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Goblin Slayer - Volume 1 – Capítulo 5

Visitantes Inesperados

— Orcbolg — disse a elfa, sem rodeios.


Sua voz soou clara e firme, como se estivesse entoando um encantamento.


Era pouco antes do meio-dia, quando os aventureiros que acordavam mais tarde apareciam para ver quais missões ainda estavam disponíveis. O movimento já não era tão frenético quanto nas primeiras horas da manhã, mas o Salão da Guilda continuava tomado por conversas, passos apressados e o tilintar ocasional de armaduras. Ainda assim, todos os olhares se voltaram para a elfa.


— Nossa… olha só pra ela! — assobiou, admirado, um jovem guerreiro ainda verde na profissão.


— Ei! — ralhou a companheira dele, uma aprendiz de clériga.


— Foi mal — disse o garoto, exibindo um sorriso conciliador. Mas seus olhos insistiam em escapar de volta para a elfa.


E não era difícil entender por quê.


Os elfos, por natureza, carregavam uma beleza que parecia não pertencer a este mundo — mas, mesmo entre eles, aquela jovem se destacava.


A idade pouco significava para um elfo, mas, pela aparência, ela poderia ter dezessete ou dezoito anos. Alta e esguia, vestia roupas de caça ajustadas ao corpo, movendo-se com a leveza e a elegância de um cervo na floresta.


O grande arco preso às suas costas deixava claro que era uma patrulheira — talvez uma arqueira. No peito, pendia uma plaqueta de classificação feita de prata.


— Ela é uma alta elfa… dizem que descendem diretamente das fadas…


— As orelhas delas são mesmo mais compridas que as dos outros elfos…


Um druida e uma garota rhea cochichavam com um guerreiro leve meio-elfo, enquanto o outro membro do grupo — um guerreiro pesado — observava em silêncio. Um jovem batedor, que escutava por perto, comentou com ar entendido:


— Claro que são.


A Recepcionista da Guilda já havia lidado com altas elfas antes, então não se sentia intimidada por aquela presença. Ainda assim, ficou confusa com as palavras que a jovem acabara de pronunciar.


— Com licença… a senhorita quer dizer carvalho? Como a árvore?


Ela estava acostumada a aventureiros que simplesmente chegavam ao balcão e anunciavam o nome de um monstro. Mas aquela palavra ela nunca tinha ouvido antes. Por outro lado, existiam cinquenta mil tipos diferentes de criaturas (sem exagero!), então talvez fosse alguma espécie que ainda não conhecia.


Ou quem sabe fosse o nome da própria elfa? A língua élfica tinha a cadência de um feitiço, de uma canção antiga.


— Não. Orc. Orcbolg.


Ao repetir o nome, a Alta Elfa Arqueira inclinou levemente a cabeça, como quem pergunta: Entendeu agora?


Quase para si mesma, murmurou:


— Estranho… eu tinha ouvido dizer que ele estava aqui.


— Ah, entendo… Então a senhorita está procurando um aventureiro?


A Recepcionista da Guilda tinha muitos talentos, mas nem mesmo ela sabia de cor o nome completo de todos os membros registrados. Já ia se virar para pegar um grosso catálogo na estante atrás do balcão quando ouviu:


— Tola. É por isso que vocês, orelhudas, precisam descer do pedestal em que se colocam.


A voz vinha de um anão baixo e atarracado, parado ao lado da elfa. Do outro lado do balcão, só se via sua testa lisa e reluzente. Ele acariciava a longa barba branca com ar pensativo.


Vestia roupas de um estilo oriental pouco comum, e à cintura carregava o que parecia ser um amontoado de quinquilharias. Ainda assim, a Recepcionista reconheceu de imediato: era um conjurador — um xamã anão. No pescoço, também trazia uma plaqueta prateada.


— Este lugar é dos grandalhões — disse ele. — De que adianta ficar falando nesses termos de orelha comprida? Aqui isso não vale nada.


— Nossa, como você é prestativo — retrucou a alta elfa com um fungar desdenhoso e uma expressão nada condizente com a elegância élfica. — Então, na sua infinita sabedoria, como devo chamá-lo?


O Xamã Anão torceu o bigode com orgulho e respondeu:


— “Corta-Barbas”, é claro!


— Hum… me desculpe, senhor, mas também não temos ninguém registrado com esse nome — disse a Recepcionista, em tom apologético.


— Como é que é?! Ninguém?! — o anão arregalou os olhos.


— Não, senhor. Sinto muito.


A elfa balançou a cabeça de forma exagerada, acompanhando o gesto com um suspiro e um encolher de ombros teatral.


— Eis a famosa sabedoria dos anões… Teimosos como as pedras que lapidam e sempre convencidos de que estão certos.


— Desça aqui e repita isso! — esbravejou o Xamã Anão.


Ele provavelmente teria começado uma briga ali mesmo se a elfa não fosse quase duas vezes mais alta do que ele. Mesmo que saltasse um bom palmo do chão, mal alcançaria o ombro dela.


O sorriso da elfa tornou-se ainda mais presunçoso.


O anão rangeu os dentes. De repente, porém, pareceu ter uma ideia — e um sorriso inesperado se espalhou por seu rosto.


— …Heh. Vocês, elfos… Corações duros como bigornas. E tão planos quanto.


— O quê?!


Dessa vez foi a elfa que ficou ruborizada até a ponta das orelhas. Ela lançou um olhar fulminante ao anão e, num gesto instintivo, cruzou os braços sobre o peito.


— I-isso não tem nada a ver com o assunto! E-é fácil falar, vindo de você, quando todas as filhas dos anões têm formato de barril!


— Nós preferimos dizer “bem fornidas”, orelhuda! E é melhor do que ser uma bigorna!


As vozes dos dois foram subindo, cada vez mais altas.


A inimizade entre elfos e anões era tão antiga quanto os próprios deuses. Ninguém sabia ao certo como tudo começara — nem mesmo os elfos, que atravessavam eras sem envelhecer, tinham plena certeza. Talvez fosse apenas aquela velha divergência primordial: os elfos veneravam as árvores e detestavam o fogo; os anões derrubavam árvores para alimentar suas forjas e fogueiras.


Seja qual fosse a origem desse rancor, claramente não seriam aqueles dois a superá-lo. Continuavam discutindo bem diante da Recepcionista da Guilda, que sustentava um sorriso cada vez mais tenso.


— Hã… vamos — vamos todos nos dar bem, sim…?


— Com licença, vocês dois — interveio uma voz grave —, mas, se precisam brigar, façam isso em outro lugar e poupem o restante de nós.


Uma sombra longa caiu sobre eles, interrompendo a discussão.


Um homem-lagarto erguia-se acima dos dois, o corpo coberto de escamas, um leve hálito áspero escapando entre dentes afiados. Até a Recepcionista quase deixou escapar um “Ai…” ao vê-lo.


Ela nunca tinha visto as vestes tradicionais que ele usava. No pescoço, além da plaqueta prateada, pendia um amuleto curioso.


O Sacerdote Homem-Lagarto uniu as mãos num gesto incomum e inclinou a cabeça para a Recepcionista.


— Minhas humildes desculpas. Parece que meus companheiros estão lhe causando transtornos.


— N-não, imagina! Todos os nossos aventureiros são muito… apaixonados. E-eu já estou acostumada com isso!


Ainda assim, o trio à sua frente era algo fora do comum. Não apenas por serem de raças diferentes.


Altas elfas eram raras, mas não era inédito que jovens do povo da floresta se tornassem aventureiras, movidas pela curiosidade sobre o mundo. Anões, assim como humanos, tinham grande apreço por tesouros e façanhas ousadas — por isso, não era raro vê-los na profissão. Já os homens-lagarto às vezes eram confundidos com monstros, mas algumas de suas tribos eram amistosas, e, de tempos em tempos, um deles também seguia o caminho dos aventureiros.


Mas os três juntos — e todos com classificação Prata. Para três aventureiros de origens tão distintas formarem um grupo, aquilo era algo que a Recepcionista jamais presenciara.


— Hum… — Ela lançou um olhar à elfa e ao anão, que ainda trocavam farpas, e depois voltou-se para o homem-lagarto. À primeira vista, ele parecia prestes a mostrar as presas e saltar sobre ela a qualquer instante…


— Então… quem o senhor está procurando?


Apesar da aparência intimidadora, ele parecia o mais fácil dos três para conversar.


— Hmm. Lamentavelmente, não tenho muita habilidade com as línguas dos homens…


A Recepcionista assentiu com compreensão.


— Orcbolg e Corta-Barbas são o que vocês chamariam de apelidos. Em sua língua, creio que diriam…


Ele inclinou a cabeça com solenidade e, como ela já começava a suspeitar, pronunciou:


— …Matador de Goblins.


— Ah!


O rosto dela se iluminou, e ela bateu palmas antes mesmo de perceber o que fazia. Conteve por pouco a vontade de soltar um gritinho animado.


Outros aventureiros já tinham ido até ali só para procurá-lo. A fama dele estava se espalhando.


Não posso deixar essa oportunidade escapar… por ele!


— Eu o conheço, senhor! Muito bem, inclusive!


— Ah, conhece mesmo?!


Os olhos do homem-lagarto se arregalaram, e sua língua serpenteou para fora num gesto que parecia equivaler a um sorriso. A Recepcionista nem sequer se abalou com a expressão feroz.


— Gostariam de um pouco de chá, talvez?


— Não ousaria incomodá-la dessa forma.


Ele chamou os companheiros:


— Vocês dois, parece que encontramos quem procurávamos.


— Viu? Eu disse.


— Ah, mas não conseguiu explicar isso pra eles, conseguiu, mocinha?


— Olha quem fala.


— O quê foi que você disse?!


O Sacerdote Homem-Lagarto soltou um silvo baixo. A elfa e o anão trocaram um olhar carregado, em silêncio.


— Pois bem, senhorita da Guilda. Onde está o senhor Goblin Slayer?


— Hum… Ele saiu para caçar goblins há uns três dias.


— Oh-ho. Entendo. Natural.


— Acredito que ele volte em breve, senhor. — A Recepcionista lançou um olhar esperançoso para a porta do Salão da Guilda. Estava preocupada, claro — mas tinha confiança de que ele retornaria.


Afinal, ele jamais seria derrotado por meros goblins.


— Ali! — exclamou ela quando o sino sobre a porta tilintou e dois aventureiros entraram.


O homem-lagarto, a elfa e o anão se viraram ao mesmo tempo… e ficaram sem palavras.


Uma bela jovem trajando vestes sagradas estava ali, segurando um báculo ritual nas mãos. Uma sacerdotisa. Excelente.


O problema era o homem que caminhava à frente dela com passos firmes.


Vestia uma armadura de couro suja, um elmo de aço cobrindo o rosto, e carregava uma espada longa demais para parecer prática, além de um pequeno escudo redondo. Sua aparência era miserável. Qualquer novato em sua primeira missão pareceria mais preparado.


Ele foi direto ao balcão, sem hesitar. A Sacerdotisa precisou apressar o passo para acompanhá-lo, mas quando ele reduziu o ritmo, conseguiu enfim se colocar ao seu lado.


— Bem-vindo de volta, meu querido Goblin Slayer! Vocês dois parecem estar inteiros. — A Recepcionista acenou animadamente, a trança balançando junto.


— Concluímos a missão sem incidentes.


— De alguma forma… — acrescentou a Sacerdotisa, num tom que revelava um cansaço discreto, em contraste com a calma absoluta de Goblin Slayer. Ela sorria com esforço.


A Recepcionista assentiu. Ela entendia. Goblin Slayer aceitava missões dia após dia, noite após noite, quase sem descanso. Acompanhar aquele ritmo não devia ser nada fácil.


— Certo. Você pode me passar os detalhes depois. Não precisa ser agora.


— É?


— Sim. Há alguns visitantes aqui para vê-lo, senhor Goblin Slayer.


Ele se virou para o grupo ao lado como se só então notasse a presença deles: uma alta elfa arqueira, um anão conjurador e um sacerdote homem-lagarto.


A Sacerdotisa soltou um pequeno gritinho de surpresa e levou a mão à boca.


— Vocês são goblins?


— Claro que não! — A Alta Elfa Arqueira lançou-lhe um olhar desconfiado, como se não acreditasse no que acabara de ouvir.


— Entendo — respondeu ele, simplesmente.


— Então você é Orcbolg? Não parece…


— Não sou. Nunca fui chamado por esse nome.


A elfa fez uma expressão contrariada. O anão, acariciando a barba, conteve uma risada. O Sacerdote Homem-Lagarto, embora parecesse levemente constrangido, agiu como se aquilo fosse habitual. Uniu as mãos naquele gesto peculiar e inclinou a cabeça com respeito diante de Goblin Slayer.


— Nós, humildes viajantes, temos assuntos a tratar com o senhor Goblin Slayer. Poderíamos tomar alguns instantes do seu tempo?


— Como quiser.


— Se desejarem ter uma conversa mais reservada, temos salas no andar de cima…


O homem-lagarto fez um gesto respeitoso à Recepcionista, agradecendo a sugestão.


— Então vamos.


A Sacerdotisa permanecera em silêncio até então, mas, ao ver Goblin Slayer se afastar em direção às escadas, falou apressada, lançando-lhe um olhar aflito:


— E-eu… d-devo…? D-devo ir também?


Ele percorreu com o olhar o corpo esguio dela de alto a baixo e, em seguida, balançou a cabeça.


— Descanse.


Não parecia esperar contestação. A Sacerdotisa assentiu levemente.


E, sem olhar para trás, Goblin Slayer subiu as escadas com a mesma calma de sempre.


— Não se preocupe. Vamos devolvê-lo inteiro — disse a Alta Elfa Arqueira, inclinando-se levemente ao passar por ela. O anão e o homem-lagarto seguiram logo atrás.


A Sacerdotisa ficou sozinha.


— Ah…


Suspirando baixinho, sentou-se junto à parede, no canto — na cadeira que parecia reservada para ele. Envolveu com as mãos a xícara de chá que a Recepcionista lhe trouxera.


Ele provavelmente só queria o melhor para ela.


Levou a xícara aos lábios.


— Ahh…


Um calor suave se espalhou por seu corpo. A Sacerdotisa já aprendera a reconhecer aquela sensação: era o efeito de uma poção de vigor.


Foi gentil da parte da Recepcionista misturá-la ao chá. Seu corpo cansado agradecia.


Será que estou atrasando ele?


Ele era Prata; ela, apenas Porcelana. Mesmo com essa diferença, nunca se considerou um fardo para ele, mas ainda assim…


A Sacerdotisa esfregou os olhos. As pálpebras pesavam.


O burburinho constante dos aventureiros enchia o Salão da Guilda, como todos os dias. Havia algo nas conversas ao redor que quase chamava sua atenção — palavras que não conseguia distinguir. Ela bocejou.


— Ei! Ei, você!


— Hã—?


Ao ouvir a voz pela segunda vez, despertou sobressaltada, endireitando-se depressa na cadeira.


Diante dela estava um jovem que parecia um tanto nervoso — também de classificação Porcelana.


Era um guerreiro novato que ela já vira por ali. Ao lado dele, uma garota — aprendiz de clériga. No pescoço da jovem pendiam a balança e a espada, símbolos do Deus Supremo, guardião da lei e da justiça.


— Você… quer dizer, você é a garota que trabalha com ele, né?


— Com… quem?


— Você sabe. Aquele cara. O que vive usando aquele elmo — disse a clériga, com a voz um pouco estridente.


— Ah — respondeu a Sacerdotisa, compreendendo enfim. — Quer dizer o senhor Goblin Slayer?


— Isso, ele mesmo! Ei… — o guerreiro baixou a voz de repente e olhou ao redor, apreensivo. — Você também é Porcelana, né? Que tal vir com a gente?


A Sacerdotisa prendeu a respiração.


Um turbilhão de emoções irrompeu dentro dela, como se quisesse partir seu coração ao meio.


Ela cerrou os punhos, resistindo àquela onda avassaladora. Foi apenas um instante antes de balançar a cabeça devagar.


— Não. Obrigada… mas não.


— Mas ele é estranho! Que tipo de aventureiro Prata caça só goblins? — insistiu o guerreiro, franzindo o cenho. Qualquer Prata “normal” estaria atrás de presas maiores.


— Pois é — acrescentou a clériga, também lançando olhares inquietos ao redor. — E ainda arrasta uma novata junto. Você sabia que tem gente dizendo que você é prisioneira dele? Você está bem mesmo?


— Ouvi dizer até que o motivo de ele sair sozinho para caçar goblins é… meio estranho. Entende o que quero dizer?


— Isso não é verdade! — a voz da Sacerdotisa se elevou antes que pudesse se conter.


— Ora, ora. Nada de intimidar os outros.


Uma voz suave e adocicada surgiu de repente, envolvendo o ambiente como um véu de seda. Quando ela havia se aproximado? Há quanto tempo estava ali?


A Feiticeira — de curvas generosas e plaqueta prateada ao pescoço — estava parada ao lado deles.


— M-mas nós não estávamos—


— Já chega. Vão para lá, sim?


O guerreiro parecia pronto para retrucar, mas a clériga o segurou pela manga e o puxou para longe.


A Feiticeira lançou à Sacerdotisa um olhar amigável e, sorrindo, disse:


— Deixe que eu cuido deles, sim?


Foi o bastante. O guerreiro e a clériga murmuraram um apressado “Vamos sair daqui!” quase ao mesmo tempo e, depois de um último olhar inseguro para a Sacerdotisa, se afastaram.


A Sacerdotisa permaneceu sentada, a xícara entre as mãos. A Feiticeira deslizou para a cadeira ao lado, acomodando-se com uma languidez quase felina.


— Então… você é a garota que o acompanha, não é?


— S-sim, senhora. Tenho a honra de acompanhá-lo.


A Sacerdotisa assentiu com firmeza, pousando as mãos — ainda envolvendo a xícara — sobre os joelhos.


— “Acompanhar”, é…? — repetiu a Feiticeira, com um leve sorriso sugestivo.


A Sacerdotisa a encarou, confusa.


A Feiticeira fez um gesto displicente com a mão.


— Deve ser difícil. Ele não percebe muita coisa, percebe…?


Novo olhar confuso.


— Eu… ele…


— Pensando bem, parece que você também não percebe muito.


A Sacerdotisa fez um pequeno gesto envergonhado, e a Feiticeira a observou com ternura. De dentro das vestes, retirou um longo cachimbo metálico e colocou algumas ervas nele com dedos elegantes.


— Posso? …Inflammarae.


Sem esperar resposta, tocou o cachimbo com o dedo. Logo uma fumaça rosada, perfumada, começou a se espalhar no ar.


— Eu sei. Um desperdício usar uma palavra de poder para isso, não é? — riu baixinho ao ver a expressão atônita da Sacerdotisa. — E você… quantos milagres já consegue realizar?


— E-eu tinha dois até pouco tempo… agora tenho quatro. Mas só consigo rezar três vezes por dia…


— Uma Porcelana com quatro milagres. Ora, você é bem talentosa.


— O-obrigada…


A Sacerdotisa abaixou a cabeça, parecendo ainda menor do que já era. O sorriso da Feiticeira permaneceu sereno.


— Sabe, ele também já me fez um pedido um tanto estranho.


— O quê…? — A Sacerdotisa ergueu os olhos depressa.


A Feiticeira inclinou a cabeça de forma insinuante.


— Sei o que você está pensando — provocou.


— N-não estou pensando nada…!


— Ele precisava de ajuda com um pergaminho. Então eu sei como pode ser difícil… acompanhá-lo.


— Não é isso… quer dizer… um pouco, sim. Afinal, ele é Prata…


Um cansaço suave tingiu sua expressão. Ao inclinar a cabeça, viu a xícara ainda em suas mãos. Fitando o fundo através do líquido amarronzado, as palavras escaparam-lhe quase sem querer:


— E-eu mal consigo acompanhar o ritmo dele… E só dou trabalho…


— E ele é muito bom no que faz, não é? — A Feiticeira inspirou profundamente e soprou um anel de fumaça. Ele flutuou preguiçosamente até a Sacerdotisa e se desfez contra sua bochecha.


Ela tossiu com força. A Feiticeira pediu desculpas entre risos.


— Anos e anos caçando goblins sem descanso fazem isso com alguém.


Ele está anos-luz à frente de uma simples Porcelana.


A Feiticeira girou o cachimbo entre os dedos, pensativa.


— Caçar goblins certamente faz mais bem ao mundo do que sair atrás de presas maiores… e não dar conta delas.


Com o cachimbo, apontou discretamente para os aventureiros espalhados pelo Salão da Guilda.


Em algum lugar ali, as orelhas do Lanceiro arderam sem que ele soubesse por quê.


A Feiticeira estreitou os olhos, observando a multidão.


— Mas isso não quer dizer que uma obsessão por goblins seja… totalmente saudável.


A Sacerdotisa permaneceu em silêncio.


— Na Capital, por exemplo, não faltam demônios. Este mundo está repleto de monstros.


Era evidente. Se não estivesse, não haveria tantos aventureiros vagando por aí, por mais ruínas abandonadas que existissem.


Mas, com ameaças surgindo em toda parte, o exército sozinho não conseguia manter tudo sob controle. A função deles era lidar com reinos vizinhos, Deuses Sombrios, necromantes…


Goblins eram, sim, uma ameaça.


Mas não eram a única.


— Então por que…?


— Antes que o mundo acabe, os goblins terão destruído muito mais vilarejos — respondeu Goblin Slayer, em sua voz plana, quase mecânica. Como se dissesse: isso é tudo para mim, essa é a minha verdade. — Não podemos ignorar os goblins só porque o mundo está em perigo.


— Como você pode—?!


A elfa chutou a cadeira para trás, o rosto pálido ruborizando de indignação. Inclinou-se sobre a mesa para agarrar Goblin Slayer, mas o anão a deteve.


— Ora, ora, segura aí, orelhuda. Pense no que está fazendo.


— O que quer dizer com isso, anão?


— Que não podemos simplesmente invadir o lugar e mandar ele fazer algo. Um Platina talvez pudesse. Nós, não.


— M-mas…!


— Sem “mas”. Sente-se. Vamos conversar como gente civilizada.


Ele a repreendeu com um gesto curto da mão áspera.


— …Está bem.


Bufando, ela voltou a se acomodar na cadeira.


O anão soltou uma risada satisfeita ao ver que Goblin Slayer não demonstrara o menor sinal de irritação.


— Jovem, mas é mesmo um “Corta-Barbas”! Firme como rocha!


— Então — disse o Sacerdote Homem-Lagarto — não se opõe se eu lhe apresentar nossa proposta?


— Por mim, tudo bem. Melhor isso do que covardia — respondeu o anão, passando a mão pela barba.


O homem-lagarto voltou-se para Goblin Slayer e uniu as mãos em seu gesto habitual.


— Senhor Goblin Slayer, por favor, não interprete mal nossa intenção. Viemos, de fato, pedir sua ajuda para exterminar os pequenos demônios.


— Entendo. Está falando de goblins — disse Goblin Slayer. — Nesse caso, aceito.


Silêncio.


— Onde estão? Quantos são?


A Alta Elfa Arqueira arregalou levemente os olhos; o Sacerdote Homem-Lagarto também pareceu surpreso. O anão, porém, caiu na gargalhada.


— Calma lá, garoto! Para que tanta pressa? Não quer ouvir o resto da história do Escamoso?


— Claro — respondeu Goblin Slayer com um aceno firme. — Informação é essencial. Preciso saber o tamanho do ninho. Há xamã? E quanto aos hobgoblins?


— Eu imaginava que perguntaria primeiro sobre a remuneração — comentou o homem-lagarto, a língua tocando o nariz num gesto que parecia constrangimento. — …Para começar, como meu humilde companheiro mencionou antes, um exército de demônios está se preparando para invadir.


Silêncio.


— Um dos Lordes Demônio, outrora selado, despertou e agora busca nossa aniquilação…


— Não me interessa — disse Goblin Slayer. — O mesmo aconteceu há dez anos.


— Sim. Eu também pensei que não fosse da minha conta — admitiu o homem-lagarto, revirando os olhos com um leve trejeito.


Diversas expressões cruzaram o rosto da elfa — quase todas dizendo: Eu não acredito nesse sujeito. Ela lançou um olhar irritado a Goblin Slayer, mas qualquer reação dele permanecia oculta sob o elmo.


— Diante disso — continuou o homem-lagarto —, os chefes de nossas tribos, os reis dos homens e os líderes dos elfos e dos anões realizaram um grande conselho.


— Os rheas não são muito dados ao combate, então não enviaram representante — acrescentou o anão, batendo no próprio ventre. — Mas nós estamos aqui em nome dos nossos. Afinal, somos aventureiros! Vamos ajudar o mundo — e nossas próprias reputações — nesse acordo!


— Parece que uma grande batalha está por vir — murmurou a elfa, já soando resignada. Embora isso não pareça importar para você.


O anão continuou, alisando a barba:


— O problema é que aquelas praguinhas começaram a ficar mais ativas nas terras élficas.


— Surgiu algum campeão? Ou um lorde? — perguntou Goblin Slayer, em voz baixa.


O anão respondeu:


— Talvez.


A elfa ergueu as longas orelhas ao ouvir aqueles termos desconhecidos.


— Campeões? Lordes? O que é isso?


— Heróis goblins. Reis goblins. Pense neles como goblins de rank Platina, para usar nossos termos.


Goblin Slayer cruzou os braços e soltou um longo:


— Hmmm…


Seu tom era sério. A elfa teve a impressão de que ele estava calculando algo. Depois de um silêncio prolongado, ele disse:


— Esqueça. Ainda não há informações suficientes. Continue.


— Em nossa investigação, descobrimos um único ninho excepcionalmente grande. Mas… bem, política, sabe como é.


— O exército não se move contra goblins. Como sempre. — Goblin Slayer completou a frase do homem-lagarto, ao mesmo tempo perguntando e afirmando.


— Os reis humanos nos veem como aliados, mas não como iguais — disse a elfa, os ombros rígidos. — Se levássemos nossos soldados para lá, suspeitariam de conspiração.


— Por isso, um grupo de aventureiros… Mas nós sozinhos dificilmente poderíamos nos impor diante dos humanos.


— Então, Orcbolg… dentre tantos nomes, escolhemos você.


— A orelhuda sabe ser dramática, não sabe? — comentou o anão com uma risada seca.


Ela lançou-lhe um olhar fulminante, mas logo voltou a encarar Goblin Slayer.


— Tem um mapa? — perguntou ele, com calma.


— Aqui.


O homem-lagarto retirou um pergaminho da manga e o entregou.


Goblin Slayer o desenrolou com mãos ásperas. O mapa fora traçado com tintura sobre casca de árvore, num estilo abstrato e preciso típico da cartografia élfica.


Mostrava um campo árido e, ao centro, uma construção antiga.


Ele apontou para o edifício.


— Ruínas?


— Provavelmente.


— Quantidade?


— Só sabemos que o ninho é muito grande.


— Saio imediatamente. Paguem o que quiserem.


Goblin Slayer assentiu, enrolou o mapa com naturalidade e se levantou de súbito. Guardou-o, conferiu rapidamente o equipamento e já começava a caminhar para a porta.


A elfa se agitou.


— E-espera um instante!


As orelhas se moveram, e, como antes, ela chutou a cadeira para trás e estendeu a mão.


— Você está falando como se fosse sozinho.


— Estou.


A expressão dela dizia claramente: Você só pode estar brincando.


O homem-lagarto soltou um som curioso.


— É apenas uma observação humilde, mas aquela distinta acólita da Mãe Terra não faz parte do seu grupo, senhor Goblin Slayer?


— Você vai enfrentá-los sozinho? — insistiu a elfa. — Ficou louco?


Goblin Slayer parou por um segundo e expirou lentamente.


— Sim.


E, sem acrescentar mais nada, saiu da sala.


Qual das perguntas ele respondera, ninguém soube dizer.


E não havia como saber.


Inspira. Expira.


Ele só hesitou por um instante. Depois desceu as escadas em passos firmes e foi direto ao balcão.


A palavra que pronunciou era a mesma de sempre:


— Goblins.


— Então eles vieram mesmo lhe oferecer uma missão! — disse a Recepcionista, erguendo o rosto com um sorriso radiante.


Ali perto, o Lanceiro estalou a língua. Ele estava tentando puxar conversa com ela momentos antes.


— Que tipo de missão é? Vou registrar aqui.


— O homem-lagarto lhe dará os detalhes. Estou saindo agora. Mas preciso de dinheiro. Entregue-me a recompensa da última missão.


— Hmm… Mas você ainda não fez o relatório… Bem, acho que podemos abrir uma exceção para você, senhor Goblin Slayer. — E acrescentou em tom cúmplice: — Só entre nós.


Ela assinou um documento e retirou uma bolsa de couro do cofre. Uma recompensa que mal sustentaria um grupo Porcelana podia se tornar uma quantia razoável quando alguém assumia a missão inteira sozinho. Goblin Slayer conseguia viver apenas de contratos contra goblins justamente porque trabalhava só.


Ele pegou o punhado de moedas sujas — arrecadadas com esforço pelos moradores de algum vilarejo pobre — e separou metade, guardando-a na própria bolsa.


— Entregue o resto a ela.


— Claro. E-espera, você vai sozinho? E ela…?


— Vou deixá-la descansar.


Foi tudo o que disse à Recepcionista, que ficou olhando, intrigada, enquanto ele se afastava.


O Lanceiro lançou-lhe um olhar atravessado ao cruzar com ele.


— O que ele pensa que está fazendo?


Goblin Slayer não ouviu o comentário venenoso. E mesmo que ouvisse, não importaria. Havia coisas demais para considerar.


Enquanto caminhava, revisava mentalmente seus suprimentos. Precisaria comprar corda, cunhas, óleo, antídotos, poções e diversos outros consumíveis. Ao sair da Guilda, teria de passar em algum lugar para reabastecer provisões. Precisava manter as energias.


Equipamento de acampamento não era problema. Sozinho, bastavam-lhe os confortos mais mínimos.


Se o mapa estivesse correto—


— Senhor Goblin Slayer!


Quando estava prestes a atravessar a porta, ele ouviu passos leves correndo atrás dele. Soltou um breve resmungo.


— E-então… aquilo era uma missão, não era?


Era a Sacerdotisa.


Da cadeira até a porta não havia tanta distância, mas a pequena corrida a deixara ofegante. Respirava com dificuldade, o rosto corado.


— Sim — respondeu ele. — Caça a goblins.


— Foi… o que eu imaginei.


Ela esboçou um sorriso resignado. Mal conseguia acompanhar as idas e vindas imprevisíveis dele. Ainda assim, ergueu o báculo com determinação.


— Então me deixe—


— Não.


Goblin Slayer a interrompeu friamente.


— Eu vou sozinho.


— O quê?!


A exclamação dela ecoou pelo salão. Os poucos que ainda estavam ali voltaram os olhos para os dois. Alguns murmuraram: “Ah, é o Goblin Slayer”, e logo perderam o interesse.


Mas a Sacerdotisa continuou encarando-o, atirando as palavras como flechas.


Ele não iria sozinho. Não importava que sempre voltasse vivo. Não iria.


— Pelo menos… pelo menos poderia conversar comigo antes de decidir—


Goblin Slayer inclinou a cabeça, genuinamente confuso.


— Não é o que estou fazendo?


Ela piscou.


— E-eu… bem… estamos conversando, sim…


— Acredito que sim.


— Ahh…


Quem poderia culpá-la pelo suspiro que escapou naquele instante?


— Mas não adianta nada se eu não tenho escolha.


— Não adianta?


Ele é impossível…


— Eu vou com você.


Ela declarou isso com coragem, sem hesitar.


Por trás da viseira, Goblin Slayer a fitou. O elmo sujo e marcado refletia-se nos olhos dela.


— Eu não posso deixar você ir sozinho — disse ela.


Os dois permaneceram em silêncio por um longo momento.


— …Faça como quiser.


Por fim, Goblin Slayer soltou um suspiro pesado. Havia um leve traço de irritação em sua voz.


Mas a Sacerdotisa segurou o báculo com as duas mãos, e seu sorriso floresceu como uma flor ao amanhecer.


— Obrigada. Eu vou.


— Então vá buscar sua recompensa primeiro.


— Certo! Espere só um instante… Ah! E o relatório?


— Podemos fazer depois.


— Está bem!


Goblin Slayer ficou junto à porta enquanto ela corria de volta ao balcão.


Do patamar da escada, três figuras observavam a cena. A Alta Elfa Arqueira, o Xamã Anão e o Sacerdote Homem-Lagarto trocaram olhares. Alguém deixou escapar um pequeno suspiro.


— Até nós conseguimos ver o que está acontecendo aqui. A garota tem potencial.


O anão foi o primeiro a descer, acariciando a barba.


— Longe de mim propor uma missão e depois me recusar a participar dela.


O homem-lagarto veio em seguida, assentindo com solenidade, as mãos unidas num gesto respeitoso. Desceu degrau por degrau, a cauda balançando de um lado para o outro.


A arqueira permaneceu em silêncio por um instante.


Orcbolg — o aventureiro que exterminava goblins — estava ali, diante dela. E ainda assim, era completamente diferente do que ela imaginara. Sua maneira de viver era incompreensível. Ele lhe parecia estrangeiro, quase incompreensível.


Vai deixar um simples choque te deter agora?


A elfa riu baixinho.


Não fora exatamente isso que buscava ao deixar a floresta?


Conferiu o arco e o ajustou ao ombro.


— Francamente… não acham que deveriam respeitar os mais velhos?


E, dizendo isso, desceu os degraus com leveza.


Veja bem, grupos de aventureiros costumam nascer exatamente assim — das formas mais inesperadas.

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