Goblin Slayer - Volume 2 – Capítulo 1
Aventuras e Vida Cotidiana
“Se não gosta, pode voltar pra casa.”
A voz clara ecoou pela floresta, que permanecia sombria mesmo ao meio-dia.
Árvores, musgo, hera. Era um mundo onde se pisava sobre os ossos de antigos edifícios de pedra calcária abandonados — um lugar dominado por plantas tão densas que tudo parecia se fundir em um só.
As ruínas de uma grande cidade, talvez erguida na Era dos Deuses — ou, ao menos, nos primórdios daqueles que aprenderam a falar.
Dizem que até os elfos reconhecem que nada resiste ao peso dos meses e dos anos, e ainda assim…
Aquela cena era particularmente triste.
Fendas rasgavam esculturas outrora elaboradas; pisos de pedra, antes lisos, agora jaziam despedaçados.
Por entre os galhos que se estendiam acima como um teto, uma luz tênue e fragmentada se infiltrava — insuficiente até para iluminar direito.
Aquilo já fora uma cidade.
Agora, não passava de ruínas.
Apenas as árvores e as plantas ainda viviam ali.
Através daquela paisagem avançavam cinco figuras em fila indiana, carregadas com todo tipo de equipamento imaginável.
Eram, naturalmente, aventureiros.
A voz pertencia à jovem à frente do grupo, responsável pela exploração.
Suas longas orelhas — prova de que era uma elfa superior — tremulavam levemente.
“Não tem sentido nenhum se você está se forçando.”
“Do que você está falando?”
A resposta veio seca, quase mecânica.
Era o segundo da fila — um guerreiro humano, vestindo um capacete sujo e armadura de couro.
Na cintura, carregava uma espada de comprimento estranho; no braço, um pequeno escudo redondo; e, pendurado ao lado, uma bolsa cheia de todo tipo de tralha.
Seu equipamento era um pouco melhor do que o de um jovem sonhador recém-saído do interior.
Mas só um pouco.
À primeira vista, ele não impressionava.
Ainda assim, seu caminhar, sua postura — tudo nele transmitia segurança.
Entre guerreiros, causaria uma impressão… peculiar.
“Essa aventura!”
A Arqueira Elfa Superior nem se virou.
Suas orelhas longas se agitavam inquietas.
Muitos elfos nasciam naturalmente aptos à vida de patrulheiros.
Eram exploradores à altura das melhores criaturas selvagens, mesmo quando essa não era sua classe principal.
Ela saltou por cima de uma raiz grossa que se projetava do chão com tanta leveza que parecia não pesar nada.
“Eu não disse que não gosto”, respondeu o guerreiro.
As orelhas da elfa estremeceram.
“Foi o que combinamos. Não vou me recusar a pagar o que devo.”
As orelhas dela caíram de novo.
A terceira da fila suspirou ao ouvir aquilo.
Pequena, jovem, inexperiente — e a mais bonita do grupo — uma garota humana.
Segurava um cajado ritual com as duas mãos e vestia trajes clericais sobre uma cota de malha.
Era uma sacerdotisa.
Ela ergueu um dedo, repreendendo o guerreiro como quem diz: não tem jeito mesmo.
“Assim não dá. Você precisa melhorar essa atitude.”
“…Preciso?”
“Precisa sim! Ainda mais quando ela está sendo tão atenciosa com você!”
“É mesmo…?”, murmurou o guerreiro, ficando em silêncio logo depois.
Seu rosto permanecia oculto pelo capacete.
Após pensar por um instante, virou o visor sombrio na direção da elfa e perguntou diretamente:
“Isso é verdade?”
“Você precisava mesmo perguntar isso?” disse a Arqueira Elfa Superior, inflando as bochechas.
Na verdade, desde que pedira “uma aventura” como recompensa por ajudar o guerreiro a defender uma certa fazenda, ela vinha de ótimo humor.
Mas admitir isso em voz alta já era outra história.
“Ahh, deixa disso!”
Um anão robusto acariciou a barba, soltando uma risada sincera.
Era o quarto da fila — um usuário de magia, vestido em estilo oriental: o Xamã Anão.
Era ainda mais baixo que a sacerdotisa, mas tinha o porte de uma rocha.
Dizia-se que conjuradores eram frágeis — mas isso não se aplicava aos anões.
Embora, claro, o tamanho reduzido das pernas às vezes fosse um problema.
Abrir caminho por trilhas de animais não era nada fácil para ele.
“Esse aí é o Corta-Barba. Teimosia nunca foi novidade pra ele.”
“…Pois é. Orcbolg é cabeça dura.”
Dito isso, a Arqueira Elfa Superior soltou um suspiro.
“Por mais que me doa admitir que um anão tem razão.”
O Xamã Anão soltou um “hmph” irritado, logo abrindo um sorriso satisfeito.
“Com essa língua afiada, como espera arrumar alguém? Vai acabar uma solteirona de dois mil anos!”
“Grrk!”
As orelhas dela se eriçaram.
“Não me importo! Por que eu me importaria? Além disso, ainda sou jovem!”
“Ah, é?”, respondeu o anão, sorrindo ainda mais, como quem finalmente encontrou uma brecha.
“Já devia imaginar — com esse peito reto como uma bigorna!”
“Olha quem fala, seu barril ambulante!”
As belas sobrancelhas da elfa se franziram.
Ela girou sobre os calcanhares e lançou um olhar fulminante ao anão.
Cobrindo o peito modesto com os braços, abriu a boca para rebater—
—mas foi interrompida por um som sibilante.
“Talvez os antigos habitantes desta terra já tenham sido levados pelo tempo… mas um pouco de decoro ainda seria apropriado.”
A voz vinha de um homem-lagarto, com um talismã pendurado no pescoço.
Ele era o último da formação — literalmente, com a cauda balançando atrás.
Era enorme, e sua respiração saía pesada entre os dentes.
Vestia trajes tradicionais de seu povo e mantinha as mãos em gestos estranhos.
Era um sacerdote lagarto, seguidor de seus ancestrais — os temíveis nagas.
“Estas terras não pertencem mais às pessoas. Sejamos cautelosos… e não atraiam problemas.”
“Hrm… Talvez ela estivesse falando um pouco alto demais.”
“Quê?! Isso é culpa sua—”
“Minha cara patrulheira, por favor”, interveio o Sacerdote Lagarto.
As palavras morreram nos lábios dela.
Ele não era exatamente o líder do grupo, mas havia algo em sua presença imponente que a fazia recuar.
“Talvez possa seguir adiante. Aquela raiz parece um desafio.”
“…Sim, senhor.”
“E você também, estimado conjurador. Não convém distrair nossa exploradora.”
“Tá, tá, eu sei.”
O Xamã Anão parecia não notar as orelhas caídas da elfa após a repreensão.
Enquanto isso, o Sacerdote Lagarto revirou os olhos, exasperado.
A sacerdotisa deixou escapar uma risadinha, quase sem querer.
Ela gostava de ver como a Arqueira Elfa Superior e o Xamã Anão ficavam animados quando brigavam.
É bom ver que eles são próximos assim…
“Hyup!”
A Arqueira Elfa Superior saltou por cima da raiz — quase tão alta quanto ela — em três movimentos ágeis, algo além da capacidade da maioria das pessoas.
“Você já está acostumada com isso”, comentou o guerreiro, observando.
“Ah, deu pra perceber?”
Junto com a resposta satisfeita dela, uma corda foi lançada de volta por cima do obstáculo.
O guerreiro a puxou algumas vezes para testar, então firmou os pés na raiz e começou a subir.
Movia-se com leveza e rapidez, desmentindo o peso da armadura que vestia.
Talvez fosse fruto de uma vida ao ar livre.
“Certo. Pode vir.”
Do topo da raiz, ele olhou para baixo.
“Próximo.”
“Ah—certo!”
A sacerdotisa assentiu várias vezes e o seguiu.
Prendeu o cajado às costas e começou a subir com cuidado, apoiando-se totalmente na raiz.
“Mas… Hnn… pensar que uma cidade tão grande virou isso… que horror…”
“Cuidado.”
Vwoop.
O pé dela escorregou no musgo, e ela quase caiu — mas o guerreiro segurou seu pulso e a puxou para cima.
O braço dela era tão fino que parecia que a mão enluvada dele poderia quebrá-lo ao meio.
“O-obrigada…”, murmurou ela, com a voz quase sumindo, corando enquanto olhava para baixo.
Ela esfregou o pulso, ainda um pouco dolorido.
Não que estivesse reclamando.
“Se não se machucou, vamos descer.”
“Certo.”
A sacerdotisa passou pela raiz com cuidado, o guerreiro segurando sua mão para ajudá-la.
Assim que ambos estavam em segurança no chão, a Arqueira Elfa Superior inclinou a cabeça e perguntou:
“Está tudo bem?”
“Sim… eu só… preciso ganhar um pouco mais de força…”
“Mas não exagere”, disse a elfa, com um leve movimento das orelhas.
Ela estreitou os olhos e lançou um olhar avaliador de cima a baixo na sacerdotisa.
“Você não vai querer acabar com o corpo de um anão.”
“Eu ouvi isso, orelhuda! E já disse, eu sou perfeitamente normal para um anão!” gritou o Xamã Anão do outro lado da raiz.
“De qualquer forma, nada vence o tempo. Nem suas árvores, nem nossas cavernas… nada.”
Com a ajuda de um empurrão do Sacerdote Lagarto, o anão conseguiu subir na raiz e então saltou para o chão.
Caiu sentado com um tum seco.
A Arqueira Elfa Superior franziu a testa sem disfarçar.
“Você consegue ser mais ridículo?”
“Olha essas pernas! São curtas! Vocês elfos vivem preocupados com aparência.”
“Se isso te incomoda tanto, podia usar Controle de Queda.”
“Bah! Gastar magia com isso? Vocês elfos não têm noção de economia mágica?”
“Agora, agora…”
A sacerdotisa interveio entre os dois, sorrindo sem conseguir evitar.
“Se ficarem fazendo barulho, vão levar outra bronca”, advertiu.
“Ah, quem vai me dar bronca? Do ponto de vista de um elfo, aquela cobra ali não passa de uma criança…”
“Oh-ho?”
As orelhas da elfa se ergueram ao ouvir o grave murmúrio.
“Nem mesmo os elfos são eternos. Talvez a única coisa eterna… seja a própria eternidade.”
A voz veio acompanhada do som do Sacerdote Lagarto subindo a raiz com a ajuda das garras e da cauda.
Ele escalou com graça e aterrissou com agilidade.
Impressionante — ainda que um pouco barulhento.
“Talvez fosse interessante descobrir se os elfos superiores são mesmo eternos…”
“…Prefiro não descobrir.”
Talvez ele tivesse a intenção de parecer brincalhão.
Mas, para quem não tinha escamas, aquilo parecia apenas um enorme lagarto exibindo dentes afiados.
A Arqueira Elfa Superior fez uma careta e balançou a cabeça.
“E então?”, disse o guerreiro. “Onde estão os goblins?”
“…Lá vem ele de novo.”
A elfa deu de ombros como quem diz nem vale a pena responder, seguida de um suspiro ainda mais profundo.
“Eu me dei ao trabalho de achar ruínas que pareciam ter goblins, só por sua causa, Orcbolg. Podia ao menos agradecer.”
“Hmm. Então você foi atenciosa.”
“…É, pode dizer isso.”
“Entendo.”
Ele parecia ter esperado todos se reunirem.
Então assentiu uma única vez e partiu na frente.
A Arqueira Elfa Superior correu logo atrás, ultrapassando-o para retomar a função de batedora.
Considerando tudo, o guerreiro também era um excelente explorador.
Apesar de seu passo rápido e aparentemente despreocupado, sua armadura era estranhamente silenciosa.
Ele podia parecer um simples bandido — mas não quebrava galhos, não chutava pedras.
“Cof, não há motivo para tanta preocupação, milorde Goblin Slayer.”
O Sacerdote Lagarto tirou um pergaminho enrolado da bolsa e o abriu, analisando-o enquanto caminhava.
Era velho, gasto, quase desfeito — mas parecia ser um mapa da cidade.
Com cuidado para não danificá-lo, ele passou uma garra sobre o papel.
“…Deve haver um santuário mais adiante. Eu, particularmente, acredito que devemos ir até lá. O que acham?”
“Concordo”, respondeu o guerreiro prontamente.
Ele havia parado e examinava o chão — antes pavimentado — com o dedo, procurando rastros.
“Pode haver goblins aqui.”
“É só nisso que você pensa?!” disse a elfa, cansada.
“Existe algo mais?”
“Olha ao redor!”, respondeu ela, sem baixar a guarda, abrindo os braços.
“Olha isso! Maravilha! Segredos! Mistério! Lendas! Você não sente nada disso?”
“Não temos tempo para isso.”
“…Não acredito.”
“É mesmo?”
A resposta seca fez a elfa franzir os lábios.
Suas orelhas se moveram.
“Escuta aqui, orelhuda. Se você apressa demais o polimento de uma pedra, acaba quebrando.”
O Xamã Anão riu, girando a barba, diante da irritação da elfa.
“Tenha paciência. Pelos deuses, vocês elfos são tão impacientes.”
“E é por isso que vocês são todos gordos, anão — só comem e bebem, não fazem nada.”
“Ah, e qual o problema de comer e beber um pouco? Você bem que podia ganhar um pouquinho de carne!”
Ele deu um longo gole do vinho ardente preso ao cinto, completamente indiferente ao comentário.
“Mas, sendo justo… você até que tem razão, minha orelhuda.”
A elfa lançou um olhar afiado quando ele soltou um arroto nada elegante.
“Corta-Barba, nunca pensou que sua vida poderia ser mais fácil se você… subisse de posição?”
“Já pensei”, respondeu o guerreiro, seco, enquanto se abaixava junto a uma parede e espiava além de uma esquina.
“Oh-ho.”
O anão grunhiu, surpreso com a resposta.
O guerreiro olhou para a esquerda, depois para a direita, e seguiu adiante.
“Construir minha reputação, me tornar de nível Ouro e aceitar trabalhos maiores é uma possibilidade”, disse.
“Então por que não faz isso?”, perguntou o anão.
“Porque, se eu fizer, os goblins atacarão vilarejos.”
Vigiando ao lado, a Arqueira Elfa Superior balançou a cabeça, como se tentasse afastar uma dor.
“Eu já tinha ouvido dizer que humanos ficam obcecados… mas todos são assim?”
“Acho que ele é um caso especial”, disse a sacerdotisa, sorrindo como quem diz não tem o que fazer.
E assim tinha sido desde que se conheceram — confuso no começo, mas agora já familiar.
“Mas ele fala de mais coisas do que antes…”
“… ”
O guerreiro continuou sua busca em silêncio, com aquele mesmo passo firme.
A sacerdotisa o seguiu, ainda sorrindo.
Veja só.
“E dá pra entender ele, não dá?”
“Isso, pelo menos, dá”, disse a elfa, assentindo com uma risadinha.
O Xamã Anão e o Sacerdote Lagarto trocaram um olhar — e um sorriso silencioso.
Logo chegaram ao fim do que um dia fora uma grande avenida.
Ali, encontraram seu destino: uma ampla praça e uma clareira aberta entre as árvores.
Ao fundo, podiam ver uma abertura de paredes brancas — como a entrada de uma caverna.
“Não vejo guardas.”
O guerreiro soltou um suspiro ao observar o terreno entre a grama alta e as sombras das árvores.
Desde que entraram na floresta, não tinham visto nenhum animal — muito menos monstros.
“Ah… então isso quer dizer que não tem goblins!”
Do fundo do grupo, a sacerdotisa tentou animar o guerreiro, que parecia desapontado.
“Não necessariamente.”
A resposta veio automática, mas não pareceu incomodá-la.
Ela o seguia com o ar de um pintinho atrás da mãe.
“Acredito que eles não desperdiçariam um ninho tão perfeito.”
“Você não precisa imaginar goblins onde não existem”, disse a elfa, murmurando em seguida: “Goblins, goblins… sinceramente.”
O guerreiro a ignorou.
“Ou talvez tenham escavado recentemente um túnel até aqui.”
“Ei… vocês estão sentindo esse cheiro?”
A Arqueira Elfa Superior franziu o nariz.
Não tinha sido exatamente uma resposta ao guerreiro.
O Sacerdote Lagarto balançou a cabeça lentamente.
“Infelizmente, meu olfato pouco ajuda nesta floresta. Que cheiro é esse?”
“É tipo… hmm… como ovos podres?”
“…Então eles estão aqui”, murmurou o guerreiro.
Diante disso, cada um dos aventureiros preparou sua arma.
A Arqueira Elfa Superior ergueu seu arco — um grande galho de teixo, com corda de seda de aranha — e encaixou uma flecha cuja ponta parecia um botão de flor.
Com uma prece aos seus ancestrais, o Sacerdote Lagarto transformou uma de suas presas em uma espada polida.
O Xamã Anão enfiou a mão em sua pequena bolsa de catalisadores, enquanto a sacerdotisa segurava o cajado ritual com firmeza, usando as duas mãos.
Eles se moveram rapidamente, se espalhando para cercar a entrada.
“O que fazemos? Vamos entrar? Ou quer que eu use meu milagre de Proteção—?”
“Não.”
O guerreiro balançou a cabeça, interrompendo a pergunta ansiosa da sacerdotisa.
“Há outra entrada nessas ruínas — nesse santuário? O que o mapa diz?”
“Até onde vi, não”, respondeu o Sacerdote Lagarto, que conhecia o mapa como a palma da mão.
“Mas, sendo ruínas tão antigas, não podemos descartar que algum desabamento tenha aberto outro acesso.”
“Então vamos tirá-los de lá.”
Com a mão esquerda, protegida pelo escudo, o guerreiro vasculhou a bolsa.
O que ele tirou era amarelado, do tamanho da palma da mão — parecia um pedaço endurecido de alguma coisa.
Ele amarrou aquilo com corda a um punhado de gravetos secos, formando uma espécie de bola.
A sacerdotisa fez uma expressão um pouco tensa.
Parecia reconhecer aquilo.
“Isso é… é resina de pinho, não é?”
“Sim.”
“E… enxofre.”
“Vai produzir uma fumaça densa e eficaz.”
Enquanto falava, o guerreiro acendeu uma pederneira com facilidade, incendiando o artefato.
Tomando cuidado para não respirar a fumaça que imediatamente começou a subir, ele lançou o objeto dentro do buraco.
“E também vai envenenar o ar. Provavelmente não mata… mas…”
Dizendo isso, puxou uma espada curta da bainha.
“Agora, esperamos.”
A fumaça espessa se espalhou profundamente pelas ruínas.
Os aventureiros trocaram olhares, suspirando — entre incômodo e tensão.
“Você realmente conhece truques desagradáveis”, comentou o Xamã Anão.
“Conheço?”
“Você não percebe?”
Mas não havia como negar os resultados.
Silhuetas pequenas atravessaram a cortina de fumaça, correndo e gritando com vozes estridentes.
Criaturas de rosto cruel, do tamanho de crianças.
Goblins.
“Hmph.”
Ao notar que vestiam couraças de couro, o guerreiro avançou — cortando-os como quem racha lenha.
Impacto. Grito. Sangue espalhado.
Ele pisou sem cerimônia em um goblin caído de costas, com uma espada cravada no crânio, e tomou a arma para si.
Uma foice curta.
Girou a arma ensanguentada com leveza, avaliando.
Nada mal.
Era uma arma feita para goblins em cavernas, mas se ajustava bem à sua mão.
“Nossos alvos estão bem equipados. Cuidado.”
“Isso não se parece com nenhuma aventura que eu já vivi.”
“Não?”
“Não!”
A Arqueira Elfa Superior disparou uma flecha, franzindo a testa.
Feita de um galho naturalmente moldado, a flecha voou como se o próprio santuário a atraísse.
Três gritos ecoaram.
“Normalmente não se entra nas ruínas para lutar contra goblins?”
“Esse é o método mais comum.”
O Sacerdote Lagarto se movia entre os goblins agonizantes, finalizando cada um com sua espada.
“Mas quem decide acompanhar o senhor Goblin Slayer deve estar preparado para o inesperado.”
“Se você diz…”
A sacerdotisa lançou um olhar incerto ao guerreiro.
Ele cravou a foice — segurada ao contrário — na garganta de um goblin.
Rasgou sua traqueia ao arrancar a arma, e no mesmo movimento a lançou.
A lâmina girou pelo ar, desaparecendo na fumaça — seguida de um grito.
Seus movimentos eram brutais, práticos.
“Desse jeito, nem vou precisar usar magia”, comentou o Xamã Anão, preparando gemas para sua funda.
Era mais uma precaução; ele parecia completamente à vontade.
“Não.”
O guerreiro pegou uma adaga de outro goblin morto, testando o fio.
Uma substância escura — algum tipo de veneno — cobria a lâmina.
Ele limpou o veneno na túnica da criatura, ignorando o arrepio da sacerdotisa.
“Guarde sua magia para quando entrarmos”, disse ao anão, prendendo a adaga no cinto.
Então avaliou a entrada do santuário.
Corpos de goblins estavam espalhados pelo chão — mas não havia sinais de mais inimigos surgindo.
Teriam matado todos?
Ou alguns fugiram?
“São resistentes…”
Ele puxou a espada do primeiro goblin que matou e limpou a lâmina.
Isso serviria.
Sem hesitar, guardou a arma e assentiu.
“Quando o ar limpar, avançamos.”
“De novo… isso não parece uma aventura”, resmungou a elfa.
“Não?”
“Porque não é! Essa não conta, tá bom?”
“Tudo bem.”
Foi tudo o que o guerreiro disse antes de entrar no santuário.
O grupo o seguiu.
Um guerreiro e uma sacerdotisa humanos, uma arqueira elfa superior, um xamã anão e um sacerdote lagarto.
Já fazia quase meio ciclo celeste desde que aquele grupo improvável se reuniu.
Não muito tempo havia passado desde o fim de mais uma batalha na interminável luta contra o caos.
Eles percorriam ruínas e cavernas nas fronteiras, vasculhando uma após a outra.
Fortalezas, santuários, cidades esquecidas pelo tempo.
Locais onde aliados do caos podiam se esconder… esperando o momento certo.
Era preciso estar sempre alerta.
E não apenas contra monstros.
Os governantes, tendo recuperado tempo suficiente para voltar às suas disputas mesquinhas, deixavam esse trabalho para aqueles que viviam na fronteira.
Era algo comum.
Aventureiros lutavam… e depois voltavam às suas vidas.
As pessoas se tornavam aventureiras movidas pela curiosidade sobre o desconhecido.
Sonhavam em vencer monstros, encontrar tesouros — e abrir caminho no mundo.
E se ganhassem alguma recompensa no processo, melhor ainda.
Mas aquele guerreiro não se importava com onde os goblins viviam — fosse numa caverna ou em ruínas antigas.
Orcbolg. Corta-Barba. Goblin Slayer.
Ele tinha muitos nomes.
Mas, mesmo avançando sem hesitar para dentro da escuridão, ele ainda não era exatamente um aventureiro.
“Encontrem todos os goblins. Matem todos.”
Ele era o Goblin Slayer.
Anoitecer
O sol já havia passado do seu ponto mais alto e começava a descer.
O primeiro a notar seu retorno foi o dono da fazenda.
Uma pequena estrada levava até a cidade, passando pelos campos agora tingidos pelo pôr do sol.
O guerreiro caminhava por ela com seu passo firme e despreocupado.
Como sempre, vestia o capacete sujo, a armadura de couro, a espada de tamanho estranho e o pequeno escudo redondo.
O dono estava consertando uma cerca quando sentiu um leve cheiro metálico e se levantou.
“…Você voltou”, disse, seco.
O guerreiro assentiu, aproximando-se.
“Sim. Terminei o trabalho.”
“Entendo…”
O homem balançou a cabeça diante daquela resposta direta e desviou o olhar do capacete — que escondia completamente o que o outro pensava.
Ele não tinha muito a dizer àquele jovem que conhecia desde criança… ou achava que conhecia.
Na verdade, lidar com ele era difícil.
Ele o entendia — não queria simplesmente ignorá-lo.
Mas também não queria tê-lo por perto.
“Você sabe quantos anos já se passaram?”, murmurou, quase sem perceber.
Quando goblins atacam uma vila… é como um desastre natural.
Na época, só havia uma escolha: fugir.
Mas aquele homem não apenas sobreviveu.
Agora, ele lutava de volta.
Isso não deveria ser suficiente?
“Sim.”
Ele assentiu, como se compreendesse.
“Então não exagere… tenho pena daquela garota.”
“…Vou tomar cuidado”, respondeu, com uma leve hesitação.
Era isso que o tornava tão difícil, pensou o dono.
Se ele fosse alguém que não se importasse com nada… seria mais fácil ignorá-lo.
Talvez percebendo o que se passava, o guerreiro falou novamente, em seu tom direto:
“Desculpe. Gostaria de alugar o estábulo.”
“…É como sempre. Não se preocupe com detalhes, faça como quiser.”
Ele aceitou a resposta seca sem reação e simplesmente seguiu em frente.
Já dentro da fazenda, contornou o celeiro.
Passou por um monte de feno seco — e, logo além, havia um estábulo antigo, abandonado há muito tempo.
Tábuas haviam sido pregadas nas paredes e no teto para tapar buracos.
Era algo rústico, sem dúvida — mas fruto do trabalho de suas próprias mãos.
A Vaqueira — filha adotiva do dono e sua amiga de infância — insistira em ajudar.
Mas ele achava que, sendo o inquilino, era apenas natural que fosse ele a fazer o trabalho.
“Ah!”
Justo quando ele ia abrir a porta, uma voz soou atrás dele — cheia de entusiasmo quase infantil.
Ele se virou.
Uma jovem apontava para ele — a Vaqueira.
Ela correu até ele, o corpo balançando, acenando com os braços.
“Bem-vindo de volta! Poxa, você podia ao menos avisar quando chega!”
“Não queria te incomodar.”
“Dar um oi não é incomodar.”
“Não é?”
Ele assentiu calmamente, e a Vaqueira cutucou-o com o dedo indicador.
“Não! Então me cumprimente direito!”
Ele ficou em silêncio por um instante, então assentiu devagar.
“…Voltei.”
“Assim tá melhor. Bem-vindo de volta.”
A Vaqueira sorriu — e seu rosto brilhava como o sol.
“Eu ouvi da primeira vez, sabia?”
Ele abriu a porta mal ajustada com um rangido e entrou no estábulo.
Ela veio logo atrás, se espremendo pela entrada.
Ele parou e virou levemente a cabeça, encarando o rosto da velha amiga.
“E o trabalho…?”
“Estou meio que de folga.”
“Oh?”
“É!”
Ele não pareceu muito interessado.
Jogou a bolsa no chão, depois pegou uma pederneira e acendeu uma velha lanterna pendurada numa viga.
A luz revelou o interior do estábulo — que mais parecia uma caverna.
Havia uma esteira estendida no chão, algumas prateleiras estreitas e uma coleção de objetos estranhos espalhados.
Frascos, ervas, uma arma esquisita em forma de cruz quebrada, livros antigos escritos em caracteres indecifráveis, a cabeça de alguma criatura…
E muitas outras coisas que a Vaqueira nem conseguia imaginar para que serviam.
Ela suspeitava que nem mesmo a maioria dos aventureiros entenderia o uso de tudo aquilo.
“Cuidado.”
“Tá, tá…”
Ele disse isso enquanto ela fuçava entre os objetos, depois sentou-se pesadamente no meio do chão.
Tirou a espada da cintura e a deixou de lado, ainda na bainha, então começou a desmontar a armadura com movimentos ruidosos.
A Vaqueira se ajoelhou ao lado dele, observando atentamente suas mãos por cima do ombro.
“Ei, o que você tá fazendo?”
“Consertando as amassaduras do capacete, trocando as dobradiças da armadura, remendando a cota de malha, afiando a lâmina e polindo a borda do escudo.”
“O resto eu entendo, mas… a borda do escudo? Isso faz diferença?”
“No momento certo, faz.”
“Hm…”
Seus movimentos eram cuidadosos, metódicos.
Com um martelo, removia e substituía peças metálicas, refazia elos da malha com arames dobrados e afiava espada e escudo com uma pedra de amolar.
Armas podiam ser substituídas por outras tiradas de goblins.
Mas armaduras… eram outra história.
Era raríssimo ver um goblin usando um capacete de metal que realmente protegesse.
E mesmo que encontrasse um, ele não teria tempo de tirar o seu e trocar.
Um golpe mal dado em uma armadura já desgastada podia facilmente ser fatal.
Por isso, aquele trabalho era o mais importante de todos.
O que salvava sua vida.
A Vaqueira observava cada movimento, semicerrando os olhos — um sorriso suave nos lábios, como se estivesse se divertindo.
“…Você acha isso interessante?”
“Acho que sim. Eu gosto de ver o que você anda fazendo.”
Ela riu baixinho e estufou o peito de leve, de forma quase teatral.
“E então? Como foi sua aventura?”
Ela se aproximou mais, os olhos brilhando de curiosidade.
Um leve cheiro de leite vinha dela.
Com uma indiferença absoluta, ele respondeu:
“Havia goblins.”
“Ah, é?”
“Sim”, respondeu de forma breve, ainda concentrado no trabalho.
Então acrescentou:
“E muitos.”
A Vaqueira ficou olhando fixamente para as costas dele e então—
“Yah!”
Ele soltou o ar ao sentir algo pesado e macio cair sobre suas costas.
A Vaqueira se apoiou nele e bagunçou seu cabelo.
As mãos dele pararam.
Ele virou o rosto, olhando para ela com desconfiança.
“O que foi?”
“Nada! Só quis te parabenizar pelo bom trabalho”, disse ela, com naturalidade.
“Eu tomaria cuidado, se fosse você.”
“Ah, tá tudo bem!”
“Não, não está.”
“Aconteceu alguma coisa interessante? Como era o lugar?”
Ele ficou em silêncio.
Talvez não achasse que havia algo útil a dizer.
Prendeu o escudo recém-polido na parede e foi até as prateleiras.
Pegou alguns frascos, um saco e um almofariz que rolou junto, então abriu um dos frascos com as mãos enluvadas.
Dentro, havia o corpo de uma cobra.
Ignorando o “eca” que a Vaqueira murmurou atrás dele, colocou a cobra no almofariz.
“Não encoste. Vai te dar coceira.”
“Tá bom… Então, tipo…”
“Eram ruínas numa floresta.”
“Ruínas… Então você foi matar goblins?”
“Não.”
Ele balançou a cabeça.
“…Fui convidado por outros.”
Ela fez um som interessado, enquanto ele despejava o conteúdo de outros frascos no almofariz.
A cobra.
Depois um pó vermelho — alguma especiaria.
Ervas secas.
Tudo irritante.
Ele nem media quantidades.
Era algo que já fazia por hábito.
Triturou tudo até virar uma mistura uniforme.
“…Parece que já foi uma cidade.”
“Você não sabe o nome?”
“Desculpe. Não me importei.”
“Bom… tem bastante disso por aqui mesmo. Afinal, estamos na fronteira.”
Quando terminou de triturar tudo, ele começou a procurar em outra prateleira.
Pegou um ovo — da própria fazenda.
Eles tinham galinhas, mas nem sempre botavam ovos todos os dias.
Com cuidado, despejou o pó dentro do ovo por um pequeno furo na casca.
Enquanto fazia isso, murmurou:
“Pensando bem… tinha uma raiz enorme…”
“Uhum?”, respondeu a Vaqueira, curiosa.
“Uma raiz grande saindo do chão.”
“Quão grande?”
“Do seu tamanho. Foi difícil passar por cima.”
“Hm… isso é impressionante.”
Era uma reação simples, quase infantil.
E também cheia de encanto.
Ela passara a vida inteira na fazenda, raramente indo além da cidade.
Nunca tinha visto algo assim.
Agora… era ele quem conhecia mais do mundo do que ela.
Isso a deixava um pouco triste.
Mas também feliz.
“E havia goblins”, acrescentou ele, enquanto envolvia o ovo em papel oleado e o selava.
Sua voz era indiferente — mas carregada de peso.
“…Era estranho. Eles estavam bem equipados demais.”
A Vaqueira apoiou o dedo no queixo, pensativa.
“Hmm… Será que eles fugiram de alguma batalha pra lá?”
“Se fosse isso, teriam deixado ao menos um vigia.”
“Hmm… Bom, se você não sabe, eu muito menos vou descobrir.”
Ela soltou um gemido, então se espreguiçou com um “aaah” e se jogou de costas no chão.
Acima dela, perto do teto escuro, a lanterna tremeluzia.
“Você vai se sujar.”
“Não ligo”, respondeu a Vaqueira, rindo.
Então…
“Ei”, disse ela, virando-se de lado para encará-lo.
“E se você tirasse folga amanhã?”
“Não.”
Ele balançou a cabeça enquanto guardava o ovo na bolsa.
“A atendente da guilda me chamou.”
“Ah… é? Que pena.”
Ele assentiu.
“Pode ser trabalho com goblins.”
“Não é trabalho com goblins— Espera, não vai embora!”
Goblin Slayer virou-se, irritado, com a mão na porta da sala de reuniões.
O lugar era luxuoso.
Cadeiras elegantes, um tapete espesso.
Uma parede coberta por cabeças de monstros e bestas mágicas, além de armas antigas.
Cercado por troféus de aventureiros de eras passadas, ele respondeu:
“Mas você já disse que não é sobre goblins.”
“Sim, mas… bem… é que…”
A atendente da guilda, sentada numa das cadeiras, parecia prestes a chorar.
Apertando um maço de papéis, falou com voz tímida:
“C-com você… tem que ser goblins, não tem?”
Goblin Slayer permaneceu em silêncio.
Era impossível ler sua expressão sob o capacete.
Após um instante, soltou um suspiro baixo.
Então se virou, caminhou até uma cadeira e se sentou — com mais força do que o necessário.
Olhou para ela e disse:
“Seja breve.”
“Claro!”
O rosto dela se iluminou como o de uma criança.
Ela rapidamente organizou os papéis sobre a mesa.
O documento diante dele parecia o registro de um aventureiro.
Nome, raça, gênero, habilidades, histórico de missões.
“Gostaria que você fosse observador, Sr. Goblin Slayer.”
“Observador.”
Ele assentiu, como se já tivesse entendido.
“É para um teste de promoção?”
Os aventureiros eram classificados em dez níveis — de Porcelana até Platina.
A classificação levava em conta recompensas, feitos e também a personalidade.
Alguns chamavam isso de “pontos de experiência”.
E não estavam errados.
Era, basicamente, uma medida de quanto alguém contribuía para o mundo.
Mas nem tudo era força.
Havia aventureiros excelentes em combate… mas nada além disso.
A personalidade era tão importante quanto habilidade.
Por isso, aventureiros de alto nível atuavam como avaliadores nesses testes.
Uma espécie de entrevista.
Assim, alguém extremamente talentoso poderia subir direto para níveis altos — como Prata ou Ouro.
Pelo menos… em teoria.
Na prática, nem sempre funcionava.
Um aventureiro cercado apenas por mulheres, por exemplo, teria dificuldade de subir de rank.
Mesmo que fosse forte, ninguém confiaria grandes missões a alguém com fama duvidosa.
E os tolos que só tinham força… muitas vezes ficavam no nível mais baixo para sempre.
Já os melhores sabiam que estavam sendo observados — e se comportavam de acordo.
…Com raríssimas exceções, como os lendários de nível Platina.
“Mas…”
Goblin Slayer parecia incerto.
Algo raro.
“Tem certeza que eu sou adequado?”
“Mas é claro”, respondeu a atendente, sem hesitar.
“O que quer dizer com isso? Você também é de nível Prata.”
“Foi a guilda que decidiu isso arbitrariamente.”
“Isso só mostra o quanto todos são gratos a você.”
Ela falou com orgulho — como se estivesse falando de si mesma.
Goblin Slayer ficou em silêncio.
Por um momento, olhou para o teto.
Então pegou os papéis.
“Quem está sendo avaliado?”
A atendente assentiu com alegria, suas tranças balançando.
“M-muito obrigada! É um grupo inteiro — estão indo de Aço para Safira, ou seja, do oitavo para o sétimo nível…”
“Por favor… dessa vez… por favor, me deixem subir…”
No corredor, do lado de fora da sala, uma prece ecoava entre os aventureiros que aguardavam.
Era um homem de meia-idade, vestido em trapos.
Provavelmente um monge.
Ou melhor — um monge bem peculiar.
Seu corpo estava debilitado pela idade.
Carregava um bastão de madeira gasto, que talvez servisse como arma.
A cabeça raspada já não era bem cuidada — fios finos cresciam irregularmente.
“Cala a boca, velho! Não precisa ficar rezando o tempo todo só porque é monge! Tá enchendo o saco!”
Quem reclamava era um jovem de olhar duro, claramente um guerreiro.
Falava com aspereza — mas não conseguia esconder o nervosismo.
Cada movimento fazia sua armadura e seu machado de batalha se chocarem, produzindo um som metálico.
Não estavam enferrujados — mas também não estavam em bom estado.
Equipamento mediano.
“Droga… devia pelo menos ter polido isso…”
“Agora já era. O velho é o único aqui que tem casa própria. Dá até vontade de virar religiosa”, murmurou uma jovem maga, tentando acalmá-lo.
Ela tinha orelhas levemente pontudas — uma meio-elfa.
Seu grimório, que ela folheava nervosamente, também estava gasto.
A capa estava quase soltando, colada às pressas.
“Ahh, relaxa. Ficar nervoso não vai ajudar…”
Quem falou isso soltou uma risada alta, vinda do fundo do grupo.
Era um jovem — baixo, na verdade, pouco mais da metade da altura dos outros.
Usava uma armadura de couro impecável, uma adaga na cintura e botas forradas de pele.
Era um batedor rhea — ou pelo menos era o que parecia.
“É, eu sei”, disse o guerreiro do machado.
“Mas tem uma diferença enorme entre Aço e Safira — tanto no pagamento quanto nas missões.”
“Se conseguirmos subir hoje, finalmente podemos parar de caçar ratos no esgoto”, acrescentou a maga meio-elfa.
O guerreiro continuou, rápido como um golpe de machado:
“Vamos parar de só pagar juros das dívidas. O velho aqui vai poder se sustentar. Isso é importante.”
“Eu também preciso disso. Grimórios são caros. Se rezar ajuda a gente subir de rank, eu rezo o dia inteiro”, murmurou a elfa, com um tom quase filosófico.
Ela lançou um olhar atravessado para o batedor rhea.
“E você, não finja que isso não te interessa.”
“É… haha…”
O rhea coçou a cabeça, meio sem graça.
“Eu… bem… tenho medo de perigo. E não tenho dívidas, então…”
“Vagabundo.”
“Covarde.”
O guerreiro e a maga pareciam irritados, mas o batedor só deu de ombros.
“Próximo, por favor!”
A voz animada da atendente da guilda ecoou da sala.
“Ah! Sou eu!”
O rhea se levantou num pulo ágil.
O monge careca agarrou sua armadura, quase se ajoelhando.
“Por favor… por favooor, seja forte…”
“Tá, tá, larga de mim”, disse o rhea, afastando a mão dele.
Ele abriu a porta—
“…Caramba.”
—e arregalou os olhos.
Três pessoas estavam na sala.
Primeiro, a funcionária da guilda — a recepcionista de olhar brilhante.
(Um dia eu faço ela chorar…)
Depois, outra mulher esguia usando o uniforme da guilda.
Quem era aquela mesmo?
O rhea inclinou a cabeça, tentando lembrar.
E então… havia um aventureiro de nível alto.
Mas… estranho.
Capacete barato.
Armadura de couro suja.
Equipamento simples demais.
Ele não estava com espada nem escudo — mas não havia dúvida.
“G-Goblin Slayer…”
“Há algum problema?”, perguntou ele.
“N-não, senhor.”
O rhea respondeu com um riso submisso, fechando a porta atrás de si.
Na verdade, ele não odiava Goblin Slayer.
O homem que alcançou o rank Prata fazendo apenas missões simples de goblins.
O rhea queria dinheiro.
Queria fama.
Queria ser admirado.
Mas odiava sentir medo.
E não queria morrer.
Tinha certeza de que Goblin Slayer era igual.
Se havia algo que realmente o incomodava… era aquele capacete sem expressão.
Goblin Slayer observou o rhea sentar-se à sua frente.
Ele tremia levemente.
Não o odiava — mas também não se sentia confortável perto dele.
“Então… é isso, né? Teste de promoção.”
O rhea riu sem graça, esfregando as mãos.
“Vamos passar de Safira, depois Esmeralda, Rubi… que tal já ir direto pra Cobre?”
“Acho difícil irmos tão longe assim”, respondeu a atendente com um sorriso.
Ela folheou os papéis.
“Mas não pude deixar de notar sua armadura e botas novinhas.”
“Ah, percebeu?”
O rhea sorriu e colocou os pés sobre a mesa.
As botas brilhavam, perfeitamente polidas, quase refletindo a luz.
“São de alta qualidade. Fiz sob medida e tudo. Perfeitas pra mim.”
“Entendo…”
Ele não percebeu o que estava por vir.
“Mas por que você foi o único a melhorar tanto seu equipamento, se todos fizeram as mesmas missões?”
A voz dela era calma. Profissional.
“São itens bastante caros, considerando o total de recompensas do grupo. Espero que não tenha havido algum erro.”
Ela continuou, ignorando o corpo rígido do rhea.
“Alguns relatórios indicam que, diferente dos seus companheiros, você vem fazendo missões sozinho.”
“Ah… isso… bem…”
O rhea rapidamente tirou os pés da mesa.
Olhou para os lados.
Não havia saída.
“É que… eu recebi uma encomenda de casa…”
“Mentira.”
A palavra cortou o ar.
Veio da mulher que até então estava em silêncio.
O sorriso do rhea congelou.
Por dentro, ele praguejava.
Ela usava no pescoço o símbolo do Deus Supremo.
“Eu juro pelo nome do Deus Supremo. O que ele disse é mentira.”
Milagre: detectar mentira.
Malditos sacerdotes!
Agora ele entendeu.
Ela era uma inspetora.
Funcionária da guilda — e sacerdotisa da lei.
Por quê?
Eles suspeitavam dele?
Mas como?
A atendente folheou os papéis lentamente.
Como quem diz: sabemos de tudo.
“Então… você conseguiu esse equipamento depois da exploração nas ruínas outro dia… Ah, entendi!”
Ela bateu palmas, sorrindo.
“Você disse ao grupo que ia na frente explorar, encontrou um baú… ficou com tudo e vendeu sozinho!”
“Ghk…”
Era exatamente isso.
Explorar ruínas era perigoso.
Armadilhas, monstros.
Natural que o batedor fosse na frente.
Ele entrou com cuidado.
Explorou…
E encontrou um baú.
Sem armadilha.
Fácil de abrir.
Dentro, moedas antigas — ouro.
Baús vazios eram comuns.
Mas aquele não.
E ainda tinha espaço na mochila.
“E-eu… isso foi… eu…”
Ele riu sem graça, coçando a cabeça.
Melhor pedir desculpas.
“…Me desculpe.”
“Isso complica as coisas.”
A atendente sorriu.
Era óbvio que ela já sabia de tudo desde o início.
A guilda tinha hospedaria, bar…
E informação.
Dinheiro não mente.
“Gente como você dá má fama aos batedores.”
Ela balançou a cabeça, desgostosa.
“Como é sua primeira infração… rebaixamento para Porcelana e expulsão desta cidade parecem apropriados.”
“O-quê?! Como assim?!”
Sem perceber, ele bateu na mesa.
“Roubei um baú só, e vocês vão me expulsar?!”
“Com licença?”
A voz dela esfriou.
“Um baú só? Não seja idiota. Confiança não se compra de volta.”
Um aventureiro sem confiança…
não passava de um trapaceiro.
E a guilda funcionava com confiança.
Ele tinha habilidade suficiente para subir de rank.
E ainda recebeu misericórdia por ser a primeira vez.
E mesmo assim…
não entendia.
“Você será rebaixado por fraude em recompensa. Se quiser ficar, pode… como civil.”
“…”
O rhea ficou sem palavras.
Tentava pensar em alguma saída.
Todo mundo faz isso… não.
Alguém me obrigou…
Não ia funcionar.
“Não adianta tentar nada.”
Ela estava certa.
O olhar da sacerdotisa o atravessava.
Sua última esperança…
Ele se voltou para sua única saída — a pessoa naquela sala mais parecida com ele.
“V-vai, Goblin Slayer… tô pedindo, como um colega aventureiro…”
Olhos suplicantes. Sorriso forçado. Mãos esfregando uma na outra em desespero.
O aventureiro, que permanecera o tempo todo em silêncio, braços cruzados, respondeu com um leve tom de irritação:
“Colega?”
A resposta veio direta.
“Sou apenas um observador. Nada mais, nada menos.”
“Mas você… você também é um aventureiro…”
“Sou.”
Goblin Slayer olhou para baixo, encarando o rhea.
“Assim como aqueles que você enganou.”
“…!”
O rosto do batedor ficou vermelho de uma vez.
Ele lançou um olhar cheio de ódio para os dois.
Por um instante, imaginou puxar a adaga e atacar a atendente.
Talvez desse.
“……”
Mas, para isso, teria que passar por Goblin Slayer.
Um guerreiro forte o bastante para enfrentar sozinho missões que normalmente exigiam um grupo inteiro.
Quais eram as chances dele… numa luta direta?
“……”
Sentindo o olhar fixo sob aquele capacete, ele engoliu em seco.
Era esperto — como todo bom batedor.
Não era idiota.
“…Vocês vão se arrepender.”
As palavras saíram carregadas de ressentimento.
Ele chutou a cadeira para trás e saiu da sala às pressas.
A porta bateu.
A atendente soltou o ar que estava preso.
“Promoção recusada… Ufa… Isso foi assustador…”
O sorriso constante finalmente desapareceu, e ela afundou na cadeira.
No fim, diante do olhar do rhea, ela começara a tremer sem perceber.
Nem queria imaginar o que poderia ter acontecido se Goblin Slayer não estivesse ali.
“Muito obrigada, Sr. Goblin Slayer.”
Ela olhou para o capacete ao seu lado, as tranças caídas.
“Não.”
Goblin Slayer balançou a cabeça.
“Não fiz nada.”
“Claro que fez! Lembro bem de quando eu fazia treinamento na Capital…”
Ela deu um sorriso fraco, ainda abatida.
“Aqueles tipos que não abrem a boca sem fazer um comentário indecente… achando que podiam me conquistar só porque eu era jovem e bonita.”
“Tem muitos assim, não tem? Especialmente na Capital.”
A inspetora suspirou, passando a mão suavemente sobre o símbolo da espada e da balança.
“E temos que lidar com gente assim sozinhas… então, sabe como é.”
Ela assentiu levemente e se levantou, apoiando-se na mesa.
Suas tranças balançaram.
“É muito mais tranquilo quando temos alguém confiável como observador!”
“É?”
“É sim.”
Ela sempre falava com tanta confiança quando o assunto era Goblin Slayer.
Talvez ele tenha percebido, pois ficou um pouco mais quieto antes de se levantar.
“…Se terminamos, vou embora.”
“Ah, claro. Passe na recepção depois, eles vão te pagar…”
“Certo.”
Goblin Slayer caminhou até a porta com seu passo firme e despreocupado.
E, vendo-o ali, a atendente falou sem pensar:
“É-é…”
Pronto.
Já tinha falado.
Arrependimento imediato.
Ele parou, a mão na maçaneta, e virou-se devagar.
“O que foi?”
Ela hesitou.
A coragem tinha sumido.
Abriu a boca… fechou… e decidiu dizer apenas o necessário.
“…Bom trabalho hoje.”
“Certo.”
Ele girou a maçaneta.
“Você também.”
A porta se fechou com um clique suave.
Sozinha, a atendente se deitou sobre a mesa.
“Ufa…”
A superfície fria era confortável contra o rosto.
“Bom trabalho.”
A inspetora deu um tapinha nas costas dela, agora com uma expressão mais suave.
“Mas aquele tipo… provavelmente vai aprontar de novo.”
“Mesmo assim… aventureiros são um recurso valioso. E ele não fez nada exatamente ilegal…”
Seria pior se abandonasse tudo e se tornasse um problema de verdade.
“Tem de tudo entre os aventureiros. Dos mais justos aos mais caóticos.”
“Enquanto forem aventureiros, têm o direito de escolher… Enfim, bom trabalho.”
“Foi só o meu dever como sacerdotisa do Deus Supremo.”
A inspetora sorriu, afastando o agradecimento — mas a atendente só suspirou de novo.
“E… do ponto de vista do Deus da Justiça… eu fiz o certo?”
“Muita gente entende errado o Deus da Justiça. Até quem escreve peças sobre ele.”
A inspetora pigarreou com um “aham” teatral.
“A justiça não existe para punir o mal… mas para fazer as pessoas reconhecerem o mal.”
A lei era uma ferramenta.
A ordem, um modo de viver melhor.
Nada mais.
Por isso o Deus Supremo não concedia revelações.
A intenção não era que as pessoas seguissem cegamente suas palavras — mas que pensassem por si mesmas.
A atendente continuava largada sobre a mesa, olhando para a amiga.
“Que bonito…”
“Se você conseguir pôr isso em prática. Eu ainda estou longe da Donzela da Espada.”
“Comparação injusta…”
Donzela da Espada.
Já fazia dez anos desde que seu nome se tornara lendário.
Naquela época, um dos Reis Demônios havia ressurgido.
Ela era uma heroína daquele tempo — quando a humanidade lutava pela sobrevivência.
Um grupo de aventureiros de nível Ouro enfrentou o Lorde Demônio…
“E venceu. E entre eles estava uma humilde serva do Deus Supremo — a Donzela da Espada.”
A inspetora corou levemente, suspirando como uma jovem sonhadora.
“Eu adoro ela…”
“Bom, eu só uso Detectar Mentira. Não é difícil. Ainda tem muito trabalho, né?”
“Várias entrevistas de promoção… e ainda tenho que preencher os papéis do rebaixamento daquele cara…”
“Você consegue, força!”
A amiga deu outro tapinha nas costas dela.
Não era exatamente reconfortante.
Mas ajudava.
“Certo…”
Ela assentiu e ergueu o rosto.
“Então…”
Um sorriso malicioso apareceu no rosto da inspetora.
“Aquele era o cara que você gosta?”
“Ah… é…”
Será que o Detectar Mentira ainda estava ativo?
Ela olhou para o teto.
Silêncio.
O Deus Supremo não respondeu.
Sem conseguir encarar a amiga diretamente, assentiu.
“S-sim… é ele… e daí?”
“Hm… não posso te culpar. Você sempre gostou dos tipos prestativos… desde a Capital.”
“Eu sempre procurei mais aquele tipo de aventureiro… sabe, quieto, sério.”
Na época, ela não encontrou nenhum — e ficou decepcionada.
Mas agora, parecia até uma bênção.
Eles se conheceram depois que a Atendente da Guilda terminou o treinamento e foi designada para aquela cidade na fronteira.
Um aventureiro recém-registrado encontrou uma recepcionista recém-formada.
E, desde então, nunca mais deixaram de se conhecer.
Ele sempre esteve completamente focado em caçar goblins, ignorando todo o resto.
Para ela — já cansada dos aventureiros exibidos e inconvenientes da Capital — aquilo foi como um sopro de ar fresco.
“Admito… talvez esse aqui seja sério até demais…”
É bom poder conversar com ele… mas ele podia ao menos me chamar pra comer alguma coisa, né… Ah, esquece.
A Atendente da Guilda balançou a cabeça.
Goblin Slayer convidando alguém para jantar depois de uma missão?
Impossível imaginar.
E ela também não tinha coragem de convidá-lo.
Se ao menos tivesse um… empurrãozinho.
“Bom, se você está feliz, já é o que importa… Agora, quanto tempo mais pretende ficar enrolando no trabalho?”
“Boa pergunta. Hora de parar de sonhar acordada.”
Ela se levantou devagar, recompondo-se.
Organizou os papéis sobre a mesa.
Havia muito a fazer: o relatório do batedor rhea, a promoção do guerreiro do machado, da maga meio-elfa e do monge careca…
E ainda todo o resto do trabalho acumulado.
Certo. Começar pelo que está na frente.
Ela pegou a pena com determinação, abriu o tinteiro e começou a escrever—
“Ei.”
“Q-quê?!”
A voz tão próxima a fez se assustar, e a pena riscou torta no papel.
Enquanto tentava acalmar o coração acelerado, ela viu aquele capacete de aço sem expressão.
Rapidamente arrumou o cabelo, controlou a respiração — e quase derrubou a tinta.
Mentalmente, prometeu se vingar da inspetora que estava sorrindo ao fundo.
“O-o que foi, Sr. Goblin Slayer?”
“Acho que você sabe.”
A voz dele continuava mecânica… mas, de algum jeito, soava quase leve.
Ele segurava um pedido de missão.
Ele pegou isso no quadro agora?
Não… ela não lembrava de ter algo assim disponível.
E aquele formato…
Era um pedido direto.
Mas de quem?
De onde?
Ela não fazia ideia — só sabia que era um formulário especial, enviado de longe.
Enquanto ela analisava o papel, ele disse simplesmente:
“Caça a goblins.”
Ela sorriu de forma um pouco fraca.
“A recompensa é um saco de moedas de ouro por pessoa. Você decide se aceita ou não.”
Na taverna da guilda—
Goblin Slayer explicava a missão.
Ainda nem era meio-dia, mas já havia aventureiros bebendo e fazendo barulho.
Ali, o tempo pouco importava.
Missões podiam começar de manhã e terminar dias depois.
Ou sair ao meio-dia e durar semanas.
Por isso, a taverna nunca parava.
E naquele momento, estava tão barulhenta quanto sempre.
Enquanto isso, a sacerdotisa massageava as têmporas.
“Tá… eu entendi. Acho.”
“Entendeu?”
“Sim. Pelo menos entendi que, se eu continuar me surpreendendo com tudo que você faz… não vou durar muito.”
Os outros três também estavam à mesa.
O grupo.
Seus companheiros.
A Arqueira Elfa Superior assentia, mesmo com um ar meio irritado.
O Sacerdote Lagarto mastigava queijo pensativamente.
O Xamã Anão costurava pedras preciosas na roupa, sorrindo.
“Escuta”, disse a sacerdotisa, como se estivesse dando sermão no templo, levantando o dedo, “eu já te falei antes. Se não sentimos que temos escolha de verdade, então não é uma consulta.”
“Mas vocês têm escolha.”
“Ir ou não ir. Isso é uma escolha muito limitada.”
“É?”
“É, sim.”
“Hmm…”
Goblin Slayer inclinou a cabeça.
Talvez tivesse entendido.
Talvez não.
Por um instante, a sacerdotisa se perguntou se ele realmente pensava em alguma coisa.
“Se a gente disser que não vai, você vai sozinho mesmo assim, né?”, disse a elfa.
“Claro.”
“Então isso nem é uma discussão”, ela riu.
“Mas pelo menos o Corta-Barba já melhorou o suficiente pra tentar conversar com a gente”, disse o anão, avaliando as gemas recém-costuradas.
“Maravilhoso… belo como néctar… Ah, sim. Um progresso promissor”, comentou o Sacerdote Lagarto, satisfeito.
“Bom… então vamos decidir.”
A sacerdotisa pegou o cajado.
“Tudo bem”, disse Goblin Slayer.
Ela suspirou pela milésima vez, fechou os olhos e declarou:
“Eu vou com você.”
“……”
Ele ficou em silêncio por um momento diante do sorriso gentil dela.
“…Entendo.”
“Você veio na minha aventura outro dia. Mesmo tendo virado caça a goblins.”
A elfa ergueu as orelhas, animada.
Já estava preparando o arco, checando flechas e colocando a bolsa no ombro.
“Hehe.”
Ela inflou o peito, orgulhosa, e piscou.
“Eu te ajudo de novo — em troca de outra aventura. Pode ser, Orcbolg?”
“Pode.”
Goblin Slayer assentiu.
“Mas nada de bombas de fumaça venenosa dessa vez!”
“Hm…”
“É justo!”, disse ela, cutucando o peito dele.
Depois de um tempo, ele murmurou:
“…Mas é tão eficiente.”
“Não me importa. E nada de fogo ou inundação também. Dá um jeito diferente!”
“Mas—”
Ela já não estava mais ouvindo.
“Esquece. Quando essas orelhas começam a se mexer assim, não adianta falar nada”, resmungou o anão.
O Sacerdote Lagarto sorriu, divertido.
“Nem mesmo a astúcia de milorde Goblin Slayer vence tal barbárie.”
“…Então não há o que fazer.”
Goblin Slayer desistiu sem discutir.
Se era essa a condição dela… então era isso.
Ele é bem direto mesmo…, pensou a sacerdotisa, trocando um sorriso com a elfa.
“Pois bem…”
O Sacerdote Lagarto falou, cuidadosamente:
“Então precisarão de todos os conjuradores possíveis.”
“Ei, escamoso”, disse o anão, “se é assim, eu também deveria ir, não acha?”
“Oh, que falta de educação a minha.”
O lagarto girou os olhos.
O anão deu uma cotovelada amigável.
“Vocês me encurralaram direitinho… agora não dá pra recusar, né?”
Resmungando “deuses…”, ele guardou seus materiais.
Costurar pedras preciosas na roupa era comum — para evitar roubo.
E, com a habilidade de um anão, ninguém sabia onde elas estavam escondidas.
Vestindo o colete e alisando a barba, ele sorriu.
“Acabei de garantir minhas despesas de viagem. Acho que vou com vocês.”
“Ah, é?”, disse a elfa, semicerrando os olhos. “Se é ‘acho’, não precisa vir.”
“Olha quem fala. Se quer tanto me evitar, pode ficar.”
“Hrk…!”
As longas orelhas da Arqueira Elfa Superior se moveram para trás enquanto ela apoiava as duas mãos na mesa e se inclinava na direção do Xamã Anão.
“Ah, agora eu fiquei com raiva de verdade. Tá bom, anão — você e eu!”
“Ho-ho… criou coragem, foi? Não espere que eu pegue leve.”
O sorriso dele parecia completamente deslocado enquanto colocava duas garrafas e dois copos sobre a mesa.
“Vinho de fogo pra mim. Vinho de uva pra você. Justo?”
“Perfeito!”
E então — a confusão começou.
Os dois encheram os copos e viraram de uma vez.
“Olha lá! Vai começar!”
“Hehe… vamos apostar?”
Como era de se esperar, nenhum aventureiro recusaria uma aposta amistosa.
O Lanceiro sorriu de lado, satisfeito, enquanto a Bruxa tirava o chapéu e imediatamente se declarava a responsável pelas apostas.
A multidão vibrou.
Moedas começaram a cair uma após a outra dentro do chapéu.
As primeiras vieram da Cavaleira.
Ao lado dela, o Guerreiro Pesado falou, meio irritado:
“Eu aposto na garota. Três moedas de ouro!”
“Corajoso, hein. Tem certeza?”
“Heh… digamos que é uma aposta ousada. Sou Leal e Bom — os deuses estão do meu lado.”
“É… ganhar ou perder, o Deus Supremo não deve ligar pra apostas, né?”
“Eu fico com o anão!”
“Não, com a garota!”
“Bebe! Bebe! Bebe!”
A confusão crescia.
No meio disso, a sacerdotisa observava com preocupação.
“Não deveríamos parar isso…?”
“Não deve durar muito”, respondeu Goblin Slayer.
Afinal, o Xamã Anão era experiente com bebida.
Já a elfa… nem tanto.
O resultado parecia óbvio.
“Não, não… nossa pequena bárbara é teimosa. Não é tão simples assim.”
O Sacerdote Lagarto observava, satisfeito, enquanto a elfa — já com o rosto vermelho — levantava mais um copo.
“Mais! Ainda aguento…!”
“Tá vindo!”
Ela ainda não estava falando enrolado.
Nem parecia totalmente perdida.
Os copos batiam na mesa.
Glug, glug, glug.
A multidão vibrou quando ela virou o copo inteiro de uma vez.
Era um momento simples.
Talvez ninguém fosse lembrar depois.
Mas, ainda assim… todos se divertiam.
E, no fim—
A Arqueira Elfa Superior estava completamente apagada sobre a mesa.
O Xamã Anão levantou os braços, triunfante.
Ele não parecia nem um pouco preocupado com o fato de que tinha vencido uma elfa em uma competição de bebida.
“Beleza! Próximo sou eu!”, disse a Cavaleira.
Mas o Guerreiro Pesado a segurou imediatamente.
(“Você fica perigosa quando bebe.”)
A garota e o meio-elfo do grupo riam e provocavam.
O Lanceiro, incentivado pela Bruxa, arregaçou as mangas.
A Cavaleira empurrou o Guerreiro Pesado de volta.
Logo, uma nova disputa começou:
queda de braço.
Mesmo que não quisessem muito…
Agora que começou, ninguém queria perder.
A multidão gritava.
O Xamã Anão assumiu como árbitro.
A Bruxa ergueu o chapéu novamente.
Mais apostas.
Mais moedas.
O Lanceiro venceu.
Depois, o Guerreiro Pesado.
“Agora eu!”, gritou o Jovem Guerreiro.
“Ah, para com isso”, disse a Aprendiz de Sacerdotisa.
O Guerreiro Pesado bagunçou o cabelo do garoto, rindo.
Dois novatos se enfrentaram.
A plateia vibrava.
O Xamã Anão deu o sinal.
“Goblin Slayer, senhor…”
Parecia o momento certo.
A sacerdotisa olhou para ele.
“…Certo.”
Ele assentiu.
“Dois! Três!”
“Hm.”
Ele ergueu o corpo mole ao lado.
A elfa.
Leve… mas ainda assim com peso.
Frágil como um galho.
Ele soltou um pequeno resmungo ao levantá-la.
Olhou para a sacerdotisa.
Ela sorriu.
Fazer o quê?
“Não fique brava depois…”, murmurou tão baixo que ninguém mais ouviu.
Então se abaixou levemente—
E a colocou nas costas com um movimento firme.
“Vwoo… wah…”
“Não faço ideia do que você está dizendo.”
“Hmm… fooo…”
Ela falava… alguma coisa.
Idioma comum?
Élfico?
Ou só… sonhos?
Goblin Slayer respondeu seco.
Mas, ainda assim—
Um sorriso suave apareceu no rosto dela.
“Vou levá-la para o quarto”, disse ele, balançando-a levemente como uma criança. “Mas você ajuda a trocar ela.”
“Sim! Pode deixar comigo!”
A sacerdotisa fechou o punho, decidida.
“Hmm! Agora descansar, amanhã viajar… e depois, trabalhar…”, comentou o Sacerdote Lagarto, animado.
“Será divertido arrastar nossa amiga de ressaca.”
“Se ela ainda estiver bêbada de manhã, dou um Antídoto.”
“Goblin Slayer, isso é meio exagerado…”
A sacerdotisa ficou surpresa.
Ele respondeu, calmamente:
“Foi uma piada.”
Ela e o Sacerdote Lagarto se entreolharam—
E começaram a rir.
Não era a piada.
Era o fato de ele ter feito uma.
Isso, por si só, já era raro.
Ele parecia… de bom humor.