? Onde estava esperando por ela?


No leste? Naquela terra distante do oriente… estaria com aquela pessoa?


Um leve sorriso surgiu em seus lábios.


O Gorgoneion realmente estava próximo do cheiro de alguém familiar.


No fim das contas, foi ele quem roubou o [Serpent]. A última vez que ela havia encontrado um Campione já fazia muito tempo — provavelmente centenas… não, milhares de anos.


Diante de seu inimigo mortal, Athena, em seu aspecto de deusa da guerra, soltou um grito sedento por sangue.


——————————


— Ahh… Anna-san, muito obrigado.


Godou saiu cambaleando do banco de trás de um carro que havia sido conduzido de forma absolutamente aterradora.


Como o ar do lado de fora parecia fresco!


Depois de voltar da beira da morte, qualquer pessoa pensaria a mesma coisa.


“Eu nunca imaginei que entraria novamente naquele automóvel suicida… Não, provavelmente estarei nele outra vez dentro de alguns meses.”


Godou já havia se resignado ao seu destino, mas jamais imaginou que “O Terror” voltaria tão cedo — apenas alguns dias depois.


A expressão em seu rosto devia estar horrível.


Até Erica, que saiu do carro logo atrás dele, estava muito pálida; ver um ar de desconforto em seu rosto era algo realmente raro.


— De forma alguma. Servir Godou-san e Erica-sama é um prazer para mim.


O sorriso de Arianna floresceu enquanto ela saía do banco do motorista.


Ela conseguia agir com total naturalidade depois de dirigir como uma maníaca. Claramente também não era uma pessoa normal.


—— Depois que descobriram sobre Athena.


Godou praticamente saiu voando do Santuário Nanao.


Claro, o objetivo era procurar a deusa. Além disso, Erica provavelmente já havia descoberto onde ela estava. Quando perguntou a ela, Godou não ficou desapontado.


Mas quando estava prestes a sair levando o Gorgoneion, Yuri gritou atrás dele.


— Como você pode levar justamente a única coisa que Athena está procurando direto até ela?! O que passa nessa sua cabeça?! Por favor, deixe isso comigo por enquanto. Francamente… eu realmente não sei o que fazer com você!


Yuri suspirou, exasperada, e pegou o Gorgoneion das mãos de Godou.


Mesmo assim, o que ela disse fazia todo sentido.


Godou percebeu de repente o quão pouco havia pensado naquele plano e acabou se sentindo bastante mal por Yuri, que ainda estava tentando ajudá-lo.


Assim que saíram do templo, Erica imediatamente telefonou para Anna.


“…Bem, era de se esperar.”


Claro que ela traria alguém fluente em japonês.


Até aquele ponto, Godou conseguia aceitar a situação. O que realmente destruiu sua compreensão foi o fato de Anna aparecer dirigindo um enorme carro com tração nas quatro rodas.


— …Não temos tempo. Se eu pudesse escolher, também não entraria naquela máquina da morte, mas a única forma de chegarmos rapidamente até Athena é de carro.


Erica sussurrou baixo o suficiente para que apenas Godou ouvisse. A expressão rara no rosto da [Diavolo Rosso] era de pura preocupação.


— A Anna-san ao menos tem carteira internacional…? Esquece. Deve haver algo de errado com os italianos por darem uma licença para ela em primeiro lugar!


— Caso esteja se perguntando, aparentemente ela tirou a carteira no Japão.


Assim, os dois passaram a jogar a culpa um no outro. Infelizmente, não adiantava chorar pelo leite derramado.


Então Godou e Erica se consolaram com esse velho ditado e entraram no banco de trás.


No instante em que ambos colocaram os cintos de segurança, aquele veículo aparentemente comum transformou-se em um relâmpago.


Eles provavelmente ficaram dentro dele por cerca de uma hora.


Talvez até menos, mas seus corpos tinham a sensação de que haviam sofrido por todo esse tempo.


Além disso, apesar de ser um carro automático, a velocidade não parecia diferente da experiência anterior de Godou.


O carro, correndo a quase cem quilômetros por hora, conseguiu passar por uma rotatória sem causar nenhum acidente — e por isso Godou quase chorou de alegria.


“Faz tanto tempo que não sinto o cheiro do mar…”


Pelo menos foi o que Godou pensou ao olhar para uma faixa de areia sem nome, bem distante da cidade de Narashino.


— Athena está em algum lugar por aqui. Godou, venha comigo. Arianna, espere aqui.


Erica falou enquanto retirava uma corrente da ponta de um pequeno relógio de bolso.


Depois a enrolou em seu dedo médio e começou a balançá-la pelo ar ao redor.


Parecia algum tipo de magia de rastreamento.


Sempre que precisava encontrar algo, Erica costumava usar esse tipo de feitiço. Na verdade, provavelmente havia feito algo semelhante para encontrar Godou no Santuário Nanao.


— Entendido. Por favor, tenham cuidado, certo?


Anna fez uma profunda reverência enquanto observava os dois se afastarem.


Erica caminhou em direção à costa, e Godou apenas a seguiu.


Ela avançava com passos firmes e decididos; parecia ter absoluta certeza de onde Athena estava.


— Ei… a Anna-san sempre dirige daquele jeito?


Godou perguntou depois de ter certeza de que Anna já não podia ouvi-los.


Já passava das cinco da tarde.


Os dois caminhavam pela vegetação baixa e alaranjada próxima ao mar.


Embora houvesse quebra-mares avançando sobre a água e muros costeiros ao longo da praia — impedindo que alguém simplesmente pulasse no mar — a paisagem ainda era impressionante.


— Claro! Arianna é incrível. Alguém que dirige daquele jeito e ainda assim nunca causou um acidente nem feriu ninguém é, de certa forma, um gênio natural da direção.


— Eu também acho… embora não pareça à primeira vista, ela não é um pouco… aérea demais? Ela mesma não faz a menor ideia disso.


— Não há nada de errado nisso. Arianna é inteligente, dedicada, trabalhadora e até divertida; basicamente perfeita. Mesmo que tenha quatro defeitos, são apenas pequenos problemas.


…Vamos deixar de lado a parte de “inteligente”, mas o que exatamente ela quis dizer com “divertida”?


Quando a palavra “engraçada” sai da boca de Erica, para uma pessoa comum ela equivale praticamente a “veneno mortal”.


“Só por curiosidade, você pode me dizer quais são esses quatro defeitos?”


“Ela dirige de forma extremamente perigosa, não tem nenhuma aptidão para artes marciais ou mágicas, seus ensopados e sopas são ruins o suficiente para fazer uma criança chorar só pelo cheiro, e embora o trabalho dela normalmente seja perfeito, a cada três dias acontece algum grande acidente — esses são os quatro pontos.”


“…Esses defeitos são coisas que um cavaleiro e uma empregada simplesmente não podem se dar ao luxo de ter, certo?”


Mas Erica sempre preferiu (pelo menos é assim que eu vejo) coisas divertidas e curiosas em vez do que é simplesmente prático e funcional. Pensando assim, até faz sentido.


Os dois conversavam sobre esse assunto completamente irrelevante enquanto caminhavam.


O encontro com a garota de cabelos prateados — a [Deusa Herege] — aconteceu cerca de dez minutos depois.


Eles não tinham ideia de como ela havia chegado ali, mas ela vestia um casaco fino de lã, uma minissaia e meias que iam até os joelhos. Sobre os cabelos prateados, usava um gorro de tricô.


A brisa do mar atravessava seus cabelos, que brilhavam como se refletissem a luz da lua.


—— Não havia dúvida.


Essa pequena deusa sempre fazia Godou pensar em “escuridão”.


“Já faz algum tempo, Campione. Alegro-me com nosso reencontro.”


A garota pronunciou aquelas frases antiquadas com uma voz clara e feminina.


Godou respondeu de forma irritada — quase fria:


“Pois eu estou é irritado, porque vocês ficam por aí perturbando a vida tranquila e feliz das pessoas sem motivo nenhum. Pra falar a verdade, vocês são um saco.”


“Para um filho divino de Epimeteu assumir um tom tão moralista… você realmente é um Campione singular.”


Ela estreitou os olhos em resposta.


Embora Athena não demonstrasse uma postura de combate, isso não significava que pudessem relaxar. As ações e pensamentos dos deuses são impossíveis de compreender para os homens.


“Primeiro, façamos uma apresentação. Aquela que carrega o título divino de [Athena] está diante de ti; seria prudente recordar isso.”


Finalmente, o nome veio da própria pessoa.


Esqueça a Grécia — mesmo entre os estados ao redor do Mediterrâneo, era um dos maiores nomes entre as deusas. Se ao menos ela tivesse usado outro nome…


“Campione do Oriente, revela teu nome. Antes de nossa disputa pela relíquia da [Serpente], é necessário conhecer o nome do adversário.”


Olhos escuros, vazios de emoção.


Athena falou sem demonstrar sentimento algum.


“Eu não tenho motivo nenhum para lutar com você.”


“Tomaste o [Gorgoneion] de sua antiga metrópole. Aqueles… conjuradores te manipularam para isso, não foi? Aquele que toma a [Serpente] de alguém torna-se automaticamente seu inimigo. Nossa luta é inevitável.”


Embora Godou tivesse certeza de que ela se referia a magos, Athena sequer lançou um olhar para Erica.


Ela tinha alguma noção sobre organizações mágicas, mas não se importava nem um pouco com quem eram; aos seus olhos, apenas Godou tinha alguma importância.


“Graciosamente aguardo teu nome.”


“Kusanagi Godou, e ela é Erica Blandelli. Mesmo que você seja uma deusa, ignorar completamente alguém é uma falta de educação enorme.”


Godou olhou para Erica antes de dizer seu nome.


“Kusanagi Godou… que nome incomum. Um título masculino de estrangeiros, é isso? Guardarei bem esse nome.”


Como era de se esperar, Athena simplesmente ignorou qualquer menção a Erica.


A garota ao lado de Godou, claro, entendeu perfeitamente. Devagar, ela começou a se afastar um pouco, abrindo espaço para não ficar no meio entre Godou e Athena, enquanto murmurava baixinho para si mesma —


Godou percebeu que ela definitivamente não estava se dando muito bem com a deusa.


O olhar dela parecia dizer:


“Parem de conversar e vão logo brigar!”


Naturalmente, Godou ignorou isso e olhou ao redor.


Não havia ninguém por perto. Mesmo não havendo nada que impedisse as pessoas de passarem por ali, além de Godou e Erica não havia mais nenhum ser humano — seria por causa de Athena?


Talvez ela simplesmente não quisesse chamar atenção desnecessária.


A aura divina precisa apenas de um pensamento para influenciar os humanos.


Enquanto Athena estivesse ali, ninguém se aproximaria. Quando deuses estão presentes, eles podem — e frequentemente fazem — alterar as ações e até os pensamentos das pessoas ao redor.


Claro, a maioria das divindades não permanece no mundo humano.


Mas existem exceções evidentes.


Aqueles familiarizados com os deuses os chamam de [Deuses Hereges].


“E se não te incomoda, Kusanagi Godou, perguntarei mais uma vez. Onde repousa agora o [Gorgoneion]?”


“Por favor… você realmente acha que eu vou te contar?”


“Não. Mas era necessário confirmar. Uma parte de mim agora anseia pelo confronto, reconhece-te como inimigo, deseja saciar a sede de batalha. Contudo, outra parte de mim — a deusa da sabedoria — deseja deixar-te este aviso.”


Os olhos escuros de Athena pareciam mergulhar em um abismo, mas ao mesmo tempo brilhavam com um leve traço de diversão.


Godou teve a impressão de já ter visto aquele olhar antes… mas onde?


“Tu realmente és um Campione diferente dos demais. O poder que tomaste de um dos meus semelhantes deveria ser insignificante, e ainda assim minha sabedoria me diz que és um inimigo extremamente perigoso. Talvez eu venha a sofrer ferimentos surpreendentemente profundos… como quando alguém se sente ameaçado por uma armadilha.”


Uma coruja.


De repente, esse pensamento surgiu na mente de Godou.


Os olhos de Athena pareciam muito com os de uma coruja.


Claro, os olhos de uma deusa em forma humana e os de uma ave noturna são completamente diferentes. Ainda assim, o instinto de Godou como Campione lhe dizia que eram, de alguma forma, os mesmos — mas por quê?


“Então, farei uma pergunta. A forma como responderes determinará nossa relação a partir de agora. Eu sou [Athena], deusa tanto da guerra quanto da sabedoria. Podes render-te ou aceitar o desafio. Dize-me, qual é a tua resposta?”


“Se fosse possível, eu também preferia resolver isso pacificamente, mas…”


Apesar de ser uma proposta surpreendentemente conciliadora, ele não podia simplesmente entregar o [Gorgoneion].


Desesperado, Godou decidiu tentar outra alternativa.


“Recuso as duas opções. Tenho outra ideia: simplesmente desista do [Gorgoneion] e vá embora. Em vez de fazermos os dois sofrerem, essa seria a escolha mais humana.”


A força de um deus não pode ser medida.


O poder de um deus não pode ser descrito.


Mesmo em forma humana, a força que Athena mantinha contida em seu corpo era insondável. Apenas encontrar um deus — apenas conversar com um — já era suficiente para abalar o coração e a mente de um humano.


Diante de Athena, que já demonstrava tamanho poder, Godou estava decidido a evitar que ela precisasse usar habilidades ainda mais fortes.


Mesmo assim, ele ainda queria evitar uma luta. Será que não havia espaço no coração de todos para chegar a uma solução sem que ninguém saísse ferido? Diante de uma deusa que, surpreendentemente, parecia razoável, ele apresentou essa ideia com toda sinceridade.


…Isso era ruim.


Mesmo vendo Athena se aproximar cada vez mais, Godou ainda baixou a guarda.


“Dizes a verdade. A batalha entre deuses e Campione só pode trazer sofrimento a ambos; não há resultado verdadeiro a ser alcançado. Contudo, existe ainda outra maneira de resolver esta questão.”


Agora eles estavam a apenas um braço de distância um do outro.


“Minhas mais profundas desculpas, [Kusanagi Godou]. Tu és um homem extraordinariamente compassivo e gentil, para um Campione. Entretanto, é inegável que também és um guerreiro — e, mais tristemente ainda, um rei. Em tua defesa, talvez um dia viesses a se tornar um grande herói… mas, infelizmente, esse dia jamais chegará — peço que me perdoes.”


Antes mesmo de terminar de falar, ela envolveu a cabeça dele com os braços.


O que ela estava tentando fazer?


Godou sequer teve tempo de formular esse pensamento quando Athena se ergueu na ponta dos pés e, com seus lábios vermelho-cereja, pressionou um beijo firme contra os lábios de Godou.

“——?”


O choque foi tão grande que ele sequer conseguiu reagir.


“Busco o [Gorgoneion]. Descansa em repouso, [Kusanagi Godou]. Teu fôlego, tua própria vida, foram tomados por [Athena]. Segue sozinho pelos caminhos sombrios das profundezas da terra, pelos frios e vazios salões dos mortos.”


No exato instante em que o beijou, Athena começou a entoar sua invocação — e, junto com ela, um frio mortal começou a se espalhar pelo corpo de Godou.


Droga.


Era uma invocação de morte.


Ele sentiu cada um de seus membros ficar gelado, enquanto a chama da vida começava a se apagar.


Não… espere.


Por que uma deusa da guerra e da sabedoria conheceria uma invocação como aquela?


Mesmo que os deuses fossem um grupo bastante estranho, todos eram extremamente rigorosos quando se tratava de suas próprias naturezas.


Por exemplo, deuses que não tinham relação com fogo ou montanhas não podiam fazer vulcões entrarem em erupção; da mesma forma, aqueles que não possuíam ligação com água ou com o mar não eram capazes de provocar inundações.


Então isso significava que Athena era algum tipo de deusa da morte?


“Assim como o famoso ardil diante das muralhas de Troia, realmente não possuis defesas… Hmm? Mesmo tendo recebido meu presente de sono eterno, teus olhos continuam bastante interessantes.”


Forçando os joelhos a não cederem, Godou continuou encarando Athena.


Uma deusa da sabedoria e da guerra, profundamente ligada à [Serpente], uma habitante da escuridão; Godou só conseguia se perguntar qual seria a verdadeira face daquela deusa.


…Dito isso, ele se lembrou de algo que havia lido em casa certa vez (quando estava entediado).


No Ocidente, a coruja é o símbolo da sabedoria — mensageira e emblema da deusa da sabedoria Minerva. Existe até um ditado que diz:


“a coruja de Minerva só abre suas asas quando o crepúsculo cai.”


E essa Minerva era justamente o nome romano dado à grega Athena.


Essa deusa ligada tanto às serpentes quanto às corujas — afinal, quem ela realmente era?


“Um olhar cheio de sabedoria. Que teimosia; ou seria determinação? Mas é uma pena. Mesmo com toda a tua determinação, sem a vontade de empunhar armas nada disso tem valor. Determinação sem força é inútil no campo de batalha.”


O tom de voz de Athena deixava claro o divertimento que ela encontrava na luta inútil de Godou.


…Sua visão estava ficando cada vez mais turva.


E quando a morte já escancarava suas mandíbulas diante dele, Godou ouviu, ao longe, a voz de Erica.


“Eloi, Eloi, Lama Sabachthani! Meu Deus! Por que me abandonaste!”


Erica proclamou em voz alta aquela invocação que soava como um lamento — um dos mais poderosos feitiços.


“Ainda que todos os ossos do meu corpo sejam despedaçados, meu coração derrete como uma vela acesa. Tu me lançarás ao pó da terra dos mortos! Cães selvagens me cercam, uma companhia maligna me envolve!”


“Ela realmente é uma mulher incrível.”


Godou não pôde deixar de sentir respeito.


Mesmo sendo uma maga, Erica ainda era, no fim das contas, apenas uma humana — e mesmo assim estava disposta a enfrentar uma deusa.


“Ó Senhor, meu Salvador, eu te suplico; ajuda-me! Arranca-me das armas do inimigo, livra-me das mandíbulas do leão, salva-me dos chifres do touro!”


Mesmo sendo extremamente inteligente, Erica não tinha nenhuma chance de vitória contra uma deusa.


E não era preciso perguntar o motivo pelo qual ela fazia aquilo; era óbvio que era para salvá-lo.


‘Então eu não posso morrer aqui. Não posso deixar que Erica arrisque a vida em vão!’


—— Pois eu sou o mais forte entre os fortes. Em verdade, sou aquele que detém todas as vitórias.


—— Não me importa quem me desafie, seja homem ou demônio; enfrentarei todos os inimigos e adversários. Ainda assim, esmagarei todos aqueles que ousarem se colocar em meu caminho!


Erica avançou, sua espada reluzindo, enquanto Athena desviava com agilidade.


Com a consciência já turva, Godou observava a batalha entre as duas garotas enquanto recitava o verso divino.


Em sua mente surgia a oitava forma de Verethragna — o [Carneiro].


Capítulo 4 – Referências


1. [Torii]: Um portão tradicional japonês que marca a fronteira entre o espaço sagrado e o profano. É provavelmente um dos elementos mais conhecidos de um santuário xintoísta.


2. Drama de Época: Um tipo específico de novela ambientada no passado, que dramatiza situações familiares, políticas ou sociais para entreter o público. Esse gênero é particularmente popular entre o público mais velho no Japão e na China.


3. [Nero]: Nero Claudius Caesar Augustus Germanicus, o último imperador da dinastia júlio-claudiana. Ficou famoso por mandar matar a própria mãe e por ser suspeito de envolvimento no Grande Incêndio de Roma. Era conhecido como uma figura cruel, marcada por sadismo, bebedeiras e inúmeros casos amorosos.


4. [Dong Zhuo]: Político e senhor da guerra da fase final da Dinastia Han Posterior. Eliminou todos que se opuseram à sua ascensão ao poder, chegando a depor o próprio imperador. Era especialmente famoso pelas torturas cruéis que aplicava às suas vítimas. Um exemplo citado é mergulhar um soldado vestido em gordura e atear fogo aos seus pés, apenas para observar suas expressões de dor.


5. [Oda Nobunaga]: Uma das figuras mais importantes na unificação do Japão após o Período dos Estados Combatentes. Para assumir o poder, matou o próprio irmão e ficou conhecido por destruir qualquer um que se colocasse em seu caminho — incluindo monges budistas, aldeões revoltados e até aliados subordinados.


6. [Numídia]: Região correspondente, aproximadamente, ao território da atual Argélia.


7. O famoso truque diante das muralhas de Troia: Refere-se, claro, ao Cavalo de Troia, estratagema idealizado por Odisseu para invadir a cidade de Troia por dentro, depois de introduzir secretamente soldados gregos no interior do cavalo de madeira.


8. “A coruja de Minerva só abre suas asas ao cair do crepúsculo”: Uma referência curiosa de se usar aqui, especialmente para quem conhece o contexto original. Trata-se de uma citação do filósofo Hegel, relacionada à forma como compreendemos a história. A ideia é que a “sabedoria” — isto é, a lógica e o progresso histórico — só se tornam claros no final de um acontecimento, no seu “crepúsculo”. Mas provavelmente o autor apenas quis dar um tom mais erudito à narrativa.

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