Tales of Herding Gods – Capítulo 24
Destruindo o Deus em Seu Coração
Tudo o que existe no mundo… está longe de ser tão simples quanto parece.
O que pessoas comuns enxergam a olho nu e o que cultivadores veem após despertar seus olhos são, na verdade, dois mundos completamente diferentes.
As estátuas de pedra da vila, por exemplo, pareciam comuns. Mas para alguém com os olhos despertos, nelas se revelavam deuses. Da mesma forma, nas ruínas espalhadas por toda parte, esses praticantes podiam enxergar as presenças de deuses e demônios que um dia as habitaram.
Até mesmo nos templos — onde pessoas comuns viam apenas uma estátua de Buda —, um cultivador enxergava um Buda incomparável, imenso e esmagador, cuja presença era capaz de pressionar diretamente o espírito.
Se o espírito de alguém não fosse forte o bastante… mais cedo ou mais tarde enlouqueceria de medo diante daquilo que via.
Por isso, ao ensinar Qin Mu a cultivar seus olhos, o Cego começou pelo essencial: o espírito.
Era preciso destruir a imagem de “deus” dentro do próprio coração.
Somente assim Qin Mu deixaria de sentir medo — e só então poderia realmente avançar.
Como dizem nos ensinamentos budistas: se há um Buda em seu coração, será difícil tornar-se um.
E como disse o Preceptor Imperial da Paz Eterna: destruir o deus no templo é fácil; difícil é destruir o deus dentro de si.
Essas ideias, no fundo, seguiam o mesmo princípio… embora o método do Cego — urinar na estátua — fosse, digamos, bem mais direto.
Os dois primeiros caminhos exigiam tempo, um fortalecimento gradual do espírito, passo a passo.
O método do Cego, por outro lado, era simples… bruto… quase absurdo.
Mas funcionava.
Quando o Chefe da Vila viu o Cego pela primeira vez, sua presença era esmagadora — como se dragões furiosos surgissem em todas as direções.
Mas naquele momento… ele havia desmoronado.
Seus olhos tinham sido arrancados.
E agora…
o Deus da Lança havia retornado.
E tudo isso… por causa de Qin Mu.
Desde que aquele menino saudável chegou à vila, algo mudou. As mágoas enterradas no coração dos velhos começaram, pouco a pouco, a se dissipar.
Para ensinar a Arte do Despertar dos Olhos dos Nove Céus, o Cego precisou, antes de tudo, despertar seus próprios “olhos divinos”.
Mas ele não os possuía mais.
O que restava… eram os olhos da mente.
E, ao transmitir a técnica para Qin Mu, o Chefe da Vila pôde sentir isso claramente:
os olhos divinos do Cego estavam despertando novamente.
Não os olhos físicos…
mas os olhos da mente divina.
Sem olhos, ele passou a enxergar com a própria consciência.
O Chefe da Vila fechou os olhos devagar, deitado sob o sol, e pensou consigo mesmo:
— Quando você sair das Grandes Ruínas um dia, Cego… seus inimigos vão tremer de medo.
Depois de urinar na estátua, Qin Mu sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Mas não era medo.
Era libertação.
Seu corpo e sua mente estavam leves — como se um peso invisível tivesse sido arrancado de dentro dele.
A estátua já não exercia mais qualquer pressão sobre seu espírito.
Quando olhou novamente, viu coisas que antes jamais percebera.
Era como se seus olhos, antes cobertos por um véu, finalmente estivessem livres.
E, pela primeira vez…
ele enxergava o mundo como ele realmente era.
As cores ao seu redor pareciam mais vivas, mais intensas.
Era uma beleza que ele nunca havia notado.
Tão intensa…
que seus olhos se encheram de lágrimas.
Ao se aproximar das outras estátuas de pedra na vila, seu espírito foi mais uma vez tomado por uma onda avassaladora. As três estátuas restantes eram semelhantes à do ancião de cabeça de dragão, irradiando uma luz divina intensa e um encanto extraordinário, envoltas por uma aura sagrada.
Desta vez, porém, ele conseguia encará-las normalmente — as estátuas já não eram capazes de influenciar sua mente.
A Técnica do Despertar do Olho dos Nove Céus… apenas ao cultivar o primeiro nível, Qin Mu já se sentia tomado por uma alegria quase indomável. Que paisagens ainda mais incríveis seus olhos veriam ao alcançar os céus seguintes?
Ele tirou um espelho de cobre e observou seu reflexo. Seus olhos estavam diferentes: no fundo das pupilas, um anel havia surgido, marcado por traços estranhos que lembravam relâmpagos entrelaçados.
O anel, pouco a pouco, foi se tornando mais tênue até desaparecer por completo.
Qin Mu fechou os olhos e guiou seu qi vital, construindo com cuidado a Marca da Formação da Grande Ursa Celestial. Quando os abriu novamente, o anel havia retornado.
Aquele anel… era uma projeção do próprio céu.
“Se eu conseguir dominar a Técnica do Despertar do Olho dos Nove Céus, então devem surgir nove anéis celestiais sobrepostos, como se fossem múltiplas pupilas empilhadas umas sobre as outras”, pensou consigo mesmo.
O Cego continuou a guiá-lo na construção da Marca da Formação da Grande Ursa e, após bastante tempo, Qin Mu finalmente conseguiu dominá-la por completo.
“Mu’er, já descansou o suficiente?”
O Açougueiro “saltou” da pedra inferior do moinho, agarrando suas duas facas de abate.
“Se terminou, está na hora de treinar com a faca!”
Qin Mu respondeu prontamente e correu até ele, recuperando sua própria faca.
Não demorou muito para que Velho Ma e o Aleijado retornassem da caçada. Eles logo assumiram o treinamento, substituindo o Açougueiro. Qin Mu só foi liberado quando já não conseguia mais se mover de tão exausto.
Ao entardecer, ele foi aprender forja com o Ferreiro Mudo. Este fez alguns gestos com as mãos e emitiu sons incompreensíveis, enquanto Qin Mu assentia, mergulhado em reflexão.
O que o Mudo explicava eram princípios de cultivo. Segundo ele, cultivar era como forjar: era preciso compreender o uso do fogo pequeno e do fogo grande. Além disso, também era necessário saber como resfriar o metal — temperá-lo em água fria para torná-lo mais resistente.
Sabedoria e força, rigidez e flexibilidade, dragão e tigre… forças opostas que se equilibram e se completam.
Quanto mais Qin Mu refletia, mais sentido aquilo fazia. Ele admirava profundamente as palavras do Mudo — elas o ajudariam a evitar muitos caminhos errados.
Enquanto forjavam, o Mudo o ensinou a observar o fogo. Diante das chamas da fornalha, ele demonstrou alguns movimentos.
Os olhos de Qin Mu brilharam. Seguindo as instruções, ele passou a observar o fogo enquanto, ao mesmo tempo, fazia circular seu qi vital. Ao executar a Técnica das Três Elixires do Corpo do Suserano, seu qi fluía como um pequeno forno oculto no peito, espalhando calor por todo o corpo.
Qin Mu sentiu uma agradável sensação — como se seu próprio qi estivesse em chamas.
Ao mesmo tempo, em seu Tesouro Divino do Embrião Espiritual, o pequeno embrião absorvia energia do mar de luz enquanto realizava exercícios de respiração. Pouco a pouco, ele também começou a se transformar: o qi vital que exalava se inflamava em chamas, envolvendo-o como se estivesse sendo forjado dentro de uma fornalha.
Qin Mu ficou atônito. Seu embrião espiritual também havia começado a passar por um processo de refinamento corporal. Apenas ao observar o fogo da forja, ele provocara uma transformação tão mística — algo que jamais imaginara!
O Mudo também se surpreendeu, observando Qin Mu com curiosidade.
Já passava do meio-dia quando Qin Mu sentiu que o poder das chamas que seu embrião espiritual podia suportar havia chegado ao limite. Imediatamente, ele interrompeu a observação do fogo.
“Ah! Ah!”
O Mudo fez dois sinais com as mãos e mergulhou a barra de ferro incandescente na água. Um chiado alto ecoou, liberando filetes de vapor branco. Em seguida, ele fez mais dois gestos.
Os olhos de Qin Mu brilharam. Ele voltou sua atenção para o recipiente de água, mergulhando em profunda reflexão.
Pouco depois, o som suave de água correndo começou a ecoar de dentro de seu peito. Acompanhando aquele murmúrio, seu qi vital fluiu para o Tesouro Divino do Embrião Espiritual e, surpreendentemente, transformou-se em um pequeno riacho. Quando entrou em contato com o embrião, algo extraordinário aconteceu: seu qi vital começou a temperá-lo!
Era como se estivesse sendo refinado ao mesmo tempo pelo fogo e pela água — e Qin Mu simplesmente se deleitava com aquilo.
Na manhã seguinte, ele despertou cheio de vigor. Transbordando energia, colocou em prática o método de cultivo que o Mudo lhe ensinara — e, de fato, sua velocidade de progresso havia praticamente dobrado.
“Vou procurar aquele macaco demoníaco para lutar de novo!”
Empolgado, Qin Mu ingeriu uma Pílula de Reforço da Vitalidade e foi praticamente obrigado a sair correndo da vila para dissipar a energia do remédio. Do outro lado, o macaco demoníaco já o aguardava havia algum tempo ao pé do penhasco.
“Vem, moleque!”
O macaco, que vinha cultivando os Oito Golpes do Trovão que Qin Mu lhe ensinara, tivera um aumento impressionante de força. Ao vê-lo se aproximar, jogou fora o galho que mastigava, assumiu uma postura de combate e soltou uma gargalhada:
“Vem! Deita!”
Qin Mu avançou sem hesitar, enquanto o macaco demoníaco vinha em sua direção como uma montanha em movimento. No instante em que se encontraram, o macaco executou de súbito o golpe Trovão da Primavera no Mar Solitário do Leste. O vento uivou cada vez mais alto, e a força liberada derrubou as árvores ao redor como se fossem palha!
Os olhos de Qin Mu brilharam. Com um rugido, ele também executou o mesmo golpe e colidiu de frente com o macaco!
Booom!
Uma explosão surda ecoou quando ambos foram arremessados para trás pela própria força do impacto. Assim que tocou o chão, o macaco avançou novamente, seus punhos gigantes rasgando o ar e fazendo-o vibrar a cada golpe. Conforme atacava em movimento, o ar ao redor começou a ressoar com um zumbido intenso.
Qin Mu ficou chocado — o macaco demoníaco havia aprendido também o movimento Buda das Mil Mãos!
Ainda faltava refinamento na técnica, e o macaco não dominava todas as sutilezas, mas já havia captado a essência do golpe. Somada à sua força extraordinária, sua versão parecia até mais poderosa que a de Qin Mu!
O corpo do macaco era absurdamente forte — além de qualquer medida. Após cultivar os Oito Golpes do Trovão, sua resistência se tornara ainda mais assustadora. Cada soco carregava um poder aterrador.
Depois do grande avanço do dia anterior, Qin Mu acreditava que, fortalecido pelo qi vital e pela pílula, conseguiria ao menos deixar o macaco meio morto. Mas não esperava que, na prática, não teria vantagem alguma — pelo contrário, começava a ser dominado na luta!